Temos poucas mulheres a comandar órgãos de comunicação social, assume-se o jornalismo como um universo mais masculino?
Tradicionalmente o jornalismo sempre foi uma profissão masculina, ou masculinizada. Eu costumo dizer que ser jornalista não é tarefa fácil, ser mulher e exercer essa profissão mais difícil se torna ainda, num país que viveu quinhentos anos de colonialismo e, obviamente, ainda existem sequelas e uma delas é o machismo.
Nós ainda temos algumas pessoas com comportamentos machistas. Daí que não era uma profissão muito comum para as mulheres. Mas, felizmente, as mulheres já romperam algumas barreiras e já aparecem muitas mulheres no universo da comunicação social. Mas devo dizer que Angola não é dos piores países, até porque somos o décimo país no mundo com mais mulheres nos órgãos de decisão. É sinal que há alguma valorização das mulheres, tendo em conta as políticas públicas que têm sido traçadas a favor das mulheres, começando pela Constituição, que garante a igualdade de direitos entre homens e mulheres, temos o Código de Família que regula as relações familiares, temos a Lei da Violência Doméstica que eu acho que é uma conquista, uma ganho das famílias angolanas, não apenas das mulheres, porque são violentados homens, mulheres, crianças e até velhos.
Temos também uma lei da maternidade que nos protege. Podemos dizer que estamos a caminhar bem, não somos dos piores países. Em Angola, até onde eu conheço não há discriminação de salários entre homens e mulheres, como acontece ainda em alguns países. É um processo, vamos caminhando. As mulheres já aderem mais à comunicação social. Tenho que dizer que, infelizmente, ainda temos poucas responsáveis na área, mas auguro que é um processo e nós vamos lá chegar.
Portanto, não podemos dizer que Angola estaria melhor se fossem as mulheres a mandar, porque elas também mandam…
Sim participam. E o importante é que as mulheres ganharam consciência que devem ser um sujeito activo na sociedade, porque anteriormente as mulheres estavam confinadas ao trabalho doméstico e eram praticamente reprodutoras de filhos, apenas. Hoje elas estão no mundo público e dão a sua contribuição para o desenvolvimento deste país. e têm uma característica que lhes permite conciliar as duas tarefas. Costuma-se dizer que ao lado de um grande homem está uma grande mulher. E, às vezes, quem faz esses grandes homens são as grandes mulheres.
Mas, apesar deste ascendente social da mulher, temos pouco debate no feminino. Na televisão e nas rádios ouvimos homens a debater o país, a política, a sociedade… o desporto. Porquê que há tão pouca mulher a opinar de viva voz os factos do dia-a-dia na comunicação social? Penso que se se abrir uma porta, obviamente vão aparecer muitas mulheres a debater estes assuntos …
E nos jornais quase não há mulheres colunistas…
Mas temos agora um exemplo, a LAC (Luanda Antena Comercial) abriu agora um espaço só com mulheres para comentar e aí está o programa “Elas e o Mundo”, onde mulheres comentam assuntos de política nacional e internacional. É uma prova de que quando se lhes dá essa possibilidade são capazes de o fazer. Colunistas, já tivemos. No passado tivemos algumas.
Estou a lembrar-me da Sara Fialho, da Luísa Rogério… já existiram outros nomes… agora não existem muitas mas já tivemos. O que quer dizer que quando se lhes dá essa possibilidade elas são capazes de fazer. É preciso só abrir. Estou a lembrar-me também da Suzana Mendes, que tem uma pena belíssima e já o demonstrou em vários jornais e revistas.
Como jornalista, nesta sociedade que se abriu, a sua experiencia diz que é levada mais a sério por ser mulher jornalista, ou, em contrapartida já sentiu ser levada menos a sério por ser mulher?
Eu nunca senti que fosse levada menos a sério. Eu tenho uma característica, quando assumo determinada responsabilidade, quando cumpro determinada tarefa, gosto de fazê-la bem, com rigor. Precisamente para que as pessoas acreditem naquilo que estamos a fazer. Concretamente aqui na agência, na liderança da área em que estou, sou uma pessoa respeitada.
Porque respeito os outros e faço-me respeitar, dou o exemplo às pessoas das coisas que devem ser bem-feitas e não estou a olhar a homens e mulheres. Estou a olhar a profissionais que assumiram um compromisso com a agência, estou a olhar para uma equipa onde cada um deve saber fazer, correctamente, cumprir com a sua tarefa.
