| info@opais.net
Muito nublado
Luanda
Clique para aceder á Revista
RSS

Grande Entrevista

Kundi Paihama // "Tudo que consegui foi com suor e sacrifício"



Qual é o sentimento dos antigos combatentes actualmente?
Gostaria de agradecer esta oportunidade que me dão, para dizer que o sentimento dos antigos combatentes não difere muito do sentimento de qualquer cidadão angolano, porque os desafios que enfrentamos são os mesmos. A única diferença é que o antigo combatente é um cidadão com um estatuto especial, pelo facto de ter comparticipado neste processo de luta de libertação nacional . O Estado e o Governo reconhecem nele uma necessidade de o homenagear, reconhecer e honrar. Por isso, tem de facto legislação própria que cobre este figurino. Como também sabemos, na vida nem tudo corre bem, existem alguns constrangimentos que têm algumas origens e várias substâncias. O sentimento de alguns antigos combatentes é de que alguns deles estarão esquecidos e as promessas têm sido em vão, porque temos a Lei 13, dos Antigos Combatentes e Veteranos de Guerra, que ainda não foi regulamentada. Isso dificulta o exercício de algumas acções. Por exemplo, o antigo combatente
não deve pagar a luz nem água, mas eles pagam porque os da EPAL e da EDEL dizem que não têm nenhuma recomendação de que não devem pagar. Se calhar, na recomendação devia ser clara se não paga em função dos gastos ou se gastar até um ponto e o resto paga. Isso tem que estar bem esclarecido, mas como agora estamos a rever essa lei, acho que vai ser agendada brevemente. Vamos acautelar essas coisas. Também reclamam que a pensão é pequena. De facto, conceptualmente pensão e salário são duas coisas diferentes. Pensão é mais ou menos algo simbólico, não tem a ver com salário, mas mesmo assim tem havido um esforço muito grande da parte do Executivo para melhorar a situação. Recordo-me que a primeira pensão era de 3.500 kwanzas, depois passou para 8.000; 11.000,e agora está em 16.000. Isso comparativamente com o custo de vida é pouco, mas pelo menos há um princípio de que as coisas estão gradualmente a melhorar e é isso que nós esperamos. Nós tínhamos proposto um certo tecto mas os órgãos competentes vieram falar connosco
de que o país ainda está com alguns problemas e só podem chegar até aos 16 mil kwanzas. Estamos nisso, penso que vamos melhorar.

Quantos antigos combatentes existem no país?
Em princípio mas não posso garantir que seja um número fiável porque só agora que estamos a criar o banco de dadostemos registado 270 mil antigos combatentes.

As inquietações que eles vivem são as mesmas ou diferem?
As inquietações, como disse atrás, são semelhantes às da população, como a habitação. Podemos simplificar dizendo que são de ordem económica e social.

Apesar de a pensão ser um valor simbólico que tem aumentado gradualmente, como podemos entender os atrasos que se registam no seu pagamento? O senhor ministro disse recentemente no Bengo que não se justificava. Porquê?
Lógico. Falei naquele dia, constatei na primeira reunião que fiz em Caxito. E quando saía de Caxito para Quitexe ligaram-me a dizer que já caiu o dinheiro. Como é que podia em uma hora o dinheiro sair de Luanda para lá? O que posso aferir nisso é que o dinheiro chega e os funcionários utilizam para fazer negociatas. Só estou a especular, mas até naturalmente ganhar algum é que vão pagar os outros. Mas agora as coisas parece que estão a mudar, porque estamos a falar sempre disso e já metemos alguém na cadeia. Ali mesmo no Bengo, o homem de Mangongo parece que está na cadeia, porque utilizava o dinheiro dos antigos combatentes para fazer os seus negócios. Depois de retirar os seus dividendos é que pagava os outros. Nesta altura, o dinheiro ou já está desvalorizado ou então o interessado contraiu dívidas e o dinheiro vai passar das mãos dele para outras. Isso significa que é o sistema de corrupção, desvio e outras práticas ilegais e ilícitas que muitos funcionários praticavam. Essa é a causa principal dos atrasos, acho eu.

