O projecto imobiliário Build Angola tem estado a ser acusado de defraudar alguns dos seus clientes que se queixam da morosidade na entrega das prometidas casas e da quase inacção nas áreas reservadas à construção das residências.
O PAÍS apurou de uma fonte, cliente do projecto, que o mesmo enferma de várias irregularidades e a propaganda que de há um tempo a esta parte foi sendo profusamente passada em vários meios de comunicação social, é, afinal, na sua opinião, totalmente enganosa.
A denúncia sobre este empreendimento imobiliário já circula em meios electrónicos e, talvez, por força disso, a propaganda tenha sido finalmente retirada dos espaços publicitários da generalidade da comunicação social angolana, segundo considerou.
Alguns clientes optaram por desistir do projecto e têm estado a pedir o reembolso do dinheiro aplicado nas supostas “obras empatadas”.
O caso que O PAÍS reporta nestas páginas refere-se a uma cidadã angolana técnica superior que havia depositado mais de meia centena de milhar de dólares para comprar uma casa T3 Ridux, mas que, por força de situações pessoais atendíveis decidiu pedir o reembolso do seu dinheiro.
Depois de ter feito o depósito há pouco mais de três meses, à cidadã lhe está a ser pago o valor depositado de forma faseada, alegadamente por um mau funcionamento da banca angolana.
“Que eu saiba, os bancos só têm dificuldades do género quando se trata de operações de transferência com o exterior. Se puderam devolver-me inicialmente 30 mil dólares e depois mais 16 mil, porque razões não conseguem pagar o resto?”, interrogou-se a fonte de O PAÍS.
Neste momento, a fonte deste jornal que até se encontra em estado de gestação avançado, sente-se mal, tem a pressão arterial a funcionar irregularmente e carece urgentemente de um atendimento adequado.
A última garantia de reembolso da última fatia do dinheiro empregue estava aprazada para até esta quinta-feira, mas infelizmente a transferência do dinheiro não foi feita, facto que a deixa mais agastada ainda.
Segundo relato da senhora, ao constatar a falta da outra parte do valor depositado inicialmente, dirigiu-se aos escritórios da Build Angola, onde recebeu da funcionária que a atendeu um leque de desculpas pelo sucedido.
“Disseram-me que os responsáveis continuam no Brasil e não conseguem fazer a transferência bancária porque o sistema de Internet funciona com irregularidades”, contou, visivelmente triste, a fonte.
Expressando-se profundamente arrependida por ter apostado no projecto imobiliário Build Angola, acrescentou que começou a fazer-lhe espécie o facto de ter notado que depois do depósito do primeiro sinal, terem sido ultrapassados os cinco dias prometidos para a assinatura do contrato.
Quando tentou reclamar por este documento lhe foi dito que havia uma ordem de precedências a respeitar e que ela aguardasse pela sua vez.
“Fiquei nisso durante dois meses, mas quando me convocaram para assinar o contrato eu pedi que me mostrassem as casas que estavam a ser construídas e foi aí que eu rejeitei a assinatura porque vi que na área do Estádio 11 de Novembro não havia nada que indicasse o início de obras”, disse confessando-se surpresa com o que tinha visto.
Na esperança de encontrar algo mais consistente noutra área foi levada pessoalmente até à zona do projecto Lar do Patriota, mas embora o cenário da Sapú não se repetisse ali, voltou a sentir-se desiludida.
“Achei que estava a haver um embuste que a publicidade enganosa mascarava e decidi não assinar o contrato, pedindo imediatamente a devolução do meu dinheiro”, declarou.
Mas este processo não foi aceite de bom grado, segundo avançou, pois, como precisou, “disseram-me que só poderia receber uma parte do dinheiro, porque a outra seria para pagar a publicitação do projecto”, disse, adiantando que lhe foi dito também que o restante dependeria da compra da casa escolhida, T3 Ridux, por um terceiro cliente.
Como deixou claro, a cliente não aceitou concluir o negócio em face das constatações feitas no terreno, onde supostamente seria construída a sua residência.
Nesta área situada nas traseiras do Estádio 11 de Novembro, está lá patente a marca publicitária do projecto com o rosto de uma das figuras angolanas para atrair clientela.
O resto mais não passa de terreno baldio coberto de capim e com alguns arruamentos abertos por uma máquina niveladora.
Não há ali literalmente qualquer indício de implantação de infra-estruturas básicas como saneamento ou outras que denotassem a construção de residências a curto ou médio prazos.
No projecto a ser erguido pelos lados do Lar do Patriota, há efectivamente algumas edificações em construção, mas a fonte deste jornal garante que elas se encontram no mesmo estado que constatou, quando esteve a verificar o avanço das obras.
Apesar das dificuldades que a Build Angola enfrenta para continuar e concluir os muitos projectos que publicitou, as chamadas lojas de venda do mesmo continuam a vender casas.
A fonte precisou a este jornal que desta vez há a introdução de uma outra novidade que é a de só estarem disponíveis a atender clientes que queiram pagálas na totalidade.
O recurso ao crédito bancário parece estar entorpecido com a crise financeira internacional que afectou de algum modo a banca angolana, onde segundo fontes contactadas, o BESA seria eventualmente o financiador da Build Angola, mas terá desistido da ideia perante este quadro.
De acordo com fontes a que O PAÍS teve acesso, fica evidente um trocadilho intrigante na morada da entidade em nome da qual os depósitos são feitos pelos clientes.
Num determinado documento, a depositária é a Galson-Sociedade Comercial Agro-Industrial LDA, uma entidade cujo objecto, como se lê num dos facsimile, é totalmente diverso da actividade imobiliária, enquanto noutro já se vê Galson-Incorporação e Projectos.
Suspeita também é a morada em que está registada a primeira, de acordo com um documento a que O PAÍS teve acesso ela está domiciliada na Rua Robocho Vaz SP 73, Bairro Hoji Ya Henda.
Ao tempo colonial, integravam o actual Hoji ya Henda os bairros São Pedro e Santo António, mas não há memória da utilização das iniciais dos nomes do bairro no fim, já que ficam entremeadas por dois números.
O PAÍS apurou, entretanto, que a sede da empresa está localizada na rua 4 do projecto Nova Vida, no município do Kilamba Kiaxi, tendo espalhado vários pontos de venda pela cidade.
Contactada a direcção da Build Angola para obter esclarecimentos sobre as razões da não devolução integral do valor aplicado no projecto, na pessoa de Erika Digon, que responde pela comunicação integrada, atendeu a sua secretária que informou da ausência daquela em férias no Brasil, estando o seu regresso previsto para o mês de Fevereiro.