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Bancos

Angolanos recorrem cada vez mais à banca

Apenas 11% da população angolana utiliza serviços bancários. Se tomarmos em linha de conta somente os angolanos “adultos”, ou seja, os que têm idade igual ou superior a 15 anos, a “taxa de bancarização”, que mede o grau de acesso a instituições bancárias, sobe, tendo atingindo, em 2009, 20% da população que se insere nesta faixa etária.

Mas o que mais importará reter é que os angolanos, nas contas das suas vidas, recorrem cada vez mais a entidades bancárias, o que significa que a “taxa de bancarização” vem registando um crescimento muito significativo. Se tomarmos como critério a posse de um cartão Multicaixa a comparação entre os anos 2007 e 2009 é muito expressiva: a referida taxa subiu para o conjunto da população de 6% para 11% e para os adultos (indivíduos com idade igual ou superior a 15 anos) passou de 11% para 20%.

Esta é uma das principais conclusões do estudo realizado pela Associação de Bancos Angolanos (ABANC), em colaboração com a EMIS e a Marktest Angola e apresentado no decurso do III Fórum de Economia e Finanças realizado esta semana, que contou com a organização da FACIDE.

O estudo chama a atenção para um eventual “enviezamento” da análise do acesso à banca por parte da população tendo como base a posse de cartões Multicaixa pois, com efeito, haverá seguramente indivíduos que reúnem mais que um cartão e, por outro lado, é natural que a população mais idosa possa ter uma conta aberta sem contudo possuir qualquer cartão dada a sua compreensível resistência às novas tecnologias; haverá ainda que ter em consideração que a população angolana é muito jovem (em 2009 apenas 55% se situava numa faixa etária igual ou superior a 15 anos), pelo que há um larguíssimo contingente populacional que não encaixa no segmento “adulto”.

Para além de mostrar que existe uma tendência crescente para a “bancarização” dos angolanos, tanto no que respeita à procura de serviços bancários como quanto à sua disponibilização, o documento, que foi apresentado por Marinela Amaral, do grupo técnico de trabalhos da ABANC, revela ainda que 2009, o ano em que a crise internacional se repercutiu com maior intensidade sobre a economia nacional, foi claramente atípico quanto a alguns indicadores fundamentais da actividade bancária.

Evidencia ainda um aspecto muito interessante: no que toca a alguns aspectos o sistema bancário angolano detém um bom posicionamento na África subsaariana, superando mesmo, no que respeita ao valor dos depósitos e ao valor do crédito em percentagem do produto interno (ou seja, em termos de “profundidade financeira”), a economia mais desenvolvida do continente, a da África do Sul.

Quanto pesa a banca na economia

O peso da massa monetária, expressão que designa, em sentido amplo, o conjunto dos meios de pagamento, sobre o total da riqueza produzida anualmente no país, o seu produto interno (PIB), vem crescendo significativamente.

O que significa que a “profundidade financeira” (o valor da referida massa monetária em percentagem do PIB) aumenta ano após ano. Se, numa análise mais detalhada, entendermos como massa monetária a soma da moeda em poder do público, dos depósitos à ordem e os depósitos a prazo (um conjunto designado pelos economistas como M2), constatamos que se aquela valia 18% do PIB em 2007, passou a representar 44% do PIB em 2009.

E se juntarmos a M2 outros instrumentos financeiros, como os títulos públicos de curto prazo (Bilhetes do Tesouro e Títulos do Banco Central), transaccionados no chamado “mercado secundário”, verificamos, como o mostra o estudo, que o respectivo peso sobre o PIB, que era apenas de 22% em 2007, passou para 48% em 2009.

Mas, afinal de contas, de que moeda falamos? Kwanzas ou dólares? Ora bem, na análise da evolução dos meios de pagamento nas duas moedas faz-se sentir claramente o factor “crise 2009”. Com efeito, a “desdolarização” da economia, que se vinha verificando a bom ritmo desde 2006, sofreu uma interrupção em 2009: se em 2008 a moeda estrangeira representava 43% do M3, já em 2009 passou a ter no M3 o mesmo peso da moeda nacional.

A análise da evolução do crédito concedido ao longo dos últimos anos corrobora a progressiva “bancarização” da economia angolana. Em 2009, o crédito concedido ao sector não petrolífero atingiu 70% do PIB, num contexto de reduzido crescimento económico.

É ainda curioso notar que, em 2008, o crédito concedido ao Governo se situou próximo do montante dos empréstimos efectuados à economia, facto que resultou da forte expansão que os gastos públicos registaram naquele que foi para o preço do petróleo o ano de todos os recordes.

Liquidez cada vez menos preferida

A “preferência pela liquidez”, conceito que traduz a relação entre a procura de moeda por parte do público e a massa monetária, vem decaindo. E também no que toca a este aspecto 2009 assume-se como um ano de excepção: se, em 2008, a “preferência pela liquidez” decaíra já para 10%, em 2009 dá-se uma inflexão da tendência de recuo, voltando a subir para 13%. A procura de dólares como reserva de valor implicou uma redução das disponibilidades de caixa dos bancos e, em consequência, está na base das restrições que foram colocadas aos levantamentos. E onde encontram os angolanos mais agências bancárias? Sobretudo nas províncias próximas do litoral, com Luanda, como seria de esperar, à cabeça. São as mais atractivas para os bancos: é nelas que encontram melhores infraestruturas e são também elas as que apresentam também maior potencial económico.

