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Irene Alexandra Neto: Não estamos presos ao passado

Trinta e três anos depois, ela ainda defende que os acontecimentos do 27 de Maio têm que ser discutidos para, de uma vez por todas, se quebrarem os ressentimentos. Um modelo semelhante à Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul pode ser válido para o sangrento caso que em 1977 obrigou que ela e outros membros da sua família ficassem refugiados numa base das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, nos arredores de Luanda.

 Passou por nós mais uma data do aniversário da morte do Presidente Agostinho Neto. Qual é o sentimento da família nestes momentos?

Gostaria de agradecer o jornal O PAÍS por esta entrevista. Quero também dizer que para nós familiares muito próximos será sempre uma data de recordação, porque estamos a falar da data da sua morte, 10 de Setembro, e o 17 de Setembro que é a data do seu aniversário. É uma pessoa que se destacou no seu país e no continente, são pessoas que se destacam e saem da vulgaridade.

E pensamos nós que era uma pessoa especial, que tinha umas características que o levaram a aguentar todas as pressões de um regime colonial e passar por uma série de vicissitudes, privações e dificuldades. Nascendo num meio rural, modesto, pobre e conseguir mudar-se para um meio de certa forma hostil, sobretudo aqueles que eram de raça negra, mais explorados, afastados, excluídos dos meios académicos, sociais e intelectuais.

Uma pessoa conseguir afirmar-se num meio deste, não pertencer às nomenclaturas, às grandes famílias assimiladas na altura, mesmo assim ter já desde muito cedo demonstrado ter um espírito de observador, pensador, conseguir liderar os outros. Sempre esteve numa posição de liderança, de chamar os outros colegas a ajudar os estudantes com menos realizações académicas a esforçarem-se mais.

Essas características começam muito cedo, não mais tarde quando ele Dani Costa  já está numa posição de liderança, quer a nível dos estudantes universitários como a nível do movimento.Já tinha essas características antes, no seu meio familiar. Isto a nível da região de Catete, onde era criança, e depois quando veio para Luanda.

Portanto, lembrar essa pessoa não apenas como família, como meu pai, mas como alguém que se destacou por essas qualidades eminentes.Começando por aí, digamos que há uma empatia por esta personagem, não é uma paixão romântica pela figura. Há uma simpatia por pessoas lutadoras e que tenham convicções.

Uma pessoa de convicções consegue arrastar multidões, temos prova em todo o mundo, a História está cheia destes exemplos, porque as ideias são mais fortes do que tudo o resto. As ideias é que nos atraem, nos emocionam. Nós vamos atrás de ideias, nós nos identificamos com projectos, com formas e visões do mundo e estamos dispostos a trabalhar e nos sacrificarmos por elas. Mesmo que nos paguem muitos milhões, se não nos identificarmos com os projectos, eles seráo algo rotineiros, mas não haverá entrega.

Quando nos faz essa questão sobre a figura de Agostinho Neto, nós como família sentimos saudades, há muito tempo que desapareceu e nós vamos envelhecendo, são recordações que vão ficando cada vez mais distantes mas sempre presentes. E fazemos questão, de facto, que a sua memória não desapareça.

A senhora tem a particularidade de ter nascido no ano do início da luta armada e 14 anos depois deu-se a independência. Como é que foi acompanhar o pai durante este período?

Lembra-se ainda de muitas coisas durante o percurso? Com certeza, também ainda não estou assim tão velha. Na altura, quando víamos para aqui estava a fazer 14 anos. Essa fase da adolescência acho que é a que nos marca mais a todos. Chegar a Luanda foi um misto de surpresa, um bocado de decepção, frustração, porque nós de Angola e, sobretudo de Luanda, só tínhamos conhecimento físico por algumas imagens que nos chegavam de alguns jornais coloniais, víamos de vez em quando. A correspondência com a família era quase nula.

