Grande Entrevista
João Serôdio: Biodiesel para nós não é urgente
Até Junho de 2010, João Serôdio de Almeida, 67 anos, ocupou o cargo de Pró-reitor para a Cooperação na Universidade Agostinho Neto, uma área em que esteve cerca de oito anos. Antes, o médico veterinário com largos conhecimentos ambientais esteve, entre 1997 e 1999, no Governo na qualidade de vice-ministro do Ambiente. Agora, vai voltar à Faculdade de Ciências da UAN, onde é professor titular, para leccionar a cadeira de Ecologia. Como caracteriza a cidade de Luanda do ponto de vista do ambiente?
Não é fácil, uma vez que Luanda foi uma cidade que cresceu desordenadamente. Já no tempo colonial falava-se que era necessário um Plano Director para a cidade de Luanda, houve várias tentativas mas nenhum deles tinha sido aprovado concretamente.
Já havia um Plano de Ordenamento débil, antes da independência e muito menos preparado para o crescimento explosivo da população de Luanda.
Lembro que antes da independência falava-se, na altura, que Luanda teria cerca de 400 ou 500 mil habitantes, e passados uns meses depois da independência passou para um milhão, depois para um milhão e meio, dois milhões, sem que as infraestruturas tivessem acompanhado, e ainda com a agravante de que as infra-estruturas, as poucas que havia no tempo colonial e que só abrangiam a “cidade dos brancos”, a do asfalto, todo o resto, a periferia já não tinha a assistência de infraestrutura, e mesmo essas poucas infra-estruturas que existiam à data da independência foram de tal forma utilizadas sem manutenção que se degradaram.
Mas hoje a realidade é outra e ao que tudo indica não houve mudança quase nenhuma…
Hoje, é tentar fazer uma reparação do motor do avião em pleno voo. Não é fácil! Portanto, eu não invejo absolutamente nada e tenho pena até das pessoas que são obrigadas a governar Luanda e outras cidades também.
Quando participei no projecto para delinear, a cidade nova, Luanda Sul, fiz parte de uma das equipas da área de ecologia, penso que em Luanda Sul ainda está a ser cumprido na íntegra o plano de Luanda Sul que foi aprovado e daí que Luanda Sul é um sítio onde se pode hoje viver bem, tem as condições criadas, tem as infra-estruturas introduzidas, vias largas e espero que o Governo tenha forças suficientes, políticas, para que aquilo não seja desvirtuado.
Em Luanda Sul cumpriu-se com todos os parâmetros ambientais?
Até agora, o que eu estou a ver, acho que se está a cumprir com o plano que estava originalmente traçado do ponto de vista urbanístico. Sob o ponto de vista social, nós sabemos que Luanda Sul é uma cidade de condomínios, que vai permitir muito pouco convívio social.
E sob o ponto de vista ambiental? Sob o ponto de vista ambiental não tem grandes problemas, foi feita uma avaliação ambiental e tanto que em cada bairro tinha um projecto para uma estação de tratamento de águas residuais. Se estão a trabalhar ou não, neste momento, eu não faço ideia, mas havia esse projecto para que Luanda Sul não fosse prejudicar a Baia do Mussulo. Acontece que na realidade, os grandes contributos de poluição para a Baía do Mussulo vêem antes da cidade nova, portanto da linha de água que corre na área da Cidadela (Senado da Câmara), Vala do Suroca, Vala do Cariango, Rio Seco, Rio Cambamba, entre outras.
É correcto esse processo de lançamento de dejectos para a Baia de Luanda?
Isto está completamente fora de questão, isto não se pode fazer. O plano que tínhamos ali em Luanda Sul era de que houvesse uma retirada de cerca de 80 por cento dos materiais poluentes; a água que fosse devolvida ao aquífero, tinha que passar por uma etar onde se reduziria em 80 por cento a sua carga poluente e depois o resto a natureza podia fazer através da depuração natural.
E no resto da cidade também há esse processo?
No resto da cidade não havia isso, mas agora há essa explosão, vamos passar a essa fase. Por exemplo, logo na altura da independência, nós defendíamos a posição de que Luanda quando fosse desenvolvida, porque havia de ser, é a capital, nós tínhamos tanto espaço para além de Viana, que se podia fazer uma cidade nova, uma cidade administrativa, ao invés daquele projecto do Mausoléu. Não estou contra o Mausoléu, estou contra o projecto que havia de envolvimento, que parece que já foi substituído, mas fazer ali toda a parte administrativa e governativa do país a volta do Mausoléu, eu contrario isso.
