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Entrevista

Isabel Pires // ‘Decaiu a nossa forma natural, cultural e ancestral de nos alimentarmos’


Há mais de 20 anos que Isabel Pires impôs a si mesma diminuir o índice de subnutrição no país. A luta começou numa província e transferiu-a, anos depois, para outros cantos do país com a ajuda de algumas instituições e pessoas singulares, através da sua ong Criskari Projecto Vida Escola.
Às portas da comemoração do dia mundial da alimentação, que acontece no Domingo, 16, esta senhora, que lançou recentemente o livro “Inaandra-Qualidade de Vida”, oferece diariamente duzentas refeições às crianças e alunos do Mussulo. Mas afirma que o padrão alimentar dos angolanos decaiu muito nos últimos tempos


Fundou em 1991 a organização não-governamental CRISKARI com o propósito de ajudar os angolanos a terem uma alimentação saudável e barata. Passadas duas décadas, como é que vê o padrão alimentar dos angolanos?
Agradeço a vossa presença, porque para nós isso é muito importante. Ainda continuamos a trabalhar com a boa vontade das pessoas e quanto mais pessoas singulares, empresas ou instituições souberem do nosso trabalho mais probabilidades temos de que as pessoas nos ajudem. Aliás, o meu objectivo sempre foi trabalhar a par das instituições, porque só faz sentido o nosso trabalho ser reconhecido do ponto de vista daquilo que considero ser primordial, aquilo que nós transmitimos... é fazê-lo com as instituições. Só faz sentido nesta linha e tenho lutado para trabalhar com os vários ministérios, principalmente os da Mulher, Saúde, Educação e Agricultura. O que me apraz dizer, da sua pergunta, é que ainda estámos um bocadinho longe, mas não é que não tenhamos matéria-prima. O que percebo é que fomos confrontados nos últimos anos com novas formas de ver a vida e de alimentação. Decaiu muito a nossa forma natural, cultural e ancestral de nos alimentarmos, comer e olhar para a alimentação. E isso fez com que os nossos jovens, principalmente, porque tudo se centra neles, já que são o futuro, não tivessem acesso às coisas mais naturais e que ao fim ao cabo são as mais básicas, mas realmente são as que são boas. Portanto, os nosso jovens deixaram de estar perto ou no seio de uma família grande, onde o avó, a mãe, o pai e o tio, nos transmitiam todos os seus saberes ou formas da sua agricultura, mesmo que fosse uma agricultura básica. No meu entender nós comíamos ou alimentávamo-nos muito bem. Hoje foi introduzido no país um tipo de alimentação que está cada vez mais longe de ser a correcta. Aliás, todo o mundo neste momento protesta um bocado contra os enlatados, comidas feitas à pressa e todas estas coisas feitas com muita gordura em vez dos bons elementos. E nós que temos a felicidade, apesar de tudo que passamos, ainda continuamos a ter muita dessa alimentação básica, que são as folhas, feijões, ginguba, abóbora, banana. Acho que se deveria fazer um trabalho grande no sentido de que a nossa alimentação fosse mais acessível, para que as pessoas, na realidade, corressem mais para estes alimentos do que para os outros que vêm de fora e não são bons.

Acha que o estilo de vida dos angolanos, consubstanciado no corre-corre de um lado para o outro, alterou a dieta das pessoas?
Muito. Nós estamos a ser muito influenciados por esta correria, pelas coisas fáceis que nos apresentam e estamos a ficar muito longe daquilo que era a base da nossa alimentação correcta. Por exemplo, um dos meus problemas com os jovens é tentar que eles aprendam a preocupar-se um pouco com esse tipo de correrias, em como introduzir uma boa alimentação dentro dela.