Mas, com maior ou menor concentração junto às zonas litorais, a expansão bancária assume-se como um facto. Se, em Dezembro de 2003 apenas 19% dos municípios se encontravam cobertos pela rede bancária, esta já se estendia, em Setembro do corrente ano, a 46% dos municípios do país.

Luanda é a província que apresentava, de longe, em 2009, uma maior disponibilidade de serviços bancários (ATM e agências) por quilómetro quadrado e também a que disponibilizava mais serviços bancários por habitante. Também os habitantes de Cabinda e Benguela são privilegiados em matéria de disponibilidade de serviços bancários.

O Huambo, note-se, beneficia dessa disponibilidade em grau elevado por quilómetro quadrado e o Namibe é bafejado por ela no que respeita à quantidade de serviços oferecidos por habitante.

Cheques ou Multicaixa?

O sistema de pagamentos em tempo real, introduzido em 2005, vem ganhando, a olhos vistos, terreno ao recurso ao cheque, mas o número e o valor médio destes últimos aumentou significativamente, refere o documento da ABANC.

Por outro lado, é cada vez maior o recurso dos angolanos aos cartões Multicaixa para efectuar o pagamento das suas compras (os “POS” registaram um valor médio de Kz 11.300 em 2009), embora também levantem cada vez mais dinheiro em ATMs. Mas as estatísticas indicam que tem cartão recorre cada vez menos ao numerário, ou seja, dinheirinho palpável.

Como estamos na África subsaariana

Se Angola ocupa, no contexto da África subsaariana a 11a posição no que respeita ao número de agências por 1.000 Km2, já que no que respeita ao número de ATMs por 1.000 Km2 inclui-se entre os 10 países de topo, com 0,8 ATMs por 1.000 Km2. A posição do nosso país ainda é melhor quando se adopta o critério “número de agências bancárias por 100.000 adultos”: posicionamo-nos em 4o lugar, com um índice 5,9, logo a seguir às Seychelles, Maurícias (países que se destacam pela sua forte componente turística), África do Sul e Namíbia.

Já quanto ao número de ATMs por 100.000 adultos, ocupamos o 6o lugar, com mais de 10 ATMs por cada 100.000 adultos. Estas posições traduzem claramente a forte expansão bancária verificada desde 2002.

Particularmente interessante é o posicionamento do nosso sistema bancário no que concerne ao critério “profundidade financeira”, o qual, como acima indicámos, expressa o valor dos depósitos e do crédito em percentagem do PIB.

Quanto ao valor dos depósitos em percentagem do PIB ocupamos a 2a posição do ranking subsaariano, logo atrás das Seychelles e à frente dos Camarões, Namíbia, Moçambique, Uganda e África do Sul. Já quanto ao valor do crédito concedido em percentagem do PIB figuramos em 3o lugar, atrás das Seychelles e da Swazilândia.

Quando nos comparamos, em termos de profundidade financeira” com os restantes países da África subsaariana produtores de petróleo, verificamos que é de Angola a primeira posição, alcançada de 2008 para 2009, quando ultrapassámos a Nigéria.

E gosta do seu banco?

Na província de Luanda 18% dos indivíduos de ambos os sexos com 15 ou mais anos e que têm como banco principal uma das cinco instituições com maior penetração confessam-se insatisfeitos ou muito insatisfeitos com o seu banco. Este sentimento resulta sobretudo, alegam, do “mau atendimento ao cliente” e das “falhas técnicas do sistema”.

O “atendimento mau e/ou lento” leva a palma nas razões de queixa avançadas (45%), seguindo-se as “falhas de sistema” (35,7%), o excesso de clientes na agência (27,3%) e a falta de dinheiro no banco (8,1%).

Refira-se que a maioria dos clientes da banca inquiridos diz esperar, em média, uma hora até ser atendido. E se 18,1% diz esperar 15 minutos ou menos, há 12,4% de clientes que declaram esperar mais de duas horas para serem atendidos.

Porque ficam de fora

Entre os indivíduos de ambos os sexos com 15 ou mais anos, residentes na província de Luanda 29% declaram ter conta aberta no banco.

Entre os 71% que não têm conta bancária, 44,2% alegam como motivo para tal o facto de não ter dinheiro, 26,5% não acedem aos serviços bancários por não trabalhar ou estar desempregados, 13,6% não o fazem por não possuírem os documentos necessários à abertura de conta (BI, No de Contribuinte e outros documentos). Dos restantes 4,9% dizem não gostar de ter conta ou não manifestam interesse nisso e 4,8% são menores e os pais ainda não lhes abriram uma conta.

Importa notar que, de acordo com o estudo, apesar de não constituir o principal motivo, a falta de documentos apresenta uma tendência crescente como uma dos principais razões referidas para não ter conta bancária, sendo que, em 2010, adianta o documento, o potencial de aumento da “bancarização” com a regularização dos documentos seria de 9,7 pontos percentuais

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Luís Faria
26 - 11 -2010
 
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