Mas pelos vistos está-se a regressar às origens, a parte administrativa do país está mesmo a ser erguida naquela zona de Luanda…
Isto é muito mau, porque aquela zona está ao nível do mar e por mais que eu queira diminuir essa carga, cada pessoa produz no mínimo um quilo e meio de dejectos e urina por dia, além do lixo que são relativos à sua actividade, à sua vida. Ora bem, estando ao nível do mar, como é que vamos tratar essa questão das águas residuais que vão sair daqueles prédios que estão a ser construídos na cidade de Luanda? Nós sabemos que cavando dois ou três metros aqui na Baixa de Luanda, vamos encontrar água, porque estamos ao nível da toalha freática. O mar está aqui ao lado, ora, é muito difícil extrair esses dejectos, essas águas usadas, tratá-las para depois devolvê-las limpas, minimamente limpas. Eu pergunto: se houver um sistema que bombeie toda essa água usada e a leve para a parte superior da cidade? Nós temos 70 ou 80 metros de altitude, onde há sítios para fazer estações de tratamento dessas águas residuais, portanto a minha ideia de início, logo após a independência, não era desenvolver a parte Baixa da cidade como está a ser feito agora, penso que é um desordenamento total.
Essa ideia de se empurrar o mar para lá e o projecto Baía é exemplo disso, é aconselhável?
Eu sou suspeito para falar sobre isso, porque fui sempre contra. A minha ideia era, a cidade velha, essa Marginal, ser preservada para turismo, ser para recreação, para que o kaluanda tivesse um sítio onde pudesse relaxar do dia de trabalho, da semana de trabalho, levar tudo que fosse repartições oficiais, empresas, escritórios, tudo para uma cidade nova a construir depois de Viana. Eu fui sempre contra o desenvolvimento de prédios, de habitações, de cada vez mais escritórios aqui na Baixa de Luanda.
Ao que parece, as entidades governamentais e as associações de defesa do ambiente andam caladas…
Quando os interesses económicos se sobrepõem, há sempre coisas dessas. Se houvesse uma grande cultura já, se tivéssemos um povo extremamente educado... mas para isso, temos que ter estudos, quer dizer ninguém é educado se não tiver estudos. Eu posso ser educado e analfabeto, posso ser um homem correcto, mas a compreensão de fenómenos da vida só é possível, para mim, quando eu compreendo os porquês técnicos e científicos da razão de ser. Nós temos que ter um povo com um alto nível de instrução e de educação, instrução na área científica e de educação no seu comportamento. Só quando pudermos atingir esse nível, e vemos isso lá fora..Só os povos que estudaram mais, que têm maior nível de escolaridade é que têm maior compreensão para os fenómenos e esses sim... há os grupos de pressão que são as associações, grupos de pressão que conseguem mobilizar e o próprio Governo também compreende que é assim e não faz.
E nós estamos muito longe disto?
Muito longe mesmo. Nós temos que fazer um esforço inaudito, por isso mesmo temos que apostar na Universidade como causa séria, para a preparação de quadros sérios, para que essa seriedade e quando digo seriedade, não é roubar ou deixar de roubar-, seja científica, a seriedade do conhecimento. Quando não sei tenho que dizer que não sei.
A população de Luanda cresceu e com ela também cresceu a produção de lixo e de resíduos sólidos. Pelos vistos, a dinâmica da sua recolha, da sua extinção não proporcional, não é suficientemente acompanhada…
A população de Luanda não cresceu, explodiu. Quando a gente diz crescer é uma coisa harmónica, neste caso explodiu, perdemos o controlo. Agora, a dinâmica da recolha de resíduos sólidos não é proporcional a esta explosão populacional. Vamos pensar que temos cinco milhões de habitantes em Luanda, vamos pensar, isso é uma média mundial, que cada pessoa produza cerca de um quilo e meio, um quilo e duzentos de lixo por dia, quantos milhões de toneladas são produzidas por dia por essas cinco milhões de pessoas? Qual é a capacidade instalada para tirarmos este lixo da cidade? Quando há uns anos atrás fiz esse estudo para uma avaliação da cidade de Luanda, nós ficávamos aquém quase dez vezes, das cem toneladas, só conseguíamos tirar dez toneladas.
Quando foi feito este estudo?
Há cerca de 10 anos e a população de Luanda não era de cinco milhões, rondava uns três milhões de habitantes.
