Passavam poucos minutos das 14 horas quando chegamos a Maternidade Lucrécia Paím. Num dos bancos da área de consultas pré-natais, 12 meninas, com idades compreendidas entre os 15 e 17 anos, aguardavam pelo momento em que seriam atendidas pela médica. Elas estão grávidas e são seguidas cuidadosamente pela equipa médica da unidade hospitalar.
Enquanto esperavam, conversamos com o grupo. Todas disseramnos que começaram a vida sexual entre os 11 e 14 anos e que tinham pouca ou nenhuma informação quando tiveram a primeira relação sexual. Descontraídas, a maior parte riu quando falamos que, em tempos idos, a idade para ter o primeiro parceiro sexual era entre os 17 e 18 anos.
Após uns instantes de conversa decidimos conhecer melhor algumas das adolescentes que lá estavam.
Uma das meninas, que passamos a identificar como Ana, de 15 anos, está já no sexto mês de gestação.
Com o dedo na boca e um ténue sorriso ela relatou-nos que “foi um choque” quando descobriu que estava grávida. “Tive muito medo, pensei em tirar a gravidez porque não queria enfrentar os meus familiares”, lembrou. Um dos momentos mais difíceis foi quando teve que contar aos seus pais. “Eles ficaram muito zangados, muito mesmo, foi terrível”, acrescentou.
Recuando no tempo, Ana explicou que teve a sua primeira relação sexual aos 13 anos e que não tinha nenhuma informação sobre sexualidade. “Não sabia como é que se fica grávida, ouvia as minhas amigas comentarem, mas não entendia nada.
Quando o meu período (menstrual) deixou de aparecer, pensei que era normal, que depois voltaria”, relatou.
O pai da criança que Ana espera tem 20 anos, mas, segundo explicou, a relação terminou e ele não acompanha a sua gestação. A adolescente estavacom a mãe que, segundo disse, lhe tem dado todo o suporte. “Quando o bebé nascer quero voltar a estudar, porque tive que interromper os estudos. A minha mãe vai ajudar-me a tomar conta da criança”, acrescentou.
Na verdade, Ana quer voltar a sua rotina de antes. Sair com as amigas, ir a praia, saltar a corda, jogar “pipô” (brincadeira com rolhas de garrafas, usual entre as crianças). “Mesmo grávida, sinto vontade de brincar”, confessou, reconhecendo, entretanto, que tem consciência que a sua vida jamais será a mesma.
No seu bairro, a adolescente não é a única que terá a responsabilidade de cuidar de uma criança. Duas das suas amigas passaram já pela mesma experiência. Na mesma ala de consultas estava outra menina, com nove meses de gestação. Aos 16 anos, a adolescente, que passaremos a identificar por Domingas, começou a viver a experiência. Sentia enjoos, vomitava e tinha muito sono. Foi a sua avó que se apercebeu do seu estado e lhe deu a notícia que, para ela, foi como uma bomba: esperava um filho e não entendia como isso aconteceu.
Com uma história de vida complexa, a menina perdeu os pais em tenra idade, reprovou várias vezes na escola e começou a ter relações sexuais aos 12 anos de idade.
Ela disse-nos que ouvia falar de gravidez, mas que nunca ninguém sentou com ela para explicar-lhe como prevenir-se.
“Não sei quem é o pai do meu filho porque quando engravidei tinha dois namorados. Algumas vezes usavam camisinha, outras não. É uma situação muito difícil de suportar para mim”, explicou-nos Domingas, que teve que ir morar em outra casa, porque a avó materna, com quem vivia, a expulsou de casa por ter engravidado.
Agora que vai ter um filho, Domingas refere que vai ter que mudar drasticamente o rumo da sua vida.
“Tenho que ser mais responsável.
Vou ter que vender no mercado para sustentar o meu filho porque só estudei até a terceira classe e será difícil conseguir um emprego”, referiu.
Quando uma adolescente engravida é um drama para toda a família.
É o que explica a avó paterna de Domingas. “É tudo novo para nós, uma situação muito complicada. Eu também não estava preparada para o que está a acontecer”, confessou, reconhecendo, entretanto, que a menina deveria ter sido melhor acompanhada e recebido informação sobre sexualidade.