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Urge um encontro nacional sobre a música popular angolana

Vamos começar por falar da música, que agora, para os desfiles de carnaval é pré-gravada, isso não tira a autenticidade do carnaval?

Retira. Participei numa reunião, no Ministério da Cultura, e há, de facto a preocupação do Ministério em acabar com as gravações. Os grupos apresentam-se em playback e isso retira toda a carga natural, e emotiva inclusive, de uma execução ao vivo. Todas as pessoas sabem disso. Mas há questões técnicas muito específicas ligadas a um desfile com música ao vivo. Iria implicar um aparato técnico, que já houve no passado, que teria de ser muito bem orientado, do ponto de vista técnico, do posicionamento dos microfones… porque os músicos, quer a liderança vocal, quer os coros e quer a bateria, aqui estou a referir-me a percussão, deslocam-se, estão em movimento.

Houve uma reunião com as principais empresas ligadas ao som para se tratar da sonorização, este ano já não será possível, provavelmente no próximo ano haverá uma saída. Será uma decisão colegial, reunindo toda a gente.

Depois teremos o problema do número e da qualidade dos nossos instrumentistas, provavelmente não os teremos em número suficiente capazes de tocar em pleno desfile … Fomos perdendo tanto dançarinos como bons executantes. Perdeu-se tradição dos funileiros, também.

Aqueles artífices ligados a construção dos instrumentos do carnaval, desde as puitas às cornetas… era um trabalho artesanal muito interessante. O que resta da tradição do carnaval, no entanto, já é uma herança.

Repare que a origem dos grupos de carnaval é familiar, são famílias, os grupos pertencem a famílias e, as vezes, fica difícil a mudança para alguém que não seja da família. Na melhor das hipóteses o que acontece é esse lugar ser ocupado por um vizinho próximo, do bairro … isso é uma transformação muito lenta.

Apesar dos vários cortes ocorridos desde o carnaval colonial, passando pelo Carnaval da Vitória e hoje temos os blocos de animação, houve muitas transformações …

Quando temos um carnaval com música pré-gravada, blocos de animação, a presença de bailarinas brasileiras semi-nuas … e tudo isso quando se fala do resgate da tradição … o que temos é um carnaval moderno ou a descaracterização total?

A minha opinião as transformações do carnaval são inevitáveis.Vivemos num mundo globalizado, é trivial falar-se disso, e assistimos a uma crescente planetarização da cultura ocidental … Angola está no mundo e, naturalmente, foi permeável a estas alterações. Mas nós temos um regulamento do carnaval, quanto ao porte, as alegorias, a dança, a música, a postura do comandante, etc., tudo isso vem ainda do Carnaval da Vitória. Com o advento dos blocos de animação o regulamento não se transformou.Temos um regulamento do tempo do Carnaval da Vitória com um carnaval novo. Temos de adaptar o regulamento … e julgo que no futuro os blocos poderão passar da animação para a competição.

Sendo o carnaval uma manifestação de massas, para toda a gente, como se entende a competição por grupos seleccionados e, mais desequilibrado ainda, o facto de os grupos de Luanda terem mais apoios e também prémios maiores que os das outras províncias?

Há comissões preparatórias provinciais, o carnaval, apesar de ser uma festa nacional, tem realidades específicas em cada província. já se pensou num carnaval nacional em que haveria representatividade das províncias no grande desfile da Marginal, que este ano será na Marginal Sul, Praia do Bispo …

É bem-vinda esta alteração do local?

É produto das obras na Marginal de Luanda

Há, portanto, perspectiva de regresso ao espaço habitual?

Não sei se haverá um retorno, não sei. Mas a verdade é que as obras condicionaram a alteração. Mas, como ia dizendo, já se pensou num carnaval nacional, mas a verdade é que isso implicaria grandes movimentações, grandes encargos financeiros e logísticos … acho que para já isso é impraticável. Cada província tem a sua realidade …

E acha que se estimula a caracterização própria de cada província, para que alguém possa dizer que gosta mais do carnaval do Lobito ou de Malange por estas e aquelas razões?