De lá para cá, o que é que mudou?
De lá para cá, melhorou bastante.Há muito mais empresas hoje a retirar o lixo da cidade. Agora, o drama não é este, o drama é que o lixo tem de ser reciclado, porque acumular o lixo é só mudar o plano de um lado para outro.
Nós temos que começar a pensar nisto seriamente.
O aterro sanitário não desempenha esse papel?
O aterro sanitário não resolve.
Resolve parcialmente. O lixo, no nosso conceito de ecologia, é uma matéria-prima que nós não sabemos aproveitar, porque se aquilo já foi uma matéria-prima, nós aproveitamos parte dela e o resto jogámos fora, mas o resto também é uma matéria-prima.
Se você for para os países civilizados, o exemplo que eu tenho é o do Japão, quando realizou a Expo, em 2005, estive lá, e uma das coisas que me ocupou foi ver isso: como é que os japoneses resolvem o problema do lixo? Eles são não sei quantos milhões, e não têm espaços, eu não vi nenhum aterro sanitário no Japão, diariamente o lixo é reciclado, todo o lixo é reciclado.
Então qual é o verdadeiro papel do aterro sanitário?
O aterro sanitário é uma forma barata de resolver um problema pontual.
É um paliativo. Provavelmente, daqui a uns anos, não sei quando, os aterros sanitários vão ser fonte de matériasprimas. Quer dizer, as pessoas vão outra vez buscar coisas, porque a natureza já não tem capacidade. Nós vamos ter a obrigação de lá ir tirar as coisas e separar. Aquilo que devíamos estar a fazer agora, vai acontecer daqui a uns anos.
E temos o inconveniente de o aterro estar próximo de zonas residenciais…
Está dentro dos perímetros urbanos, é uma fonte de poluição constante.
Se queimar temos os fumos, os fumos transportam os agentes químicos alterados que são normalmente cancerígenos.
Que tipo de matéria mais sobressai no lixo que se recolhe em Luanda?
No estudo que fizémos, verificámos que quase dois terços do lixo recolhido em Luanda era de inertes, quer dizer era de terra e pedras, matéria inorgânica. Agora não sei se a tendência se mantém, porque a nossa sociedade evoluiu, começou a consumir coisas muito mais complicadas do que aquelas que havia há uns anos atrás.No estudo, a ONG recolhia o lixo e separava. O verdadeiro lixo era muito pouco e era transferido para o aterro e depois aquela areia e pedras voltava para a própria vila, para tapar os buracos abertos pela erosão.
Então, no fundo Luanda não produz assim tanto lixo como deixa transparecer?
Eu penso que não. Como académico não posso fazer uma afirmação destas.
Eu suponho, eu suspeito que grande parte do lixo produzido em Luanda não é lixo, são resíduos, são inorgânicos, são inertes, que podem voltar a tapar as ravinas que são abertas em Luanda. Era o que a ONG fazia, na própria rua onde era retirado o lixo, punham uns camisadores, separavam as areias e o lixo e o que sobrava de lixo mesmo, que ia para a lixeira, era muito pouco, pagava-se muito pouco pelo transporte e o resto voltava para a vila para tapar os buracos.
Em quase todos os bairros de Luanda foram construídos centros de trânsito de lixo, que mais tarde é canalizado para o aterro sanitário nos Mulenvos.É um modelo adequado?
Nós estamos a pagar um transporte, muitas vezes, de terra e pedra, que podia ficar no local, para tapar buracos, para a construção civil. A transportação desse lixo é muito cara. Tem que haver um estudo muito profundo para sabermos que lixo estamos a produzir em Luanda, que lixo é este, para podermos dar ao Governo de Luanda orientações de trabalho que os possa ajudar a governar melhor, de forma mais barata e a ecologia serve para isto, poupar dinheiro.
O lixo em Luanda já é um negócio?
Se não é, devia ser! O lixo é negócio em qualquer parte do mundo civilizado.
Como assim?
Eu estou agora a desenvolver com alguns dos meus estudantes um projecto pequeno para o aproveitamento do lixo dos computadores. Sabe que um computador dura um ano e meio, dois anos e ao fim desse tempo, jogase fora, está desactualizado, comprase outro. E o computador velho está aonde? Hoje no mundo é um drama.E os telefones? Os telefones móveis são milhões que se jogam fora por ano.Um telefone móvel tem uma série de peças, de componentes que são extremamente caros, são metais raros que podem ser reaproveitados e nós aqui estamos a jogá-los fora.
