Demitiu-se por uma questão de estratégia ou por incompatibilidade?
Pedimos a nossa demissão porque não estávamos a fazer nada na Federação Angolana de Futebol. A nossa inserção na actual direcção entendeu-se que era um reforço, tendo em atenção a proximidade do CAN2010 e poderíamos transmitir as nossas ideias, mas temos de lamentar que isso não aconteceu. E se não aconteceu em três anos, não vai mais acontecer. Não queremos plantar polémica, quero que as pessoas entendam, somos homens do futebol e continuaremos a dar a nossa contribuição. Vamos de agora em diante olhar para o futuro e ver que decisão tomaremos. Não se trata de uma decisão individual, é de um grupo de trabalho. Vamos ver que decisão importante pode tomar para ajudar o futebol a sair desse estado em que está.
Foi de certo modo mais estratégico, já que mantém viva a esperança de chegar à presidência da FAF?
Estratégico é tudo que fazemos na vida. Acho que nada existe sem isso. E o simples facto de não ter tido oportunidade para desenvolver o projecto que nos propusemos, tem também a ver com o futuro, porque se não consigo desenvolver o que a actual direcção prometeu às associações, então não estava lá a fazer nada. Se não é para fazer nada, não estou nem fico na FAF. Vou pensar naquilo que posso fazer amanhã, tendo em atenção a minha possibilidade de me recandidatar. Mas não estamos em campanha. Estamos para reflectir, para sabermos como podemos ajudar o futebol.
Disse no seu comunicado de pedido de demissão que só avançaria para as eleições se tivesse garantias. De que garantias se refere?
Garantias são todas aquelas próprias de uma eleição.Está a falar de transparência? Sim da transparência e de uma atitude coerente das associações provinciais. Acredito que não se faz mais pelo futebol pela atitude de algumas pessoas ligadas a determinados sectores. Tenho a triste recordação de que, quando concorremos, houve situações muito estranhas.
Mas o senhor não denunciou.Ninguém sabe o que aconteceu de concreto?
Sim, não foi o caso, até porque seria criar mais uma situação. E nós esperamos que cada uma delas (as associações) possam fazer as devidas reflexões. Nada melhor do que o tempo para nos ajudar a corrigir as nossas opções e partirmos para actos com maior coerência e transparência. Acho que muitas das associações têm desenvolvido a sua maturidade à medida que vão acontecendo muitas coisas no nosso futebol.
Como é que compreende que as associações reúnam na Lunda-Sul para tomar uma decisão, provocar um congresso extraordinário, e quinze dias em Ndalatando aparecem a dar voto de confiança apenas ao presidente da FAF e não a toda direcção?
Não compreendo. É a tal coerência de que falo. Não se pode, de maneira nenhuma, numa semana sentarmos para tomar decisões sobre a direcção gestora do futebol nacional, a FAF no caso, e depois aparecermos a dar voto de confiança a um único homem. Não se pode separar um homem do todo. Ele é o líder, se algo existe de errado ele é o responsável máximo. A menos que os outros membros tenham feito algo de grave, o que me consta não ser o caso.
Há quem diga, a brincar, que as associações elegem as pessoas mais fotogénicas e não os melhores projectos.
Está a dizer uma coisa sobre a qual tenho estado a me bater. Mas não queria ir por aí, mas dizer apenas que a responsabilidade das associações não passa por escolher as pessoas pelas aparências, mas sim pela possibilidade e capacidade de realizar um determinado projecto em prol do futebol. Isso é, na direcção das preocupações de todas as associações provinciais, porque tem de haver equilíbrios entre elas e não como tem acontecido. Uns melhores, outros nem condições de realizar campeonatos provinciais têm. Temos de reduzir essas assimetrias para que possamos desenvolver o futebol e criarmos uma base mais alargada de jogadores seleccionáveis.
Sente que tem muito apoio para chegar à direcção da FAF? De uma forma geral acredito que sim. Nós conversamos com as pessoas, apresentamos ideias que há muito tempo temos estado a desenvolver. Temos de respeitar que haja uma direcção eleita, o mandato acaba em 2012 e esperamos que as pessoas depois possam fazer as suas escolhas.
Qual é a sua opinião em relação ao funcionamento da FAF?
Não pode estar a funcionar bem.Os factos estão aí, factos são factos e não são inventados por quem quer que seja. São factos que apontam que a gestão do futebol pela federação não é boa. De outro modo, não teríamos as constantes saídas de treinadores, faltas de condições para as selecções treinarem, ausência de apoio às associações. Isso não tem sido feito. Acredito que poderia ter sido melhor e não criar ilhas dentro da Federação.
