Porquê despir a pele?
Em primeiro lugar dizer,“Despir a Pele” entre aspas. Faço questão de ressaltar isso. A expressão cria inicialmente algum espanto e choque pelo que devo explicar o que me levou a usá-la.
Despir a pele é uma figura de estilo, uma Perífrase, uma expressão usada para designar outra, neste caso, a Catarse.
O objectivo é descodificar essa palavra que me é tão cara.
Despir a pele é algo trágico, dramático, uma autêntica descarga emocional e em última análise essa mesma sensação acaba por provocar a cura, a purificação das almas. Essa expressão pode ser encontrada nos mais variados ramos do saber, na medicina, psicologia, psiquiatria, teatro, cinema e na literatura. Falar de teatro é também perceber as suas origens e faz todo sentido mencionar Aristóteles, grande filósofo grego da Antiguidade Clássica, que postulou nos seus escritos, datados de cerca de 330 Antes de Cristo, “A Poética” as teorias do teatro Ocidental e que influenciam Guionistas, encenadores e actores até aos dias de hoje.
Quero com esta exposição fazer uma reflexão sobre o teatro, o Drama, a tragédia e sobre as emoções que suscitam. Deste modo evito falar de bisturis, de cirurgias invasivas, anestesias, dissecações anatómicas de cadáveres humanos e de animais. Este é um aspecto do âmbito de investigação de fisiologistas, se bem que devo confessar, também me fascina, basta olhar para a minha Biblioteca e Dvd’s sobre o tema.
As nossas etapas de vida, ou seja, os estágios de conhecimento adquirido fazem-me lembrar os actos de uma peça de teatro. A exposição (apresentação das personagens) o Clímax (onde se desenvolve o conflito) e o Desenlace ( a resolução do conflito).
Entramos em conflito quando adquirimos valores e os pomos em causa, tentando então a melhor solução para resolvê-los. Tal foi possível no período histórico do Renascimento Italiano, ao colocar-se o homem como a medida de todas as coisas, criou-se uma ruptura com ensinamentos vigentes (idade média) e que não mais faziam sentido numa época de forte apetência pela investigação científica em direcção a um ideal humanista.
Eu vivo no séc. XXI e ao estudar a história da anatomia vejo o quanto evoluímos no que concerne ao modo como o corpo humano foi estudado e retratado. Os retrocessos e avanços.
Existem relatos conhecidos, na Antiguidade Clássica de dissecações atribuídas ao anatomista grego Teofrasto, curiosamente discípulo de Aristóteles que também dedicou parte da sua actividade intelectual à dissecação.
Galeno, anatomista da antiguidade clássica nos seus relatos de anatomia médica referia que suas análises eram baseadas em estudos de macacos, visto que a dissecação humana não era permitida no seu tempo. É incrível como o conflito, o confronto com tais teorias insuperáveis só foi possível com a descrição impressa e ilustrações de dissecções humanas por Andreas Vesalius no século XVI, muito devido ao advento da imprensa de Guttenberg.
Passaram-se Séculos de obscurantismo e de verdade inegáveis.
Vesalius, considerado o pai da anatomia moderna publicou ” De Humani Corporis Fabrica”, um atlas de anatomia publicado em 1543, um título curioso, como se estivesse a antecipar o advento da invenção da máquina a vapor e consequentemente a revolução industrial, na Inglaterra do Século XVIII, na qual a máquina foi superando paulativamente o trabalho humano.
“Despir a Pele” significa não nos contentarmos com o que nos é dado e procurarmos nós mesmo procurar novas informações. Procurar a nossa própria verdade na direcção de um conhecimento científico. Toda e qualquer teoria, seja de que ramo for, pode perfeitamente ser refutada e contestada desde que devidamente fundamentada. No campo da Artes, na dramaturgia, na mitologia grega, até os deuses são contestados. Na pintura, os cenários surrealistas, os objectos desafiam a gravidade, a anatomia toma proporções improváveis desafiando o cânone estabelecido. Na minha pintura relato cenários de sofrimento e dor tal como na tragédia e isso pode resultar numa catarse da audiência. Talvez isto explique o motivo pelo qual nós seres humanos, os da era Antiguidade Clássica e os da era contemporânea, termos uma estranha tendência em apreciar e assistir ao sofrimento dramatizado, tal como numa tragédia grega, cuja função é provocar por meio da compaixão e do temor a expurgação ou purificação dos sentimentos, a catarse.