E se cada um cumprir com a sua tarefa o produto final vai ser bom. Não digo que não há falhas, falhas existem sempre. Aliás, só existem falhas quando as pessoas trabalham. Isso depende muito de como nós conduzimos as coisas.
Devemos saber gerir determinadas questões, devemos saber ser líderes para podermos trabalhar com as pessoas que temos connosco. Defendo que devemos exercer a nossa autoridade mas baseando-a nos princípios do respeito. É o que eu defendo.
Estando na Angop, que será a empresa mais disseminada pelo país, como sente que é feita a informação sobre o país, estamos a duas velocidades com destaque para a capital e os outros centros urbanos? Veja que estamos a atravessar uma seca e não há muitas notícias sobre a vida nas aldeias, o impacto nos camponeses… só quando tocar Luanda, de alguma forma?
Nós somos a única agência no país, somos uma das fontes de informação da maior parte dos órgãos de comunicação social, para as missões diplomáticas acreditadas no país e das nossas missões no estrangeiro...
e tratamos de trazer uma informação diversificada. Daí a nossa aposta nos correspondentes nos vários municípios que Angola tem. A Angop está nas dezoito províncias mas temos também correspondentes nos municípios que nos fazem chegar informação diversificada, não ainda a que quereríamos, porque quem conhece o país sabe que temos ainda problemas de comunicações. Se as comunicações fossem um bocadinho mais céleres teríamos informação mais diversificada. Mas nós primamos por dar a imagem do que se passa no país, utilizando os nossos correspondentes, que algumas vezes têm dificuldades, mas tratamos que não se fale só da capital, que se fale também do que se passa nas comunas, por forma a termos uma informação diversificada.
Reconhecemos que precisamos de aprimorar, mas o espírito que nos norteia é trazer informação de todo o país.
Sente que a comunicação social, nomeadamente a imprensa, já se se “socorre”como deve ser da Angop, ou ainda encontra muita informação contraditória, daquela em que bastaria verificar com as fontes nas comunas, por exemplo? Pensemos num caso em que vê um jornal da capital a descrever um facto de uma forma que sabe que não está correcta porque a Angop está lá?
Penso que os jornais recorrem muito à Angop e depois aprofundam a informação. O objecto social da Angop é a recolha, tratamento e divulgação de notícias, obviamente, os jornais, algumas vezes, pegam numa determinada notícia e vão a fundo, investigar, porque têm a possibilidade de recorrer a outros géneros. A reportagem, por exemplo, que é o género dos géneros.
Eles podem aprofundar mais a informação. Mas, de algum modo, a Angop serve para chamar a atenção para a localidade X onde há um motivo de reportagem. Isso é importante e leva os outros órgãos de comunicação social e investigar, jornalisticamente, graças a uma pista que a Angop dá.
Não se importam, na Angop, de sentir que o vosso trabalho pode não estar a ser reconhecido quando não são citados?
Já estamos habituados a isso. Que as pessoas não nos citem.
Falta honestidade?
Há sim. Porque nós, na academia, aprendemos que devemos citar a fonte da informação. Mas, infelizmente, o que acontece no nosso país é que na maior parte das vezes não citam, servem-se da nossa informação e não citam, mas, se eventualmente acontecer algum problema, aí dizem que a notícia é da Angop, fomos tirar à Angop. Mas quando está tudo bem ninguém se preocupa em citar a Angop. Acho um bocado de falta de honestidade, falta de ética. Nós, jornalistas, que somos educadores por excelência, somos formadores de opinião, devemos primar pela ética.
Há ainda muitas queixas quando se trata da parte ética no jornalismo?
Há muitas e têm sido realizadas palestras de formação neste sentido, mas sentimos que ainda precisamos de trabalhar muito. Os nossos jornalistas, alguns, não primam ainda pela ética, alguns jornalistas querem substituir-se à polícia, os jornalistas não se preocupam com a veracidade da informação, os jornalistas transforma-se em difamadores, difamando esta ou aquela pessoa. Se alguém compra, por exemplo, um Porche eles preocupam-se com a vida privada da pessoa, não vão àquilo a que chamamos de valor noticioso e vão mais para a difamação, para a calúnia. Pensamos que temos que trabalhar muito em termos da ética no seio da nossa classe.