Qual é o relacionamento dos dirigentes? Segundo Manuel José, há gente que não é “bom balneário” na FAF.
O relacionamento institucional é normal. Não é normal o funcionamento da FAF. Há áreas que estão praticamente no esquecimento e isso não permite bom funcionamento da FAF.
Como é que entendeu a substituição de Rui Costa, vice-presidente eleito para as Selecções Nacionais, por Alves Simões, conselheiro do presidente da FAF? Ou seja, Alves Simões é hoje o responsável principal pela selecção nacional…
Olha, até agora não entendi. São os tais factos que indiciam que as coisas não estão muito pacíficas na Federação Angolana de Futebol. Nunca de maneira nenhuma se pode substituir um vice-presidente eleito por um conselheiro. Mesmo que viesse fazer um reforço ao grupo de trabalho das selecções, nunca se podia fazer uma substituição, praticamente forçada, do vice-presidente, porque acho que é uma ingerência. Mas ele melhor do que eu pode responder.
Ficou surpreso com a saída de Hervé Renard?
Fiquei, porque acho que estava a fazer um bom trabalho. E saiu, o que não foi bom para a imagem da Federação Angolana de Futebol nem do futebol nacional.
Mas saiu porque houve incumprimento da FAF?
Sim, ele negociou determinadas condições e se houve incumprimento, ele não podia ter-se mantido no cargo. Não posso, por isso, condenar de maneira nenhuma a saída do treinador.
Zeca Amaral deixa a selecção para treinar o Recreativo do Libolo. Dizse que a razão principal está no salário inferior que recebia em relação ao seu antecessor.
Se o argumento de Zeca Amaral é esse, tenho de estar de acordo com ele. Eu também tenho carteira de treinador e quando não há acordo em relação às condições que pretendo, o melhor é não continuar. O que me faz espécie é que disseram que Zeca Amaral tinha o mesmo salário que Hervé Renard. E se ganhava a mesma coisa, não podemos entender que um treinador abandone a selecção para ir treinar um clube.
Para já, tendo ele um compromisso com a FAF, tinha obrigação de cumprir o acordo. Ou então indemnizar a FAF. O que não entendo é que um treinador, em Angola, que chega à selecção nacional, abandone o cargo para ir treinar um clube. Isso me faz alguma confusão.
Compreende “a fuga” dos patrocinadores, também por incumprimento da FAF?
Isso é mau. Perder um ou outro patrocinador é normal acontecer, mas em catadupa é anormal. Essa situação deixa-nos preocupados, porque ficaríamos apenas com a Sonangol, enquanto os outros renunciam por tudo que lemos nos jornais.
Deveria haver um esclarecimento de quem de direito. Não tenho muitas informações sobre a área de marketing, e seria bom que a direcção da FAF viesse explicar as razões dessa situação.
A FAF aposta no marketing?
Não posso garantir. Não posso dizer sim ou não. Alguma coisa tem sido feita, mas não posso atestar que haja agressividade suficiente nessa área.
Mas o senhor era membro da FAF…
Sim, mas nunca fomos tidos nem achados nessas questões. E essa fragilidade institucional é que nos fez também sair.
É compreensível que o departamento de marketing tenha um único homem?
Hoje por hoje o marketing é vital para qualquer instituição, mais ainda para uma instituição que lida com o futebol.
A direcção da FAF prometeu atribuir prémios aos vencedores do Girabola, Taça de Angola e Supertaça. Três anos depois, nada. Porquê?
Não posso avançar as razões concretas. A direcção da FAF diz que só tem dinheiro para colocar as selecções a competirem, eu não tenho como apresentar as justificações que poderão não ser verdadeiras. Não cumpriu com isso e com outros, como a interacção com as associações. Não é de estranhar.
Como disse, fazia parte da equipa.
Por uma questão de solidariedade institucional, tenho de me rever nessa direcção, mas não conseguimos fazer o que prometemos, e para não estar exposto a situações de incumprimento, prometi me afastar e outros elementos que comigo entraram para essa lista de consenso.
Nove anos depois de se conquistar o CAN sub-20, a selecção desapareceu.
