Crianças superam-se em salas voluntárias e vulneráveis

O difícil acesso ao sistema de ensino, no Zango II, município de Viana, em Luanda, por parte das crianças cujos pais se mostram incapazes de satisfazer as obrigações das entidades ligadas a escolas ai instaladas, ora por se atrasarem a periodicidade das matrículas, ora por não disporem de dinheiro para garantir a chamada “gasosa”, motivou Lando Ernesto a criar algumas salas de aulas, no chamado bairro Kawelele.

A escola do professor Lando, como é aí conhecida, existe desde 2009, altura em que o fundador se condoeu com a situação de muitas crianças e adolescentes que, não tendo sido inseridos numa escola pública, andavam por aí, optando por brincadeiras e outras actividades, que só resultavam em mais encargos para os pais, ao ponto de estes terem sido submetidos a grandes esforços para resolverem os inúmeros e sucessivos problemas criados por seus filhos.

Entre as travessuras dos meninos, constavam, com a maior normalidade de acontecimento, roubos, ferimentos, desaparecimento dos mais pequenos e até mesmo consumo de bebidas alcoólicas e drogas.

“Todos os dias, os mais velhos do bairro Kawelele discutiam e brigavam em defesa de seus filhos”, explicou o professor, enquanto apontava para os cinco rapazes mais problemáticos que, por sinal, foram os primeiros a aderir ao projecto logo no início.

Importa referir que o estilo de vida, então habituado aos garotos do bairro, os levou a resistir ao pedido de seus encarregados, para começarem a assistir às aulas imediatamente.

No entender de Lando Ernesto, as causas dos conflitos estavam na falta de ocupação orientada dos infantojuvenis do bairro Kawelele ou Zango mãe, como também é conhecida aquela zona de Viana.

“Isso levou-me a criar uma escola aqui com duas turmas, uma a funcionar de manhã e outra de tarde”, detalhou o fundador, revelando o facto de a sua vocação para o ensino datar de há muito tempo.

Na ocasião, o homem do ensino confessou nunca ter pensado em expandir para duas turmas em cada turno, mas a aderência dos pequenos, bem como a sua dedicação aos estudos, obrigou-o a atender a demanda, ao ponto de hoje leccionar a iniciação, 1ª, 2ª e 3ª, de manhã, sendo que de tarde atende as crianças que estudam a 4ª, 5ª e 6ª Classes.

Lando Ernesto tem agora mais de 100 alunos, no total, e dedica toda a sua vida para as crianças do seu bairro, cumprindo assim com o seu compromisso pessoal de transmitir conhecimentos e evangelizar, conforme informou o próprio, que também é pastor da Igreja Baptista de Cristo Rei, em Angola (IBCR) Árvore faz o tecto da sala As quatro salas de aula estão localizadas debaixo de uma árvore cujas folhas proporcionam mais sombra para um lado do que para outro, por ter crescido, cogita-se, de forma deficiente.

Os que se deparam pela primeira vez com a arrumação das quatro turmas, distinguem-nas por causa dos quatro quadros (uns de madeira nua), que estão juntos, formando aparentemente um quadrado, o que possibilita a disposição dos alunos atrás dos mesmos, dando a configuração de uma cruz, se visto de alto a baixo.

Enquanto estudam gozam da sombra da árvore, deleitando-se do ar fresco, que ameniza e refresca a mente dos estudantes para qualquer aprendizagem a ser ministrada.

No que toca aos programas, o fundador da escola da árvore assegurou que está a par e passo com a realidade do ensino, demonstrando, através dos cadernos das crianças que não está à margem dos conteúdos da Reforma Educativa em curso em Angola.

Nesse capítulo, Lando Ernesto  aproveitou para desabafar, dizendo: “estamos a perder muito com essa Reforma Educativa, porque os homens que a implementaram falharam muito”, frisou, poupando argumentos. Mas enquadrou a falta de vagas nas escolas como uma das principais consequências que, quando encoberta, resulta na superlotação das salas.

“Não construíram salas de aulas necessárias para atender ao novo sistema de ensino e à demanda populacional”, referiu, chamando atenção para o facto de haver ainda muitas crianças fora do sistema de ensino.