Portanto, as cartas eram muito difíceis de obter, eram vigiadas, censuradas, para receber cartas da família tinha-se que fazer estratagemas complicadíssimos, ir parar em outros sítios, em nome de não sei quem, depois vir parar as nossas mãos com muito tempo de atraso.

Além de que não conhecíamos a própria família, crescíamos lá fora, tínhamos alguns elementos da parte paterna que estavam connosco, nomeadamente a tia Ruth, mas o resto da família não conhecíamos.

Tivemos a sorte de conhecer as avós, quer materna como paterna, em Roma, quando foi do encontro dos três movimentos de libertação com o Papa. Por alguma via se conseguiu fazer com que a mãe da mãe viesse de Portugal e a mãe do pai de Angola. E encontramo-nos pela primeira vez em Roma. A nossa família era muito nuclear, o pai, a mãe, a minha tia e poucos mais. Daí que não havia uma correspondência com outros elementos que nos podiam contar coisas sobre Angola, o que faz com que a chegada aqui seja de facto numa situação do início do período de transição, em que existem as escaramuças entre os movimentos de libertação. Estamos acantonados em diversos sítios, primeiro ficamos na área do Saneamento, depois tivemos que nos retirar para a zona do Futungo, numa base militar que agora é o chamado Futungo de Belas.

Todas as medidas de precaução, segurança, lá estávamos habituados a andar à vontade mais ou menos, aquartelados e só podíamos sair com um guarda-costa. São mudanças que para quem está com 14 anos, convenhamos que não é muito simpático.

Era difícil ser a filha do Presidente da República?

Muito difícil. Sair de uma escola a meio do ano, não concluímos lá e tivemos que conclui-lo aqui. Da escola inglesa tivemos que vir aqui onde havia muitos estrangeiros, porque havia poucos angolanos. Durante um certo tempo até acabar o ano.

Depois eles todos dispersaram-se e nós entramos pela primeira vez para o ensino em português. Falávamos português, mas muito mal. Eu tive que fazer o curso de recuperação, aqueles três anos em um, para  apanhar aquela fase da transição. Era o dia-a-dia de toda a gente, mas digo que foi um período de adaptação que tivemos de fazer a este meio, conhecer a maneira das pessoas pensarem aqui, um bocadinho provinciana, as fofocas, os disse-que-disse que não estávamos habituados.  Então tínhamos que ter uma certa compostura, ter maior responsabilidade.

Foram essas adaptações que tivemos que fazer, este processo tem sempre custos para quem quer que o viva, a liberdade. Ficamos sempre um bocadinho isolados. Para as outras pessoas, que já conheciam o país, era um retorno, podiam encontrar velhos amigos, mas para nós era uma primeira vez. Vínhamos para cá, nascemos fora e tivemos que nos adaptar ao meio, fazer amizades. Tivemos a sorte, eu e a minha irmã, de termos vindo nesta altura e termos estudado cá. Conseguimos ainda enraizar-nos um bocadinho, mas o meu irmão estava a estudar fora e ele teve maior dificuldade porque não teve o tempo no liceu que tivemos aqui, onde conseguimos fazer amigos e nos integrar. Ele só veio mais tarde, são situações que decorrem em virtude deste processo todo. Tivemos que nos adaptar e finalmente saber o que é que era Angola. Defendíamos lá fora o ser angolano, a luta era para que Angola fosse independente. Chegamos aqui encontramos a tal Angola, que era uma coisa que foi sendo descoberta pouco a pouco.

Quando se fala nos filhos do Presidente Neto sabemos que são três, o Mário, a Irene e a Leda, mas pouco se sabe dos seus irmãos. O que é que se passa?

De facto, tenho sido mais mediatizada que os meus irmãos. Eles não gostam muito de aparecer. E também têm tido algumas dificuldades em termos de saúde, o que faz com que não estejam em várias actividades por esta razão. Infelizmente, estou a falar de um processo que parece fácil e que não tem consequência, mas penso que os meus irmãos, em particular, sobretudo a morte do meu pai, teve um impacto muito forte que se reflecte das atitudes deles. A minha irmã era muito novinha, ficamos todos desamparados, mas as pessoas reagem de maneira diferente. E portanto, eles têm uma certa aversão em relação à forma como as coisas se processaram. Gostam de manter um pouco a distância.