É uma questão apenas do Bengo ou acontece também no resto do país?
Havia províncias, mas no geral era em todas. Mas também havia problemas burocráticos, porque o dinheiro não passa pelo Ministério dos Antigos Combatentes. Compilamos os dados, temos uma área própria para isso, manda a efectividade para as Finanças, que manda o dinheiro para o Ministério da Administração do Território e este depois manda o dinheiro para as províncias. E o que se passava é que o dinheiro dos antigos combatentes e das autoridades tradicionais, vulgo sobas, ia todo misturado. Quando chegavam lá, os funcionários, porque muita das vezes o governador não tinha domínio disso, decidiam que primeiro vamos pagar os sobas, não agora os antigos combatentes. E essa confusão fazia atrasar o salário. Agora tivemos um caso no Uíge e chamamos o homem das finanças para nos explicar o que se passava. Eles dizem que recebem orientações de Luanda no sentido de definir tectos, mandam sempre pagar primeiro os funcionários públicos e os antigos combatentes ficam sempre atrás.

Quem dá essas orientações a partir de Luanda?
Dizem que é das Finanças em Luanda. Outro dia falei com o ministro das Finanças por telefone, disse que ia ver isso e me dar o feed back, mas é um problema burocrático que deve solucionar-se.

Como é pensam resolver a questão das casas? O Ministério tem atribuído algumas casas. Qual é o critério utilizado para a selecção dos beneficiários?
Bom, para se resolver, de facto, este problema, em vez de critérios, devíamos falar de dinheiro. Há um ditado que diz que ‘sem casa onde não há pão, todo mundo ralha e ninguém tem razão’. Essas casas que nós já entregámos algumas em Viana e possivelmente vamos entregar outras nos Ramiros, são casas de contratos feitos há muito tempo. Os critérios também nunca foram uniformes. Arranjou-se algum dinheiro e mandou-se fazer aqui, arranja-se outro e manda-se fazer ali. Eu acho que aqui não devia haver muitos critérios, porque nós temos o Ministério das Obras Públicas e Construção, na minha opinião, esse é que devia ter o orçamento para isso. Os ministérios deviam fazer contratos com empresas, que depois seria entregue ao Ministério das Obras Públicas, como ele é que tem as finanças, pagava. Mas hoje não, nós temos orçamentos pessoais. Acho que neste orçamento também podia caber a questão das casas, mas isso tem a
ver com o Programa de Investimentos Públicos (PIP) e nós temos tido algumas dificuldades em conseguir verbas nesta rubrica. E por isso mesmo ainda estamos a estudar como, de facto, resolver este problema. Há quem diga que no Instituto Nacional de Habitação há verbas para pagar isso, quer dizer que nós podíamos fazer um contrato com o empreiteiro. Quando o empreiteiro quisesse dinheiro, ia buscá-lo ao Instituto. Estive a ler esta madrugada ( porque acordei muito cedo) e acho que ainda assim temos que regulamentar algumas coisas para ter uma certa uniformidade, por um lado, e o rigor em ver quem é o responsável. Porque quando uma actividade é distribuída
a muita gente, a responsabilidade individual desaparece um pouco, porque todos querem fazer. Quando há essa espécie de disputa cada um quer chegar primeiro com a bandeira para dizer que cortou a meta e isso, às vezes, atrapalha o processo.