Sim. Têm traços identitários próprios, que fazem a diferença… há uma tentativa de uniformização que se verifica nos últimos anos, há uma grande movimentação dos grupos do Interior … O carnaval, na sua origem, está localizado no litoral, hoje, produto de uma maior comunicabilidade e de uma maior “evolução” do carnaval de Luanda (também é discutível, esta evolução), há uma tentativa de aproximação das províncias ao carnaval de Luanda. não se trata de imitação, creio tratar-se apenas de uma demonstração do “Nós também podemos fazer!”. Temos o grupo Samanionga da Lunda

Norte e outros que se têm apresentado, de certa maeira, “luandizados”.
E temos também os grupos daqui do Bengo, mais próximo, O União Kuanza, por exemplo… mas voltando à dicotomia entre a tradição e a modernidade, o cerne disto.

Acho que a própria modernidade do carnaval tem de estar assente na tradição. A grande fonte inspiradora do carnaval moderno tem de ser a tradição, porque senão ficamos com um carnaval descaracterizado. Se tivermos um carnaval à brasileira fica meio complicado, porque o nosso carnaval tem traços de identidade muito próprias. A kazukuta do Kabô-Comeu, a varina, o União 54 das mulheres pescadoras, a tipologia de apresentação do União mundo da Ilha, por exemplo, são coisas muito próprias e que advêm das danças tradicionais, pré-carnavalescas.

Estas danças migraram depois para o carnaval. O carnaval como manifestação cultural ocidental (foi cá introduzido pelos portugueses) colou-se às danças tradicionais … isso faz a identidade própria do nosso carnaval que não se pode perder de maneira nenhuma.

Há que defende-los. Como?

Toda a regulamentação, se é que haverá novos regulamentos, toda a regulamentação que vier a ser feita deverá ter como fonte inspiradora a tradição. Eu sou pela modernidade, mas uma modernidade inspirada na tradição.

É então capaz de defender uma espécie de “industrialização do carnaval” mas com conteúdo da tradição?

Obviamente. Cruzando artesãos, artistas plásticos, engajando os compositores consagrados (e isso tem sido bem feito com o prémio BAI Canção de Carnaval), os cantores consagrados na elaboração da música do carnaval. O facto de se defender a tradição não significa que temos de ter má qualidade.

Se se trata de canção, voz, vamos buscar quem canta. Mas ainda há uma grande resistência dos grupos, exactamente te por causa desta vertente familiar dos grupos, que está muito enraizada, sobretudo nos grupos da classe A…

Mas também temos a sensação que toda a gente quer escrever letras de músicas. Olhando para a nossa realidade vê-se que os autores da esmagadora maioria das letras são os próprios interpretes e, com alguma pena, vemos que uma parte destas músicas não tem qualidade nenhuma de escrita…

Vivemos muito nos novos tempos e vivemos momentos históricos de acentuada conturbação social, ou seja, são factores que iriam propiciar uma situação de continuidade, de herança das nossas tradições, quer musicais, quer da forma de se dançar o carnaval…o que acontece agora é um novo contexto que motiva, por sua vez, novos conteúdos textuais para as canções de carnaval …não vamos ter a veleidade de querer canções iguais as dos anos 40, dos anos 30 ou dos anos 20, é impossível.

O que se pode fazer, e o BAI está nesta senda, de melhorar as canções de carnaval, é engajar quem bem compõe e quem sabe da estrutura, porque a canção do carnaval é diferente da canção da música popular normal. Podemos considerar a canção do carnaval como um departamento da música popular. Também não é música tradicional, eu entendo a música tradicional como sendo aquela que não tem autor, aquela que normalmente se manifesta no universo rural, a que não tem um compositor individualizado, ou, se tem, perdeu-se no tempo. Na música popular nós temos um compositor individual, conhecido, normalmente há um desdobramento de acordes, falando em termos técnicos … a música popular não é bitonal… vamos considerar a música popular como sendo a das cidades, é assim que é aceite por certos autores quando reflectem sobre esta questão.