Como é possível fazer isso?
Temos que nos habituar a andar com a nossa garrafinha pendurada ao ombro, com a nossa água, a sopa líquida, o batido e tudo feito com as nossas coisas. Se as pessoas começarem a ter um pouco de cuidado... Eu, por exemplo, porque hei-de comprar na rua uma sandes de queijo ou de uma manteiga que não sei de onde veio, etc, e não levo uma mandioca cozida ou não faço uma makaxiquilazinha e ponho dentro de um pão. O pão não é um grande alimento, mas lá dentro podemos pôr um tomate, uma makaxiquila ou uma beringela grelhada, ou qualquer tipo destes nossos alimentos que embrulhamos num saco de plástico um outro mau hábito na nossa sociedade. O que acontece hoje é que as pessoas comem qualquer coisa de manhã e depois esperam o jantar. Muito dos nossos jovens e a grande maioria das nossas pessoas passam o dia inteiro sem comer nada, ficam à espera que cheguem à casa para comer um prato de qualquer coisa. Acontece que muitos não têm nada, ou têm muito pouco, como infelizmente sabemos. E os que têm mais alguma coisa comem exageradamente aquela refeição. Vão comer uma refeição que contemple as duas ou três que saltaram. Isso só prejudica o nosso organismo e o bolso, só tem prejuízos, não tem nada de bom. Costumo a ensinar as pessoas que essa comida que está num só prato pode ser dividida por três refeições e fazer a alimentação mais básica. Se uma família souber que comer dois pratos de sopa por dia, principalmente de feijão com um bocadinho de arroz, muita beringela, jimboa e muitas coisas da terra,
e fizer uma panelinha um bocadinho maior, isso vai dar para comer a noite e de manhã... Hoje procuram muito pão, leite, quando temos outros alimentos que se tornam mais baratos e que são melhores para a saúde. O que tento é passar às pessoas a base do que somos como máquina. E, como tal , temos de ter um alimento próprio para a nossa máquina. Se formos informados, algo que penso que falta actualmente, e o meu objectivo é trabalhar no sentido de que todos juntos possamos propagar mais esta ideia e a nossa cultura de base em termos de alimentação, para que as pessoas fiquem informadas. Se eu souber que ganho pouco ou que dependo da família, se souber que comer duas bananas por dia, beber um litro e meio de água, comer dois pratos de sopa de feijão e mais uma peça de fruta, estarei a alimentar-me melhor. Se as pessoas não sabem o que é que o nosso organismo necessita elas ficam muito preocupadas, e com essa ignorância acabam por cometer os grandes erros.
Hoje foram introduzidos no país um tipo de alimentação que está cada vez mais longe de ser
a correcta, aliás todo o mundo neste momento protesta um bocado contra os enlatados, comidas feitas à pressa e todas estas coisas feitas com muita gordura em vez dos bons elementos.

Depois de 20 anos de trabalho em prol de uma alimentação saudável e mais barata, acredita que os vossos ensinamentos têm surtido efeito, tendo em conta que hoje aumentam as cadeias de fast-food e a implementação de novas comidas que anteriormente só encontrávamos nos países islâmicos?
É isso que disse no princípio, o grande problema é que tudo sai de casa. Toda a nossa informação, educação e passagem de cultura tem ou deve partir de casa e das escolas. Se não fizermos um esforço neste sentido, aonde temos chegado principalmente no interior, onde ensino as pessoas a aproveitarem tudo o que têm, desde a casca de banana às nossas ervas, porque temos muitas espontâneas (como é o caso da madroeira, jimboa),as pessoas aproveitam. Vamos lá tempos depois e elas continuam a fazer isso e a aproveitá-las, assim como a introduzir na sua alimentação diária e cultura alimentar. Mas isso é preciso fazer-se um trabalho muito maior do que aquilo que temos feito, porque somos muito pequeninos e não podemos chegar a muitos pontos. Se houver uma implementação ao nível nacional, que se demonstre por A+B, por isso trabalho com médicos como a doutora Paulina Semedo e outras nutricionistas, que cientificamente sabem que estou no caminho certo, vamos tentar que as coisas venham outra vez ao de cima.
A nossa centralidade não tinha muitos problemas de má nutrição, anemias e outros problemas graves que a vida moderna nos apresenta, porque comíamos muito as nossa folhas e as pessoas não precisavam de comer nem muita carne ou muito peixe. Púnhamos as nossas pequenas coisas do interior e mesmo que o peixe seco fosse só um bocadinho, tínhamos um montão de ervas de feijão, milho, mandioca, banana que são realmente a base. Tento passar para os jovens que na nossa alimentação não precisamos de nada do que estão a introduzir no país neste momento.

