Polícias afectos à Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC), destacados no processo de busca das causas que têm vindo a motivar a onda de desmaios de alunos do PUNIV do Projecto Nova Vida, município do Kilamba Kiaxi, em Luanda, surpreenderam, na manhã de Quarta-feira, 18, os referidos estudantes com um procedimento de pesquisa pouco comum essa classe estudantil, que se encontra a realizar provas na escola do ensino secundário do I Cíclo nº 1028, vulgo Pedalé, município da Samba.
Importa lembrar que os adolescentes e jovens da escola 6052 foram transferidos para o estabelecimento de ensino da Samba, por causa do segundo encerramento forçado que aquela escola mereceu, em função dos sucessivos desmaios de alunos, supostamente causada por uma substância tóxica, que ora se presumia vir do laboratório, ora das hortas das redondezas.
Depois da prova de Língua portuguesa, por sinal a primeira no calendário do primeiro trimestre dos pré-universitários, os alunos eram dirigidos, faseadamente, para a casa de banho, localizada logo ao lado direito da entrada principal que dá para as salas de aula e para o pátio interno.
Postos aí, eram submetidos à revista, com apalpadelas de cima a baixo e vice-versa, uma actividade protagonizada por peritos da investigação, que não se escusavam de meter as mãos no bolso dos académicos, sobretudo dos rapazes, conforme contactou, através do gradeamento da entrada, a nossa reportagem, cujo acesso foi negado, sob pretexto de a imprensa não estar autorizada a presenciar o acto.
A desculpa do responsável máximo do PUNIV não tinha razão de ser, já que a direcção da escola e a própria polícia permitiram a entrada de um outro órgão de comunicação social.
Limitado, O PAÍS procurou ouvir os rapazes que saiam do check-up da polícia, tendo estes informado a este jornal sobre outras medidas.
“Eles estão a tirar-nos as impressões digitais”, disse o rapaz que se identificou com o nome de Loy, enquanto mostrava o seu dedo indicador direito manchado com tinta negra, mesmo depois de o ter lavado em água e sabão, que constituía outra das exigências à disposição dos estudantes.
Para Loy, a medida da estampagem do dedo deve indicar que os investigadores tenham capturado das operações anteriores alguns objectos manipuláveis, caso contrário não encontra sentido para tal.
Por sua vez, uma rapariga de 16 anos de idade, que preferiu falar sob anonimato, começou por revelar o seu estado de choque, ao passar por um processo, que considerou estranho.
“Senti-me como uma pessoa acusada de um mal que não cometeu e agora me sinto muito deprimida”, desabafou, respirando num ritmo atrasado, como se lhe faltasse o ar.
De acordo com a nossa fonte, as mulheres estavam a ser revistadas por senhoras da DINIC, mais adentro dos lavabos, por razões de cautela, uma medida que inquietou os seus colegas.
O cerco da polícia não aconteceu apenas depois das provas, porque, antes das mesmas terem começado, cada aluno que chegasse, era parado à entrada da instituição escolar por uma equipa constituída por seguranças da escola e professores, reforçada com agentes da Brigada de Segurança Escolar das divisões da Samba e do Kilamba Kiaxi, conforme se podia ler nas duas viaturas da corporação estacionadas no local.
Essa vistoria tinha como alvo, não só o próprio estudante, como também suas pastas e outros haveres, que deviam ser deixados por detrás das salas de aula. Os materiais de acesso livre para as turmas eram lápis, esferográficas, borrachas e réguas, sendo que marcadores, lenços de bolso e pentes, bem como corta-unhas, verniz, gloss, com destaque para batons, para além de pastilhas elásticas constituíam elementos de grande suspeita, ao ponto de ficarem depositados no recinto.
Mesmo assim, a menos de cinco minutos das nove horas, três registos testaram, pelo mesmo número de vezes, o cordão cerrado de segurança. O uso da casa de banho, o cumprimento de medicação comprovado a partir de uma receita médica e a necessidade de comprar algo para comer ou beber por parte dos alunos foram os motivos apresentados para convencer a equipa de segurança destacada na área.
Revistar professores e directores
Devido à medida imposta pelos agentes da investigação criminal, que fez passar todos os alunos pela impressão digital e lavagem das mãos, para além de vistoria e cadastro de dados pessoais, os alunos acharam-se injustiçados, uma vez que eles constituem uma comunidade com os seus professores, directores e outros funcionários, conforme alegaram à nossa reportagem.