O senhor está a dizer que devíamos ter no país empresas com vocação de reaproveitar o lixo?
Para isso, nós temos que estudar o caso primeiro. Dentro da Universidade Agostinho Neto nós estamos a querer montar uma empresa de inovação e empreendedorismo, exactamente para estimular os estudantes, principalmente das áreas de engenharia, de ciência, de medicina e de economia, porque não, para montarmos dentro da UAN a investigação científica que permita estudar estes resíduos, vários resíduos especiais, para reaproveitamento dos materiais nobres, os mais caros, os alumínios, muitas coisas que podem ser aproveitados, que estão integrados nesses materiais, nestas máquinas que utilizamos não só em telefones, como em computadores para lançar estes materiais, que ao invés de voltar a ser lixo, um produto tóxico, ser aproveitado para ser reintegrado nessa mesma indústria. Isso, só é possível com estudos científicos e a Universidade tem essa função, por isso é que surge essa empresa de empreendedorismo, porque nós pretendemos transferir o conhecimento científico, técnico e tecnológico para a produção outra vez.
Não acha que era altura de as empresas que cuidam da recolha do lixo ganharem dinheiro com a recolha do lixo?
É, mas tem que haver mercado. É preciso procurar mercado.
A exportação não seria solução?
Será que a quantidade de lixo que eu consigo retirar matéria-prima da quantidade de computadores que retiro em Luanda justifica exportar?, O preço de transporte não vai ficar mais caro que a própria matéria? Tudo tem que haver quantidade e qualquer negócio está dependente do volume e do mercado.
A protecção dos colectores de lixo é uma questão que deixa muito a desejar…
Está nas normas, a empresa é obrigada a comprar os equipamentos de protecção dos colectores de lixo e o Governo Provincial de Luanda devia fiscalizar isso.
Com a quantidade de lixo produzido em Luanda, de uma maneira particular, e de Angola, de uma maneira geral, já é possível falarmos na produção de biodiesel a partir de resíduos sólidos?
Esse é o problema. Tem que se estudar o lixo de Luanda, porque quando eu digo que provavelmente ainda acontece isso, em que dois terços do lixo produzido em Luanda são de inertes, os inertes não produzem nada, são areias, terras, pedras, um terço que “sobra será que é quantidade suficiente para se queimar, para se fazer produção de energia? Não sei, tenho que estudar.
Mas, os responsáveis do aterro sanitário de Luanda já avançaram esse dado, essa hipótese…
Claro, as pessoas que montaram o projecto são privados, eles querem vender. Angola já comprou milhares e milhares de máquinas e depois não tiveram utilização, porque nós fomos na linda conversa do vendedor. No tempo áureo da agricultura, comprámos máquinas à Alemanha, comprámos à Rússia colectoras laser de batatas que nunca foram utilizadas até hoje. Foram milhões de dólares jogados fora, porque quisemos trazer uma tecnologia avançada para a qual não estamos preparados.
Voltando ao biodiesel, é possível ou não a sua produção a partir do lixo recolhido em Luanda?
Eu sou um bocado céptico em relação ao biodiesel.
Porquê?
Por várias razões. Primeiro, Angola é um país que produz petróleo e ainda vai produzir durante mais 20, 30 ou 40 anos, o biodiesel para nós não é uma coisa urgente. A produção do biodiesel em Angola é para resolver o problema do Primeiro Mundo. O Primeiro Mundo é que está a insistir connosco, temos terrenos para produzir o biodiesel, para resolver o problema deles.
Como assim?
Porque eles já não podem produzir mais dióxido de carbono para a atmosfera. Como resultado do combustível fóssil, eles têm que reduzir as emissões de dióxido de carbono, não têm sítios suficientes para produzir produtos agrários para a produção do biodiesel, então eles vêem para os países que têm terrenos, nomeadamente da África, da América Latina, da Ásia, da Austrália, para nós produzirmos esse biodiesel para eles. A solução não é para nós, nós não temos nenhuma emergência em produzir isso, na minha maneira de ver. Nós ainda temos 10 ou 15 anos para resolver o problema do nosso futuro. Agora, a primeira coisa que aconteceu logo que se começou a falar em biodiesel foi o aumento do preço dos produtos básicos da alimentação. Antes desse boom, a tonelada de milho custava 200 dólares, passou para 400 dólares, porque os produtores de milho norte-americanos e do resto do mundo preferem vender o milho para a produção do biodiesel, porque paga-se mais, porque fica ainda mais barato que o petróleo do que estar a vender para a alimentação.
