Novo sistema de ensino
Reforma Educativa leva crianças a estudar à noite
Muitas crianças com idades compreendidas entre os 13 e 15 anos frequentam agora o ensino primário no período da noite, apurou O PAÍS através de uma ronda realizada quarta- feira, 16, em algumas escolas dos municípios do Kilamba Kiaxi, Samba e Maianga.
Segundo explicou um professor da escola 1016, localizada por detrás da conhecida Vila do Gamek, no bairro com o mesmo nome, município da Samba, o fenómeno decorre de uma orientação vinda do Ministério da Educação (MED), que determina 12 anos como a idade limite para o ciclo primário.
Na verdade, a Reforma Educativa prevê um grande rigor das faixas etárias para as diferentes classes, ao ponto de serem exigidos seis anos para a 1ª Classe, enquanto 11 e 12 correspondem às idades indicadas para se frequentar a 6ª Classe, soube este jornal junto da referida fonte, para quem a exigência fixada acaba por ser facilitada pelas classes de transição que o nosso sistema de ensino impõe.
Tratam-se da 1ª, 3ª e 5ª Classes, onde os alunos não devem ser reprovados, transitando automaticamente para as classes seguintes, quer estejam habilitados, quer não.
O docente, que preferiu falar sob anonimato, reconheceu que as crianças da sua escola estão a ter muita dificuldade em adaptar-se ao novo turno, dado estarem a partilhar as salas com adultos que têm idade para ser seus pais.
“Está a ser difícil para as crianças lidarem com o período da noite, onde estão a conviver com pessoas da nossa idade”, referiu, adiantando que muitos dos petizes chegam mesmo a dormir durante as aulas. De acordo com a nossa fonte, existe uma grande diferença comportamental entre um adulto e uma criança, para a qual a noite ainda é um obstáculo a temer. Por isso, reconheceu, a convivência entre as duas faixas etárias pode prejudicar mais a criança, que constitui o elo mais frágil.
Outra preocupação levantada pelo professor tem a ver com o facto da segurança das crianças a caminho da escola, bem como no regresso a casa.
“Muitas vezes, os miúdos chegam mesmo a vir falar connosco a fim de os transferirmos para o turno diurno, alegando que, por serem pequenos, têm sido assaltados”, informou, lamentando não o poderem fazer, para não atropelarem as orientações superiores.
O nosso interlocutor estimou que a Escola 1016 alberga cerca de 40 crianças que, no seu entender, ainda deviam estudar de dia. “São mesmo muito pequenos”, frisou, ressaltando que, há duas semanas, o número dos pequenos até era superior ao que referenciou.
Na noite de quarta-feira, 16 (20h:31), a nossa reportagem marcou presença no estabelecimento escolar e falou com alguns infanto-juvenis, que enfrentam o novo desafio, entre os quais, Lucas, de 14 anos, que, por sinal, já estudou a 4ª Classe de noite, em 2010.
O garoto conta que o duelo começou quando, no ano passado, os seus pais se dirigiram à escola para confirmar a sua matrícula, tendo-lhes sido dito que já não havia vagas para o período da tarde.
Para não perder o ano, seus progenitores foram aconselhados por funcionários afectos à secretária da 1016 a matricularem o filho de noite, sob pretexto de mais tarde ser transferido para o turno diurno.
“Esperámos tanto e isso não aconteceu”, queixou-se Lucas, que alega não ter conseguido adaptar-se, ao ponto de o desafio ter influenciado a sua reprovação.
Neste ano lectivo, avança Lucas, tornou-se o conselheiro dos novatos, com os quais se reúne no intervalo para transmitir as suas experiências.
“Eu fui a primeira criança de 13 anos a estudar de noite, nessa escola, por isso os colegas da minha idade gostam de ficar comigo no recreio para conversarmos sobre o meu primeiro ano”, disse contente, ressuscitando, a seguir, o desejo que ainda nutre de estudar de dia.
Inconformado está seu amigo Simão, de 15 anos, que confessou não conseguir lidar com o novo horário.
Para se ver livre de um desafio que espera não enfrentar por muito tempo, o aluno tem pedido insistentemente aos pais que o coloquem no colégio.
“Eu não vou conseguir adaptar-me, por isso peço sempre aos meus pais que me ponham num colégio”.
Os pais de Simão viram-se obrigados a criar uma equipa de adultos de casa, na qual também estão inseridos, o que lhes permite ir todos os dias buscar o filho. Simão revelou ser esta uma medida de segurança que tem como objectivo impedi-lo de se furtar às aulas.