A existência de projectos de construção de casas paralelos, como o Kussanguluka do Consórcio Comandante Loy, alivia as pressões que sofrem dos antigos combatentes e veteranos de guerra?
Não alivia. Por causa deste projecto mesmo é que acordei muito cedo. Comecei a trabalhar às cinco horas da manhã até às seis e meia. Vou ter agora mesmo uma reunião por causa disso. Essa instituição tem boa intenção, na teoria, mas na prática é um problema. Primeiro, só hoje na leitura destas peças todas, memorandos, actas, é que descobri que ela deve oito meses de salários aos trabalhadores. Por outro lado, ela tem muitos projectos. Primeiro, quando começou o projecto ela falou no nome dos antigos combatentes e não coordenava com o Ministério dos Antigos Combatentes. Se vai na província, diziam que estão a trabalhar para os antigos combatentes e precisamos um terreno, o governador dava o terreno, mas o Ministério não sabia nada. Depois chamei o Presidente do Conselho de Administração dessa instituição e disse-me que tinha dificuldades em interagir com a antiga direcção do Ministério dos Antigos Combatentes. Então lhe disse ‘está bem, eu estou disponível’. Fui ver os projectos, devem ter visto que fui a Calumbo, no cimo da pedra, Catete, e agora fui ver também nas outras províncias onde têm projectos, alicerce e urbanização. Mas ainda não entregou uma única casa, nem sequer há qualquer definição de qual
é a percentagem que vai caber ao Ministério dos Antigos Combatentes. Eles fizeram um protocolo com a Promoção da Mulher, onde tem 20 por cento para o Ministério da Família e Promoção da Mulher e 80 por cento para o consórcio. Mas nas cláusulas deste protocolo falase muito dos antigos combatentes, mas o titular da pasta não sabia disso. Só hoje é que vi. Isto é uma coisa paralela, sobreposta e tal? Concordo que a Promoção também tenha antigos combatentes, mulheres, filhos destas, mas para uma situação desta tem de haver maior articulação e coordenação para não haver dispersão de meio e decisões. Por isso, hoje vou fazer uma reunião, conheço profundamente a situação
do consórcio e para trabalharmos... Eles até queriam que eu assinasse uma carta para conferir garantias a partir do Banco Espírito Santo Angola (BESA) para um financiamento de 70 milhões de dólares. Como é que posso fazer isso? Só se for maluco, não tenho esse dinheiro, nem tão-pouco o Ministério pode fazer uma coisa dessa com uma instituição privada.

Não aceitou por desconfianças de que os antigos combatentes e veteranos de guerra não serão os principais beneficiários dos projectos habitacionais lançados pelo consórcio Comandante Loy?
Tem que aparecer, mas tem de haver aqui algo que tenha como chapéu a legalidade. Não posso fazer nada fora da lei, muito embora haja vontade das pessoas. Alguém me disse também que já tinha havido orientações superiores para essa organização ser apoiada. E para esta organização foi disponibilizada por um banco aí 24 milhões. Hoje ninguém sabe onde foram os 24 milhões de dólares.

Depois de ler os relatórios que lhe foram apresentados, acredita que os 24 milhões de dólares foram aplicados na construção das casas para os antigos combatentes?
Não foram aplicados, o problema é que estes dinheiros não foram para fazer as casas. Fizeram outras coisas. Consumiram em fábricas, tem aqui umas fábricas de chapas. Podiam dizer ‘mas essas fábricas é depois para fazer materiais de construção’, então está bem. Mas se foram dados dinheiro para apoiar os antigos combatentes, em
Não foram aplicados, o problema é que estes dinheiros não foram para fazer as casas. Fizeram outras coisas. Consumiram em fábricas, tem aqui umas fábricas de chapas. Podiam dizer ‘mas essas fábricas é depois para fazer materiais de construção
vez de seguirem o objecto social, foram para outras áreas e infra-estruturas.Essas infra-estruturas serão de quem? Dos antigos combatentes? De alguém? Esta zona cinzenta é que eu quero compreender bem. Se de facto eles executassem e houvesse, digamos assim,resultados,ok! Eles fazem uma casa que chamam de modelo, mas disso não passam. Na minha opinião, quando li sobre liderança, aconselha-se que quando tivermos muitos projectos em vista não é bom, não se aconselha pegar em todos, a menos que tenhamos dinheiro para pegar em todos.
É adoptar prioridades, porque se eles fizessem duas, três, 20 e 50 casas e entregarem, está bem. Agora só fazem uma casa modelo e vão pegar projectos no Kuando-Kubango e outras províncias. Então você que tem uma dívida de oito meses de salários dos trabalhadores atende assim a tantos projectos ao mesmo tempo, com que meios? Isso
é falta de planificação, programação e planeamento financeiro. E é o que se passa. Penso que a organização pode ter boas intenções, mas está desorganizada. Por isso não se pode esperar resultados palpáveis.