O Presidente Neto falava de política convosco em casa?

A política foi sempre o fio condutor, digamos assim, da nossa vida em família e fora dela. Éramos crianças, mas desde pequenos que frequentávamos as reuniões, os sábados e domingos quando o pai estava ocupado era irmos às reuniões com os camaradas. Sempre ouvíamos as questões da organização, os problemas, a logística, os programas disto e aquilo, a nível da colectividade dos militantes que se encontravam no exterior. Depois, claro, havia outras reuniões da direcção em que não fazíamos parte. Estou a falar dos encontros a nível de toda a colectividade, onde as crianças também lá estavam. Aos finais de semana não havia escola e tínhamos que estar em algum lugar perto dele. Para nós isso era rotineiro. Tínhamos as confraternizações a nível da comunidade e mesmo em nossa casa havia sempre um rodopio de personalidades que entravam para falar com o meu pai. Podíamos estar a brincar ou a estudar, mas ouvíamos sempre alguma coisa. E encontrávamo-nos sempre com estas pessoas, portanto, a política era sempre o pano de fundo. Quando fomos crescendo, já aqui em Angola, discutíamos sempre algumas coisas. Era impossível não falar de política, porque estávamos nas vésperas da independência.

Como é que podia caracterizar o pensamento político do Presidente Neto, tendo em conta aquilo que ouvia?

Os movimentos de libertação em África, praticamente todos, tiveram que fazer aliados para fazerem as suas lutas. Nos anos 50 e 60, em plena Guerra Fria, as potências que estavam em pólos distintos eram ideologicamente diferentes, e quem quisesse ter o apoio de uma delas tinha que alinhar a sua linha política.

Daí que tenha surgido também o movimento político dos não-alinhados, exactamente porque vários países decidiram que não podiam estar alinhados nem com um ou com outro. De qualquer forma, para poderem receber ajudas havia sempre algum alinhamento. E neste sentido é que o MPLA foi autorizado a fazer uma opção, desde o início tinha um cariz muito esquerdista e este posicionamento depois foi-se esbatendo ao longo do tempo. Mas fez com que o MPLA e os seus dirigentes fossem catalogados desde o início como comunistas. Agora acontece que eles foram tendo contacto com estes países, comunistas, socialistas e foram vendo na prática o que estava ocorrendo nestes países ao longo dos anos, antes da nossa independência até. Em todos os sistemas há problemas e dificuldades, os dirigentes do MPLA foram identificando quais são as contradições que os sistemas provocavam e qual era o impacto a nível das sociedades. Não se queria enveredar nem por uma via capitalista nem pela via comunista, foi-se pelo meio que naquela altura era o socialismo. Portanto, essas eram as ideologias mais progressistas que existiam naquela altura e que tinham o socialismo que revelava ter um pendor mais social, interessava mais pelos aspectos sociais da vida das pessoas. No início, como havia essa conotação comunista, o Presidente Neto foi prejudicado nos contactos que pretendia estabelecer com os Estados Unidos da América, porque a FNLA, do Presidente Holden Roberto, já lá tinha estado antes, conseguindo os apoios da Administração Kennedy. E não obtendo apoio deste lado, tinha de obtê-los de um outro lado, foi batendo as portas na China, Jugoslávia e foram conseguindo os apoios necessários, mas mantendo sempre uma firme posição de nãoalinhamento. Sempre participamos das cimeiras de nãoalinhamentos.

O regime político que se instalou depois da independência era chamado da ‘Ditadura do Proletariado’, mas proletariado também não havia assim muito. Seria um contra-senso, um paradoxo impor uma ditadura de uma classe que era praticamente inexistente, aqui não havia indústria significativa, não havia os proletários e número elevado que pudessem manter essa ideologia.