Embora sendo música popular urbana, a música de carnaval, porque não é música tradicional, ela tem características muito próprias, podemos até considera-la um departamento a parte da música popular.
Isto do ponto de vista da concepção instrumental e da mensagem? E da mensagem que normalmente é uma piada … ela tem características muito próprias …

O kuduro pode ser música de carnaval?

Pode. podemos introduzi-lo …

Pela semelhança com a kazukuta ou pela mensagem?

Podemos adaptá-lo a música de carnaval…

Podemos dizer aos jovens que os bifes nãos começaram hoje, começaram no carnaval?

Exactamente. O que poderá acontecer é que vários segmentos da música popular, mais o kuduro que está mais próximo da música de carnaval, pela secção rítmica, nós temos uma batida que facilmente é adaptável às danças de carnaval … é possível a adaptação. Mas a música de carnaval, própria, não é, seguramente, a música de kuduro, isso não é. Pode haver uma adaptação.

Eu sou daqueles que pensam que na arte as coisas não acontecem de forma rígida, há sempre a possibilidade de adaptações, de se cruzarem influências. Acho até que seria muito bonito o surgimento de um grupo de carnaval com executantes de kuduro, o kuduro no carnaval com um grupo de danças… se o carnaval é a maior manifestação cultural angolana, se é uma manifestação eclética, que recebe subsídios de todos os quadrantes culturais, porque vedar o kuduro? O que vai acontecer é que teremos sempre um segmento mais próximo da tradição e a tradição e a modernidade são rasgos históricos que se verificam em qualquer época da história. Tivemos tradição e modernidade na época da Rainha Ginga. Se alguém perguntasse a Rainha Ginga se era moderna, naquela época, ela diria “super moderna” (risos), hoje é tradição. Não podemos conceber a modernidade sem tradição, isso só numa abstracção.

E recuando, o que pensa da teoria que diz que o tango, eventualmente, o fado, eventualmente, e o samba terem sido inspirados no semba ou, pelo menos, pelos escravos ido de Angola… isso tem verdade ou estamos a exacerbar o nosso orgulho e importância como raiz de tudo?

Não diria propriamente do semba, mas nas manifestações musicais africanas e também angolanas. Não considero o semba como sendo a matriz que foi desenvolver ritmos na América Latina, incluindo o Brasil, e, até, os próprios Estados Unidos da América, porque o escravo não foi só angolano. Embora haja uma forte influência da cultura angolana na argentina, os famosos escravos do rio dela Plata … há uma reunião que nós aqui chamamos “sentada” que na argentina se chama kambakwa. Fiquei espantado quando lá estive. Praticamente não há negros, desapareceram, mas os afros descendentes e mesmo os argentinos vindos da Europa, Espanha, etc., usam o termo Kambakwa, trata-se de uma reunião de tertúlia. Kamba é amigo, kambakwa é encontro de amigos. Sabemos também que o norte de Angola, Uige, S. Salvador, teve muita influência na cultura argentina e também na brasileira, tal como Benguela, etc. A influência da angolanidade é muito forte.

O samba não terá vindo do semba, provavelmente terá vindo das massemba, porque o estádio mais antigo do semba é a massemba. Para facilitar as coisas diz-se que o samba vem do semba, mas vem da massemba.


São irmãos?

É, são irmão. A massemba é a rebita, dançava-se na rua. Tudo aqui era espaço, era campo. Na análise da evolução e da formação da música é extremamente importante a relação espacial. Tudo aqui era campo, com a chegada dos portugueses os angolanos foram sendo afastados mais para a periferia e criou-se um espaço intermédio que é o musseque. O musseque é um espaço intermédio.

O musseque, que não é cidade nem é campo, está entre um e o outro, tornou-se no espaço de maior influência da música popular. Eu morei no musseque e ainda me lembro, no Rangel, que em alguns aspectos aquilo parecia mato, campo. A minha mãe chegava com as coisas, da honga, sentava-se com as minhas tias, falavam em quimbundo, era como se estivessem no campo… o que quero dizer é que aqui dançavase na rua. Quando a massemba passa para a sala, com os portugueses, com a introdução do acordeão, é que se lhe dá o nome de rebita. E a palavra semba aparece grafada já nos anos mil e oitocentos e dezasseis ou dezassete, também por Alfredo Trony, em Nga Muturi … há um outro texto anterior em que a palavra semba também aparece grafada …

Mas a palavra poderia existir antes disso?