O Ministério prevê construir alguns centros de acolhimento para os antigos combatentes. Não acha que alguns poderão sentir-se excluídos quando outros têm direito a casas?
Tem razão quando coloca o problema a partir deste ângulo, mas a ideia é acolher aquelas pessoas que não têm ninguém. Por exemplo, eu conheço caso de familiares que já não aceitam as pessoas no estado em que estão. Porque dão muito trabalho, tem que se despir e lavar a roupa. Essa pessoa merece de facto um tratamento diferenciado. Agora aqueles que banham sozinhos podem ficar no bairro, porque não queremos fazer uma coisa só para os antigos combatentes, mas para pessoas que não têm outra alternativa, é economicamente mais rentável de um lado. É preciso especializar as pessoas. Se você tiver essa gente disseminada não pode ter especialistas atentos a isso, mas numa única casa é mais fácil. Portanto, nós queremos que ali haja condições de alimentação, alojamento, tratamento, diversão, etc. Acho que não discrimina ninguém. Pelo contrário, acho que é mais racional e economicamente mais aconselhável para resolver o problema de um certo grupo de pessoas que não têm a possibilidade nenhuma de por si só resolvê-los.

Em que fase está o projecto da construção dos centros de acolhimento?
O projecto está na forja, temos os orçamentos, mas o dinheiro não está a sair das Finanças.

O que é que se passa?
Pergunto-me também. Ainda ontem estive com o meu vice-ministro e dei ordens para rapidamente sacarmos. Também não sei bem e não posso especular, mas não compreendo porque é que o dinheiro não sai.

A saída do dinheiro já teve autorização superior do Executivo?
Sim, já está tudo mas não sai. Às vezes penso que, se calhar, é para dizerem que o ministro não trabalha. Mas isso é especulação. Vou ver o que é que vai resultar, porque às vezes digo que não há apenas que incomodar o ministro porque ele é para decidir, mas os quadros. O dinheiro está aprovado para o centro de acolhimento de Luanda, Uíge, Moxico e do Huambo, portanto, quatro. Mas o dinheiro não está a sair das Finanças, nos dão as quotas. Portanto, estamos em Setembro, faltam três ou quatro meses para acabar o ano.

Quando é que teve a informação de que já havia autorização para a recepção do dinheiro?
Há dois meses pelo menos já tinha esta informação. Ontem, porque são áreas técnicas e é o meu vice que trata disso, perguntei-lhe: como é que está isso? Ele disse que ainda não saiu. Vamos esperar.

Qual é o orçamento para a construção dos quatro centros de acolhimento?
Eu agora não tenho isso de cabeça, mas são alguns milhões. Acho se calhar três ou quatro milhões de dólares, mas não tenho muito bem a certeza. Não é tão caro nem tão barato. Não consigo decorar assim ao todo, os números para mim é horroroso. Se soubesse que me ia fazer esta pergunta devia preparar-me para lhe mostrar. Mas os centros também não são todos iguais, vai depender muito do número de pessoas a atender. A choque o de Luanda é que tem de ser o maior, porque também pode ser área de passagem.As pessoas podem vir a Luanda fazer consultas, check ups, e em vez de ir para os hotéis podiam ficar no nosso centro. Vamos criar condições para isso.

Mas qual é a província com o maior número de antigos combatentes?
Eu penso que é o Moxico, mas Luanda como é uma cidade cosmopolita, se calhar tem mais. Toda a gente veio para cá, sobretudo no tempo da guerra, porque todos achavam que Luanda tinha maior segurança. E Moxico porque é uma província que acolheu e teve outras desgraças. Só para dizer que o facto de termos assinado o cessar-fogo com os portugueses e com a UNITA no Moxico não é uma mera casualidade. É porque aí foram muitos antigos combatentes, não são só naturais do Moxico, há muitos que deixaram as suas províncias e foram para lá combater. Na altura não tinham famílias, se calhar ainda estão lá. Demograficamente o Huambo é a província que tem mais gente, também alguém já me falou nisso, mas tudo isso é relativo por causa da movimentação e deslocação dos antigos combatentes.