Pelas conversas que manteve com o pai não falava na hipótese de se passar para um sistema democrático?

Naquela altura, se forem ler os discursos feitos, fala-se em democracia. E logo em 1975 fala-se em eleições, portanto havia intenção de se realizarem eleições. A questão dos outros movimentos os historiadores depois farão as suas análises. É preciso não esquecer que naquela altura havia a questão das batalhas entre os três, com ameaças da soberania do país com a invasão de outras forças estrangeiras que já estavam aqui, sobretudo a nível do norte e mais tarde do sul. E que depois também tivemos que recorrer a mais outra para estabelecermos o equilíbrio.

Nesta altura não se conseguiu fazer um processo de descolonização diferente, podia ter sido, mas não foi.

É preciso também que se recorde a rejeição de Portugal, a forma como abandonou Angola não foi muito abonatório para o regime português, que também estava a passar por um processo de revolução. Foi toda uma conjuntura efervescente na época, mas de qualquer forma o nosso processo de descolonização não foi bem conduzido.

Sabiam exactamente o que levou o Presidente Neto à União Soviética naquela viagem fatídica?

Estava doente, foi para lá e depois morreu.

Quando disse em outras entrevistas que há “abundantes indícios de que possa não ter morrido de causas naturais”, refere-se concretamente a quê?

Acho que essa questão já foi demasiadamente falada e não vale a pena repetir isso permanentemente. De facto, penso que o desfecho daquela operação podia ter sido outro, ainda que tivesse uma doença crónica. Um cancro é sempre um cancro, mas de qualquer forma penso que não podia ter permanecido em coma após a operação. Agora estes factos todos teriam de ser bem analisados, esmiuçados para se conseguir determinar as verdadeiras razões da morte do Presidente Neto. Estes processos das mortes dos presidentes são sempre muito complicados, quando se diz respeito a saúde de um dirigente tem a tendência para o secretismo e naquela altura pior ainda. Podia ter sido conduzido de outra forma, assim ter-se-ia mais  tempo de preparação. Foi uma coisa que aconteceu de forma abrupta.

Onde esteve e como teve informação da morte do Presidente Neto?

Estava a dar aulas de inglês no Mutu Ya Kevela.

É verdade que a família também foi apanhada de surpresa?

A pessoa que devia transmitir a informação da morte era o camarada Paulo Jorge, mas chegou depois de eu ouvir a notícia na Rádio Nacional.

Como é que o Mário e a Leda tiveram conhecimento da morte do pai?

Eles ouviram depois de me verem a chorar.

Acha que se tem prestado o devido tributo a Agostinho Neto?

Acho que não. Houve um período difícil, a seguir à sua morte houve toda  uma necessidade de reconstituir a direcção. Depois o trabalho feito para perpetuar a sua memória foi ruindo, por esta razão nós achamos que devíamos fazer alguma coisa para que isso não permanecesse neste estado de coisas. Lembrase que há alguns anos quando se perguntava a um jovem se conhecia Agostinho Neto, muitos não sabiam.

