Ao anunciar o seu novo projecto político, Chivukuvuku fez um traçado do seu perfil enquanto homem e político que teve uma militância de pouco menos de quarenta anos nas fileiras da UNITA de onde afirmou ter saído “com mágoa”, assumindo, contudo, o novo rumo que escolheu “com muita determinação”.
O momento foi também de reconhecimento ao apoio dos antigos companheiros de caminhada e de compreensão em relação aos seus adversários, sublinhando a importância do questionamento, discordância e divergência em determinados momentos específicos da existência humana.
O político remeteu para os últimos desenvolvimentos da vida interna da UNITA referidos à sua pessoa, as razões de fundo da sua nova postura que não deixa de ser a resposta à situação de extremos para que se encaminhou a sociedade angolana de uma maneira geral.
Sujeito a um processo disciplinar sob a acusação de ter torpedeado as normas estatutárias do seu partido, ao criar um grupo de reflexão, Abel Chivukuvuku encarou com reservas, segundo observadores, o facto de ter sido reconduzido para os órgãos de direcção do seu antigo partido, no último congresso da UNITA, que o próprio terá encarado numa perspectiva meramente formal.
Abordado a propósito de tudo isso naquela ocasião, o político já admitia este cenário, remetendo para o mês de Janeiro o anúncio do novo rumo a seguir, mas que só veio a concretizar-se na última Quarta-feira, 14.
“Saio da UNITA, porque não posso negar à Pátria e ao povo angolano os meus humildes préstimos para o potenciamento de uma oportunidade, a criação de uma via melhor, uma nova esperança, uma nova luz, para a realização do nosso sonho angolano. Significa o surgimento da terceira via”, disse.
Nessa alternativa aos extremos, que referiu, Abel propõe uma luta para a realização de uma Angola verdadeiramente independente, forte, próspera, moderna, justa, solidária e democrática na acepção integral da palavra.
“Solenemente, anuncio a todos vós, angolanas e angolanos, que vou liderar nas eleições previstas para Setembro de 2012, um amplo movimento de cidadania, constituído e aberto para a participação de distintas e diversas forças políticas, entidades independentes de renome nacional e internacional e movimentos cívicos, estruturados numa Convergência Ampla de Salvação de Angola-, abreviadamente denominada CASA-, a nossa casa comum cujos componentes buscam a realização de uma vida nova para Angola e para os angolanos”, proclamou Abel Chivukuvuku.
Dentre os vários segmentos da sociedade angolana a quem destina os propósitos da sua nova caminhada política, Abel destaca os jovens, enquanto futuro do país, que têm necessidade de um novo farol que ilumine e dê corpo às suas aspirações.
Reconhece, entretanto, que a fortaleza que esta franja da população apresenta não aporta qualquer demérito para os outros cidadãos que corajosamente vivem a vida com muitas dificuldades, entre os quais se contam funcionários públicos, militares, polícias e outros agentes da ordem pública, todos manifestamente dispostos a cumprir o dever, almejando contudo uma vida digna.
Um olhar à situação do empresariado angolano também foi feito, rotulando de injusto o sistema financeiro que os serve, porque não dá qualquer incentivo e asfixia a sua actividade. Os intelectuais forçados a integrar os comité de especialidade, por razões de sobrevivência também foram sinalizados na mensagem de Abel Chivukuvuku.
“É minha convicção que uma vida melhor para os angolanos só será possível com uma nova direcção do país, uma nova presidência (…) Não haverá uma vida melhor com a presidência que temos. Depois de 32 anos de exercício de poder presidencial nunca eleito, chegou a hora de demonstrar nas próximas eleições que chega. 32 é muito, então mais 5, o que daria 37 anos, seria demais para não dizer insuportável”, lembrou o político de 54 anos de idade que aspira ocupar o cadeirão presidencial.
Abel Chivukuvuku reconheceu a justeza da luta dos que designa “movimentos patrióticos e revolucionários juvenis” constantemente violentados de forma injusta, lembrando a postura das autoridades colonialistas que qualificavam de terroristas os libertadores da pátria, hoje feitos governantes autoritários.
“Eu Abel Chivukuvuku sou defensor de transformações e mudanças ordeiras e pacíficas e assim será aqui no nosso país (…) No entanto, nunca prescindirei dos direitos fundamentais e constitucionais que consagram as liberdades democráticas. Os cidadãos têm o direito de exprimir a sua indignação perante o roubo desenfreado e imparável e os abusos de poder. A democracia tem de ser defendida”, frisou o político.
A terceira via, o centro enquanto espaço patriótico, na perspectiva de Abel Chivukuvuku, é também uma proposta para todos os descontentes da sociedade angolana, pese embora viverem a angústia de terem de se submeter às lealdades partidárias, apesar de discordarem.
A sua proposta é ainda um repto lançado à sociedade para a alteração do status quo, que não pode perder a oportunidade que as eleições que se avizinham trarão ao país.
“Neste ano de 2012 é preciso mudar. Lanço este apelo aos angolanos. É preciso mudar, na pior das hipóteses e como realista que sou, acho que seria no mínimo e a todo o custo desejável acabar com a actual maioria asfixiante, cuja dimensão parlamentar cometeu o escândalo de aprovar uma constituição que permite eleger um presidente da República com poderes quase absolutos sem ter de enfrentar o eleitorado, directa e individualmente, angolano para angolano, com coragem, olhos nos olhos”, disse.
O político qualificou, por isso, de vergonhosa a proposta de cabeça de lista para concorrer às presidenciais, considerando “um artifício para permitir que alguém atinja o poder presidencial na boleia de forças partidárias”.