Muitos acreditam que os heróis do 4 de Fevereiro são os mais beneficiados em termos sociais e económicos em relação a outros antigos combatentes. Concorda com isso?
Há coisas na vida que cada um tem a sua ideia. Agora o que tenho ouvido é os do 4 de Fevereiro dizerem que estão abandonados, que têm menos coisas que os outros. Mas penso que como na vida e isso naturalmente é aceitável, cada um puxa a brasa para a sua sardinha. A nível do Executivo e da estrutura legal não há discriminação. Têm precisamente o mesmo tratamento. Acho que há alguns que são os iniciadores da luta e por isso pensam que deviam ter os melhores privilégios. Faço esta aferição porque estive na Primeira Região, havia malta que dizia que se fosse seria vaiado e atiravam pedras contra a minha pessoa, mas não. Fui para lá e houve alguém que disse que deviam ser melhor tratados porque são da Primeira Região, a guerra começou aí. Outro foi mais longe e disse que ‘nós é que colocamos Agostinho Neto no poder. Não somos do MPLA, somos o MPLA". Compreendi mas lhe perguntei: ‘você lutou no Quipungo? Não. Lutou no Cunene. Não. Lutou no Moxico? Não, então porque só você?". Depois quando fui à Segunda Região também me disseram que nós aqui fomos o laboratório dos quadros e todo o mundo partiu daí para o Moxico, a Terceira Região. Isso só vai ser bem compreendido e interpretado quando colocarmos as situações no tempo e no espaço, conforme as circunstâncias. Em termos de sacrifícios naquele tempo, os da Primeira Região foram muito sacrificados e estiveram isolados, não podiam ir para o Congo, para além dos próprios portugueses também montavam os da FNLA. Quando se tentava trazer materiais por aí também eram fustigados e ficaram muito tempo isolado. Tiveram maior sacrifícios, deviam merecer maior atenção, mas como a atenção ainda não está devidamente estruturada, vamos fazer o possível. Por isso, já disse que vamos adoptar critérios de prioridade. Primeiro prioridade aos mais velhos, porque costumo dizer que eles já não têm tempo para semear, a idade já não lhes permite isso. Então se há alguma coisa para dar e não chega para todos, damos aos mais velhos ou então aos deficientes graves. Por exemplo, uma pessoa cega das duas vistas, se houver alguma possibilidade, dá-se a ela primeira e depois aos outros. Essa opinião não deve ser divergente, mas depende muito de cada um. Se calhar é difícil dizer que este ou aquele não tem razão. Vamos continuar a escutar e à procura do denominador comum e do consenso. Mesmo assim nunca é possível agradar todos ao mesmo tempo. Isso é como quem diz ‘agradar a gregos e troianos ao mesmo tempo não é possível".
Outro foi mais longe e disse que ‘nós é que colocamos Agostinho Neto no poder. Não somos do MPLA, somos o MPLA’. Compreendi mas lhe perguntei: ‘você lutou no Quipungo? Não. Lutou no Cunene. Não. Lutou no Moxico? Não, então porque só você?.

A rainha do 4 do Fevereiro disse em tempos neste jornal que preferia ser miss, porque elas são mais valorizadas que os antigos combatentes. Quer comentar?
Esse é o ponto de vista dela. Conheço muito bem a camarada Engrácia e ela deve ter razões profundas que lhe levam a estabelecer este paralelo. Portanto, abstenho-me para não me interpretar mal.

Até que ponto a Lei dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria poderá melhorar com a regulamentação da lei específica?
Como deve saber a lei em si como tal, às vezes, situa-se nas coisas de ordem geral. E há pormenores específicos e critérios que para serem práticos precisam ser regulamentados. Por isso é que toda a lei no nosso ordenamento jurídico deve ser regulamentada em 90 dias depois da sua aprovação. Naturalmente, esse tempo passado, ali há coisas que se podem resolver. Mas não se resolvem desculpando-se com a falta da regulamentação. Em relação à nova lei, nós vamos precaver-nos, não vamos permitir mais o que se passou. Estamos preparados e já está tudo orientado para, depois da promulgação dessa nova versão, nós antes de 90 dias vamos apresentar o regulamento. Aliás mesmo sem ser aprovado vamos preparar o draft do regulamento, para que alguns dias depois da sua aprovação o regulamento também seja aprovado.