Obviamente que já seria falada, porque a linguagem oral tem uma velocidade maior que a escrita.

Se influenciamos outras culturas, se hoje exportamos o kuduro, tudo isso, nos dias de hoje, não se pode dissociar do turismo, mas o que temos é que nos espaços de maior circulação de turistas estrangeiros, como a Ilha de Luanda e as praias do Sul, já que no Kilamba quase só vão angolanos, por exemplo … nestes locais turísticos ouvimos phunk e Djs americanos e europeus…

Nós ainda temos muitos complexos.

Em Cuba é rumba …

Mas o turista inteligente está preocupado com a música angolana, com a autenticidade das nossas vertentes culturais. Acho que ainda existe muito complexo com relação a música angolana, principalmente com a música tradicional, mas isso é um problema de postura.

Não sei se se deveria decretar … julgo que se pode orientar a presença da música angolana, mas as pessoas nos seus espaços são livres … mas mesmo na Ilha de Luanda já há muita música angolana … tem de se ouvir mais. Há outro problema também que é saber onde está a qualidade da música que está fora do sucesso. Há uma tendência, quase automática, de se valorizar a música que está no top, de consumo imediato.

Temos de ter cuidado com isso, eu fui ver um espectáculo no Kilamba, o despique entre os Kiezos e os Jovens do Prenda, interessantíssimo, fantástico. Nós desconhecemos o valor da música angolana, sobretudo aquela que foi feita na época colonial, tanto no seu conseguimento estético como no seu conseguimento artístico… fiquei espantadíssimo ao ver cantores que têm mais de 60 anos em palco, motivados pela nostalgia, por um lado, e pela qualidade.

Foi bonito ver o Augusto Chakaiá a cantar o Angélica, a interpretar o Samba Samba, é fantástico. O próprio Zé keno, o Voto Trindade que foi dos Bongo e que acompanhou os Kiezos … temos de encontrar mecanismos institucionais que valorizem a qualidade musical que está fora do sucesso imediato e regular a sua presença nos espaços de maior afluxo de turistas. É para discutir, mas acho que urge um encontro nacional sobre a música popular angolana, chamando até experiências estrangeiras como a moçambicana que é muito interessante. Musicalmente, os moçambicanos e os caboverdianos estão muito mais evoluídos que nós…

E porquê? É só a falta de formação?

É a falta de formação. A música angolana é aprendida por imitação, não há uma tradição de academia, de conservatório. Os que sabem música aprenderam nas instituições de catequese e caridade missionária, Casa de Rapazes de Luanda, Casa Pia, etc., são poucos.

Há geração de trompetistas que desapareceu, o último foi o Nando Tambarino, cuja herança está com o Nanuto … temos uma grande deficiência de metais, de pianistas, na percussão então nem se fala. Há uma desvalorização da nossa percussão. Porquê que a percussão característica do carnaval não migra para a música popular? Temos muitos problemas para resolver, talvez um grande debate sobre a música popular fosse abrir caminho…

Quando se identifica o espaço musseque como meio de inspiração e produção da música popular, sem estanquicidade, claro, e quando temos uma música completamente urbana, hoje, e digitalizada, esta música de computador, feita num quarto é música angolana ou música feita por angolanos?

