Candidatos à docência preferem zonas rurais
Determinadas a candidatar-se a uma das 596 vagas disponíveis na Direcção Provincial de Educação de Luanda no âmbito da admissão de professores do Iº ciclo do ensino secundário diplomado, as jovens Etilasia Mateus e Sílvia Panda, saíram das suas residências (no Morro Bento) por volta das 8horas da manhã de quarta-feira, 25, com destino ao município da Quimassama.
Depois de terem percorrido de táxi e autocarro a distância entre o seu bairro e o desvio para a Quissama, em Cabo Ledo, começaram a trilhar a pé, sem saber que o percurso lhes reservava 125 quilómetros até à sede no novo município de Luanda.
Percorridos cerca de três quilómetros, as candidatas, que estavam trajadas de roupas e calçados adequados para este tipo de empreitada, solicitaram boleia a um automobilista que por ali circulava, mas receberam um não como resposta. Mesmo assim, a ânsia de conseguir um emprego no Estado falou mais alto e prosseguiram com a marcha, alimentando-se de bolachas de água e sal e saciando a sede com àgua, o líquido precioso que se encontrava num pequeno recipiente. Até que apareceu um outro automobilista que se disponibilizou a ajudá-las. Ao notarem que o relógio marcava 15horas, as peregrinas interiorizaram a possibilidade de não conseguirem inscrever-se no mesmo dia e optaram por montar uma nova estratégia de permanência no local até ao dia seguinte.
Segundo conta Etilasia Mateus, esta possibilidade foi descartada ao chegarem ao destino pelo facto de terem encontrado a repartição municipal da Quissama em pleno funcionamento, às 17horas e 25 minutos devido à visita surpresa que o director provincial de Luanda efectuou àquela localidade.
“Mesmo assim não conseguimos fazer a inscrição porque só estão a seleccionar aquelas pessoas que frequentaram as escolas especializadas na formação de professores e nós fizemos o curso médio de ciências exactas”, disse, com um ar de tristeza. Acrescentando, de seguida, que “tentámos ainda convencer a funcionária daquela repartição que ficasse com a nossa documentação, visto que os seus superiores podem vir a mudar de ideia, caso a quantidade de candidatos especializados no ramo da docência sejam inferior à oferta”.
No anúncio de abertura de concurso público para ingresso divulgado na edição do Jornal de Angola nos dias 17 e 18 de Abril, consta, entre os vários requisitos exigidos aos candidatos que pretendem leccionar no Iº ciclo, o curso médio de formação de professores ou equivalente.
Acreditando que o equivalente se referia ao ensino pré-universitário, as nossas interlocutoras pensaram que poderiam concorrer em pé de igualdade com os outros candidatos.
Sílvia Panda é de opinião que muitos dos requisitos exigidos neste tipo de concurso público acabam por ser um obstáculo àqueles que têm vocação para a docência, mas que por não terem conseguido ingressar numas das Escolas de Formação de Professores (ex-Instituto Normal de Educação) acabaram por se formar noutra área.
“O Governo deve ter em conta que, durante a época de conflito, a maior parte das pessoas não tinham condições para escolher os locais para estudar. Algumas pessoas que sonhavam em ser docentes e tinham vocação para tal acabaram por fazer electricidade, mecânica, contabilidade e aqueles que planeavam formar-se nesta área acabaram por estudar nos INE`S”, defendeu.
Para ela, a exigência da entrega dos certificados originais no momento da inscrição não é uma das medidas mais acertadas porque o mesmo é posto no balde de lixo, quando os júris desclassificam o candidato. O que resulta em perda de dinheiro pelo facto de as escolas exigirem o pagamento de uma taxa para emitir os certificados, enquanto que isso pode ser evitado com a entrega de fotocópias autenticadas dos certificados.
Apesar das disparidades socioeconómicas que existem entre aquele Município e o de Belas, ambas foram unânimes em afirmar que estão interessadas em trocar a vida agitada da cidade grande pela rural. Nem sequer ficaram surpreendidas com as condições que ali encontraram.
De acordo com informações a que O PAÍS teve acesso, a repartição da Educação da Quissama tem maior carência de professores nas cinco comunas e os docentes admitidos nos concursos passados que foram enquadrados nestas áreas acabaram por desistir devido às condições sociais.
“Como o Executivo está a desenvolver um grande esforço para reabilitar as vias de acesso às localidades mais recônditas, certamente que as comunas que ficam isoladas da sede quando há grandes enxuradas terão este problema resolvido”, disse uma fonte afecta àquela secção de Educação.
Defendeu ainda que os candidatos só passaram a acorrer em massa àquele local, por causa das dificuldades que encontraram nos postos de inscrição próximos do centro da cidade.
A Quissama possui uma população estimada em 22 .308 habitantes,que se dedica à agricultura de subsistência, caça e pesca artesanal. Está localizada a cerca de 150 quilómetros a nordeste de Luanda.
Viana regista mais mil inscrições por dia
A repartição municipal da educação de Viana registou, nos primeiros dias, mais de 1.100 candidatos. Esta cifra está a baixar paulatinamente visto que, na terça e quarta-feira, a quantidade de candidatos baixou entre 800 e 700. A informação foi avançada a O PAÍS pelo coordenador da comissão de inscrição daquela localidade, Paulo Macanda.
Macanda disse ainda que já não há registo de candidatos que passaram a noite na Escola 9004, nos últimos dias, e que há apenas registos de cidadãos que aparecem às 4 horas da manhã para marcarem os seus lugares.
Para facilitar o processo, os candidatos a docentes, inspectores, escriturário, auxiliar de limpeza ou operário qualificado, são repartidos em duas filas em função do sexo.
Questionado sobre que disciplina pretende ministrar caso for admitido, o jovem Gil Miguel João, 25 anos, candidato a professor do ensino primário auxiliar do 6º escalo, disse que seria pedagogia, por ter se formado neste ramo no Colégio Elves de Sousa.
“Candidato-me não só po estar desempregado, mas também por ter vocação para tal, visto que tive uma média bastante alta na disciplina de pedagogia”, explicou, esquecendose que no ensino primário não existe a disciplina de pedagogia.
Já o professor do ensino particular, Eliseu Mina Lage, considera este concurso como sendo a única oportunidade que tem para ingressar no quadro d funcionalismo público e contribuir para o crescimento do país.
Apesar dos quatro anos de experiência como professor que possui, faz parte do grupo de candidatos que correm o risco de ficar de fora por não ter feito a formação média numa das escolas de formação de professores.
“Tudo isso é muito complicado porque há mais facilidade das pessoas estudarem nos centros pré-universitários em relação aos institutos com cursos técnicos”, defendeu o jovem que estava há mais de quatro horas a espera para ser atendido.
O concurso público aberto pelo Ministério da Educação tem 18.663 vagas para professores em todas as provinciais do país.
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