Quais são as principais alteração dessa ‘nova versão’ da lei dos Antigos Combatentes?
Já fiz algumas leituras na nova versão, claro que a primeira alteração de fundo será prender-se à nova Lei Constitucional. O resto naturalmente vai defender com maior rigor os direitos dos antigos combatentes.

Como é que está a questão da isenção das taxas alfandegárias ou fiscais, assim como a subvenção nos transportes e actividades culturais e desportivas?
Constam, melhor conformado, por um lado, e com melhor defesa ao direito. Eu também penso que, se calhar, tem que haver algumas regras punitivas em relação àqueles que de facto prejudicam os antigos combatentes. Porque algumas coisas fazemse por uma questão de negligência, outras vezes mesmo por causa de não valorizarem os antigos combatentes. Por exemplo, eles vão a uma consulta, para além de não serem atendidos com prioridade, ainda são maltratados. Às vezes temos que agregar um funcionário nosso quando sabemos que um grupo dos nossos camaradas vai ser tratado aqui ou acolá. Ontem recebi queixas de que os antigos combatentes não são bem tratados, quando pensávamos que era uma questão também de educação e de bom berço. Deviam ver que esse é um antigo combatente e deficiente, não custa nada pedir aos outros pacientes que o vão atender rapidamente, mas as pessoas não fazem isso. Ou também num autocarro, onde há uma pessoa perneta, eu que estou bem posso dizer que senta aqui no meu lugar. São esses pequenos pormenores que acho que podiam dar uma nova imagem no tratamento dos antigos combatentes.


"Tudo que consegui foi com suor e sacrifício"

Quem é o cidadão Kundi Paihama?
As pessoas já me conhecem (risos). Mas é muito difícil nos caracterizar. Sou um cidadão, não digo anónimo porque sou uma figura pública. Disponibilizei-me desde pequeno, tinha 15 anos quando ganhei consciência de que devia participar na luta. Até hoje, apesar de ser chefe e com o estatuto que tenho, mas considerome um servidor do meu povo. Não tenho vaidades, não tenho ilusões. Toda tarefa que me for dada serve. Em termos de amizade não tenho muito por onde escolher, não distingo classes nem raças ou tribos. Acho que sou um cidadão normal deste país.

Já passou por vários cargos e ministérios. Em termos pessoais o senhor sente-se realizado?
Bom, isso de realização depende. Fui ministro sete vezes, estive em quatro províncias como governador, sou membro do Bureau Político do nosso partido e deputado à Assembleia Nacional, mas de momento estou no Executivo.
Às vezes as pessoas me perguntam: o que mais te marcou? Às vezes estou num consulado como chamam agora, acho que agora, sim isso me marcou mais, mas quando passo numa outra área sinto que de facto ali, se calhar, foi melhor ou pior. Acho que só quando perder forças é que me posso avaliar se estou realizado ou não. Estamos realizados porquê? Por causa do poder político, o salário que a gente tem ou porque temos algum dinheiro? Não vejo bem isso, porque estou sempre à procura também.
Estaria muito bem realizado se estivesse descansado. Não digo que tenha ou que seja rico, mas quando vir minimamente todo o cidadão angolano com uma certa capacidade de poder andar com as suas próprias pernas, tanto seja do ponto de vista económico ou social, nessa altura, eu diria também que estou realizado. Mas enquanto tivermos estes constrangimentos que vivemos hoje, alguns por culpa das próprias pessoas, acho que não estou. No meu kimbo há um ditado que diz que “se dermos uma canelada aqui (o ministro indicou uma das pernas), até o ombro sente”. Portanto, não sou egoísta e deixa-me dizer que gostaria de ver todo o mundo melhor.

Tem negócios?
Tenho alguns.

Disse em tempos que parte do rendimento vinha de uma casa arrendada que pertenceu à sua família. Ainda conta com este dinheiro?
Era da minha mãe, mas a casa agora é da família. Quando a velha morreu sempre tive aquilo como herança da família.

