Fontes no interior do Caminho de Ferro de Luanda (CFL) parecem não ter dúvidas de que a recente greve do seu pessoal de linha (operadores directos dos meios técnicos da empresa) poderá ter sido um ‘parto’ com alguma mão de fora.
Num contacto com O PAÍS, depois de a este jornal ter chegado um documento sobre um peditório a todos os títulos estranho (o líder grevista, em nome da comissão sindical, apela aos trabalhadores mobilizados para a greve que contribuam com mil kwanzas cada um para “gratificar” nomeadamente “jornais privados, rádios, TV, em função da cobertura feita”), um elemento influente da empresa considera esquisito que os sindicalistas se interessem por essa espécie de “ressarcimento” aos jornalistas quando, na verdade, estes terão cumprido, numa situação transparente, com o seu dever elementar de informar.
“Já alguém amigo nos tinha alertado que a greve era instigada de fora, que havia gente a agitar os trabalhadores para paralisarem o trabalho. Esta nota, não sendo a confirmação desse alerta, pode contudo ser um indício bastante revelador”, disse a fonte.
“Das duas uma: ou há algum conluio chegado de fora (da empresa) ou, o que é grave à mesma, há aqui uma tentativa de alguém extorquir Luís Fernando dinheiro aos colegas”, acrescentou.
A autenticidade da nota não se põe em causa, conforme pôde apurar O PAÍS num exercício rigoroso de cruzamento de dados: quem a assina, Silas Eugénio José, e a pôs em circulação sob a forma de peditório, está identificado e localizado, assumiu a liderança da greve e faz o seu trabalho quotidiano no sector ao qual está adstricto, o Contencioso Laboral.
É expectável que nas Redacções dos órgãos de comunicação o ambiente seja de algum desconforto quando este assunto chegar ao conhecimento dos jornalistas, à semelhança do que aconteceu em sede de O PAÍS quando o comprometedor papel andou de mão em mão sobre o fecho da presente edição. “Lá estamos nós, jornalistas, mais uma vez na corda bamba; se alguém anda a receber dinheiro por instigar greves, é uma vergonha; e se há grevistas que pensam que os jornalistas por fazerem o seu trabalho devam ser gratificados por isso, há aqui uma ignorância e um equívoco tremendos”, comentou-se.