Economia
Angola superará em 2012 economias avançadas e países emergentes

No momento em que a economia mundial entra “numa fase nova e perigosa”, o FMI estima, no seu muito aguardado relatório anual, que Angola mais que duplicará o crescimento previsto para o planeta e evoluirá acima das novas estrelas emergentes. A inflação está em rota descendente e a posição externa é muito positiva
A economia angolana crescerá 10,8% no próximo ano, muito acima da economia mundial (4%) e mesmo da média de crescimento estimada para o conjunto das economias emergentes e em desenvolvimento (6,1%) Estas as projecções formuladas no relatório anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), World Economic Outlook, divulgado esta semana.
De acordo com o documento, a África Subsariana crescerá 5,8% em 2012. Angola é dos países que mais crescerá na região no próximo ano, muito acima da África do Sul (3,6%) e da Nigéria (6,6%).
O forte crescimento da economia nacional num contexto que se prevê seja marcado pela incerteza, pela desaceleração global e, em consequência, pelo recuo significativo no preço das matérias-primas, designadamente do petróleo, ficará a dever-se essencialmente, refere o documento do Fundo, a “uma forte recuperação na produção petrolífera, após uma interrupção em 2011”. Para este ano, o FMI antecipa um crescimento de 3,7% da economia nacional, revendo assim em baixo a sua previsão anterior e alinhando-a pela prudência da estimativa oficial (3,6%), fixada pelo Executivo em Junho, na “Fundamentação do Pedido de Autorização de Créditos Adicionais ao Orçamento Geral de Estado (OGE) de 2011”.
Em 2016, de acordo com o relatório, a economia angolana entrará em ‘velocidade de cruzeiro’, com um crescimento previsto da ordem dos 6%, valor que compara com os 5,1% estimados para o conjunto daÁfrica Subsariana, os 3,6% para a África do Sul e os 6% para a Nigéria. Particularmente relevante é o facto de o FMI, nas projecções que efectua para a evolução dos principais agregados da economia angolana, apontar para uma rota claramente descendente dos preços internos. Assim, se a inflação, aferida em termos de média anual, se situará em 15% este ano, descerá, nas contas do Fundo, para 13,9% no próximo. É de admitir, no entanto, que a descida possa vir a ser ainda mais acentuada. Como assinalámos na última edição de O País, a inflação média poderá mesmo vir a situar-se, no final deste ano, aquém dos 14%. O FMI reconhece que a persistência de um nível elevado de preços resultou, em larga medida, do acentuado aumento do preço dos combustíveis no mercado doméstico, aliás, uma medida plasmada nos compromissos firmados entre o Executivo angolano e a instituição internacional no âmbito do Acordo Stand-by subjacente ao empréstimo de USD 1,4 mil milhões para apoio à economia nacional na sequência da crise mundial de 2008/2009. Mas ainda mais expressiva, no que toca à tendência descendente d nível de preços internos no quadro das previsões formuladas no World Economic Outlook é a projecção para a inflação média em 2016: 5,8%.
No que respeita às contas externas do país, o relatório estima que o saldo da Balança Corrente terá uma evolução claramente positiva este ano (12% do produto interno contra os 8,9% do PIB verificados em 2010), projectando-se que, em 2012, corresponderá a 7,3% do PIB. Refira-se ainda que Angola é classificada no relatório, no que respeita à sua posição face ao exterior, como um credor líquido.
Desaceleração globalO crescimento da economia mundial estagnará em 2012, apresentando, nas projecções efectuadas pelo FMI, o mesmo ritmo de crescimento de 2011 (4%), o que representa uma revisão em baixa em relação às previsões anteriores da instituição para 2011 e 2012 (menos 0,3% e 0,5%, respectivamente).O maior recuo no crescimento ocorrerá na Zona Euro (aos 1,6% estimados para este ano, seguirse-á um crescimento de apenas 1,1% no próximo, menos 0,4% e 0,6% que as estimativas anteriores, com destaque para a desaceleração antecipada para Alemanha e França, consideradas as principais economias da região, onde, entre as principais economias, só a Espanha crescerá em 2012 mais que em 2011.