Ainda conta com os proventos do arrendamento da casa da falecida mãe?
Claro, é o dinheiro que deu azo a tudo, é a raiz. Foi com esse dinheiro que comecei a fazer as minhas fazendas. E foi crescendo. É como quem diz que essa árvore era uma raiz pequenina, ainda utiliza essa raiz? Claro, pode dar fruto mas saiu da raiz. Portanto, esse dinheiro não é um milhão, é perto de 400 mil dólares que foi crescendo, crescendo e multiplicando. Hoje tenho fazendas, gado, agricultura, equipamentos, tractores e outras coisas. Cresceu a partir daí. Mas hoje vim agregar outros negócios, eu pertenço, por exemplo, aos casinos e não escondo isso. Pertenço ao BANC. Estou à procura agora de formas para multiplicar o meu gado, para que amanha venha a fazer vendas rotativas. Eu, por exemplo, não vendo gado, mas comprei muito. Não vendo porque quero proliferar de forma que tenha X cabeças de gado e venda X milhares por ano. Neste momento vou fazendo isso. Acho que os angolanos não podem ter o complexo de que não podem ficar ricos. Tive uma educação missionária, era tudo pecado, pecado, pecado. Quando os tais que eram maiores voltaram para a Suíça levaram tudo. Depois não digo que fui comunista, mas sim marxista-leninista e só vivia do salário. Mas afinal o salário não resolve tudo. Se posso desenvolver uma outra actividade, não o faço porquê? Todo fim-desemana não estou em Luanda, estou no interior a trabalhar. Então vou trabalhar para ser pobre? Não, vou trabalhar para ser rico, para usar um bom relógio Rolex, uma boa mascote de ouro, uma gravata de marca. Então vou trabalhar, porque essa ideia que nós os africanos temos, dizer que não posso ser rico, não. Não posso ser rico a roubar, isso não. Desde o berço da minha mãe não sei colher onde não semeei, tudo que tenho foi ganho com suor e com sacrifício.



Está preparado para ser um dos cabos-eleitorais do MPLA, na campanha do próximo ano, se for chamado pela direcção do partido?
Isso aí ninguém se prepara. Se for chamado etu bo betu bana, como dizem em kimbundu “dikelengo bué”. Estamos e temos que ir mesmo para a luta. Não é ir preparado para ser chefe, é para trabalhar, porque campanha, por exemplo, tem chefes, directores. Para trabalhar na campanha, como militante do meu partido, estou muito preparado. Bué de “dikelengo” e estou a afiar mais com muita leitura, truques comparativos, como é que fazem e tal. E não posso atirar foguetes, mas estamos a nos preparar para isso.

Acha que a sua geração já deu o que tinha para dar ou ainda tem coisas a fazer pelo país?
De facto, numa forma normal, aqueles que têm idade para reforma e descansar, acho que já deu o que tinham a dar. Mas os desafios actuais aconselham que a minha geração não se deve demitir das suas responsabilidades. Se calhar a juventude vai dizer "esses gajos querem sempre estar no trono", mas não é isso. Nós podemos dar o lugar aos mais jovens, mas eles têm que se lembrar sempre dos nossos conselhos, porque a experiência que vivemos, a vida é um percurso, e nela aprendemos e vamos vendo muitas coisas. E isso depois dá-nos a possibilidade de pegar na tábua, traçar o presente e o futuro, assim como ver o que pode acontecer futuramente. Por exemplo, a situação que estamos a ver no norte de África, a juventude a dizer "é já, é já, vamos tirar não sei o quê". Acho que os jovens não se podem esquecer de que mudar as coisas de forma abrupta pode trazer problemas. Nós sentimos isso como património, então gostaríamos que mesmo fora das cadeiras da governação a juventude mantivesse-o. Tivesse naturalmente algumas alterações porque a vida é um sistema de mudanças permanente, mas mudanças que não venham em detrimento das pessoas. Por exemplo, há um assunto que tenho mesmo de falar abertamente, a Líbia: como é que se pode compreender que antes de se pensar na construção daquele país partido já estão a dividir as riquezas? A França já se apoderou de 30 por cento daquele petróleo, não vi, mas apanhei a notícia na ponta porque estava na estrada, mas já dividiram a riqueza. Já fizeram uma reunião e dividiram o petróleo, então os líbios vão ficar com o quê? Tudo isso dá a ideia de que os nossos jovens não podem ver as situações de ânimo leve, muda, muda, muda. Mudar sim, mas devagar.