E isso é um contra-senso, é inadmissível. Vamos fazer 35 anos de independência e ninguém sabe quem foi o fundador da nação. Que memória a nossa! Se a nossa memória 35 anos depois é assim, quando fizermos 80 vamos estar gagás. Nem a doença de Alzheimer provoca essa rapidez de desconhecimento. Há coisas que não podem ser. Esse status quo não é benéfico para ninguém. Quer gostem quer não, Agostinho Neto foi o fundador da Nação. Antes era uma província de Portugal. Internacionalmente Angola era uma província de Portugal, passou a ser República apenas em 1975. Quem liderou o processo foi Agostinho Neto. Por mais que não se queira, que não se goste, não se pode mudar os factos. É nossa responsabilidade enquanto geração da Independência ainda manter esta memória, lutar para divulgar a História porque muita coisa não se sabe ainda. Este trabalho de recolha dos testemunhos não foi feita, a História não foi escrita totalmente. Vai sendo escrita, tivemos esse processo de guerra, essas atribulações todas porque não nos permitiram estar descansados e nos dedicar a muitas coisas que nós gostaríamos de ter feito. Mesmo assim é preciso fazer um esforço porque as pessoas estão a morrer, e esses testemunhos que estiveram lá em carne e osso estão a desaparecer. E o que vai ficar depois são os relatos de terceiros, as pessoas que nem sequer estiveram lá, mas também ouviram dizer, e vai ser uma história escrita assim. Nós achamos que o processo a seguir, se não foi desleixo, haverá uma outra denominação qualquer para este estado de coisas.

Acredita que havia intenção de se apagar a História?

Intencional ou não isso não interessa. Já ultrapassámos esse ponto da navegação. O que interessa é de facto contornar essa situação e fazer com que os nossos países em África, e sobretudo o nosso caso particular, tenham memória. A UNESCO está a trabalhar na História de África, mas é uma vergonha constatar que os nossos países quando se trata de pôr no papel a História dos seus próprios filhos têm tantos pruridos, tantas dificuldades. Mas se for para patrocinarem outras coisas, é logo.

A coisa mais nobre de um país que é contar a História dos seus, não nos dedicamos a isso. Não é um fenómeno colateral ou banal, mas é muito importante, porque isso faz parte da nossa idiossincrasia, eu sou quem sou, conheço os meus antepassados, sei de onde é que vim. Ele sabe quem eu sou, conhece a nossa História.

Não parece que haja aqui um vazio, que não somos ninguém. Temos História e ela deve ser ensinada.

Estive em vários sistemas de ensino, entre os quais o francês e o inglês, e aprendi estas histórias todas desde pequena. Eu sei o quanto é valioso saber quem foi o primeiro não sei o quê, o rei não sei de onde…É importante porque faz parte de nós, depois incorporamos isso na nossa maneira de ser. Se não houver isso fica um vazio, porque os nossos jovens estão a absorver de outro lado. E os heróis vão ser quem? Os R.Kellys e outros.

Esses é que vão ser os exemplos.

A Fundação Agostinho Neto está a conseguir restaurar o seu legado?

É uma pretensão ambiciosa. Nós começamos há pouco tempo mas penso que é uma tentativa nossa, acho que bastante corajosa, mas que é necessário fazer para encorajar as outras pessoas nesta senda.

Tem havido uma má interpretação do objectivo da preservação, da divulgação e pensarem que estamos presos ao passado. Não estamos presos ao passado, queremos ir para o futuro assim como todos os outros, mas é necessário ter o passado bem consolidado para poder avançar.

Esperamos nós, a Fundação Agostinho Neto, que o nosso trabalho de divulgação, recolha de testemunho, análises e esse trabalho todo que diga respeito ao Presidente Neto, de facto, sirva para encorajar as outras pessoas, fornecer alguns subsídios a nível do país, de forma que com o nosso modesto contributo consigamos despoletar outras acções. Não temos a pretensão de fazer tudo, obviamente, é impossível. 

Têm tido apoios do Estado?

Agora fomos considerados instituição de utilidade pública, tem nos ajudado com alguma coisa, para pagar o salário dos funcionários da Fundação. Não é nada por aí além, mas pensamos que uma Fundação Agostinho Neto, primeiro Presidente, devia ter uma importância à semelhança de outras fundações noutros países, como a Alemanha, onde as fundações dos primeiros presidentes têm apoios consideráveis, não é este que nós temos. De facto que se reconheça ao primeiro dos primeiros um estatuto que faz com que se deva dar uma atenção especial a tudo que se relaciona com a sua figura. Nós aqui em princípio pensávamos que o Partido fosse assumir isso, o que não aconteceu.