Finalmente, pediu às entidades de direito que o ajudem a suprir algumas necessidades, nomeadamente chapas de Zinco, para vedar e cobrir o local, devido às chuvas que, ultimamente, caem sobre a cidade capital. Outro clamor do entrevistado se prende com a ajuda no sentido de o Ministério da Educação (MED) comparticipar a sua iniciativa.

A comparticipação de uma escola tem a ver com o processo pelo qual um estabelecimento de ensino privado é legalizado pelo MED, depois de comprovadas as condições estruturais e funcionais, passando posteriormente o Ministério da Educação a enquadrar e assalariar os professores, deixando o proprietário das infra-estruturas beneficiar de um lucro resultante de uma contribuição dos alunos. Essas contas são afixadas pelo órgão reitor da educação no país.

Professor a todo terreno

A função do professor Lando não se resume apenas na docência, já que, todas semanas, o pastor tem de andar distâncias para adquirir os meios de ensino, como giz, apagador e manuais, assim como material didáctico para aqueles que já considera como seus filhos, os quais não hesita classificar como necessitados.

Outra actividade a que se dedica o entrevistado de O PAÍS tem a ver com a preocupação pela saúde dos alunos, de tal modo que, às vezes, se engaja para conseguir roupas, medicamentos e comida para seus pupilos.

Neste capítulo, o professor tem contado com os fiéis da sua congregação religiosa, cuja disponibilidade em contribuir para os pequenos nunca se viu renegada.

Por causa desses e outros engajamentos de Lando Ernesto, os moradores do bairro Kawelele apelidaram-no de Professor a todo terreno.

O docente reage ao novo apelido dizendo:”o povo vê e sabe o quanto andamos em prol de um grupo de crianças prósperas, sem esperarmos nenhum retorno”.

De segunda a sexta-feira, Lando Ernesto lecciona sozinho a iniciação, 1ª, 2ª e 3ª Classes no período da manhã. O mesmo procedimento aplica no período da tarde com a 4ª, 5ª e 6ª classes, saltando à vista o facto de realizar a actividade docente, nessas classes, de modo simultâneo.

“Dou aulas em três ou quatro turmas ao mesmo tempo, porque estou sozinho e não posso deixar ninguém ficar com sede de aprender, quando eu posso ensinar”, argumentou, tendo recordado as vezes sem conta que alguns jovens lhe bateram a porta com intenção de o ajudar.

Ao aperceberem-se que o trabalho era feito sem nenhuma compensação financeira, os voluntários abandonaram as salas, deixando os alunos à mercê do tempo e do espaço, o que obrigou o criador da escola a retomar o seu compromisso.

Socorrendo-se desse facto para questionar sobre a responsabilidade e dedicação dos jovens de hoje, o profissional do ensino lamentou que os actores não se tenham dado conta de uma situação que os podia elevar no plano profissional.

“Hoje, os jovens perdem e privam-se de muitas oportunidades, por não saberem trabalhar de forma gratuita e gratificante”, sentenciou, observando que depois querem preencher um grande curriculum no papel.

Desejos contrários … Clamores Os alunos aí encontrados não esconderam a vontade de um dia estudarem numa escola pública, mas, segundo constatámos, a transferência teve sentido contrário, já que foram os pequenos da escola pública vizinha, …….que a deixaram para integrar o grupo dos pupilos do professor Lando.

O professor pediu à reportagem deste jornal para não citar o nome dos meninos, que alegaram não terem aprendido nada na escola estatal, por serem mais de 60 alunos.

Agora na 2ª classe, os rapazes justificaram as suas alegações, mostrando as suas avaliações do primeiro trimestre do corrente ano, podendo-se observar uma média de avaliação positiva.

Para um esclarecimento mais pedagógico, o fundador das três salas apontou o amor que dedica aos pepinos como a mola impulsionadora da aprendizagem.

“Em primeiro lugar foi necessário amar essas crianças e fazê-las esquecer dos traumas por que passam as suas famílias”, segredou.

O nosso interlocutor aludia ao facto de a maior parte das crianças serem provenientes do bairro Kawelele, um destino nunca pensado pelos seus progenitores, que perderam as suas casas em diversas artérias da cidade, segundo explicou o professor Lando.



Por: Alberto Bambi Fotos: Carlos Augusto

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