E se a vida for um palco, cheio de dramas, personagens caricatas, fascinantes máscaras, heróis admirados fanaticamente e que caem em desgraça logo em seguida? O que estaremos a assistir então?
“Despir a Pele” é a terapia obtida através da psicanálise, é a confissão religiosa, é o sentimento de vulnerabilidade e fragilidade. O Homem ao longo da história sempre edificou equipamentos que o reduzem a uma certa insignificância perante algo superior, omnipotente e omnipresente. Os tempos religiosos, igrejas, mesquitas, sinagogas, templos budistas, reduzem-nos, tornamnos mais humildes, levam-nos à actos de confissão e permitem um diálogo honesto e sincero connosco na busca da verdade e do melhor caminho a seguir para minorar os nossos problemas.
“Despir a Pele” no sentido metafórico é um pretexto para se falar de teatro, de interpretações, personagens. Da peça de teatro maior, ou seja, a vida, o nosso quotidiano.
“A definição é aparente, logo falsa, tal como num teatro onde se usam indumentárias que se trocam ao descer do pano para o acto seguinte”
No seu trabalho e olhando para as pessoas e para a sociedade, qual é a pele que melhor se despe, a da alma ou a do físico?
Fernando Nobre, fundador da Assistência Médica Internacional, disse numa entrevista algo que retive até hoje. Como médico, dizia que ao cortar com um bisturi a zona do abdómen de um ser humano, um refugiado num campo de concentração em zonas do globo atingidas por conflitos militares, num consultório equipado com tecnologia de ponta, ou num hospital público, iria sempre encontrar a mesma coisa: intestinos, estômago, fígado, bílis, etc.
A pele cobre o que é mais importante mas não nos define. A definição é aparente, logo falsa, tal como num teatro onde se usam indumentárias que se trocam ao descer do pano para o acto seguinte.
Colocamos então novas máscaras para entreter o público e este apenas aplaude aquilo que representamos.
Não se interroga sobre o ser por trás da máscara.
Com o avanço da tecnologia aliada à medicina, falando de cirurgias estéticas, é muito fácil mudar a nossa aparência exterior, a nossa pele. O uso de botox, implantes mamários e nos glúteos, procura-se uma perfeição física na esperança de uma maior aceitação pública e na esfera privada.
Respondendo à sua pergunta, julgo ser claramente mais difícil despir a pele da alma. Para tal é necessário um confronto connosco próprios, o que nem sempre é uma tarefa fácil. Os psicanalistas têm um papel importante nesta área, mas para a tal as pessoas têm de ter consciência que precisam de ajuda. Têm de ser elas próprias a tomar a primeira iniciativa.
A anatomia humana é mais uma obra de arte em si mesma, ou um instrumento para realizar arte?
O corpo humano sempre foi retratado ao longo da história da arte, com mais ou menos pudor consoante a época histórica. A representação muda conforme o estágio de conhecimento do ser humano, na arte pré-histórica, na Idade média, no nosso continente africano, no renascimento, revolução industrial, era contemporânea, o modo como se representava o corpo foi variado e mostrava o nível do conhecimento científico adquirido até à data. Nas artes performativas, dança, teatro, o corpo é ele mesmo o próprio instrumento de trabalho. A performance junta a artes plásticas, dança e teatro. Vão-se esbatendo cada vez mais as barreiras entre essas vertentes artísticas. Vídeo-Arte, a fotografia, cinema, mostram o corpo na sua plenitude. Ora um modo gratuito e grotesco, ora sublimado e exacerbado na sua nobreza. O corpo é meio para atingir um fim…não é o fim em si. O corpo é a forma, não o conteúdo, se falarmos em termos de performance. O conceito prévio, os ideiais levam-nos por fim a tomar as melhores decisões no que concerne ao uso mais adequado do corpo nas manifestações artísticas.