No seu discurso, Abel Chivukuvuku tratou de periodizar a história de Angola desde a proclamação de independência nacional em 11 de Novembro de 1975, marco importante do fim do jugo colonial após um longo período de luta armada liderada “por saudosos patriotas perante os quais me curvo respeitosamente” ao mesmo tempo que ressalta o profundo das mensagens por eles deixadas.
Durante este período reconhece terem emergido ideais basilares em que se estribaram os processos de luta, começando por destacar Holden Roberto a quem designou “pioneiro da luta de libertação nacional” cujo legado mais importante foi ter reputado de fundamental o reconhecimento do direito à “liberdade e terra ancestral” ao cidadão angolano.
Nos tempos que correm, contrapõe, contudo, o facto de aqui e acolá ocorrerem demolições de casas de cidadãos de baixa renda, criticando igualmente o facto de as novas centralidades em construção não responderem aos anseios desta camada da população.
“Chegou a hora de acabar com as demolições selvagens que apenas abrangem as barracas dos pobres sem compensação condigna enquanto as novas centralidades mantêm-se vazias”, conclamou Abel Chivukuvuku.
A António Agostinho Neto, Chivukuvuku reconhece o mérito de fundador da nacionalidade angolana por razões óbvias, ter proclamado a independência nacional, e ter manifestado uma preocupação que na actualidade preserva toda a força orientadora de qualquer acção governativa que deve ter bem presente que “o mais importante é resolver os problemas do povo”.
“Este é o momento de exigirmos uma educação pública condigna, desde a escola primária à Universidade; este é o momento para exigirmos saúde digna para todos, enfim este é o momento de lançarmos a luta contra a pobreza o que verdadeiramente o actual regime não faz”, afirmou.
De Jonas Savimbi, Abel fala de um político inovador que travou a luta armada no interior de Angola e legou como paradigma importante “primeiro o angolano, segundo o angolano, terceiro o angolano, o angolano sempre” enquanto caminho para a contínua realização do cidadão angolano.
Ao anúncio de cessação da sua militância na UNITA, vinte e quatro horas depois pouco mais de duas centenas de membros deste partido anunciaram publicamente o fim do elo que os unia a UNITA para acompanhar Abel Chivukuvuku na nova empreitada política.
Na última Quinta-feira, assinaram a declaração de fim de compromisso com a UNITA militantes da estatura de Carlos Morgado, Odete Chilala, Leonel Gomes, Adelino António, Milu Tonga, Xavier Jaime e Joaquim Muafumba e Libertador, antigo delegado da UNITA no Sambizanga e animador de várias manifestações contra o poder instituído.
Muafumba exerceu a função de ministro do Comércio no GURN e foi vítima de sevícias de companheiros seus durante uma actividade política do seu partido, no dealbar das makas que viriam a ditar a suspensão de Abel Chivukuvuku e Lukamba Gato entre outros, perdoados entretanto, nos termos do inquérito instaurado pelo órgão competente da UNITA.
Assinale-se que durante a apresentação da CASA, por Abel Chivukuvuku, estavam na sala figuras como Manuel Africano, antigo ministro da Geologia e Minas do GURN e o jovem Rafael Aguiar, além de vários integrantes do Movimento Revolucionário de Estudantes.
Embora se recusasse a responder a qualquer pergunta a propósito da CASA que lidera, o político deixou desde já claro que não embarcará na polémica à volta da presidência da CNE.
Abel reputa de maior importância o facto de a oposição se manter organizada e forte para tornear todos os obstáculos que eventualmente venham a ser colocados aos partidos políticos.
Para já, a CASA está em fase de arrumação e nas províncias deve estar a decorrer o trabalho de casa para que seja realizado o congresso constitutivo e consequente processo de legalização junto do Tribunal Constitucional.
Segundo deu a conhecer, está prevista para o próximo dia 20 a realização de uma conferência de imprensa durante a qual será dado a conhecer o curso de toda a actividade pelo país.
Militante da UNITA desde a primeira metade dos anos setenta, Abel Chivukuvuku desempenhou importantes tarefas nesse partido com destaque para as de vice-ministro das Relações Exteriores, chefe adjunto dos serviços de inteligência militar e líder da bancada parlamentar saída das eleições de 1992.
Sobreviveu às escaramuças do conflito pós-eleitoral, em 1992, e logo entrou em contradição com Jonas Savimbi quando este o instou a ir ao Huambo, alegadamente para receber orientações, o que de pronto rejeitou passando a ser visto pelo seu antigo líder como “enfant terrible”, postura que manteve quando da constituição da UNITA-Renovada à qual recusou-se a entrar.
É conhecido o comentário de Savimbi segundo o qual “o Abel não é peixe nem é carne” expresso exactamente nesse período em que ou se estava com a UNITA-Renovada ou com o líder guerrilheiro. Concorreu à liderança do seu antigo partido mas foi derrotado de forma esmagadora por Isaías Samakuva, em 1997, de quem agora se desliga para corporizar um velho sonho de concorrer às eleições para o cadeirão da Presidência da República.
Vários dirigentes deste partido minimizam o facto de Abel Chivukuvuku ter optado por correr noutras pistas, alegando que o passado histórico deste partido está repleto de episódios do género, como foram as saídas de Nzau Puna, secretáriogeral durante vinte anos, e Tony da Costa Fernandes, co-fundadores da UNITA mas que não levou o partido para a desintegração.
Reforçam esta convicção de irreversibilidade do projecto UNITA com o facto de terem perdido o seu líder fundador que consideram o mais rude golpe contra o partido que nem por isso entrou num processo de derrocada.
Observadores consideram, entretanto, que a perda em combate de Jonas Savimbi, até então tido como factor congregador, pode ter outras implicações que podem ser aferidas no número de apoiantes que abarrotaram por completo a sala do hotel onde Chivukvuvuku fez a apresentação do seu novo projecto político.