Caso Almir

Almir Agria e Rui Tavares ouvidos pela DPIC

Depois de há algumas semanas a Direcção Provincial de Investigação Criminal de Luanda (DPIC) ter recolhido o depoimento de “Telma”, a menina que se diz atraída para uma sessão de sexo não consentido em 2007 com o emprego de drogas, segunda-feira desta semana, 6 de Dezembro, foi a vez da audição dos dois homens acusados da acção.

Ao que O PAÍS apurou, o antigo apresentador do programa televisivo Jovemania, Almir Agria, e o seu amigo Rui Tavares, chegaram à sede da DPIC bem cedo pela manhã, na segunda-feira, idos directamente de Benguela, onde este último reside em permanência e o jornalista, pelos vistos, se resguardou nos últimos tempos, para tentar amainar a tempestade provocada pelo escândalo sexual.

Na “visita” à Polícia Judiciária, os dois amigos foram acompanhados dos respectivos advogados, segundo ficámos também a saber.

Na sequência do processo, ontem, quinta-feira, os inspectores encarregues do caso tinham a pretensão de produzir uma acareação entre a alegada vítima e os acusados mas a ideia ficou por aí mesmo. O pai de “Telma”, um oficial superior da Polícia Nacional e que se afirma conhecedor das regras da actividade processual, recusou-se a permitir que a filha comparecesse à acareação, sob o argumento de que a convocatória para tal diligência foi feita tardiamente.

Fontes que O PAÍS cruzou confirmaram esse facto, sendo certo que a parte queixosa ficou apenas a saber por volta das 22 horas de terça-feira,  7, que “Telma” deveria apresentarse perante os investigadores na manhã de quinta-feira,9. Na sequência disso, houve relutância, escudada no facto de que, com um dia apenas disponível (quarta-feira,8), a família da jovem teria dificuldades em contratar os serviços de um advogado.

Próximos passos

Admite-se que a sessão em que os inspectores poderão pela primeira vez fazer perguntas, em simultâneo, aos três protagonistas daquela noite de mancha curricular, poderá acontecer no princípio da próxima semana.

O processo que desde Novembro último corre os seus trâmites na Direcção Provincial de Investigação Criminal de Luanda tem sido marcado pelo esforço policial de o tornar célere, em resposta ao grande impacto que a circulação do vídeo, contendo cenas explícitas de sexo, provocou na sociedade e numa altura em que o resgate dos valores cívicos e morais está na ordem do dia.

O facto de a imprensa dedicar-lhe também largos espaços, pela sua natureza e também por envolver a figura de um apresentador de televisão, contribui igualmente para que se queira chegar o mais depressa possível ao desfecho.

Um angustiante novelo

O caso “explodiu” em Setembro passado, quando um vídeo aparentemente filmado num quarto de um bairro próximo do Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, em Luanda, com cenas de alcova a três, caiu nas malhas da rede mundial de computadores (Internet) e escancarou a intimidade de três jovens, entre eles o jornalista Almir Agria, quadro da Rádio Luanda e apresentador de um programa para a juventude emitido pela TPA.

Numa reacção que alguma corrente de opinião entende ter sido tomada a quente e influenciada pelas ondas de choque vindas da sociedade escandalizada, a tutela daqueles veículos afastou de um e outro lugar o jornalista, que desde então limitou as suas aparições públicas. Este jornal viu-se mesmo na impossibilidade, até hoje, de fazer valer o princípio do contraditório, que lhe é imensamente caro, não tendo em dezenas de tentativas conseguido chegar à fala com qualquer um dos acusados. O mais que obteve como colheita desse esforço foi uma entrevista à jovem “Telma”, mas na condição de o seu nome real e a sua identidade serem omitidos.

“Telma”, a rapariga que aparece na peça fílmica, defende-se dizendo que foi vítima de um acto cruel de sedução com recurso a substâncias psicotrópicas, adicionadas provavelmente no sumo que lhe foi oferecido naquela tarde em que aceitou encontrarse com Rui Tavares, um amigo que a assediava com reiterados pedidos de namoro mas recusados com urbana firmeza. Três anos depois de tudo acontecer, ela afirma não só não se lembrar do envolvimento tripartido como desconhecer, por completo, a existência do vídeo, até ao dia em que uma prima o mostrou, a partir do seu telemóvel.

Foi esse aparente não consentimento quer do acto sexual como da gravação em vídeo que levou o pai a apresentar queixa-crime às autoridades.

A sociedade está dividida no seu “julgamento” do acontecimento: largos segmentos negam-se firmemente a aceitar a versão de “Telma”, agarrando-se essencialmente a pormenores da filmagem como a aparente euforia com que se entregou ao acto, mas os mais cautelosos preferem deixar tudo nas mãos da justiça, apoiados no aforismo popular de que nem tudo o que parece é.

Nos meios policias e académicos, a versão da jovem está muito longe de parecer um arrependimento estapafúrdio, certos de que as drogas, na sua múltipla e infinita complexidade, são capazes de produzir efeitos muitas vezes improváveis. A seriedade com que a queixa foi encarada justifica-se pelo facto de o processo seguir em frente, com a mobilização de uma das equipas mais experientes entre a família de investigadores da Judiciária, ao invés da hipótese do seu arquivamento puro e simples.



Por: Luis Fernando Fotos: D.R
Nome

E-Mail

Comentário


Enviar Comentário


Voltar à homepage de O País