Não estamos a dizer que são todos, há os que primam pelos valores certos, mas, grosso modo, temos de trabalhar muito neste aspecto.
E estamos a falar de uma classe que há meia dúzia de anos toda a gente se queixava de ser mal paga, mas hoje os órgãos vão protegendo os seus cargos… se a televisão e rádio até vão produzindo algumas estrelas, em termos de agência é mais complicado.
Como é que fazem para preservar os quadros de valor?
Nós tratamos de valorizar os nossos quadros, porque temos plena consciência que são os quadros que fazem o que a Angop é hoje. Então, em primeiro lugar nós valorizamos os quadros. Tratamos de melhorar as suas condições salariais, tratamos de dar algumas condições sociais, como a assistência médica, e primamos também pela sua formação. Estamos preocupados com a formação porque quanto mais apostarmos aí também isso influenciará na melhoria do serviço que prestamos. E os nossos quadros sentem-se valorizados pelo tratamento que recebem, pela preocupação que sentem em nós para melhorar as suas condições. Não exigimos apenas. Mas deixe-me dizer-lhe que já perdemos muitos quadros, muitos dos quadros que hoje vê na imprensa privada passaram pela Angop. Estou a falar do caso do Aguiar dos Santos, estou a falar do Victor Aleixo, do Nuno Fernandes que agora está numa revista e no mundo da publicidade, o Raimundo Vilares que agora é quadro da Sonangol. Muitos dos quadros passaram aqui pela Angop. O actual presidente do Conselho de Administração das edições Novembro e director do Jornal de Angola, José Ribeiro, também foi quadro da Angop… só para citar estes.
Poderia citar muitos mais. O próprio Siona Casimiro foi quadro da Angop, o João Melo, o Mena Abrantes… foram muitos os quadros que passaram por esta casa. Eu costumo dizer que a Angop é uma escola.
Continua o assédio aos vossos quadros?
Continua. Temos o caso de quadros que chegam até nós e contam que estão a ser aliciados por este ou aquele órgão e, em alguns casos, até porque trabalhamos por turnos, somos flexíveis e deixamos que o nosso quadro seja colaborador em determinada revista, porque não choca com o trabalho que temos aqui.
Há razão quando as oposições se queixam de mau tratamento jornalístico por parte da comunicação social?
Queixas existem sempre e em todo o lado. Nós somos por dar o devido tratamento a todos, inclusive temos uma equipa de jornalistas para atender a estas questões. Às vezes é mais fácil culpabilizarmos a comunicação social, mas a verdade é que algumas formações políticas também não se preparam como deve ser, não realizam determinadas actividades… existem formações políticas com muitos anos e que nunca realizaram um congresso, onde se discutem as questões internas dos partidos. Agora mesmo estamos num ano eleitoral e não sentimos aquela agressividade, no bom sentido, dos partidos políticos, organizando actividades aqui e acolá. Então é mais fácil culpabilizar a comunicação social. Já tivemos repórteres em algumas ocasiões, que foram cobrir actividades de partidos políticos e, chegados lá, não há ninguém para dar informação, está tudo desorganizado, meia dúzia de pessoas… então é mais fácil queixarem-se da comunicação social. No entanto, o espírito que nos norteia é darmos tratamento igual aos partidos políticos. Obviamente que os partidos que realizam maior número de actividades sobressaem mais. Têm de ser activos, mais agressivos.
O tribunal Constitucional anunciou agora a existência de setenta e sete partidos políticos e seis coligações, mas a verdade é que nós não sentimos o trabalho dessas formações políticas.
o jornalista retracta factos, nós temos de ter factos para noticiar, se eles não criam factos, nós não os podemos inventar.
É verdade que a Angop subdivide, em termos de prioridade de cobertura, as províncias em classes, do tipo A, B e C? Não é verdade, não há essa divisão.
Nós tratamos todas as províncias por igual. Quando lançámos o novo layout da nossa página colocámos aí o canal Províncias, onde colocamos as notícias que vêm de todas as províncias, sem discriminação. É claro que há algumas províncias mais produtivas que outras, porque fazemos um controlo estatístico disso, mas não há qualquer tipo de discriminação em termos de classes. Aliás, temos um programa que nos permite monitorar as delegações provinciais e vamos a todas. Deixamos orientações a todas, os meios de trabalho são distribuídos na mesma proporção… o que se pode notar é que há delegações mais pequenas que outras, também por causa do volume do trabalho que têm.
