
Os acordos firmados, esta semana, pelos bancos portugueses Millennium BCP e BPI com o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) e o Bank of China, respectivamente, terão reflexos no mercado financeiro angolano, designadamente no sistema bancário nacional. O Millennium Angola é detido em 52,7% pelo Millennium BCP português, participando, no capital remanescente a Sonangol (31,5%) e o BPA (15,8%). Já o BFA é detido em 50,1% pelo Banco BPI. Os restantes 49,9% pertencem à Unitel.
Mas o capital angolano marca presença nas instituições lusas. O Banco Millennium português conta com a presença da petrolífera nacional, a Sonangol, que detém 9,99% do capital e tem manifestado interesse em reforçar a sua posição, até 20% do capital da instituição. Os outros accionistas do Millennium BCP são o Grupo Teixeira Duarte (7,034%), a Fundação José Berardo, empresário madeirense (4,857%), o Banco Sabadell (4,434%), o Grupo EDP (3,752%), a estatal portuguesa CGD (2,725%), a Sogema (2,649%), o Grupo Eureko (2,519%), o Grupo Stanley Ho, empresário macaense, (2,263%) e a SFGP (2,174%) e a Metalgest (1,366%).
O Banco BPI luso integra, por seu turno, na sua estrutura accionista a Santoro, que detém 9,7% da instituição, o correspondente a 87.214.836 acções. O Grupo BPI é o 4o maior grupo financeiro privado português, com um activo total que ascende a € 53 mil milhões (cerca de USD 73 mil milhões). Os acordos firmados pelas duas instituições portuguesas com as congéneres chinesas abrem as portas à entrada de capital chinês na respectiva estrutura accionista. Admite-se que o ICBC, a maior instituição financeira do mundo, por capitalização bolsista, contando mais de 200 milhões de clientes, 18 mil agências e 400 mil colaboradores, poderá comprar 10% do BCP. O acordo assinado entre as duas instituições passa pela utilização recíproca das respectivas redes comerciais, tanto no retalho como na banca de investimento, na China, Europa e África. Os acordos desta semana, que abarcam todas as operações do BCP, têm precedentes. Registe-se que no último ano, no mês de Julho, o BCP assinara protocolos com a sucursal de Macau do ICBC com vista a facilitar os investimentos chineses nos países de língua oficial portuguesa. O presidente da instituição lusa, Carlos Santos Ferreira, vem multiplicando, nos últimos tempos, os contactos com os representantes do banco chinês. Recorde-se ainda que o ICBC comprou a Stanley Ho, accionista do BCP, o banco Seng Heng, que operava no território de Macau.
Quanto à entrada do Bank of China no capital do BPI, embora o vice-presidente da instituição, Xen Siqing, tenha afirmado que por “agora estamos aqui só para resolver este acordo de cooperação entre os dois bancos. Nesta altura não discutimos isso”, foi adiantando que “o Banco BPI tem uma presença forte em Angola, através do Banco Fomento de Angola, e nós queremos com esta cooperação desenvolver negócios em Angola». O presidente do BPI, Fernando Ulrich foi mais longe quanto à eventual participação chinesa na estrutura accionista da instituição que lidera, afirmando que “com o aprofundamento das relações e correndo bem os projectos futuros podemos vir a discutir essa possibilidade”.
Recorde-se que, em 2006, foram assinados dois protocolos entre o BFA e o Bank of China (sucursal), prevendo-se num deles a abertura de uma linha de USD 100 milhões destinada a apoiar as exportações chinesas para Angola e, no outro, a facilitação das transferências de emigrantes chineses em Angola.
A possibilidade de os bancos portugueses virem a contar com participação chinesa foi bem acolhido pelos investidores e animou a cotação bolsista das duas instituições mas o facto de a agência de notação financeira Fitch, logo a seguir, ter baixado as respectivas notações de rating (o IDR, “issuer default rating”, do BCP baixou dois níveis, de“A”para“BBB+”eodoBPIum nível, passando de “A” para “A-“) acabou por arrefecer os ânimos no mercado financeiro.