É saudável comer pizzas ou as fahitas?
Se eu fizer um hambúrguer na minha casa,sim. Mas como sabe sou vegetariana e não recomendo muito produtos animal. Mas não digo a todas as pessoas que sejam vegetarianas porque até as pessoas de sangue O podem comer com a vontade duas ou três vezes por semana carnes vermelhas de vaca, não devem comer a de porco. As pessoas têm que ser equilibradas, mas o que é o equilíbrio que está cientificamente provado? É que quando pões a comida no teu prato, e já respondo a tua pergunta concretamente, tens que ter duas ou três preocupações.
Primeiro: 40 por cento do teu prato deve ter alimentos crus, portanto o repolho roxo, alface, tomate, enfim. Os outros 40 por cento são produtos da terra cozinhados, como o feijão, jimboa, arroz e a massa, embora não seja da terra. Só 20 por cento de produto animal, o que quer dizer uma postinha de peixe ou um nacozinho de carne para acompanhar todos os outros produtos que tens no prato. E as pessoas preocupam-se em fazer exactamente o contrário. Se fizer na minha casa um hambúrguer, em que eu compro a carne e a mando triturar, não é gordura nem resto, porque não sabemos o que é que esses hambúrgueres que são vendidos por aí à-toa têm. Sabemos que a ganância do ser humano adultera todos os produtos. Se fizer na sua casa, de certeza que o hambúrger é uma comida boa, principalmente se for grelhado porque todos sabemos que os fritos não são saudáveis. Se fizer uma pizza na sua casa é a mesma coisa, porque vai utilizar o tomate e todos os produtos que lá puser... tu próprio escolheste. Agora fazer tudo isso em termos de grande produção para se vender para fora, com congelados, esses hambúrgueres que não se sabe se vêm de onde, como os frangos que vêm de outros sítios que não sabemos. Vês um pintainho e 15 dias depois tens lá um frango para comeres. Estás a comer uma ilusão ainda por cima maligna porque é uma coisa feita às pressas. E os jovens hoje em dia, assim como outras pessoas, acho que os valores foram mudados, trabalham o dia inteiro e depois chegam à casa, ficam sentados num sofá a ver televisão. Será que é algum tipo de descanso? Será que não é um descanso muito melhor ficar em frente de um fogão, pôr uma panela de comida a fazer, ter ajuda do marido, dos filhos e a família estar toda junta. Ou participar nesta ajuda familiar, que é outra vertente da qualidade de vida que eu debato muito, que na realidade é a família estar toda junta para fazer as coisas. Esses valores é que hoje estão muito modificados, por isso é que estas pessoas passam por estes sítios que acabou de mencionar, compram uma meia-dúzia destas coisas, chegam e põem na mesa. Penso que isso não tem sentido absolutamente nenhum. Está-se a perder o sentido de família, a colaboração entre uns e outros e o sentido de tudo que é vida. E aí entra também a alimentação porque as pessoas se vão afastando da base. Muitas das coisas que tentamos passar é que se a família só têm um ou dois dias com mais tempo, então porque vou comprar uma coisa congelada se posso fazer em casa? Se tenho tempo no sábado ou domingo, em vez de fazer uma panela de dois litros de sopa, faço uma de cinco. Divido em pequenas caixas, deixo arrefecer e ponho no congelador. Todos os dias de manhã, quando saio, tiro a caixinha que fica no frigorífico e a noite quando chego tenho a minha sopa. Fui eu que fiz com os meus produtos, foi congelado, mas foi feito por mim. Portanto, sei o que meti dentro da panela e também sabemos que a congelação foi uma forma que as pessoas descobriram, não é prejudicial desde que o produto que a gente vai congelar esteja correcto e feito com coisas saudáveis. Estar três ou quatro dias não prejudica o produto. Portanto, é esse tipo de coisas que tenho transmitido às pessoas. Não tenho muito tempo para ir às compras, então compro um molho grande de jimboa, couve, lavo muito bem, faço meia-dúzia de sacos plásticos, e lá ponho tudo que compõe a sopa. Se
Infelizmente é mesmo no seio das pessoas que têm muito dinheiro. São pessoas desinformadas e com este tipo de preocupação. O dinheiro faz com que façam todo o tipo de coisas mal feitas. Bebem demais
e comem mal. Enfim, fazem uma série de coisas más. Somos um bocado influenciados por esta cultura europeia e    mundial.
calhar até já cozi o feijão, agarro no saquinho e ponho os ingredientes dentro da panela. Não perco tempo enquanto visto a roupa de casa, chamo o filho ou ele está a fazer outras coisas. Num instante faço a comidinha. É esse tipo de coisas que temos de ser ensinados porque ninguém nasce ensinado. Se souber que o frango, mesmo estes desgraçados que infelizmente comemos, para uma família dá quatro ou cinco vezes, não gasto um frango numa refeição. Poupo o meu dinheiro e a saúde. Uma das coisas que debato muito é que somos o único ser na terra que tem uma inteligência, mas não estamos a virá-la para lado nenhum. Estamos a acabá-la completamente. Se sei que sou uma pessoa inteligente não vou gastar o meu dinheiro num produto que me faz ir ao médico, que éoqueestáaacontecerhoje. Gastase metade do ordenado na comida e outra metade no médico. É ou não é o que está a acontecer na nossa sociedade? Não é só no nosso país, infelizmente é no mundo inteiro, acho isso de uma falta de inteligência que não tem tamanho. Tento passar às pessoas e à minha família: prevenir-me da doença, porque não tenho mérito e ninguém tem em ter dinheiro para pagar um médico. Ter uma doença e arranjar dinheiro para comprar medicamentos e pagar os médicos.