Era expectável que, tendo uma mulher a dirigir a informação, a Angop desse mais importância aos assuntos ligados à mulher?
Estou a falar daquela mulher das localidades mais sofridas, mais esquecidas, porque apesar da integração de que falou, nos locais mais recônditos, e por causa disso, a mulher é mesmo quem mais sofre.
Quem está a frente da Administração para Informação da Angop é uma profissional, independentemente de ser mulher eu vejo as questões de forma global. No nosso portal na Internet temos trinta e um canais que abordam temas como a política, sociedade, cultura, economia, ciência e tecnologia, meio ambiente, etc., e as questões relacionadas com mulheres são tratadas como deve ser. Não há favoritismos porque a administradora é mulher. Tratamos as questões com valor noticioso e procuramos noticiar de forma diversificada os assuntos. Estamos aqui como profissionais, temos uma linha editorial a seguir, a agência tem um objecto e procuramos cumprir com o objecto social da agência e vamos ao encontro dos interesses dos nossos utilizadores.
Quando o Presidente falou da insuficiência na comunicação e promoção das realizações do Executivo e do desenvolvimento angolano sentiu que a Angop poderia estar tocada neste discurso… deu-vos para reflectir sobre o vosso trabalho?
Deu. E a ideia com que eu fiquei é que temos que melhorar cada vez mais. Aliás, este é o princípio que temos todos os dias. O nosso lema é “inovar para melhor servir”. Isso significa que temos de melhorar cada vez mais para respondermos com qualidade aos anseios da sociedade.
Senti naquele apelo, naquela chamada de atenção do Presidente das República que temos que melhorar. Este é o princípio que nos norteia… e vamos melhorar cada vez mais. Até porque temos comunidades angolanas lá fora ávidas do nosso trabalho. E sentimos isso, quer das comunidades, quer de órgãos da comunicação social, quando acontece um problema com o nosso portal, que pode ser uma quebra de sinal da Angola Telecom, por exemplo, e recebemos imediatamente telefonemas a perguntar sobre o que se está a passar. Sentimos a importância do nosso portal para toda essa gente.
Há os órgãos de comunicação, as comunidades, as representações diplomáticas. Como está a relação com agências de outros países e órgãos de comunicação estrangeiros?
Temos acordos com algumas agências, somo um produto que cedemos sobretudo aos correspondentes estrangeiros cá em Angola que é a nossa agenda diária. Há agências, como a Lusa, por exemplo que têm a agenda como produto comercial, no nosso caso, para o portal o acesso é livre e até há bem pouco tempo limitámos o acesso a agenda que passa a ser também um produto comercial, embora ainda facilitemos este produto às agências com que temos boas relações. A nossa agenda serve para alertar para determinadas actividades, para eles fazerem as suas reportagens e mandarem para os seus países.
Também temos acordos de troca de serviços com outras agências, até porque temos também o serviço em línguas estrangeiras como o inglês, o francês e o espanhol, que serve também as nossas comunidades lá fora. Mas a Angop é uma empresa pública com algumas obrigações, no âmbito do seu contrato programa, e nem sempre vamos continuar a ter o acesso livre ao portal, teremos, num determinado momento, de codificar o nosso serviço e permitir o acesso apenas a quem connosco celebrar o devido contrato.
Vão viver da venda de informação?
Não vai dar para viver, mas vai dar para ajudar em alguma coisa. É isso o que se pretende, termos algum autofinanciamento.
O que é um bom jornalista?
O que se pauta pela objectividade, aquele que se pauta pela precisão, o que prima pela actualidade, que vai atrás do valor notícia, é isento, investiga as questões e relata factos.
Não é aquele que cria e inventa. Mas o que saiba responder com criatividade e verdade às perguntas do lide da notícia.
No fim-de-semana, ao ler os jornais, ao ver as nossas televisões e ao ouvir as nossas rádios, sente-se satisfeita ou dá o dinheiro e o tempo por mal empregues?