Como o Partido não pode fazer tudo, nós nos organizamos na sociedade civil para levar a cabo este trabalho.

E vamos ver se vamos conseguir. O nosso objectivo fundamental, dentro dos vários objectivos que nós temos é, em primeiro lugar, a preservação da memória, divulgação da vida e obra de Agostinho Neto.

O rio levou a casa de Neto em Kaxikane

Tem visitado Kaxicane?

Raras vezes, não vou lá com muita frequência. Se calhar anual ou bi-anualmente.       

E o espaço onde estava a casa do Presidente Neto?

Já não existe, o rio está a ocupar aquilo tudo. Falou-se num trabalho de desassoreamento do rio, de pôr lá comportas, até agora só se ficou nos planos. Isso afligi-nos um bocado porque está-se a retirar a população para outra área. E, portanto, a zona da aldeia natal do Presidente Neto vai ficar debaixo da água, vai literalmente ser engolida pela água. Tinha-se falado no projecto de reconstituição da aldeia natal onde nasceu Agostinho Neto.

Isso existe em todo o mundo, as pessoas podem visitar a aldeia natal do Mao Tse-Tung, do Ataturk, da Turquia, está lá preservado. Assim mesmo modesto como era, eles fazem um pequeno museu, porque as pessoas têm curiosidade de visitar.

Até estávamos a pensar na reconstituição, não tão próximo do rio por causa destes problemas todos, pô-lo um bocadinho mais afastado, mas… Até seria um motivo para turismo histórico e rural, atrairia mais pessoas estando aí próximo da Muxima, seria um ponto turístico que englobaria tanto o histórico como o religioso. Mas são ideias que até agora ainda não encontraram espaço, mas o que nos preocupa é essa hipótese de o rio poder apagar o espaço físico onde nasceu o Presidente Neto. Se a memória já é levada pelas águas do esquecimento, o físico desaparece. É uma pena.

O que acha da ideia de se passar o município de Icolo e Bengo, onde nasceu o vosso pai, para Luanda?

Icolo e Bengo será sempre Icolo e Bengo, estando em Luanda ou no Bengo. Não sei quais são os planos que a administração actual tem, se pretende com isso reconfigurar a província de Luanda, que já de per si é uma mega província, mas se comparada com as outras tem uma extensão menor.

Terá havido outras razões para isso que não são publicitadas, a nível do Parlamento, onde estou, ainda não nos chegou nada sobre isso. De uma maneira geral, quando há alterações há sempre umas resistências se não se saberem as razões que levam a isso.

Há sempre as razões da História, das pertenças, mas penso que alterações são feitas todos os dias em termo de pertenças desta área para aquela. Como digo e repito, essas pretensões devem ser informadas para não se reagir mal. Outra é ir lá, explicar os projectos e as razões da sua elaboração. Há muitas conotações especialmente com Icolo e Bengo, que é a terra natal do fundador da Nação, tanto é que houve uma reacção por parte dos naturais do Bengo. Foi mais ou menos saneado, mas é bom ter cuidado com este tipo de acções porque podem deixar algumas tensões no ar. E não é saudável que exista.


“Tivemos elementos da nossa família envolvidos no 27 de Maio”

Em tempo queixou-se do silêncio dos amigos do pai em relação ao 27 de Maio. O silêncio mantémse ?

Naquela altura, quando disse isso sentia mais intensamente o problema. Porque havia como que uma desresponsabilização de todos os outros e as culpas eram todas deixadas ao Presidente Neto em relação ao 27 de Maio.

Penso que vão surgindo cada vez mais dados sobre o mesmo – e é bom que surjam – porque é uma matéria bastante pesada na nossa trajectória. Esse golpe ou acção teve um resultado tão sangrento, um peso tal que merece ter algumas explicações. O silêncio é sintomático de alguma coisa, se as pessoas ficam caladas num assunto desses é por alguma razão e aqui as pessoas têm a tendência de falar demais.  Por alguma razão é que não se quer falar, mas qualquer dia vai-se falar.

