Especial Angola 34 anos

De 1975 a 2009: quantos éramos e quantos somos

A dimensão e características da população de Angola em 1975 e como e quantos somos nos dias de hoje

Foi-me gentilmente solicitado por este Semanário que preparasse um pequeno trabalho sobre a dimensão e características da população de Angola em 1975 e como e quantos somos nos dias de hoje, para ser incluído nesta edição especial comemorativa dos 34 anos da Independência Nacional.

Aceitei por duas razões: primeiro porque há justamente 34 anos atrás, jovem físico e matemático de 31 anos de idade, quadro do MPLA recémchegado da Argélia e nomeado logo após a Independência Director dos Serviços de Estatística e por acumulação de funções Director da Missão de Inquéritos Agrícolas de Angola, Director do Centro Nacional de Informática e docente do Curso Superior de Economia da Universidade de Luanda, tive como primeira responsabilidade coordenar o apuramento e análise preliminar do último Censo da População realizado no País, em 1970, cujos dados ainda se encontravam em dezenas de milhares de cartões perfurados, que depois de mecanograficamente separados e intercalados eram processados num computador IBM 1401, hoje verdadeira relíquia histórica; segundo porque durante os 10 anos seguintes continuei a dirigir o já então Instituto Nacional de Estatística, que realizou vários Censos populacionais regionais entre 1983 e 1985, e após ter completado a minha pós graduação em Demografia na Bélgica ter enveredado pela carreira de consultor e investigador dos fenómenos demográficos em África e sobretudo em Angola onde integrei a direcção técnica dos trabalhos relativos ao Registo Eleitoral de 1991/92 e igualmente ao do Registo Eleitoral de 2007/08.

Sinto-me pois como “peixe na água” para poder apresentar aos nossos leitores uma pequena panorâmica de quantos e como éramos antes da independência e quantos e como somos agora ou seremos no futuro.


Homens já estiveram em maioria

Segundo os resultados do Censo de 1970 a população residente em Angola cifrava-se nesse ano em 5,6 milhões de habitantes, que projectada à taxa de crescimento de 2,4% ao ano, proposta pelo Departamento das Questões Sociais da ONU (1970), dava uma população residente no País, em 1975, de 6,3 milhões, com os homens em maioria: 3,3 milhões do sexo masculino para 3 milhões do sexo feminino. Não dispondo de dados estatísticos oficiais sobre quantos estrangeiros terão deixado o País em 1975, presumo que terão partido cerca de 250.000, já que Zenha Rela estimou que residiam, em 1974 em Angola, 335.000 cidadãos brancos, a maioria dos quais terão deixado o território antes da Independência. (Rela, Manuel J.Z., in Angola entre o Presente e o Futuro, Escher e Agropromotora, 1992).


População triplicou em 30 anos e as mulheres estão em maioria

As estimativas da população para 2009, calculadas pelo autor e que coincidem com os dados publicados recentemente pela Population Division of the Department of Economics and Social Affairs of the United Nations Secretariat (2009), indicam que residem este ano em Angola 18.498.000 habitantes, ou seja, três vezes mais que há 34 anos, agora com os homens em menor número que as mulheres: 9,1 milhões do sexo masculino contra 9,4 milhões do sexo feminino. Esta explosão demográfica explica bem que nas últimas Eleições Legislativas metade dos eleitores já tenham nascido depois da Independência Nacional.

O aumento galopante da população deveu-se a um aumento significativo da natalidade, uma diminuição da mortalidade das crianças e ao progressivo e rápido crescimento da população urbana.

O índice sintético de fecundidade (número médio de filhos nascidos vivos por mulher no termo da sua vida genésica) passou de 6,3 em 1970/75 para 7,2 em 2000/05, tendo a mortalidade infantil (crianças de menos de 1 ano) decrescido em idêntico período: desceu de 186 por mil em 1970/75 para 133 por mil em 2000/05. A população urbana cresceu vertiginosamente, passando de 29,7% em 1970/75 para 56% em 2000/05, o que apesar dos constrangimentos da asfixia das cidades e a sua pouca salubridade, levou a uma melhoria das condições de vida das populações migrantes do campo, sobretudo no tempo da guerra.