Eu, por acaso, gasto muito dinheiro em jornais. Compro todos os jornais semanários, o nosso diário, porque quero acompanhar a evolução da nossa comunicação social e confesso que às vezes leio alguns jornais que me colocam numa situação de frustração. Porque às vezes encontramos tudo menos jornalismo. Já vi casos em que o próprio jornalista quer ser o protagonista. As regras do bom jornalismo não nos aconselham a isso. Já vi casos de difamação aberta, casos de calúnia. Como profissional da classe isso entristece-me porque não estamos a passar uma boa mensagem às novas gerações. O jornalista tem uma responsabilidade social, é um educador por excelência e devemos contribuir, efectivamente, para a educação dos nossos concidadãos. O que encontramos em alguns casos é que nós manipulamos os factos, isso entristece-me muito. Não estou a generalizar, há outros jornais que se podem ler, em quem se nota que há investigação, nota-se que o jornalista foi a fundo, investigou e procurou trazer a informação de qualidade. Mas há outros que é pura difamação, é tudo menos jornalismo.
Compreende então as vozes que apelam ao encerramento de alguns jornais, não por questões políticas, mas por quilo a que chamam de má qualidade do que apresentam, desde a linguagem ao tratamento dos facto e à escrita, além do arranjo gráfico? Sente que temos neste meio quem esteja a mais?
Sinto. E sinto que isso enfraquece a nossa classe. Nós devemos ser, em princípio, uma classe que se faz respeitar, uma classe que prime pela credibilidade, mas quando abrimos um jornal e vemos coisas mal escritas, do ponto de vista gráfico o jornal mal apresentado, não estamos a dar nenhum contributo, porque no nosso país, e acho que nos outros países também, as pessoas confiam nos meios de comunicação. Ouvimos amiúde as pessoas a defender uma informação com um eu ouvi na rádio, li no jornal . Quando as pessoas ouvem a rádio, vêm a televisão e lêem um jornal partem do princípio que é verdade o que aí está. Então, nós devemos compreender e ser responsáveis por aquilo que levamos ao grande público. Aí está a nossa contribuição.
Temos que ter consciência disso. E pagamos todos por tabela… aí estão os mujimbeiros, os fofoqueiros, isso não é bom para a nossa classe, não dignifica a nossa classe. Alguns jornais não estão a prestar um bom serviço à sociedade. Então não sei o que estão a fazer.
Têm então os jornalistas a sua quota parte de responsabilidade quando se fala da degradação dos valores morais na sociedade?
Têm sim. Estamos a falar hoje do resgate dos valores éticos, culturais e morais e o jornalista tem o seu papel nisso, porque é formador de opinião.
O jornalista deve ter um papel pedagógico, um papel educativo, porque nos nós informamos, entretemos e formamos as pessoas…
Bem, temos ajudado a fazer algumas maldades?
Já ajudámos a fazer algumas maldades. Temos jornalistas que a troco de algum dinheiro passam uma informação que não é verídica. Há dias estive a conversar com uma pessoa que me disse que um jornalista apareceu no seu gabinete, com uma pasta de documentos e dizia – olha, dentro desta pasta eu tenho matéria que o pode queimar. Se não quer que o publique você tem que me dar X –. Qual é o valor que este jornalista está a transmitir? Que tipo de jornalista é? Temos de dizer que o jornalismo, mais que uma profissão é uma missão. O jornalista assemelha-se a um missionário, o jornalista está ao serviço da sociedade, não está para servir-se. Servir a sociedade é colocar a informação para a cidadania e colocá-la bem, sem esse tipo de comportamentos e manipulação da informação. Nós devemos transmitir valores positivos, que engrandeçam a nação, que ajudem as pessoas a cultivar o amor ao próximo, a praticar boas acções, porque somos os primeiros a criticar a corrupção, mas muitos de nós deixam-se levar por isso.
Quando se fala de direitos e problemas dos jornalistas em Angola, portanto, há que reflectir também sobre o problema da corrupção?
Temos que reflectir seriamente sobre este aspecto. Temos que reflectir.
Isso é mais pernicioso que a falta de qualidade?
Penso que sim. A falta de qualidade é também uma preocupação, não o pode deixar de ser, mas esse comportamento dos jornalistas também deve ser uma preocupação.
Se alguém for ler esta entrevista dirá logo que falta a carteira profissional… sente que faz falta carteira, até para sancionar e valorizar os profissionais pelo seu comportamento… como que expurgar o que está mal?
