Solidariedade

Criança Santa Isabel apoia órfãos e abandonados

Passavam pouco mais de 30 minutos das 08 horas de terça-feira, 14, quando partimos da zona do Parque da independência em direcção à “Casa da Criança Santa Isabel”, situada no quilómetro 9, bairro Gindungo, em Viana. A fila de carros era longa, foram necessárias três horas para chegar ao local. Já no centro fomos recebidos por várias crianças que, àquela hora, já estavam prontas para mais um dia de aulas. As mais pequenas brincavam no quintal, em meio a sorrisos e gritos.

Afonso Nicolau, 13 anos, foi um dos que parou para conversar connosco.

Trajando o uniforme verde e branco da escola que frequenta, sentou-se ao nosso lado para contar a sua história.

Explicou-nos que ele e os seus dois irmãos foram levados para a “Casa da Criança” há cinco anos, pelo seu pai que, segundo contou, naquela altura alegou que não tinha condições para os sustentar. Quando lhe perguntámos pela mãe, ficou vários minutos em silêncio, em poucos segundos estava com os olhos marejados de lágrimas. “O meu pai morreu, a minha mãe sabe que estou aqui, viajou e nunca mais veio visitar-me. Sinto saudades dela”, contou-nos.

Lembrar o facto de ter perdido o pai e o contacto com a mãe deixa Nicolau muito triste. Contudo, a atenção que recebe na Casa da Criança e o contacto com outras crianças fez com que recuperasse o sorriso. “Aqui somos bem tratados. Tenho comida, roupa, vou à escola e posso brincar com os meus amigos”, referiu. O menino é uma das 81 crianças que beneficia do programa de apadrinhamento de crianças do centro, mediante o qual cidadãos nacionais ou estrangeiros podem responsabilizar-se por pagar os custos relativos aos estudos, saúde e alimentação de uma criança, bem como dedicar-lhe atenção.

A madrinha de Nicolau é americana e envia-lhe, para além do apoio financeiro, cartas e brinquedos. O pequeno dá-lhe informações sobre o seu desempenho escolar bem como sobre a sua saúde e sonhos para o futuro. Esta relação, que se fortalece a cada dia, deixa-o alegre. “Depois de ter sido abandonado sentia que ninguém no mundo se preocupava comigo, hoje tenho uma madrinha e estou muito feliz”, frisou o menino.

Quem também está satisfeita por ter alguém que o apoie é Gilson Mariano, 9 anos, quatro dos quais passados na “Casa da Criança”. Tal como muitas das crianças que vivem no centro, perdeu a mãe. O pai ficou desempregado, o que fez com que a família começasse a enfrentar sérias dificuldades para o seu sustento.

“Havia dias em que nem comíamos”, lembrou o menino. Preocupados com o seu futuro, os gestores do centro acolheram-no no lar. “Gosto muito de estar aqui, vou à escola, aprendo a pintar, jogo futebol, e tenho o carinho de todos”, contou-nos, acrescentando, entretanto, que sente falta da sua família.

Quando não está a estudar, Mariano gosta de pintar e de jogar futebol, pois sonha em tornar-se num grande craque internacional. “Quando crescer quero ser como Cristiano Ronaldo”, frisou. Instantes depois, juntouse aos outros meninos para mostrar os seus dotes com a bola, destacando-se dentre os demais pelos dribles.

Para além dos residentes, a Associação Obra da Criança Santa Isabel, que gere o lar, está a implementar um projecto que visa apoiar a comunidade residente na zona, no que toca a alimentação, saúde e acesso a escola. Através desta iniciativa, crianças e adolescentes têm a possibilidade de passar o dia no lar, onde podem comer, brincar, participar de actividades lúdicas e frequentar a escola.

Luzia Binge, 16 anos de idade, é uma das adolescentes que beneficia deste projecto. Reside no mesmo bairro onde está situado o lar e frequenta a “Casa da Criança” há quatro anos. Perdeu o pai e a mãe ainda em tenra idade, o que lhe deixou fortes marcas. “Foi muito difícil, estava com eles e, de repente, eles já não estavam comigo, para me apoiar”, realçou.

Nesta altura vive com uma irmã, que, apesar do esforço que faz, não tem possibilidades de a sustentar.

“Somos quatro em casa e vivemos todos num pequeno quarto. Todos os dias são difíceis para mim”, lamentou.

“Os meus melhores momentos são passados aqui no centro. Os assistentes sociais dão-me toda a atenção e sinto-me muito bem aqui”, referiu Luzia. Para poder dedicar-se mais aos estudos e uma vez que tem deficiência nos membros inferiores, o que torna difícil a caminhada diária de casa para o centro, ela disse-nos que espera poder viver na “Casa da Criança”, onde acredita que poderá construir um futuro melhor para si.

“Quando for grande quero ser médica para tratar dos outros, porque vejo muitas crianças doentes e poucos médicos para ajudá-las”, acrescentou a menina em meio a um sorriso.

Por: Suzana Mendes Fotos: Carlos Augusto
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