Tem trabalhado com comunidades em algumas províncias compostas por gente pobre, e conhece, certamente, muitas outras pessoas com dinheiro e posses que lhes possibilite até comer caviar. Qual é o grupo que apresenta mais distúrbios alimentares?
Infelizmente é mesmo no seio das pessoas que têm muito dinheiro. São pessoas desinformadas e com este tipo de preocupação. O dinheiro faz com que façam todo o tipo de coisas mal feitas. Bebem demais e comem mal. Enfim, fazem uma série de coisas más. Somos um bocado influenciados por esta cultura europeia e mundial. Se recebes uma pessoa na tua casa, a maior preocupação é encheres a mesa de tudo e alguma coisa, com bons vinhos, whiskies, boas entradas, prato principal e doces. Vê só o que as pessoas fazem nos casamentos, que é um autêntico absurdo porque as pessoas vão gastar o dinheiro que não têm e acabam por ter de pedir à família. Muita das vezes passo por isso para ajudar amigos e colaboradores, mas acho isso um autêntico absurdo. Tenho visto que as pessoas que têm menos poder financeiro, por exemplo, principalmente as nossas comunidades do interior, porque sabemos que quando chegamos à cidade parece que perdemos todas as nossas referências infelizmente, elas são muito mais equilibradas do que as pessoas que têm muito dinheiro. Porque se estás na tua comunidade a nossa mandioca existe sempre. Sou do norte, como sabes e temos sempre a ginguba, as folhas, abacate, banana, banana-pão e é por aí, um bocado o que a família te foi ensinando em tempos e depois aquilo que tens. Tenho banana, vou cozê-la e guisar um pouco. Muitas destas pessoas, e debato muito isso nas comunidades porque dizem que são pobres, não tenho isso, mas digo-lhe que têm o melhor, porque tens feijão e milho. Perguntam: o que é que faço com isso? Digo-lhes que vamos fazer assim ou não, porque há diversas formas de cozinhar. Por exemplo, se cozinhares um mamão pronto mas durinho, partir como se fosse metade de carnes, pode-se fazer o mesmo com a manga ou a banana, guisar como se fosse carne, isso é um elemento saborosíssimo. Se puderes, um bocadinho de ginguba pisada, que tem muita proteína e gordura. Portanto, onde é que vou buscar os aminoácidos, a vitamina B12 e outras? É precisamente aí, comer por exemplo feijão com arroz, comer todos os dias um cereal e uma leguminosa, como arroz com ervilha e massa com grão.