Por isso, eles exigiram que esses trabalhadores da instituição pré-universitária, independentemente do cargo que ostentam, também sejam submetidos ao mesmo processo.
“Nunca se sabe se um professor, director ou outro funcionário é que está a causar tudo isso”, questionaram, alegando haver na escola muitos sinais de luta de poder.
Já um pouco reconfortada, a aluna contou que terminou a prova rápido, para se ver livre do aglomerado normal que os pré-universitários têm criado depois do teste, para comentarem sobre a facilidade ou dificuldade do exame, mas foi chamada para o pátio da escola, a fim de ser submetida a um inquérito.
“Quase que isso me faria encontrar o desmaio que tenho evitado da minha forma”, ironizou, tendo-se colocado na condição de submissão total às ordens da polícia de investigação.
Ainda assim, a entrevistada manifestou o seu descontentamento pelo facto de a direcção da escola não os ter prevenido sobre tal actividade.
Mano, outro aluno ouvido pela nossa reportagem, não contrariou a posição tomada pelos policiais, entretanto mostrou-se preocupado com o facto de seus dados terem sido escritos numa lista, que diz desconhecer os verdadeiros destino e o tratamento.
“Perguntaram-me o nome, a morada e a data de nascimento e escreveram numa lista, onde poderão constar os dados de todos que vão passar por isso, mas nós ficamos sem saber afinal para onde vai mesmo o cadastro e qual é o real trato do documento escrito”, reclamou, argumentando que ele e seus colegas, mesmo estando na condição de suspeitas, têm o direito à informação no concernente, por ser assim que aprendem da disciplina de Introdução ao Direito.
A polícia deveria criar um ciclo de comunicação sobre os resultados de cada operação efectuada, para dar mais credibilidade às pessoas, soube O PAÍS de Mano, que não hesitou em se questionar sobre o efeito das investigações feitas no Projecto Nova Vida.
“Acusaram-se os camponeses, pensaram que o gás vinha do laboratório, a polícia foi ao local levantou dados e hoje somos nós os protagonistas, porque estamos noutra escola”, inqueriu, lamentando o facto de não haver eficiência e clareza nas investigações.
Ainda assim, o jovem espera que os novos métodos dos agentes da investigação criminal abram caminhos para se aclarar, de uma vez por todas, as causas de um fenómeno que, para si, só falta ceifar vidas.
Apesar de os indicadores terem apontado para uma segurança total, um aluno recusou-se em fazer a prova, tendo recuperado a sua pasta, momentos depois de passar pelo portão. Segundo os polícias e os seguranças escolares, o menino deixou-se revistar, dirigiu-se à sala, mas, logo a seguir, recuperou a sua pasta e mandou-se para fora da escola, alegando que alguém lhe tinha ligado para se encontrar consigo.
A atitude do garoto pareceu normal para a maior partes dos elementos da vistoria, entretanto não convenceu um segurança do PUNIV destacado no Pedalé, que testemunha um alegado mau comportamento da parte do visado.
“Este rapaz é muito mal comportado e inspira muita desconfiança”, atirou, ao ponto de dizer que a sua conduta era motivo suficiente para o isolar, no sentido de inquerir as razões fortes de se abster das provas.
Enquanto o menino estava próximo da passadeira aérea, o guarda ainda pediu à polícia que o chamasse para tal fim, porém a sua solicitação não teve a resposta esperada.
Na tentativa de ouvir o fugitivo, este se recusou a falar para a nossa reportagem, mais deixou escapar que “esse guarda não me gosta, quer revistar tudo que é meu e eu não aceito. Além do mais recebi uma chamada para ir buscar alguém que não conhece aqui”.
Questionado sobre como havia de recuperar o exame perdido, o próprio disse que depois inventaria.
A questão passou a ser tema de debate para os professores e o director, que alinhavam pela ideia de que, por um lado, se devia chamar à responsabilidade o aluno na fuga ao teste, e, por outro, se faria um grande inquérito e esperava-se pela pessoa que vinha ao seu encontro na escola.
Inconformado, o segurança disse que o estudante com esse tipo de comportamento já devia ser expulso, da escola, porque não é vigésima vez que ele comete uma travessura à vista da direcção.”Eu mesmo já o apanhei muitas vezes pulando o muro da escola, cometendo actos indisciplinares, ameaçando e batendo colegas com o seu grupo, mas professores e direcção o acodem sempre”, rematou.