O Hospital Pediátrico David Bernardino registou cerca de 50 mortes entre sábado e quarta-feira, segundo dados fornecidos a O PAIS pela direcção desta unidade hospitalar.
A maioria das mortes ocorreu entre Sábado e terça-feira. Dos 745 observadas 196 ficaram internadas, grande parte dos quais com malária aguda que resultaram em 60 transfusões de sangue.
Doze crianças morreram no sábado e doze na quarta-feira, um total de 24, de acordo com o livro de registos da unidade pediátrica.
Esses números agudizaram as preocupações da direcção do referido hospital, onde nos últimos dias temse verificado um elevado número de mortes de crianças, a julgar pelas informações avançadas recentemente por este jornal.
No Domingo, o concorrido Banco de Urgência recebeu 270 pacientes, mas por imperativo médico 75 acabaram internados. Do referido grupo, oito não regressaram à casa com vida.
Já na segunda-feira, a Pediatria registou dez óbitos, num dia em que tinham sido internados 400 pacientes dos 409 observados neste dia pela equipa médica.
Nesta quarta-feira, o corpo clínico atendeu 312 pacientes, sete dos quais morreram vítimas de malária aguda, uma das doenças com maior incidência naquela unidade hospitalar. O nível de atendimento e a falta de acomodação continua a preocupar os familiares dos pacientes que se dirigem diariamente ao Banco de Urgência do Hospital Pediátrico de Luanda David Bernardino.
A falta de camas para os doentes e a morosidade na triagem tem sido uma das preocupações apresentadas Sebastião Félix Rila Berta à direcção do hospital que se dedica a assistência à criança e adolescentes nos seus mais variados aspectos, tanto a nível preventivo como curativo.
A exiguidade de camas no Banco de Urgência, que tem uma capacidade para apenas 30 internados, facilita a sobrelotação do recinto, onde outras crianças, para não serem mandadas de volta à casa, são atendidas no chão ou no colo dos seus pais.
Mesmo com enfermidades diferentes, duas crianças partilham a mesma cama. Uma a apanhar soro fisiológico e outra no oxigénio, facto que arrepia qualquer pessoa que visita o local.
No corredor que dá acesso à casa de banho, O PAÍS encontrou, outra vez, crianças a dormir no lavatório, uma peça sanitária que serve a lavagem das mãos, rosto e outras partes do corpo. No chão havia crianças no soro.
“Com essas condições de trabalho não é possível ser rigoroso com o número de internamentos. Os outros municípios não têm hospitais pediátricos”, afirmou um médico que pediu o anonimato.
O profissional explicou que enquanto “esse vazio não for resolvido nos demais municípios, a situação não vai minimizar-se, porque todos vêm para a unidade central que está a rebentar aos poucos”.
O número de pacientes que afluem ao Hospital Pediátrico tem sido exagerado, o que às vezes dificulta o trabalho do corpo clínico em serviço, segundo o profissional.
Apesar da preocupação dos médicos e enfermeiros em tratar os pacientes, gritos, choros e gemidos tornaram-se sons normais no Banco de Urgência do Hospital Pediátrico.
Maria Helena, por exemplo, chegou ao Hospital com o seu filho Hélder de seis anos às seis horas da manhã, mas só foi atendida quando eram onze horas.
O pequeno sentia dores nas articulações.
A mãe do menino disse a O PAIS que o filho passou mal na noite anterior e esperava que o atendimento fosse mais célere, mas a sua expectativa foi transformada em desilusão.
“As autoridades competentes têm de fazer alguma coisa para esta unidade hospitalar, porque todas as semanas o número de casos triplica”, referiu Helena.
Mesmo sob cuidados médicos, a expressão facial de algumas mães traduz um ar de preocupação e de incredulidade, porque a qualquer instante podem regressar à casa com ou sem o filho.
A preocupação das mães em saberem se os filhos estão a ser ou não atendidos faz com que a maioria não pregue o olho nem arrede o pé da sala.
Quem também esperou muito para ser atendida foi a jovem Ana, mãe da pequenina Suzi, de seis meses, que estava com diarreia, vómitos e falta de forças nas articulações.
Ana vive na Terra Vermelha, bairro localizado entre o Cassequel do Buraco e o Golfe, nas cercanias do aeroporto, viu a filha nas mãos dos médicos quatro horas depois de ter chegado ao hospital.
Zatula João teve a situação mais facilitada ao levar o seu filho para uma consulta de rotina no edifício. O menino sofre de falciformação.
O responsável do menino referiu que o atendimento nas consultas externas é mais simples.
A higiene no Banco de Urgência não é das melhores, embora existam empresas que prestam serviços nesta área.
Na última semana, 99 crianças morreram de doenças respiratórias agudas, infecções e anemias, facto que chocou a sociedade, de acordo com informações publicadas em vários órgãos de comunicação social.
Entre os meses de Janeiro e Abril a situação foi crítica, mas no mês em curso, Maio, a tendência é crescer e não diminuir, de acordo com a direcção do hospital.