Penso que sim. Primeiro, para a própria classe sentir-se valorizada.
Depois, para travarmos determinados excessos que existem. Temos que pensar seriamente nisso.
Preocupa-a o facto de toda a gente que trabalha em órgãos de comunicação social, produzindo ou não informação, apresentar-se e até ser vista pela sociedade como jornalista?
Estamos a banalizar a nossa profissão, porque hoje qualquer um é jornalista. Isto não acontece nas outras profissões, um engenheiro é engenheiro, um economista é economista… porquê que no jornalismo se pode banalizar a nossa profissão? Temos que por um basta nisso, porque vemos, um par de pessoas, por aí, seguram num microfone, mal sabem fazer uma pergunta e são jornalistas. E seis meses depois já são famosos, aparecem em revistas citados como conceituados jornalistas.
Temos que reflectir profundamente sobre isso.
É um pecado mais da televisão e das rádios. Na jornais há que provar no papel o que se vale… não dá para grandes falseamentos.
É mais nesses órgãos que assistimos a isso. Na imprensa escrita, como diz, ou sabe escrever, ou não sabe.
E eu ainda sou do tempo em que não se falava de novas tecnologias de informação, naquela altura, se o texto estivesse mal escrito havia que reescrever tudo. Hoje já não acontece isso, e a maior parte dos pseudo jornalistas não primam pela sua elevação profissional, não primam pela elevação dos seus conhecimentos, porque deixam-se levar pela fama, já são jornalistas… às vezes com perguntas mal feitas… aprendi na academia que quando se vai entrevistar alguém se deve saber, no mínimo, quem se vai entrevistar, hoje temos pessoas que vão fazer uma entrevista e a primeira pergunta é qual é o seu nome. Porque não estudou, não se preparou convenientemente… e esses também são chamados jornalistas, infelizmente.
Meio a brincar poder-se-ia dizer que estamos em plena liberdade de expressão… o que é uma contrapartida às críticas que dizem vivermos numa sociedade com pouca liberdade de expressão. Concorda que falta liberdade de expressão em Angola?
Eu não o diria. É só lermos os jornais de fim-de-semana, a forma como tratam determinados órgãos de soberania… e não me lembro que alguma dessas pessoas tenha sido presa por ter feito isto ou aquilo. As pessoas às vezes confundem determinadas questões mas eu penso que a liberdade de expressão tem limites, é dentro do respeito, não é eu preocupar-me com a vida de A, B ou C. temos que saber respeitar o outro. Mas podemos dizer que houve uma evolução, aumentou o número de jornais em Angola, não estamos a falar em qualidade, mas pelo menos em número.
As pessoas escrevem com a liberdade que têm. Não podemos dizer que há falta de liberdade em Angola.
Na Angop existe alguma espécie de filtro editorial ou vai tudo directo ao portal? Estou a pôr-me no lugar do cidadão que eventualmente não saberá como funciona uma agência.
Temos uma redacção normal, o jornalista vai à rua recolhe a informação, chega à redacção escreve a sua matéria e a informação é vista por um subeditor, ou pelo editor, para as correcções que se imponham e, de seguida, o material é colocado no nosso portal.
Mas nós tratamos de especializar os nossos jornalistas por áreas temáticas. Fazemos isso porque em Angola temos o problema do acesso às fontes de informação, então é uma estratégia que facilita que o jornalista possa criar uma empatia com a fonte… imaginemos alguém que trate das questões ligadas à saúde, este jornalista, quando vai ao Ministério da Saúde conhece as pessoas, conhece as fontes, sabe com quem vai tratar, o jornalista também é conhecido e esbate-se o receio de facilitar a informação… Nós aprendemos que o jornalista deve ir ao encontro da informação, mas com esta estratégia também acontece que a fonte sente-se à-vontade para contactar o jornalista. Se há interesse jornalístico a matéria é feita, é corrigida e colocada no portal. Não há filtros, mas temos de fazer o controlo de qualidade… mas mesmo assim, como em toda a redacção, as vezes passam algumas gralhas, alguns erros.
Se passar a ouvir a LAC quando o vosso programa está no ar vou passar a ver o mundo de outra forma?
Não digo que vai ver o mundo de outra forma, mas vai ficar com a ideia de que, afinal, também há mulheres que se interessam pela política doméstica e pela política internacional.