Nós podemos também adoptar a mesma política…
No nosso caso, nós vamos produzir esses produtos, será que já resolvemos o problema alimentar de Angola? Nós já temos uma reserva alimentar suficiente para garantir Angola, já temos isso? Nós temos gente a passar fome em Angola, há muita miséria em Angola, basta ter olhos para ver e sair da cidade. Será que já temos uma reserva alimentar suficiente para nos darmos ao luxo de produzirmos biodiesel para exportar para os países ricos? Será que a produção desse biodiesel em Angola não nos vai trazer no futuro problemas graves, porque vão destruir os solos que eram para a agricultura e agora estarão a produzir biodiesel e eles terão que pôr lá adubos, destruir florestas para fazer os grandes, os milhares de hectares de colheitas.
Esse plano não foi antecedido de um estudo preliminar de impacto ambiental?
Foi? Mostrem-me, eu estou a pedir! Eles dizem que sim e eu disse ao Ministério do Ambiente, mostrem.O estudo do impacto ambiental não é uma coisa secreta, é uma coisa pública, tinha que haver uma consulta pública, eu não fui chamado, nem fui avisado que tinha havido uma consulta pública para isso.
Era necessário?
Tem que haver. A avaliação do impacto ambiental obriga sempre a uma consulta pública. Você é jornalista e tem uma capacidade de penetração que eu não tenho e no momento que descobrir essa avaliação do impacto ambiental que foi feita para esse estudo, diga-me que tenho muito gosto em ler isso. Eu não li, não conheço, nunca ninguém mostrou, nunca fui chamado, pode ser que tenha havido, não sou o rei que sabe tudo e que manda tudo, mas eu já pedi várias vezes para mostrarem, para me darem o estudo para eu ler, não conheço.
O mesmo acontece com as obras em Luanda. Os seus promotores também dizem que efectuam estudos de impacto ambiental…
Eu tenho conhecimento de empresários que estão agora a trabalhar na reconstrução de estradas e que vieram perguntar-me se conhecia alguém que pudesse fazer uma avaliação de impacto ambiental, respondi que conhecia alguns jovens meus ex-alunos, que têm empresas para isso. As grandes empresas que fazem consultorias cobram muito caro, como os jovens têm menos exigências e têm que fazer nome na praça, cobram menos. Os jovens fizeram uma proposta por cada cem quilómetros de estrada, os empresários negaram e preferiram construir sem o estudo de impacto ambiental e como se não bastasse disseram que esperavam para ver quem os iriam multar pelo facto de não terem o tal estudo, que é uma exigência obrigatória. Disseram que preferiam pagar a multa que a realização do estudo. Quer dizer que o nosso Governo, o Ministério do Ambiente provavelmente não está a cumprir com a fiscalização, porque pelas minhas contas, por aquilo que conheço da lei, cada empresário que em Angola se propõe reconstruir estradas, ou fazer estradas, o Estado paga-lhe um milhão de dólares por quilómetro, é o que está estabelecido no Ministério do Urbanismo e Construção. Se são cem quilómetros, ele recebe cem milhões de dólares. O estudo de impacto ambiental que estes jovens pediram foi de 250 mil dólares e ele diz que prefere não pagar o estudo e arriscar-se a pagar a multa.
Isso quer dizer que a multa é leve…
A multa, depois fui fazer uma análise, seria de dez milhões de dólares. Valia a pena fazer um estudo de avaliação ambiental. Este empresário, de certeza, sabe que ninguém lhe vai dizer nada, ou então arranjou outras formas de evitar que seja fiscalizado.
Há alguma razão para esse desrespeito às normas ambientais em Angola?
Não há a cultura do correcto, é sempre esquema.
Que consequência é que podemos ter do facto de não haver um estudo prévio do impacto ambiental?
As consequências da falta de estudos de impacto ambiental são aquelas que já têm acontecido sempre em Angola e depois mais tarde há problemas ambientais de tal ordem que são quase impossíveis de tornear, há prejuízos imensos. Por exemplo, toda a zona de produção de algodão em Angola que antigamente havia, hoje dá para produzir alguma coisa? Aqueles terrenos foram intoxicados por excesso de pesticidas, excesso de adubos e essas terras ficaram esterilizadas.