O que mais o fascina no corpo humano?
A busca que tenho encetado sobre o corpo humano não tem fim à vista.
Consigo sempre descobrir algo de novo sobre ele. A literatura médica é vastíssima, os livros de ilustração científica vão sendo coleccionados por mim a cada ano que passa. A língua em que são impressos também cria grandes desafios para mim. Leio em espanhol, inglês e francês e, em cada manual, existem referências bibliográficas a que infelizmente ainda não tive acesso. Logo, a investigação nunca cessa. Ao mesmo tempo é interessante, pois dou por mim a despir as pessoas com os olhos, vejome a tentar descobrir a sua anatomia pelo método dedutivo e, por vezes, sem me aperceber, faço-lhes algumas perguntas desconcertantes e embaraçantes. Lembro-me de um episódio, no ano passado, em que perguntei a um rapaz, motorista de um amigo meu, se ele praticava judo ou luta greco-romana. Ele ficou super admirado, pois não nos tínhamos cruzado antes daquele encontro. Eu disse-lhe que o músculo esternocleidomastóideu, dele, estava muito bem desenvolvido. Não quis entrar em mais detalhes pois ele não estava em condições de entender os termos anatómicos usados por mim e então mudámos de assunto….seria tão bom falar do renascimento dos ideais de beleza greco-romanos, a era do iluminismo….enfim….
Além da anatomia, do músculo, do corpo, ressalta, claramente, um traçado mais geométrico na sua obra, um pouco como um encontro entre a arquitectura, o corpo e a alma. Para onde nos pretende transportar?
Transporto o espectador para cenários teatrais criados por mim em última análise. O palco criado por mim tem uma cenografia idiossincrática, uma indumentária por escolhida por mim e as personagens interagem, lutam pelo seu espaço, conforme os meus ditames.
Esse espaço sim, eu posso alterar.
Não me é imposto taxativamente. É essa a liberdade que se obtém com as artes plásticas. Podemos sempre sonhar e almejar por realidades diferentes daquelas que nos são dadas. Nada na tela é adquirida. Ela é mutável e está em constante transformação. A dada altura posso até modificar completamente o esboço inicial. É a suprema liberdade.
Esta pergunta deve ser rotineira, mas até que ponto pode a arte despir a pele de Luanda? Isto se considerar que Luanda ainda se esconde debaixo de alguma pele que lhe cubra a beleza.?
Gostaria de fazer um analogia entre uma cidade e um corpo.
O nosso cérebro, no órgão de controle supremo não pode coexistir isolado para que a vida se dê em plenitude. Há uma interdependência entre os vários órgãos e meios numa cadeia de acontecimentos diária e rotineira que apenas cessa com a nossa morte.
Se compararmos o centro Luanda a um coração e as várias cinturas periféricas aos outros membros e órgãos do corpo humano, podemos encontrar as veias e artérias, os vasos sangüíneos do sistema circulatório do nosso corpo. As artérias saem do coração e por isso estão sob alta pressão tendo a função de oxigenação e nutrição das células.
As veias são vasos que chegam ao coração e são capazes de comportar grande volumes de sangue. Algumas veias possuem válvulas para evitar o refluxo do sangue e, basicamente, quando há falência dessas válvulas formam-se as varizes. Só as vemos quando algo corre mal. Os cidadãos usam As artérias rodoviárias que saem do centro financeiro, político e cultural da cidade em direcção às periferias sub-urbanas com o oxigénio adquirido para melhorar a sua condição de vida. O problema que todos enfrentamos diariamente com o tráfego denso leva-nos a um estado de stress emocional de tal ordem que nos leva despir a pele. A da cortesia, da humildade, enfim.
Se quem mais queremos e nos faz bem está a 2 horas de distância, É claro que isso nos faz andarmos aflitos e apressados e sem tempo.