De facto. Esse foi o projecto que mais gozo nos deu. Lembram-se que nessa altura eu era vice-presidente para as selecções e tive o privilégio de trabalhar neste projecto antes de Justino Fernandes chegar à direcção da FAF. Quando chegamos ao título, devíamos ter reforçado as condições nestes escalões em todos os sectores. Mas ganhamos o título e estagnamos. Fomos ao Mundial na Alemanha e outra vez não conseguimos manter esse prestígio. E hoje vivemos as situações que vivemos.
Não desenvolvermos o futebol.
Se fosse presidente da FAF pediria demissão face ao estado das coisas?
Se fosse presidente da FAF não deixaria que as coisas chegassem a este estado. Poderíamos sim viver dificuldades, mas não chegaríamos ao estado em que estamos.
Não quero fazer afirmações para depois ser mal interpretado, até porque não quero plantar polémica, como tenho dito. Mas que realmente não é bom momento para o actual elenco, não é!
Qual é a saída?
Era trabalhar para ultrapassar tudo.
Mas no presente momento?
Não sei, não quero fazer futurologia. Quem lá está é que deve responder.
Muitas pessoas ligadas ao futebol sugerem demissão da actual direcção
Não é nada novo, se há quem pensa assim. Tenho ouvido opiniões também nessa direcção. Mas prefiro não tecer a minha opinião em relação ao assunto.Fiz até há bem pouco tempo parte do elenco e não gostaria de manifestar qualquer opinião. Não sei qual é o esforço que a actual direcção está a fazer para inverter a situação. Mas reservo-me ao direito de não expressar a minha opinião.
Como é que não se consegue ter hoje mais Jesus, Ndunguidi, Paulão e outros grandes craques e os clubes têm mais dinheiro e melhores condições de infra-estruturas?
Tem de haver um grande investimento em todos os sectores dos escalões de formação, desde as infra-estruturas até aos recursos.
Organizar todos os anos competições nestes escalões. Só assim teremos grandes jogadores. Porque de uma forma geral não temos tido competições, os espaços utilizados para a prática desportiva, quer nos bairros quer nas escolas, praticamente desapareceram em favor de interesses imobiliários.
As escolas de formação estão muito longe dos jovens, podíamos criar escolas em cada município e isso não tem acontecido. Há algumas escolas como os Flaminguinhos e Norberto de Castro, mas enfrentam muitas dificuldades. Nós, enquanto dirigentes do Petro de Luanda, criámos muitos núcleos em diversas zonas de Luanda, para alargamos as nossas opções e isso ajudou muito.
Acabaram porquê os núcleos?
As direcções têm mandatos, cada uma delas tem as propriedades. A actual direcção apostou, por exemplo, em ter campos sintéticos, que é de louvar, e isso depende de cada direcção.
O senhor foi deputado durante 16 anos, em particular da Sexta Comissão, porquê é que não evitaram a extinção dos campos, o único instituto de educação física e outras situações que prejudicam ou prejudicaram o futebol?
É uma situação para a qual os clubes também devem trabalhar, pressionando as associações, essas por sua vez a federação e, assim em cadeia, poderemos todos resolver o problema.
Não deixo de lhe dar razão, tem de haver uma atitude mais encorajadora, mais corajosa no sentido de fazer as alterações que se impõem, as legislações capazes de proteger os interesses do futebol e do desporto de um modo geral. Soube também que este ano vão ser construídas seis escolas de educação física.
Temos de fazer institutos com muita urgência estes anos, porque não podemos esquecer que essas infra-estruturas são importantíssimas para o desenvolvimento científico e sustentado do nosso desporto.
Vamos aguardar, mas não podemos esquecer.
Os treinadores de formação queixam-se de serem mal remunerados?
Tenho defendido que todos os escalões de formação devessem trabalhar já em relvado. O Petro de Luanda, por exemplo, conseguiu ter um campo de relva sintética para esses escalões, isso vai ajudar muito. A nível da Federação temos de obrigar que todas as competições sejam realizadas também em relva sintética, como aconteceu na última semana.
Só assim podemos ter desenvolvimento, grandes selecções e grandes jogadores.
Temos de trabalhar com as associações provinciais e com os governos provinciais para que, onde houver concentração de jovens, haja mínimas condições para os jovens desenvolverem as suas habilidades com qualidade. Hervé Renard tinha um grande projecto neste sentido, foi interrompido.
Mas não basta termos só bons treinadores estrangeiros ou nacionais. É necessário existir infra-estruturas.
Erguer infra-estruturas naquelas províncias que não têm, como Cunene, Kuando-Kubango, Lundas e outras, para que os jovens possam transitar com maior facilidade dos escalões de formação para os seniores.