Isso é a lógica do facilitismo e do comércio. Para mim, embora algumas possam resistir ao tempo, estas manifestações, normalmente têm vida efémera …

Mas a verdade é que se vão replicando, são cada vez mais e os jovens do Prenda, por exemplo, não os teremos por muito mais tempo

Exactamente. Há uma estreita ligação entre o recurso a digitalização e a ausência de instrumentistas angolanos. o mercado de instrumentistas, de músicos angolanos, é muito pobre. Bons bateristas angolanos contam-se nos dedos de uma mão e não sei se chegam, não temos guitarristas, a última geração de guitarristas está com o Quintino, o Tedy e pouco mais, não há mesmo. Não temos. É preciso formar músicos.
Nós só estaremos ao nível do Mali, dos Camarões, do Senegal e da África do Sul se repensarmos a questão do ensino artístico, é grave a situação que nós vivemos. O que tem estado a acontecer é que os cantores se socorrem de músicos estrangeiros, o que é porta aberta para a descaracterização. Fica difícil a imposição dos nossos ritmos quando temos que nos socorrer de músicos estrangeiros.
Temos de apostar na formação, o que prolevará a diminuição da digitalização, a uma maior qualidade e, com isso, serão maiores as probabilidades de enfrentar a concorrência internacional.

O que é a internacionalização da música popular? A internacionalização da música popular não é tocar numa discoteca X ou Y do Rossio, é fazer com que a nossa música e a nossa cultura façam parte dos valores do outro. Quando dois nova-iorquinos se interrogarem se já ouviram o último disco do Bangão estaremos perante a internacionalização da música popular angolana. Da mesma forma como perguntamos aos amigos se já ouviram o último disco do Lokwa kanza, ou da Madona. Será que isso acontece em França com o Bangão e com o Elias Dia Kimuzo? Lamento o facto de o Mito Gaspar ter abandonado a música, julgo que era dos artistas com tudo para conquistar o mercado internacional, ele, o Carlos buritty …

Tem de viver. Isso não será o reflexo de uma sociedade que não lida bem com a sua música e remunera mal os seus músicos?

Não temos uma tradição ao nível do empresariado artístico. Mesmo no tempo colonial era incipiente, circunscrito ao Luís Montez que fazia os Kutonoca, aquelas gravações tumultuosas da etiqueta Rebita da FADIANG, depois veio a CDA com o Sebastião Coelho, mas o nosso passado, do ponto de vista empresarial, do ponto de vista da agenda cultural da cidade à semelhança do que acontece em França, com o papel de Jacques Lang, tal como na Alemanha, …a forma como a cultura está arrumada com a cidade, como dialoga com a cidade, isso não existia no tempo colonial.

Nós não temos tradição nisso, por isso é que tudo anda aos pontapés, cada um diz hoje é o dia do fulano tal, agora vou trazer o americano X, hoje é festa disso e daquilo. O próprio Ministério da Cultura é surpreendido, enquanto existem cidades onde se pode saber a agenda cultural desde o dia 1 de Janeiro até ao dia 31 de Dezembro …

E estas agendas até são publicadas com antecedência pela Câmara Municipal …

Claro. diz bem, a edilidade tem um grande papel a desempenhar nisso. No nosso caso seria o governo da província. Não só na música, como na dança, no teatro, no cinema, as feiras do livro, etc. tudo tem de ser programado, não é assustarmos-nos uma semana antes que vai haver um espectáculo da Yola Araújo … a cidade tem de ter uma espinha dorsal cultural, uma agenda para a fruição cultural pelo público.

E a história do patrocínio. Os nossos músicos pedem patrocínios para gravar, para cantar, é só porque não temos bons estúdios no país, ou porque os músicos são preguiçosos e não pegam na guitarra para percorrer, por nove meses, cada cidade e cada buala deste país em espectáculos que podem dar dinheiro?

Isso seria resolvido com a Lei do Mecenato, que já se discute há muito tempo e que parece estar na sua fase mais avançada, mas quem vai buscar patrocínios primeiro tem de convencer. Dizer que o patrocinador é mau … vou patrocinar o quê? é como alguém apresentar-se o José Mourinho dizendo-se craque em futebol, a primeira coisa que o Mourinho fará é manda-lo ao campo.

O produto quando é bom acaba por encontrar um patrocinador. O pior é quando os dinheiros do patrocínio são usados para outros fins. Mas é simples: o candidato a artista apresenta o seu produto, se o patrocinador reconhecer qualidade surgirá o apoio. Muitos artistas apresentam produtos torpes e ninguém, obviamente se interessa, o bom artista terá sempre apoios. 