Ouviu alguma coisa do pai?

Sobre essa matéria não. Ele ficou profundamente abalado com esta situação, com as mortes. Acho que alguma coisa se operou nesta altura, ele mudou muito. Depois daí passou-se pouco tempo e morreu. Estávamos num rodopio muito tenso de acontecimentos, connosco não houve assim muitos comentários. Infelizmente tivemos alguns elementos da nossa família também envolvidos nisso e foram levados lá à casa e vimos o nosso pai a conversar com elas, as primas. De facto isso trouxe muita tensão.

Chegou a conhecer bem o Monstro Imortal?

Sim muito bem, nós éramos amigos em Brazaville. Temos fotografias em que saíamos juntos para passear nas lagoas do Congo, passávamos o fim-de -semana.

Ele e a mulher dele, a irmã da camarada Inga. Éramos próximos, vivíamos próximos uns dos outros.

Onde estiveram durante os dias de tensão do 27 de Maio?

Saímos da casa do Futungo e tivemos que ir a uma base militar.

Onde?

Aqui fora de Luanda. Deixámos de ir às aulas, não sei se já estávamos fora do Palácio ou não. Não sei quanto tempo ficamos lá, foram tantos acontecimentos que até já não me lembro. Mas ficamos durante um tempinho numa base.

Ainda acha que uma Comissão da Verdade, semelhante à da África do Sul, poderia ajudar a sanar este problema?

Eu tinha sugerido em tempo esta possibilidade, como outros incluindo pessoas que estiveram envolvidos no próprio 27 de Maio também reivindicam a mesma coisa. Seria mais saudável se as pessoas conversassem e pusessem fora todo esse diferendo. Nesta altura, o tempo vai passando e as coisas se esbatendo, as pessoas vão morrendo também. E qualquer dia não haverá ninguém que possa de facto participar nesta comissão.

Acho que há trabalhos que estão a ser feitos e qualquer dia serão publicados, tomaremos conhecimentos e vamos ler o que cada um diz.

Leu o livro “A purga”, de Dalila Cabrita, e outros sobre o 27 de Maio?

Sim, não li tudo.

O que achou dos conteúdos?

É a polémica que continua no ar.

E achamos que o sensacionalismo e o protagonismo que algumas pessoas querem obter através de certas polémicas deviam ser preteridos em função de uma maior seriedade. Mas, pronto, estamos a viver num mundo de muito imediatismo, protagonismo e também de alguma acções de marketing comercial e político, que por vezes não sabemos quem está por trás de certas publicações. Independentemente disso, que venham as publicações que vierem e haverá reacções. E vamos contrapor aquilo que nós acharmos que for contra o que nós acreditamos. Os outros farão o mesmo e depois vamos tirar as ilações. Acho que o processo só pode ser esse porque não há outras vias de chegar à verdade.

O que achou da marcação do julgamento contra a vossa mãe, a senhora Maria Eugénia Neto, depois da acção movida pela escritora Dalila Cabrita?

Penso que ela se beneficiou com a possibilidade gratuita por a minha mãe ter feito aquelas afirmações. Ela pegou numa afirmação que a mãe faz de que ela é mentirosa e move um processo de difamação, quando em Portugal passam a vida a dizer que o primeiro-ministro, José Socrátes, é mentiroso, mas não tem processo algum levado a ninguém. Depois há outras particularidades, o escritório de advogados que ela escolheu é de um familiar de uma das vítimas do 27 de Maio. Portanto, não pode ser uma coincidência. É um processo que está a decorrer, mas é preciso notar que as mentiras que ela afirmou sobre o dr Rui Mingas, que também a levou a Tribunal, ela teve que pedir desculpas públicas. Há um interesse subjacente, os historiadores às vezes são utilizados por estes ou aqueles, pagam-lhes. E temos que lidar com esta realidade.


Dani Costa
16 - 9 -2010
 
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