Dispensa-se as picanhas e as febras?
Exactamente, depois comer todos os dias um bocadinho de caju, ginguba, gergelim e outros nossos elementos onde vai-se buscar aquilo que as outras pessoas buscam nas carnes, com a vantagem de que gastasse menos dinheiro e é mais saudável. Tem-se menos probabilidades de ter doenças feias, como o cancro e as diabetes, que passamos a ficar dependentes delas, sofremos e morremos mal. Que a gente tem de morrer tudo bem, mas ao menos que se morra bem. Agora morrer mal é péssimo. Outra coisa que muito simples é comer os grãos germinados. Se deixar o feijão de molho de um dia para o outro, no dia seguinte põe-se num espaçozinho, como uma rede por exemplo, ao fim de dois ou três dias vê-se que está a germinar. É esse feijão que se deve comer, porque os germes têm tudo que se pode encontrar nos produtos animais, nomeadamente os aminoácidos, vitaminas. O que se pretende das pessoas é que comam bem e barato, porque podemos.
‘Continuamos a ter a melhor alimentação do mundo’

A comida angolana tem um padrão?
O nosso padrão é o que se estava a dizer. Continuamos a ter, apesar de todas as dificuldades, a melhor alimentação do mundo. Temos o peixe mais proteico do mundo, que é a sardinha. Está cientificamente provado que é o mais proteico do mundo. A nossa sardinha é tão forte que não podes comer muita e todos os dias, senão acabas por ficar com a boca ferida por ser tão forte em termos gordurosos e proteicos. Basta comer uma postinha por dia. Temos as melhores frutas do mundo, que é a banana e a goiaba, que são as mais proteicas, mas muitas pessoas não sabem disso. Temos o abacate, que quimicamente falando é igual ao azeite-doce. O que é que te falta? Temos a kizaka que tem 100 por cento de vitamina A. Às vezes fico um bocadinho doente quando vejo pessoas a virem para Angola e oferecem vitamina A. Temos a jimboa com quase 100 por cento de ferro e a vitamina E no sol. Temos o feijão que é dos produtos mais fortes e inteiros, incluindo o de soja. O que nos falta é única e simplesmente informação. Temos de dar, distribuir esta informação, fazermos um plano a nível nacional e andarmos em casas adentro, demonstrar, cozinhar nas ruas e nos espaços onde possam provar, vendo por A+B que é suficiente. Uma criança, por exemplo, até aos seis meses não precisa de mais nada a não ser a mama da mãe. Sabes que antigamente era assim, mas hoje as mães não têm informação e estão a dar às crianças um bocado de funje, diluir um bocadinho de fuba na água. Mas o que é isso? É tudo falta de informação. A mãe para ter um bom leite, já que somos um animal, porque temos de puxar do nosso peito para amamentar a cria como fazem os outros animais, temos que ter cuidado com o que nos alimentamos, muita jimboa, mandioca cruz, ginguba, para termos o peite cheio de leite e dar a criança durante seis meses. Não sou muito apologista do leite de vaca. Portanto, só nos faltam informação, mesmo que as pessoas não tenham muito dinheiro. Também ensino economia doméstica. Perguntamos quanto é que têm? Só ganho X, então como é que esse dinheiro vai dar para ter uma vida saudável. Então tenho de lembrar onde gasto muito dinheiro. Com a alimentação ou com os remédios. Tenho de pôr isso de uma forma correcta, me alimentando bem e barato para ter saúde. Continuamos a sofrer muito de paludismo e percentagens maiores de crianças que morrem desta doença, por causa da má informação que as pessoas têm. Neste momento até temos a felicidade de ter uma árvore que só entrou aqui em 1980, nasceu na Índia há três mil anos, que é aquela que as pessoas chamam cura tudo. É neste momento uma das árvores mais estudadas do