É um recado até para os jovens que se manifestam no nosso país?
Não, para África.

Mas hoje há manifestações de jovens no nosso país?
Sim, sim. Claro que acho que há uma questão de princípio. Mesmo que não gostemos de algum chefe, mas o chefe é sempre chefe por uma questão de princípio. Não acho muito correcto, nunca assisti a essas manifestações, algumas são feitas no fim-de-semana e eu também nunca estou cá. Quando estou cá gosto de ficar no meu canto. Mas não se pode ofender um chefe, é feio. Chamar gatuno a um chefe, isso não pode, é até uma questão de princípio. Normalmente o chefe por regra é símbolo de unidade. No nosso caso, por exemplo, há formas próprias se se quer tirar um chefe de um determinado lugar e até formas não só legais como éticas. Acho que esses nossos jovens, e grande parte porque tenho estado a reparar na televisão, não é a nata da nossa juventude, alguns são arruaceiros. Se isto muda, para reconstruir isso vai ser um problema. Eu, por exemplo, desafio qualquer político do Ocidente sobre o que vai acontecer aos líbios daqui a dois ou três anos. Se não conseguiram reconstruir o Iraque, acham que vão reconstruir a Líbia? Eu sabia que quando uma criança nascia tinha não sei quantos dólares, quando casava tinha uma casa. Os líbios estudantes da União Soviética, nunca estudei lá mas ia lá muitas vezes, quando tínhamos dificuldade de manter a nossa amizade com a rapaziada, eles no começo do mês já tinham sete mil dólares. Vão ter isso no fim? Claro que isso é uma questão política, mas muito dizem cada um tem a sua coisa. É verdade, Líbia é Líbia e Angola é Angola. Muitos líbios vão-se arrepender. E depois há outra coisa: estão a matar os negros na Líbia, dizem que são mercenários. Se perguntar a algum francês, inglês ou americano, vão dizer que quem está a matar é o povo e não temos nada a ver com isso. Então se você defende os direitos
humanos, estão a ver os rebeldes a matar os outros pretos, isso é bom? São esses pormenores que os jovens têm de ver, porque quem te quer bem mesmo é a tua mãe que sentiu a dor do parto ou o teu pai. E no nosso caso a mãe chama-se Angola. Os únicos que podem trazer o bem-estar para o nosso país só podem ser mesmo os próprios angolanos, porque nós quando éramos miúdos apercebemo-nos muito cedo da forma manipuladora que faziam. A nós tentavam atirar os do Sul contra os do Norte, porque diziam que os do Sul são bailundos e os do Norte kamundongos, mundeles. Até que compreendemos que queriam nos dividir para melhor reinarem e é o que se passa. Dividir os jovens dos mais-velhos, para depois caírem em cima dos jovens que têm pouca experiência. Claro que é isso, só será compreensível se nós do nosso lado abrirmos um diálogo com os nossos jovens, analisarmos, vermos e fazermos comparações. Acho que alguns jovens reivindicam sim, mas também não participam.
O bom é que quando estou contra alguma coisa vou dizer que estou contra mas penso que devia ser feito assim. Quantos jovens é que trazem estas alternativas? Nenhum, porque alguns só são instrumentalizados, não pensam por eles próprios. Outros também querem correr demais, mas cada um tem o seu tempo. Eu, por exemplo, estou no Governo há muito tempo, entrei quando tinha 28/29 anos como governador da província do Cunene, que na altura era comissário provincial, e aprendi muito durante esse percurso, que tudo tem o seu tempo. É verdade que há casos que podem chegar cedo a esses postos, por exemplo o Presidente Kabila, do Congo, chegou muito cedo, era jovem. Mas o normal na África é cabelinho branco, antes era raro ver um presidente sem cabelo branco. Bom não vamos dizer que isso tem que ser dogma, mas experiência vale mais que a teoria.
Dani Costa
23 - 9 -2011
 
6
 
 
 

Newsletter



Subscreva tambem a newsletter da Exame

Capas da edição nº 281

 
 
 
Assine OPaís Online