Mas ninguém se reconheçe nessa pele. Nós somos por norma acolhedores, afáveis, hospitaleiros, quero acreditar nisso.
“A minha verdade resume-se àquilo que eu entendo e conheço. No meu estádio de conhecimento actual. Obviamente, quando tiver 40 anos a minha verdade será outra, e aos 60, talvez até possa rejeitar aquilo que tomo como adquirido e verdadeiro na minha arte”
Sente que está a fazer um corte radical com aquilo que normalmente os artistas angolanos pintam?
Respondo de um modo politicamente correcto. Apenas digo que eu pinto a minha verdade. A minha verdade resume-se àquilo que eu entendo e conheço. No meu estádio de conhecimento actual. Obviamente, quando tiver 40 anos a minha verdade será outra, e as 60, talvez até possa rejeitar aquilo que tomo como adquirido e verdadeiro na minha arte. Eu sou um investigador na área do ensino artístico, na DINFA, docente de Desenho e Geometria na área de arquitectura, e gosto de pintar e desenhar. Transporto para as telas o que vejo e investigo no meu dia a dia. Tenho dois filhos muito pequenos e isso leva-me a ser um pouco paranóico com a questão da saúde, a ausência dela, diria até certo ponto um pouco hipocondríaco.
Intriga-me o culto da manipulação do corpo através da musculação, algo que também pratico muito irregularmente.
Inconscientemente acabo sempre por ilustrar algumas dessas inquietações nas minhas telas e nos desenhos preparatórios que faço. Reflicto sobre a condição humana, a sua fragilidade e vulnerabilidade.
Sente que está a nascer uma nova geração de artistas, ou uma nova forma de abordar a arte, sem amarras ideológicas?
Sinto que a minha geração tem outro tipo de informação em relação à sua antecessora. Hoje nós interagimos através das redes sociais. Trocamos e-mails, visitamos os blogs e sites uns dos outros e fazemos sugestões em tempo reais de eventos sócio-culturais relevantes que nos suscitam interesse.
O advento da Internet, dos telemóveis, das parabólicas, tv’s por cabo marcaram sem dúvida esta geração.
A próxima será ainda mais tecnologiamente dependente que a minha.
A etimologia da palavra arte, junta a palavra Ars e Tecné, a saber, habilidade e Técnica / Tecnologia. Os nossos antepassados eram hábeis a usar o xisto, e o carvão para gravar imagens de bisontes nas grutas pré-históricas de Altamira e Larcaux. Hoje eu uso o I-Pad para desenhar, não deixando de ter obviamente habilidade manual para desenhar com mestria num papel. Eu nasci em 1978, 3 anos após a independência de Angola. Os meus manuais escolares continham alguma carga ideológica. Tive a sorte de viajar desde muito cedo e conhecer outras paragens. Mudei-me para Lisboa ainda muito cedo e isso causou em mim impacto. Não fui uma criança afectada pela guerra e pela fome. A minha família nuclear e alargada mantém-se muito unida até os dias de hoje e muitos mudaram-se para outras partes do mundo para concluir a sua formação superior. Encaro a arte com propósitos universais e não locais ou etnográficos.
A vida cosmopolita obriga-me a tal.
Hoje os meios de deslocação são tão acessíveis, que permite a artistas da minha geração ver uma exposição, visitar galerias e privar com curadores e mecenas em Johanesburgo hoje, e em Paris amanhã sem se sentir minimamente deslocado, ter um conhecimento à priori das realidades sociais e políticas das cidades que escolhem para obter mais informação em termos de vida cultural e artística.
Paulo Kussy, na sua Luanda de todos os dias, tem de vestir outras peles ou tem de despir a sua para entender a nossa sociedade?
Pergunta interessante essa. Salvador Dali, grande pintor espanhol dizia que, a diferença entre ele e um louco, era que ele não era de todo louco. Dali foi um mestre na manipulação, na encenação, no marketing pessoal.