mundo, assim como outra que vou falar também: a muringa. Temos no nosso país duas árvores mais estudadas do mundo, que mais propriedades têm. Quem as utiliza? Temos que ter a obrigação de passar estas informações às pessoas, dizer a elas como se utiliza. O tomares banho todos os dias com o ‘cura-tudo’, além de teres uma pele mais bonita, saudável e mais forte, o mosquito não te morde. Isto é tão simples como isso. Se tiveres o cuidado de todos os dias mastigares dois dentes de alho e duas folhas de ‘cura-tudo’ tens o fígado limpo e, portanto, menos probabilidade de teres paludismo e muito mais doenças. É caro fazer isso? Não é, são hábitos que temos de voltar a criar, temos que informar as pessoas. O hábito de fazer o chá, estar a volta da mês a conversar com os filhos, tomarmos banho com o nime todos os dias. Para as nossas crianças que andam na rua todos os dias e a gente não pode andar atrás delas toda a hora. O nime, incluindo se tu secares a folha e tomares todos os dias uma colherinha com aquele pó, faz bem a tudo em todos os organismos.

Voltando a alimentação. Há uma percentagem de angolanos que se alimentam de pirão, na parte sul, e outros de funje na região Norte. Algumas usam-no todos os dias, enquanto outro segmento remeteu o funje para os fins-de-semana. O funje cria algum problema à saúde se comido todos os dias?
Não há mal nenhum em comer funje todos os dias. Mas é assim: quem come o pirão fica mais bem alimentado do que quem come o nosso funje do Norte, porque o milho tem muito mais propriedades do que o funje de bombó. Se pensarmos como é que chegamos à farinha, tanto de uma coisa ou de outra, vamos perceber porquê. O milho
Quem come o pirão fica mais bem alimentado do que quem come o nosso funje do Norte, porque o milho tem muito mais propriedades do que o funje de bombó. Se pensarmos como é que chegamos à farinha, tanto de uma coisa ou de outra, vamos perceber porquê. O milho é só pisado e está feito, não passa por processos de desgaste, enquanto a mandioca passa por este processo.
é só pisado e está feito, não passa por processos de desgaste, enquanto a mandioca passa por este processo. É molhada e é seca ou é seca e molhada, até chegar ao ponto em que é posta em farinha. Quando chega para ser funje, portanto, já é um produto com muito poucas propriedades, por isso falei em relação às pessoas fazerem isso com as crianças. O que tem valor no teu prato de funje é o teu molho. As pessoas antigamente faziam um bom molho com verduras, mesmo que o peixe fosse só assim (pouco). No norte nós fazíamos o molho para funje e o peixe era grelhado que ias comendo na pontinha da boca aos bocadinhos para dar aquele gosto. Mas o teu prato é composto por um grande molho de jimboa, mengueleka, makaxiquila ou o que houvesse na hora. E o valor estava neste molho. O funje protege-te o estômago, completa-te em termos mentais, porque
o ser humano vive para o prazer como tu sabes. É um prazer comer e sentir-se um bocadinho repleto, como as pessoas costumam dizer. Não tem mal nenhum comer o teu funje todos os dias, é muito melhor do que comer massa, por exemplo, que as pessoas hoje também utilizam muito. Agora tens que ter cuidado com aquilo que complementa, mas também é preciso não comer em muita quantidade porque vemos crianças com os estômagos muito dilatados. Pensam que comer muita quantidade é que faz bem. Agora a nossa mandioca é mil vezes mais saudável se todos os dias comeres um bocadinho crua ou cozida. Pode-se implementar mais as nossas coisas em termo de alimentação, quem come a farinha de milho realmente fica mais alimentado, porque é na realidade um alimento muito forte e bom.