Já para os Estados Unidos o documento projecta uma variação positiva do respectivo crescimento (1,5% em 2011 e 1,8% em 2012), mesmo assim abaixo da anterior estimativa (-1% em 2011 e -0,9% em 2012). Todavia, estima-se que, no seu conjunto, as designadas economias avançadas venham a registar progressos, ainda que magros, no seu crescimento de 2011 para 2012, o que se ficará a dever aos desempenhos apesar de tudo positivos dos Estados Unidos, Japão e Reino Unido.
As economias emergentes e em desenvolvimento experimentarão, prevê-se, um abrandamento no respectivo crescimento (passando de uma média de 6,4% em 2011 para uma média de 6,1% em 2012), o qual é objecto, à semelhança das avançadas, de uma revisão em baixa. Esta desaceleração não deixa de fora as novas potências económicas: Brasil, Rússia, Índia e China.
A China, segundo as contas do FMI, crescerá 9,5% em 2011 e 9% em 2012 e a Índia 7,8% em 2011 e 7,5% em 2012. Refira-se que, com excepção das ‘economias avançadas’, a África Subsariana é o único bloco económico que cresce mais no próximo ano que neste (5,2% em 2011 e 5,8% em 2012), ainda que as expectativas para a evolução do seu PIB conjunto baixem ligeiramente (0,3% em 2011 e 0,1% em 2012 relativamente às previsões anteriores).
O domínio da incertezaO FMI considera que a recuperação económica internacional se tornou muito mais incerta, adiantando que a economia mundial se ressente de duas situações adversas. A primeira traduz-se na recuperação muito mais lenta que o esperado das economias avançadas desde o início deste ano, um fenómeno que o FMI reconhece não ter conseguido captar mais cedo. A segunda consiste no acentuado aumento da incerteza no plano fiscal (orçamental) e financeiro, a qual se faz sentir de uma forma muito pronunciada desde o mês de Agosto. Numa palavra, “a economia mundial encontra-se numa fase nova e perigosa”.
Quais então as recomendações do Fundo? Na Zona Euro as instituições financeiras, que apresentam alguma vulnerabilidade devem ser chamadas, considera o FMI, a reforçar o capital, preferencialmente através de “soluções privadas”. Mas se estas não estiveram disponíveis terão de aceitar, advoga o Fundo “injecções de capitais públicos ou o apoio do FEEF (o Fundo Europeu de Estabilização Financeira).
A alternativa é sujeitarem-se á reestruturação ou mesmo fecharem as portas. No que respeita aos Estados Unidos o FMI recomenda a definição de um plano de médio prazo de consolidação orçamental que permita colocar a dívida pública num patamar “aceitável e sustentável”, bem como a implementação de políticas que sustentem o relançamento da economia, incluindo os ajustamentos as efectuar nos mercados imobiliário e do trabalho.
As economias emergentes e em desenvolvimento, adverte o FMI, vão ter de manter elevadas taxas de crescimento e confrontar-se com o ‘sobreaquecimento’. Irão enfrentar condições mais adversas no plano das exportações e ter de lidar com uma maior volatilidade no mercado de capitais. A esperada descida dos preços das commodities constituirão um desafio acrescido para os países que apresentam um nível mais baixo de rendimentos.
Este ano e o próximo, sustenta o relatório, serão marcados por uma desaceleração do comércio internacional. Depois de ter verificado uma quebra muito significativa de 10,7% em 2009, o volume do comércio mundial cresceu 12,8% em 2010. Ora, este ano o ritmo de evolução será significativamente menor (7,5%) e no próximo a variação ainda baixará mais (5,8%)
As estimativas para a evolução do preço do petróleo (entendido como a média dos preços do Brent, Dubai e WTI) apontam para umq quebra de 3,1% em 2012. Este ano ainda se verificará uma recuperação da brutal quebra ocorrida em 2009 (-36,3%). Em 2010 a variação já foi francamente positiva (27,9%) e, este ano, os preços continuaram a subir, apontando o FMI para uma elevação de 30,6% (mesmo assim 3,9% abaixo da sua última estimativa).
O nível dos preços à escala mundial tenderá, face ao cenário traçado para a actividade económica global, mostrará tendência para descer, tanto nas economias desenvolvidas (estima-se uma variação de 2,6% em 2011 e de 1,4% em 2012), como nas emergentes e em desenvolvimento (7,5% em 2011 e 5,9% em 2012). Também as taxas de juro no mercado interbancário de Londres tenderão a reduzir-se ligeiramente (no caso dos depósitos em euros e em ienes) ou a subir ligeiramente, no caso dos depósitos em dólares.