E não acabar a carreira aos 29 anos… Pois é! É necessário que se consiga fazer um trabalho muito sério nos escalões de formação para que os jovens se afirmem aos 17 e 18 anos, como tem sido em todo mundo, e não se afirmar aos 25 anos, como acontece no nosso futebol. Depois coloca-se a questão da adulteração de idades, porque não conseguem se afirmar muito jovens no escalão superior e têm de adulterar a idade, o que contribui para que acabem as carreiras aos 29 anos.
Por quê é que os treinadores das equipas jovens não são bem remunerados?
Acho que já melhorou bastante.
Está a falar do Petro de Luanda ou da realidade do país todo? Estou a falar da realidade num todo, porque falo com muitos membros dos clubes e todos dizem que têm feito tudo para dar condições necessárias aos treinadores de escalões jovens. Mas pode melhorar, e isso depende da agressividade dos clubes em ir buscar mais dinheiro para dar melhores condições aos seus treinadores.
Os grandes clubes têm os presidentes impostos pelos patrocinadores. E os estatutos, como ficam?
Os grandes clubes sobrevivem graças aos patrocínios das empresas.E esses patrocínios são encaminhados em função da confiança que os patrocinadores têm em relação às pessoas que dirigem os clubes.
Mas são quase todas empresas estatais. E o dinheiro de todos nós?
Sim, não há nada que diga que os sócios não possam chegar a presidente, mas tem de ter confiança desses patrocinadores. É mau que assim não seja, sou da opinião que qualquer sócio deveria poder concorrer e chegar às direcções dos clubes, independente da sua relação com os patrocinadores, porque os estatutos não descriminam.
Por que é os orçamentos nunca são revelados, se é dinheiro do Estado?
Acho que são revelados, porque os clubes são obrigados a fazer isso nas assembleias. O grande problema é que não são assuntos muito mediatizados. Os órgãos de imprensa têm estado presentes nas assembleias e outras reuniões onde se fazem esses balanços, mas dedicam pouco tempo a esses assuntos.
Os nossos clubes têm melhores condições financeira e de infraestruturas do que muitos da África Central, do Oeste, mas Angola não exporta grandes jogadores.
Melhoramos muito em termos de competições africanas, já fomos campeões africanos em sub-20, houve equipas angolanas que chegaram às meias-finais e às finais, isso tem estado a acontecer. Em relação à exportação de jogadores não tem sido muito visível, mas temos exportado jogadores.
Trabalhados nas equipas angolanas?
Sim, muitos deles saíram do país muito jovem. É verdade que de forma visível e directa tem sido difícil, exceptuando aquela época em que saíram Vata, Abel Campos, Saavedra, Paulão, eu mesmo que aos 33 anos ainda fui jogar no Varzim, mas regredimos muito. E é por isso que falo sempre em investir mais e melhor nos escalões de formação para que possamos exportar jogadores com 20 e 21 anos, porque se não enviarmos jogadores com essas idades, e que possam ter visibilidade internacional, é porque não trabalhamos o suficiente.
Não há tradição dos nossos clubes tornar os seus craques porta-bandeira porquê?
É uma situação que também me incomoda. Acho mau, que não haja essa cultura, que pessoas como Ndunguid e outros não sejam tidos nos clubes onde se entregaram de corpo e alma. São elementos valiosos, com experiência aproveitável, deve ser aproveitada a imagem desses jogadores, que pode servir de incentivo. Mas tem sido ao contrário daquilo que as direcções pensam e fazem. Esses jogadores são muitas vezes críticos com situações com as quais não concordam e a tendência é serem afastados, com o que eu não posso de modo nenhum concordar.
Não aceito que Ndunguid, por exemplo, esteja fora do futebol, porque ele contribuiu para o que o nosso futebol é hoje. Não é só estar nas associações, é preciso serem promovidos para que o futebol tenha sempre referências.
Porque acha que Manucho Gonçalves não se impôs no Manchester United?
Manucho foi para uma equipa de sonhos, uma das melhores do Mundo, e acredito que talvez se tenha deslumbrado. Chegar lá foi muito importante para Manucho, mas mais importante era impor-se. Isso não aconteceu, e só ele é que pode explicar as razões. Seria um orgulho nacional vê-lo jogar no Manchester United, mas a realidade é que não se impôs. Não acredito que tenha sido pelo clube que não se impôs. Vamos esperar que ele possa fazê-lo nas outras equipas.