A estratégia de Nicolas Sarkozy para conquistar os votos do eleitorado de Marine Le Pen (extrema-direita, 17,9% na primeira volta das presidenciais) está a dividir a sua equipa e mesmo o Governo. O Presidente cessante e recandidato ao Eliseu afirmou designadamente que a líder extremista da Frente Nacional (FN) é “compatível com a República”. Sarkozy recusa alianças de Governo com Marine Le Pen, mas esta declaração perturbou o seu partido e o Governo.
François Fillon, primeiro-ministro, bem como Alain Juppé, ministro dos Negócios Estrangeiros, declararam que nunca farão alianças com a FN para as eleições legislativas que se seguirão às presidenciais. “Nunca votarei FN”, disse Juppé.
Estas declarações, no momento em que Sarkozy radicaliza o discurso e faz tudo para cativar o eleitorado de Marine Le Pen para a segunda volta de 6 de Maio, irritaram Sarkozy, que criticou directa e publicamente Juppé (gaullista e amigo pessoal do ex-Presidente, Jacques Chirac, que também não apoia o candidato da direita): “Ele faria melhor ocupar-se da segunda volta das presidenciais do que das legislativas”, respondeu Sarkozy muito secamente.
Para as legislativas de 10 e 17 de Junho, que tal como as eleições presidenciais decorrem sob as regras do sistema maioritário a duas voltas, a FN ameaça estilhaçar a UMP, o partido de Sarkozy.
De acordo com as projecções dos institutos de sondagens, feitas a partir dos resultados da primeira volta das presidenciais de domingo passado, os candidatos da FN podem manter-se em mais de 300 dos 577 círculos eleitorais, na segunda volta das legislativas.
Na votação de domingo, Marine Le Pen ultrapassou a barra dos 12,5% em cerca de 350 círculos, a percentagem que, de acordo com a lei eleitoral, permite aos candidatos manterem-se para a segunda volta das legislativas.· Sem acordos de desistência recíproca com a FN, a UMP poderá perder dezenas e dezenas de deputados e Marine Le Pen aposta tudo na implosão da UMP. A líder extremista apela à ala direita deste partido para negociar de imediato acordos com FN porque, segundo disse, “Sarkozy já morreu”. Com a campanha para as presidenciais ao rubro, o primeiro dia de maio anuncia-se tenso em Paris, para onde estão marcadas três manifestações uma dos sindicatos e da esquerda, outra da extrema-direita e outra ainda da UMP. As sondagens para a segunda volta das presidenciais dão a vitória ao socialista, François Hollande, com oito pontos de avanço sobre Sarkozy.
O socialista também apela aos votos do “eleitorado popular” da extrema-direita, mas indicou que vai conceder o direito de voto aos estrangeiros não europeus, residentes em França há mais de dez anos, para as eleições autárquicas. Sarkozy, pelo seu lado, condenou esta proposta e radicalizou também as suas posições sobre a União Europeia. “A Constituição europeia deveria incluir uma referência às raízes cristãs da Europa, e não aceitar isso na Constituição foi um ataque à identidade francesa”, declarou
É obviamente importante saber se o próximo presidente francês se chamará Nicolas Sarkozy ou François Hollande. Mas o acontecimento de domingo – o de maior alcance – foi o resultado de Marine Le Pen. Para ela, as presidenciais não terminaram.
Tem como objectivo a derrota de Nicolas Sarkozy.
A razão é transparente: a eliminação de Sarkozy dar-lhe-ia uma oportunidade dourada que dificilmente se repetirá. As presidenciais são o trampolim para as legislativas de Junho. Le Pen aposta numa vaga decorrente da campanha das presidenciais e na ruptura do partido presidencial que domina a direita, a UMP.
O objectivo estratégico é “fazer implodir” a direita tradicional. O segundo objectivo é dinamitar o “consenso europeu” da França. O que está em jogo é muito mais do que a xenofobia. É a Europa.
Os 18 por cento apenas surpreendem os amnésicos. Marine Le Pen assumiu a presidência da Frente Nacional em Janeiro de 2011. “Desdiabolizou” a imagem do partido.
Em três meses, o índice de apoio às “ideias da FN” passou de 22 para 28%. Um ano depois, subia para 33%. Concordância com ideias não é equivalente ao voto mas constitui uma reserva eleitoral.
Tão ou mais importante é a baixa da taxa da sua rejeição. A “desdiabolização” funcionou. O voto na FN tende a banalizar-se. Aos temas tradicionais – imigração, segurança, identidade nacional – acrescentou ou acentuou a hostilidade a Bruxelas e à globalização. Deu passos simbólicos como a condenação do anti-semitismo ou na invocação da “laicidade republicana” contra os muçulmanos. Escolher a FN já não é só um voto de protesto, começa a ser um voto de adesão.
A campanha presidencial de Sarkozy em 2007 e a sua política de recuperar os temas da FN fez baixar a votação de Jean-Marie Le Pen. Se nas presidenciais de 2002 ascendera aos 16,8%, beneficiando de uma forte abstenção, recuou para 10% nas presidenciais de 2007 e para 4,3 nas legislativas de 2008. A seguir, o voto FN recomeçou a crescer sustentadamente, recuperando os “desiludidos do sarkozismo” e capitalizando o suplemento de respeitabilidade que Sarkozy lhe ofereceu.
Dispõe de uma base eleitoral popular que está longe de esgotada.
Grande parte das classes populares não se sente representada pelos partidos tradicionais e muitos exprimem o sentimento de abandono.
A FN é o primeiro “partido operário” (seguida pelo PS e pela UMP) e confirmou-o nesta eleição. Implantou-se nos antigos baluartes comunistas e nas bacias industriais devastadas pelo fim da segunda industrialização. A frustração serve de caldo de cultura da xenofobia.
Mantém a base tradicional entre pequenos comerciantes e artesãos, tal como em zonas rurais. Está agora à conquista das classes médias baixas. Começou a mobilizar os jovens, essencialmente dos “meios modestos”, de famílias operárias ou da “pequena classe média” dos serviços. Quanto menos diplomados mais votam na FN. São seduzidos pelo lado anti-sistema e pela denúncia das elites, escreve Le Monde.
É revelador o contraste com JeanLuc Mélenchon. A extrema-esquerda apenas atraiu o voto de dez por cento das classes populares, residindo a sua força nas classes médias e, sobretudo, entre os mais diplomados.
2. O sistema eleitoral francês (maioritário a duas voltas) impõe a necessidade de alianças e de acordos de desistência mútua, à esquerda e à direita. François Mitterrand usou habilmente a ascensão da FN para enfraquecer a direita. A “diabolização” de Le Pen impedia acordos entre direita e extrema-direita. Os casos de triangulação – segunda volta entre candidatos da esquerda, direita e extrema-direita – traduzem-se quase sempre na derrota da direita.
Só passam à segunda volta candidatos com mais de 12,5%. A votação de Marine Le Pen ultrapassou esta fasquia em 353 circunscrições e em 23 como primeira força. São eleições diferentes e a FN não é “dona” dos eleitores. Mas aposta na dinâmica criada pela campanha e na derrota de Sarkozy, que deixaria à deriva o partido governamental, partido e em crise de identidade.