Caso BNA

Quim Ribeiro ‘fechado’ em Luanda

O comandante suspenso do Comando Provincial de Luanda da Polícia, comissário Quim Ribeiro, está a viver numa espécie de “regime de encarceramento aberto”, estando proibido de se ausentar da província de Luanda sem disso dar conhecimento aos seus investigadores, apurou O PAÍS de fonte próxima à inquirição do seu processo. Esta medida representa o aumento de restrições a si impostas, pois já não podia seguir para o exterior.

Fontes no Ministério do Interior confidenciaram a este jornal que ele também teria sido advertido a não prestar declarações à imprensa enquanto decorre o inquérito interno.

Há notícias de um alegado malestar na última semana que o levou a ser assistido numa unidade hospitalar em Luanda. Fontes na Polícia disseram que o comissário Quim Ribeiro foi encostado à parede durante o inquérito quando negava qualquer participação nos actos que lhe estão a ser imputados, mas foi confrontado com evidências concretas que comprometem a sua alegada inocência.

Diante das evidências irrefutáveis, revelou a fonte, o comissário Quim Ribeiro acabou por sentir-se mal, desmaiando mesmo, e foi levado à enfermaria da Cadeia de São Paulo, onde lhe foram prestados os primeiros socorros.

Por outro lado, o carro em que viajava o super-intendente Joãozinho, segundo apurou O PAÍS, já se encontra sob custódia do Laboratório de Criminalística da Polícia, onde está a ser alvo de um rigoroso processo de peritagem. As fontes que vimos referindo disseram que o corpo do malogrado foi cravado com 36 projécteis de uma arma cuja peritagem técnica deverá determinar o tipo e calibre.

Director adjunto da DPIC e chefe de operações também já detidos

Segundo fontes policiais, o director adjunto, Paulo Rodrigues, e o chefe das operações da Direcção Provincial de Investigação Criminal do Comando de Luanda, de nome Caricoco, foram as primeiras pessoas a serem detidas depois que o vendaval do “Caso BNA” abalou a acalmia que reinava na corporação na capital do país.

Também já foi ouvido o chefe das Operações do Comando provincial da Polícia de Luanda, mas apenas para esclarecer os procedimentos operativos já que foi notado um desfasamento entre o CPL, a DPIC e as Divisões. A respeito disso, responsáveis policiais admitem haver alguma autonomia sobretudo por parte do comando destas por terem o domínio local da situação operativa.

Pessoas que bem conhecem Caricoco revelaram a este jornal que é filho de um conhecido juiz nas lides da justiça angolana, já falecido, e que teve em mãos o julgamento de dois mediáticos casos no então Tribunal Popular Revolucionário, Adolfo João Pedro, falecido na segunda metade dos anos oitenta.

Adolfo João Pedro foi o magistrado judicial que condenou à pena de morte os primeiros mercenários capturados no Norte de Angola na sequência das campanhas militares que tinham como objectivo a expulsão das forças zairenses do território depois da proclamação da Independência nacional. O mesmo juiz viria a ter protagonismo mediático em 1985 quando o Tribunal Popular Revolucionário julgou o processo 105 relacionado com o tráfico de diamantes e espionagem, acabando por proferir duras penas aos acusados. O julgamento, viria a ser descober-

to depois, não era mais do que uma trama urdida em sectores radicais dos serviços de inteligência que pretendiam a todo o custo incriminar algumas figuras do poder instituído, de forma a desgastar a sua imagem e serem apeadas no II congresso que o MPLA realizou em Dezembro daquele ano.

Naquele julgamento, Adolfo João Pedro proferiu mesmo uma condenação com pena de morte contra um antigo jogador da selecção nacional de hóquei em patins, nunca ratificada, entretanto, pelo Presidente da República, que tinha esta prerrogativa, tendo-se dado o julgamento por praticamente nulo.

Uma fonte que acompanhou o processo e conheceu os meandros associou mesmo a morte do juiz, por suicídio com arma de fogo, com o mal-estar que esta situação veio a causar-lhe.

Curiosidades...

Observadores dizem notar que a passagem do comissário Quim Ribeiro pelo Comando Provincial da Polícia de Luanda é das mais polémicas de sempre, nitidamente marcada com um banho de sangue nos bairros de Luanda com assassinatos até de pessoas inocentes e que acabam investigados por alguns excessos que lhes são imputados.

Nos anos 90, o então comissário Gaspar da Silva, na altura comandante provincial de Luanda, viria a achar-se numa situação semelhante e acabou sendo alvo de uma investigação paralela que o apanhou em flagrante na Ilha de Luanda, juntamente com cidadãos libaneses que supostamente tinham sido alvos das incidências da “Operação Câncer I”.

Na sequência daqueles episódios, Gaspar da Silva foi depois exonerado do cargo e nunca mais ocupou qualquer cargo de responsabilidade na corporação ou no Ministério do Interior.

 

Comando da Divisão de Viana quase todo suspenso

Mais três membros da cadeia de comando da Divisão de Polícia de Viana estão a ser investigados num processo correlato ao “Caso Quim Ribeiro” na perspectiva dos valores do BNA que foram desencaminhados por agentes da Polícia Nacional.

Fonte de O PAÍS no comando da Divisão de Polícia de Viana revelou que o chefe da Investigação Criminal, intendente Palma, já foi substituído no cargo pelo também intendente Ngola Kina e estão suspensos os chefes do Serviço Sector da Divisão e do Posto de Comando da 28a esquadra, respectivamente intendente Couceiro e inspector Grego.

Segundo outras fontes, o provimento do cargo da Investigação Criminal se deveu mais a razões de evitar um vazio no comando e garantir a continuidade do trabalho.

Estão também suspensos o inspector Luther e subordinados que terão participado da diligência que levou à apreensão do dinheiro que depois foi desencaminhado pelos agentes da ordem que agora respondem a um processo interno de investigação.

A fonte disse que também foi submetido a um processo de audições, o comandante da 47a esquadra, na área do Zango, onde o dinheiro foi supostamente repartido entre os agentes policiais, mas foi dado por inocente, pois desconhecia os factos na altura.

Comandante da Divisão suspenso mas em liberdade Uma fonte próxima do comandante Augusto Viana disse que o mesmo prestou declarações na PGR por duas vezes antes de seguir viagem para Cuba em férias que haviam sido programas desde o ano passado.

A sua qualidade de responsável pelo território onde tudo se passou levou a dar explicações aos investigadores sobre o sucedido. Tanto quanto apurou este jornal, ele terá sido informado da apreensão do dinheiro por portas travessas e, como passo seguinte, “reportou o sucedido ao comandante Provincial de Luanda” que de imediato mobilizou o seu dispositivo de investigação que foi ao terreno.

Outro elemento que estaria a causar alguma contradição tem a ver com o que realmente foi encontrado no local, se dólares ou Kwanzas.

Por: Eugénio Mateus Fotos: Jacinto Figueiredo Em: 19-11-2010 9:48:00
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