Os nossos mares estão isentos de problemas ambientais?
Tudo que se faz em terra, vai parar ao mar. Em Angola, para onde correm os rios? Tudo o que a gente produzir vai parar ao mar. Em frente da cidade de Luanda, do Lobito já começa a haver poluição que vai parar ao mar de qualquer maneira, já começa a haver dificuldade de pescado, os peixes que se reproduziam nas nossas águas já não se reproduzem, não têm meios para isso, os que vinham de fora já não vêm.
Mas as nossas autoridades dizem o contrário, por exemplo, que o problema do carapau tem a ver com excesso de captura…
Há vários factores que contribuem para a diminuição da população, não estamos só a falar de peixes, mas sim de tudo. Uma delas é o excesso de exploração, isso aí consegue-se diminuir por meios legislativos. Temos a Marinha de Guerra que faz controlo. Todo o lixo de Luanda vai parar aonde? Esse emissário submarino instalado na Baía de Luanda, nas imediações da Faculdade de Ciências, que agora foi desviado vai parar aonde? Ao alto mar.
Tivemos a sorte de contrariar os italianos que estavam a fazer isso, conseguimos dar a volta, porque fomos avisados a tempo que o emissário iria desembocar ali a dois ou três quilómetros da costa marítima, conseguimos lançar para seis quilómetros, a uma profundidade superior a 18 metros, portanto o lixo já não vem parar à praia de Luanda.
Mas é assim que se faz, é uma prática normal?
São paliativos. A prática devia ser tratar isso.
No tocante à água potável, o seu aproveitamento, ao que tudo indica, ainda não tem sido o mais racional. É possível mudar esse quadro?
Quando damos água às populações, temos a obrigação técnica de tirar essa água da mão delas tratá-las antes de devolvê-las ao aquífero, tem que se retirar os poluentes, só assim é que ela vai continuar a ser sustentável, vai continuar a servir outras populações.
E o quê que se faz com o lixo que se retira da água? Esse lixo é matéria orgânica, matéria-prima que posso reciclar, posso arranjar emprego para as pessoas para aproveitar a água suja que sai, as lamas, aquilo pode ser bem tratado, posto ao sol, queimado pelo sol, pode ser matéria orgânica para pôr nas culturas, é um adubo bom, de qualidade. No fim do circuito, a população vive bem, há o desenvolvimento sustentável porque recicla-se tudo.
Cabinda e Zaire são províncias com intensa actividade petrolífera. Apesar de alguns derrames, quase nunca se fala em poluição das águas do mar naquelas regiões. Isso é verdade?
Eu quando estive no Ministério do Ambiente fui até Cabinda de propósito ver isso. Aqui há um problema grave: mesmo que o derrame seja de um litro, os seus colegas jornalistas fazem logo o maior escândalo, à espera que as petrolíferas os paguem para se calarem, isso acontece em todo o lado. Só há escândalo, se for de uma grande empresa americana, porque os barcos de pesca, lá em Cabinda, a maior poluição da Baía de Cabinda não é da exploração de petróleo, o grande drama são os barcos de pesca e as pessoas que mudam o óleo dos motores mesmo no mar.
E o que fazem as autoridades?
Ai não há queixas, ninguém se queixa.
Não havia fiscalização, mesmo em Luanda a situação não variava, quando o porto de pesca era aqui em frente ao BNA, a Baia de Luanda era um mar de óleo derramado, não se podia tomar banho, mas isso já foi há muitos anos. Depois começou a haver consciência.
Em termos de educação ambiental estamos muito mal?
Muito mal, completamente ignorantes.
Agora em Luanda, há a tendência de se retirar as árvores e em seu lugar colocar betão em tudo que é calçada, passeio, enfim, até em espaços destinados a árvores. Podemos considerar normal essa prática?
São os interesses do bolso de cada um, do umbigo de cada um.
Que perigo é que poderá advir dai?
O perigo é que não há absorção de calor.
E quais as consequências a médio e longo prazos para a nossa cidade?
Por enquanto, ainda não há consequências, mas vamos sofrer as convulsões que vêem do Norte ao Sul, por isso é que no Kuando Kubango houve aquelas enxurradas. Mas isso já não é culpa nossa, são as convulsões que existem nos hemisférios Norte e Sul. Normalmente, o Hemisfério Norte é independente do Hemisfério Sul, aquilo que acontece no Hemisfério Norte dificilmente é transferido para o Hemisfério Sul e vice-versa.
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