Somos um povo amante da música e da dança, mas não temos uma rede de casas nocturnas para se ir ouvir música em qualquer dia da semana. Não temos uma Luanda Musical. O que nos falta para darmos trabalho aos músicos e para que o cidadão possa escolher o tipo de música e o local quando lhe apetecer? Cabo Verde, o Mindelo, tem sempre música são vivo …

Os espectáculos são caros. Não acho que os produtores, os músicos, etc., não queiram fazer espectáculos, nada disso, porque o espectáculo pode ser uma grande fonte de lucro tanto para os artistas como para a venda de discos. Já fui comprar um disco depois de ter visto um espectáculo, um artista que eu não conhecia. Mas estão caros o espaço, o som, a publicidade e a iluminação, apenas estes quatro factores, há outros. A contratação de músicos, etc. É muito caro.

Talvez subvencionado, aumentar o número de empresas de som que é muito caro, aumentar o número de espaços… e a bilheteira não chegar para amortizar os custos de produção, fica complicado. Já estive nesta, estou a falar com conhecimento de causa, organizei o espectáculo do Sabu Guimarães, quando a minha editora lançou o deu disco Eme Ngó, e depois recuei. Faço espectáculos de média dimensão no espaço do CEFOJOR, dentro da Feira Internacional da Música e da Leitura, com uma programação cultural de sete dias, com venda de livros e discos e tenho sete espectáculos. Fica tudo muito caro.

Mas quase não temos bares com um espaço para a música …

Já temos, mas só naqueles espaços em que a clientela gera lucros para fazer face aos gastos com a música. Sítios como o Miami que não para de dar música aos domingos e quintas feras, é já uma tradição … mas os grupos também têm de se organizar, porque há muita qualidade pelos musseques e tem de haver uma instância intermédia que negocie com os espaços, não será o dono do restaurante a ir procurar pelos músicos.

Somos um país grande e diverso, mas se perguntarmos a um cidadão médio sobre a música do Kuando kubango provavelmente não saberá, não estamos a afunilar muito para os estilos de Luanda? está todo o país a fazer semba…

Está em vias de extinção, oui já se extinguiu, o músico investigador. O facto de eu ser de Luanda não quer dizer que tenho de cantar apenas o semba, poddo ir ao Cunene, ao Huambo, ou a outro lugar e investigar os ritmos destas áreas. Esse tipo de figura está em extinção. Também a sobrevalorização do que acontece em Luanda deve-se ao facto de Luanda ser a capital. Isso é assim no mundo inteiro, não é só em Angola. Nós ouvimos mais o fado de Lisboa que o de Coimbra, por exemplo, mas Coimbra também tem o seu fado. Se a capital fosse Ondjiva talvez ouvíssemos mais os estilos do Cunene. Outra, o Betinho Feijó saiu de Luanda e foi para Portugal, o fenómeno migratório dos luandenses para Lisboa também permitiu um outro desenvolvimento do semba. O semba começa a ter violino com o Betinho Feijó, o semba do Burity. Mas faltam-nos investigadores para legitimar o discurso musical que ocorre fora de Luanda, mas isso é o Estado que deverá resolver.

Falou do Burity. O Top da Rádio Luanda premiou, recentemente, o Puto Português e não o Carlos Burity, isso soou um pouco como ofensa para algumas pessoas que se dizem conhecedoras do semba

O mais interessante seria conhecer os critérios usados pela Rádio Luanda para premiar os músicos. Aí encontraríamos a chave para estas interrogações que para mim são inquietantes.

Mas legítimas? Subscreve-as?

De maneira nenhuma. Provavelmente, se dependesse de mim não ganhariam essa classe de indivíduos, não sei quem ganharia … os critérios é que tem de ser claros e divulgados, para não ficarem estas dúvidas. Pode parecer uma decisão de grupo, de conveniência, e isso é mau para a música popular.

21 de Fevereiro de 2011
15:09
 
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