Tem chamado a atenção das pessoas para durante o mata-bicho utilizarem mais algumas leguminosas, contrariamente aos bacon, salsichas, ovos estrelados e outras coisas. É perigoso utilizar estes fritos na primeira refeição?
Muito perigoso. A primeira refeição de manhã deveria ser a melhor porque estás muitas horas parado a dormir e o organismo começa a ficar sequioso. O organismo aproveita tudo na primeira coisa que pões na boca de manhã, a mesma coisa não acontece ao longo do dia, onde já não vai tudo o que engolires, mastigares ou comeres. De manhã é tudo aproveitado. Agora imaginas levantares-te cedo e comeres um pedaço de bacon e ovos estrelados, que já são à partida maus alimentos, em princípio. Quer dizer que todo o teu organismo vai buscar essa gordura e fritura. Agora se te levantes e beberes dois copos de água, de preferência com uma colher de mel misturada e espremer um bocadinho de limão, bebes esta aguinha e limpas o teu organismo, já estás a introduzir o mel que é dos melhores alimentos que podes comer e ficas satisfeito. Enquanto tomas um banho, lavas os teus dentes esta água já se espalhou no teu organismo e tens ali um pedaço de uma banana ou mamão, um yogurte está tudo certo. No fim tens duas opções: ou comes um pãozinho com um doce caseiro, um queijo magro e bebes o teu bom copo de chá ou café com leite, ou comes os teus cereais ou a tua papa de milho.

Porque considera melhor a utilização do leite caseiro e alerta as pessoas a não comerem saladas durante a refeição, tendo em conta que se assiste o contrário actualmente?
Prefiro que a salada e a fruta sejam sempre comidas em primeiro lugar e nunca deve se juntar as duas coisas. A refeição em que comes muita salada é aquela com muita salada e a de fruta é outra, mas sempre no princípio. É igual ao facto de não beber durante a refeição, porque só há duas bebidas que devem acompanhar a alimentação, o teu copinho de vinho ou a tua chávena de chá quente. Fora disso, a gasosa é completamente proibido. E as águas. Agarras um copo de água gelada e pões lá dentro uma colher da comida que estás a comer, por exemplo uma feijoada e vais ver o que acontece, a gordura toda da comida vai ficar ao de cima, congelada, tipo um bloco. O que quer dizer que é o que acontece no estômago, a gordura fica em cima congelada, faz mal ao estômago e não entra na corrente sanguínea. Portanto, se antes de te sentares à mesa beberes o teu copo de água já contemplas o teu organismo e, depois, quando te sentares comes a tua salada calmamente. Quando digo calmamente é por causa do tempo que falta para se conversar com os filhos, etc, etc, mastigas bem e o organismo já ficou completo. Quando fores servir verás que tens no prato metade do que normalmente tens servido. Isso é bom para quem quer emagrecer, ter saúde, gastar menos. É só coisas boas, comes metade porque o teu organismo já não vai precisar muito. Temos na boca uma coisa que é a saliva, se comeres calmamente e mastigares lentamente o que acontece é que o alimento entra no estômago já em estado líquido e não é prejudicial para ele. Estes ingredientes vão rapidamente para a tua corrente sanguínea e mais do que isso vai produzir saliva. Quando estás a produzir saliva quer dizer que ela está a embrulhar o bolo alimentar. E quando cai no estômago, cai protegido. E é uma das funções da nossa saliva. O que acontece actualmente são dois erros. As pessoas dão duas ‘mastigadelas’ e engolem inteiro e parte daquele alimento vai para as fezes e não vai ser aproveitado. Obriga o estômago a fazer o dobro ou triplo do seu trabalho. É como se metes numa máquina algo em pedras quando devia ir em pó.