Questionado se já sofreu alguns atentados, o adolescente contou que, na primeira semana de aulas, foi assaltado por duas vezes, tendo perdido todos os livros, o calçado e o telemóvel.
“Os bandidos ficam mesmo aí no portão à espera que a gente saia para as casas”, assegurou, denunciando que muitos deles são mandados por outros alunos para nos tirarem os livros.
Por sua vez, paizinho, manifestou a sua tristeza pelo trabalho que os mais velhos da sala onde estuda lhe deram de estudar por todos.
“Eu é que estudo, mas tenho de lhes dizer as respostas para eles responderem, na sala, quando o professor perguntar, revelou, anunciando que se não proceder desse jeito, os adultos não o protegem no regresso”, Paizinho já recebeu a incumbência de ser o salva-vidas dos mais velhos da sala, durante as provas, uma situação que aumenta ainda mais a vontade de estudar de dia.
“Se não conseguir uma vaga de dia, este ano vai ser muito duro para mim”, desabafou.
Da 6018 aos colégios
“Ao aperceberem-se de que seus nomes tinham sido seleccionados para o curso nocturno, as crianças devem ter pressionado os seus encarregados de edcuação para os matricularem em alguns colégios dos arredores”, disse um elemento afecto à direcção da conhecida escola das Bolinhas nº 6018, no Kilamba Kiaxi, onde a nossa reportagem parou, antes de rumar à 1016.
No entender do responsável, só isso justifica a ausência dos pequenos no período em que trabalha há mais de cinco anos.
Vale lembrar que a maior parte das crianças que aguenta o desafio nocturno é constituída por alunos masculinos, rapazes, pois as raparigas constituem o grande número de estudantes que abandonaram a escola.
“Os pais disseram que não tencionam ouvir nem ver as suas filhas violadas”, informou a fonte.
Em relação à exigência etária da reforma, o nosso entrevistado é favorável à implementação de um processo mais demorado. Ainda assim, o nosso entrevistado não hesitou em consentir que existe um número considerável de miúdos que estudam na escola, ao ponto de referir que estão em maior número na 4ª Classe, o que, por si só, indica que ainda vão ter mais dois anos no ambiente nocturno.
Os alunos, que se consideram vítimas da noite, por serem o alvo dos delinquentes que actuam no bairro, solicitam às autoridades superiores da escola das Bolinhas uma transferência para o período da tarde, porque a escola tem muitas salas.
Por outro lado, alegaram não terem sido avisados, o ano passado, sobre a colocação nocturna.
A psicóloga escolar, Vanda do Carmo, considera que a convivência entre as crianças e os adultos, na mesma escola, vai forçar os petizes a enveredar por um comportamento de adulto, por uma questão de protecção ou de auto-afirmação.
“Ao querer proteger-se ou auto-afirmar-se, a criança vai adoptando um comportamento de adulto, o que corresponde, por si só, a um risco de convivência”, explicou Vanda do Carmo, que chama a atenção para o surgimento de outras consequências, como o surgimento de grupos etários dentro da turma, o medo e a insegurança.
Caso se contraponha ou resista ao ritmo de comportamento dos mais velhos, esclareceu a psicóloga, a criança vai ver-se forçada a enfrentar a possibilidade de integração em agrupamento por ilhas, que têm a ver com grupos por idade. “Se isso acontecer, ela pode sentir-se uma pessoa desprotegida e sem afirmação, ao ponto de estar na linha de auto-descriminação.
Outro problema levantado pela especialista em psicologia escolar é o facto de os pepinos acusarem um sentido emocional caracterizado pelo medo, no meio dos adultos. Nessa vertente, Vanda do Carmo afirma que o aluno estará constantemente em situação de medo, a qual resulta ora da escuridão nocturna, com que não se sente familiarizado, ora do medo da relação para com os seus colegas adultos, assim como do medo de ser assaltado.
Por causa disso, a criança sujeitar-se-á a aceitar qualquer incumbência dos adultos, ameaça por ameaça, referenciou.
Do ponto de vista cognitivo, a tendência dos professores será quase sempre administrar uma transmissão de conhecimento para os adultos, sem ter em conta metodologias que beneficiem os mais novos, normalmente em minoria na turma.
Embora reconheça o esforço do Governo no que toca à implementação da Reforma Educativa, Vanda do Carmo propõe um programa alternativo que impeça as crianças de perderem o gosto pelos estudos, pelo facto de não consentirem a sua integração no ensino nocturno.
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