| info@opais.net
Muito nublado
Luanda
Clique para aceder á Revista
RSS

Coisas

Os camponeses não querem revoluções


Sair de Luanda para o interior do país é um exercício muito bom para quem quer perceber, de facto, como está Angola. Estamos demasiados habituados a confundir Angola com Luanda. Um fulano espirra em Luanda e logo desatamos aos alertas porque o país está constipado.

No dia 3 de Setembro, quando se deu a tal manifestação de que ainda hoje se fala (mais das detenções que do protesto e das exigências), já o contei aqui, estava eu a andar pelos arredores de Luanda. Depois, quando voltei tranquilo à casa, apercebi-me, por via da comunicação social (com grande destaque para a estrangeira) que Angola estava ao rubro. Sejamos honestos, e sem nada contra os manifestantes e as suas razões, mas um ajuntamento de menos de quinhentas pessoas significa que o país está ao rubro?
Jovens detidos na sequência de uma manifestação, muitos deles sem qualquer percurso político ou cívico conhecido, são já presos políticos?

Eu manifesto-me todos os dias contra as injustiças, que as há em Angola. Manifesto-me contra os constantes cortes de electricidade, contra a injustiça na distribuição da riqueza, não me estou a ver a simpatizar com a forma como está a assistência médica em Angola, não me conformo com o que se fez ao sistema de educação, não me conformo com o comportamento dos nossos novos-ricos (a maior parte com dinheiro que é nosso). Bato-me nos meus artigos contra o tratamento que se dá ao quadro angolano na sua própria terra. Posso sair à rua por tudo isso, mas não me estou a ver a ir fazer queixinhas a uma embaixada estrangeira e muito menos a solicitar intervenções militares da OTAN ou de quem quer que seja em Angola. Houve quem o fizesse, houve quem colocasse na Internet irresponsabilidades como estas.

E digo isso porque há alguns anos que tenho percorrido o interior de Angola e aprendi a dar a devida dimensão aos meus problemas pessoais. Há quem sofra muito mais que eu. E isso é uma razão verdadeira para me continuar a bater por justiça, para continuar a criticar quem nos governa quando erra, ainda que a minha crítica não vá agradar a quem nos governa. E por haver em Angola quem ainda sofra muito mais que eu, é também uma boa razão para o escutar. E tenho-o feito.
Daquilo que tenho ouvido nas aldeias nunca me chegou, em momento algum, que alguém propusesse que se fosse à rua exigir a saída do governo e do Presidente (estou a falar de gente que sofre muito mais que eu e que os manifestantes de Luanda).

No momento em que escrevo este artigo estou no Huambo. Nesta manhã, quando saía da cidade para uma aldeia que se chama Sacalãla, ia ouvindo um programa interactivo da Rádio Mais sobre os 99 anos do Huambo que se assinalam hoje, 21 de Setembro. Reparei em dois pormenores: os telefonemas eram geralmente curtos e muito objectivos. As pessoas felicitavam-se pelo aniversário da sua cidade, reclamavam de algumas dificuldades e exortavam o governo a melhorar aquilo que achavam que estava mal. Entendi que com estes recados as pessoas estariam a dizer que depois renovariam ou tirariam a sua confiança ao governo, com o voto, se este trabalhasse, ou não, a seu contento.
Reparei também que todos reconheciam que a província estava muito melhor. Perguntei-me como que alguém que refilava por isto ou aquilo dizia também que a vida estava muito melhor?
Sem querer, um técnico do Instituto de Desenvolvimento Agrário, que levava no carro, deu-me a resposta. Dizia que “antigamente, esse caminho para a Chipipa, 20 km, era fazer com o coração na mão, era uma viagem de que se poderia não voltar. Mesmo depois da guerra, com o estado da estrada, ir ao Alto Hama, 60 km, era o dia todo”.
Ele tinha-me perguntado antes se os manifestantes de Luanda queriam uma Líbia aqui e se algum deles é egípcio para vir nos dizer o que mudou na vida dos egípcios. E rematou: “Os de Luanda, os jovens, não sabem o que foi a guerra. Tenho cinquenta anos e desde 75 perdi toda a minha juventude, só agora sei o que é dormir e saber que não vai haver mesmo tiros, e que posso fazer um negócio e deixar para os filhos”.

Vou às aldeias, vejo gente que me anima na luta por um país melhor, mas tenho de os escutar, e, em democracia, a minha irreverência não pode substituir o direito destes angolanos pobres de, com o seu voto, escolherem o que querem para Angola. É mesmo preciso olhar mais para o interior, tanto para quem nos governa como para quem queira entrar em revoluções por modismos. No interior, onde finalmente se dorme sem tiros, falar em revolução dá numa grande aflição.
José Kaliengue
3 - 10 -2011
 
0
 
 
 

Newsletter



Subscreva tambem a newsletter da Exame

Capas da edição nº 281

 
 
 
Assine OPaís Online