O último Inquérito sobre o Bem-Estar da População revelou que apenas 30 por cento dos angolanos consumiam mais legumes, hortículas, tubérculos e só depois os cereais, seus derivados e frutas...
É pena que seja só 30 por cento. Mas estes 30 por cento não estão correctos. Porque primeiro os cereais, tubérculos e tudo isso é para estes 30 por cento o forte da alimentação. Depois não devíamos viver sem os cereais, porque não devíamos viver sem eles, por isso te falei do farelo de trigo. Pena que nem toda gente tem a possibilidade de comprar os pacotinhos bonitos e arranjadinhos nas lojas, mas se podermos comer todos os dias a nossa papa de milho com farelo de trigo já estamos a comer o cereal, já seria muito bom e depois a fruta. E depois a fruta. E juntando os feijões e tal, temos tudo aquilo para que o produto animal que consumimos seja em menor quantidade. Aproveito aqui a oportunidade de    dizer como as pessoas consumirem menos produto animal: façam os seus alimentos e aumentam nas panelas a casca de banana, desde que esteja amarelinha, saudável e deixa-la secar, mistura-se no feijão, tem um sabor fantástico.
Cozinhem a abóbora com casca, utilizem as nossas frutas, já prontas mas duras para aumentar a panela. Se puser só um quarto de frango e aumentar a panela com abóbora, beringela, manga verde ou banana, coco, ginguba, fica o sabor. Procuro sempre contemplar o prazer, porque o ser humano vive para o prazer. Temos que ter prazer de estar sentado à mesa e ter um prato à frente. Por isso, temos que ter consciência com os tipos de prazer e ter consciência com os abusos.
Cada vez mais vem ter a mim mais informação. Esta semana mandaramme mais informações sobre a árvore moringa. Duzentas gramas da folhinha colabora e participa com anemia nas crianças. E a informação que recebi esta semana é que a utilização desta árvore é muito mais extensa que a
que tive a partir da Inglaterra. É uma das árvores que a nossa gente utiliza para dividir as lavras. Eles têm uma riqueza e não sabem que têm. Nos outros países já se está a vender a moringa em comprimidos e nós que temos as coisas aqui não estamos a utilizar e a encher o país com coisas prejudiciais. Esta é a minha tristeza e a minha luta. Nos outros países está a ser vendida para tratar o colesterol a casca do maracujá, que é nossa fruta. É das melhores coisas que existem para combater a gordura no sangue. O que estamos a fazer, meu Deus? Todo o dinheiro que é gasto na saúde podia ser utilizado noutras coisas, em melhorar as nossas casas, a nossa agricultura. Todo o dinheiro utilizado nestas coisas, construção de hospitais e outras coisas, deveria ir para termos mais moringas, jimboas e frutas plantadas. Temos em Angola o ‘dente de leão’ que é a única erva no mundo que tem proteínas. Cem gramas desta planta tem dois miligramas de proteínas, é uma planta quase como se estivéssemos a comer carne. E não aproveitamos. As folhas do tomate, beringela, cenoura, que
as pessoas deitam fora, têm muitas vitaminas e propriedades para utilizar na comida.

Dani Costa
14 - 10 -2011
 
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