Subiu a fertilidade e desceu a mortalidade infantil

Estas variações demográficas da fecundidade e da mortalidade infantil ao longo destes últimos 34 anos implicaram uma modificação na estrutura etária da população caracterizada pelo rejuvenescimento da mesma e pelo aumento da esperança de vida à nascença. O número de crianças de menos de 14 anos de idade passou de 41% em 1975 para 46% em 2009; a população adulta decresceu em idêntico período, com os de idade entre os 15 e 59 anos a cair de 54% em 1975 para 51% em 2009 e os de mais de 60 anos a passar de 5% para 4%. Quanto à esperança de vida à nascença (número de anos com probabilidade de viver quando se nasce) passou de 38 em 1970/75 para 46,8 anos em 2005/2010. Este indicador de progresso e desenvolvimento não tende infelizmente a aumentar rapidamente, pois segundo as previsões da O.N.U. (World Population Prospects: The 2008 Revision) só atingirá os 51,1 anos em 2015/2020 e os 62,7 anos em 2045/2050. Note-se a título comparativo que em Cabo Verde, em 2005/2010 a esperança de vida à nascença já é de 71,3 anos.

Esta estrutura jovem da população de Angola, se por um lado pode traduzir um certo dinamismo e modernidade da sociedade e uma importante fonte de consumo, torna-se num problema para o Estado, que tem de garantir por um lado a sustentabilidade financeira dos encargos com a infância e juventude (creches, escolas, universidades, institutos de formação profissional, postos de saúde, infra-estruturas desportivas, etc.) e por outro lado promover e apoiar a criação de emprego e de habitação condigna para aquele contingente maciço de jovens que anualmente atingem a idade de entrar no mercado de trabalho e de constituir família. Este é e será nos próximos anos o grande desafio que o País terá de enfrentar.

Em 2050 seremos 42 milhões

Todos os dados disponíveis indicam que apesar de se caminhar a médio prazo para a transição demográfica em Angola (inflexão do crescimento exponencial para a estabilidade de crescimento) a população do País continuará a crescer a ritmos elevados. As últimas projecções das Nações Unidas, na variante média, apontam para que a população passe dos actuais 18,5 milhões, para 21,7 milhões em 2015, 27,4 milhões em 2025 para atingir a cifra de 42,3 milhões em 2050.

Com uma área de 1.246.700 Km2, e uma fraca densidade populacional sobretudo nas Províncias férteis do interior, julgamos ser possível com uma política adequada de população para o desenvolvimento e com o esforço enorme que está a ser feito de recuperação das estradas, pontes, caminhos-de-ferro, aeroportos e portos, barragens, escolas, hospitais, telecomunicações, etc., criar as condições para o reequilíbrio espacial das populações que resolva o crescimento demográfico sustentado, evitando a asfixia e degradação das cidades e espaços urbanos, o desemprego, a fome e a pobreza, que conduzem inevitavelmente ao aumento da criminalidade e desvios sociais de todo o tipo.

Nestes 34 anos, apesar da guerra e de outros constrangimentos, fez-se muito e no início éramos muito poucos, muito jovens, mas sobretudo muito corajosos a fazer o parto “com dor” deste País! Daí o meu enorme orgulho em pertencer a essa geração de ouro e a minha sofrida saudade daqueles com quem tive o privilégio de trabalhar e que já cá não estão.

Agora que já há centenas e centenas de quadros capazes, universidades, escolas e institutos em todas as Províncias, centenas de licenciados a fazer mestrados e doutoramentos no país e no estrangeiro e muita riqueza natural e também espiritual ainda por explorar, tenho a certeza, parafraseando Obama, que “YES WE CAN”!

POPULAÇÃO


■ Em 1970 a população residente em Angola cifrava-se nesse ano em 5,6 milhões  de habitantes.
■ Em 1975, éramos 6,3 milhões, com os homens em maioria: 3,3 milhões do sexo masculino para 3 milhões do sexo feminino ■ Em 2009 residem em Angola 18.498.000 habitantes, ou seja, três vezes mais que há 34 anos, agora com os homens em menor número que as mulheres: 9,1 milhões do sexo masculino contra 9,4 milhões do sexo feminino.
■ O número de crianças de menos de 14 anos de idade passou de 41% em 1975 para 46% em 2009.
■ A esperança de vida à nascença (número de anos com probabilidade de viver quando se nasce) passou de 38 em 1970/75 para 46,8 anos em 2005/2010.
■ A esperança de vida atingirá os 51,1 anos em 2015/2020 e os 62,7 anos em 2045/2050.

Por: Prof. dr. luís Filipe Colaço Fotos: MaLocha Em: 13-11-2009 9:42:00
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