Que há mulheres atentas aos factos que acontecem no mundo e que se preocupam em passar essa mensagem a alguns dos ouvintes. Não é que vá ficar mais ou menos informado, mas vai ficar com a percepção de que as mulheres também têm essa capacidade de comentar esses assuntos. Aliás, eu costumo dizer que a diferença entre homens e mulheres é apenas biológica, nós temos capacidade e talento para fazer tudo o que o homem faz, só precisamos de oportunidades.
Portanto, não perceberemos nos comentários as valências mais desenvolvidas nas mulheres, como os instintos de defesa da família, os cuidados com os filhos … é política pura e dura?
Nós procuramos sair um bocadinho disso, porque quando as pessoas vêem quatro a cinco mulheres a comentarem um assunto, a primeira coisa, e acredito que existiram muitos comentários neste sentido – um grupo de mulheres que vai comentar assuntos de mulheres – mas estamos a passar a mensagem que não estamos aí para comentar assuntos ligados às mulheres. Nós estamos a comentar assuntos da semana, da actualidade, ligados à política, à economia, à sociedade…
São mais directas que os homens na abordagem dos assuntos?
Algumas pessoas defendem que as mulheres são mais sensíveis ao abordar determinados temas, acho que são chavões que as pessoas usam. Não acho que homens ou mulheres tenha mais sensibilidades para estes ou aqueles assuntos, depende do tema…
Em ano de eleições, sente que o vosso espaço pode levar mais interesse pela política para o público feminino?
O programa pode ajudar, mas gostaria de dizer que as mulhres não estão hoje no mundo da política, isso vem de há muito tempo, desde a resistência, a clandestinidade… as mulheres fizeram política para conquistar a independência, ajudaram a conquistar a paz e agora participam na construção da democracia… sempre se interessaram sobre assuntos políticos. Obviamente que ouvir quatro mulheres a comentar sobre política também contribui para que elas estejam um pouco mais atentas.
Basta ver que as mulheres hoje estão mais arrojadas, já temos duas ou três a candidatar-se à Presidência. Estão temperadas para estes assuntos.
O programa ajuda para um interesse maior, mas é um interesse que vai crescendo, veja que no Parlamento as mulheres já lá estão em perto de quarenta por cento
Mas há quem diga que por questões políticas e de estatísticas para responder a determinações das nações Unidas elas estão mais presentes na política mas mandam pouco …
aqui na Angop parece que não… As mulheres mandam. As mulheres começam a mandar em casa.
Os homens, regra geral, obedecem ao que as mulheres querem que eles façam.
O segredo está no método?
Começa por aí. E ainda que formos educados de que o homem é o ser superior, as mulheres têm formas e estratégias para levar o homem a fazer o que elas querem. Nas sociedades tradicionais africanas o soba guardava para o dia seguinte as grandes decisões. Porque tinha que consultar a sua esposa. Era ela que passava o dia na aldeia, em contacto com várias pessoas, tinha uma opinião e essa opinião influenciava o soba, que tomava as suas decisões com base nos argumentos da mulher. É um exemplo pequeno que mostra o papel da mulher, em qualquer sociedade, como conselheira. Aliás, o Presidente da República reconheceu que as mulheres são as principais conselheiras do partido e do Estado na solução de muitos problemas no país, sobretudo os problemas da família.
Um investigador francês, René Dumond, diz que o respeito pelas mulheres não é somente uma obrigação moral, é um imperativo económico.
E África não terá outra opção que dar à maioria das mulheres meios de instrução e de educação para que elas possam verdadeiramente participar no desenvolvimento dos seus países, porque sem a emancipação da mulher não pode haver uma verdadeira democracia. Eu partilho esta opinião e isso demonstra de forma clarividente o papel da mulher na sociedade.
Irrita-a que numa entrevista com uma mulher o tema género venha normalmente à baila, em vez de se falar apenas de aspectos técnicos da sua competência?
Isso não acontece quando se entrevista um homem… ou ainda é necessário? Normalmente não se fazem estas perguntas a um homem. Deve ser porque as pessoas não estavam habituadas ter a mulher no mundo público. A mulher estava confinada à casa, às tarefas domésticas. Mas agora quando ela chega a lugares públicos, fazem-se determinadas perguntas motivadas pelo facto de se ter uma mulher à frente. Mas acho que é só isso.