Obviamente que ele encarnava com mestria e inteligência aquela personagem tão fascinante que só ele representava. Só quem privou com ele na intimidade ao longo de vários anos poderá revelar a verdadeira identidade de Dali. Talvez Gala, sua mulher e musa. O artista, é um performer, um show man. Não pode ser entediante, tem de suscitar interesse permanente, pois pode correr o risco de cair no esquecimento e não suscitar interesse do grande público.
Sou docente universitário. Todos os dias eu dou aulas e tenho de entreter uma plateia, quer se queira ou não. Estamos expostos e vulneráveis. Sujeitos a interrogatórios e a avaliações permanentes. O problema, é que o resultado da nossa performance é obtido na hora. Isso é um desafio enorme. Explicar abstracções geométricas, o espaço infinito de representação, a dicotomia entre as três dimensões da realidade e as duas dimensões do papel não é tarefa fácil. Por vezes é necessário despir a pele, temos de ser cómicos, sabe, suscitar o riso e a gargalhada dinamiza uma aula, provoca um novo interesse….é necessário projectar a voz de um modo convincente e seguro….
tornar o discurso dinâmico, coerente e acutilante….onde é que já vimos isso tudo….em peças de teatro, na sétima arte, em seminários, em cursos de superação profissional, workshops, etc. Todos esses profissionais poderiam perfeitamente trabalhar na área do entretenimento.
E o mercado da arte em Angola, tem uma pele falsa ou uma anatomia que se vai formando?
Vai-se formando lentamente e muito terá de passar pela educação e esclarecimento das pessoas no que concerne ao fenómeno de produção artística. Tal como outros produtos que advêm de uma indústria, a indústria cultural, tem os seus actores, os bens que produz e que procura escoamento. Mas para que tal aconteça, passe a expressão, é necessário criar um manual de instruções. O belo, o feio, são conceitos filosóficos perfeitamente explicáveis mas não se explicam por si só. Temos de engajar os profissionais mais competentes na área para educar e esclarecer o cidadão menos informado. Para haver um mercado é necessário um local onde se transaccionam os bens, um público comprador e os vendedores e promotores.
Não estamos mal nesse aspecto.
Temos galerias de arte, temos uma Trienal que está consolidada, prémios bi-anuais (Prémio-Ensa Arte) e um prémio Nacional de Cultura e Artes. A pele falsa seria afirmar que tudo isso que enunciei não existe. O que não é de todo verdade.
As coisas vão acontecendo a seu ritmo e cabe a nós artistas criar iniciativas relevantes que possam cada vez mais levar o nome de Angola para além fronteiras.
Estamos em ano eleitoral, a arte é absolutamente incompatível com a política, pela liberdade que a caracteriza? … ou vê na política também uma forma de arte?
A arte contemporânea reflecte o modo como artista se vê a si mesmo e o mundo que o rodeia. Obviamente o artista não é um eremita isolado e obviamente pretende interagir com a sociedade e provocar reacções por parte dela no que concerne ao trabalho que realiza. A política é a arte da organização de algo mais abrangente, ou seja, de Estados-nação e todas as superestruturas que o fazem funcionar. A política legisla, dita normas e valores, cria postulados que através do sufrágio podem vir a seguir seguidos por uma grande franja da população. O artista em primeira análise organiza-se a si mesmo.
Organiza o seu pensamento e modo a torná-lo coerente e digno de ser apresentado através de manifestações artístico-culturais. Não acredito que o artista almeje o consenso, a ordem, pelo menos não é o meu caso. Se eu estiver deprimido e me apetecer pintar um quadro que ilustre este estado de espírito tenho consciência que não irei agradar a toda gente e poderei até não conseguir vendê-lo. Fico, no entanto, satisfeito comigo mesmo pois revelei uma verdade abafada e que sufocava tal como um colete-de-forças. Através da arte liberto-me de alguns constrangimentos e adquiro uma certa libertação, a catarse, a purga a que me tinha referido anteriormente.
É professor, o que diz aos seus alunos que pretendem mostrar-se ou seguir a carreira de artista?
Digo-lhes apenas que mostrem a sua verdade. Que não tenham medo de ser eles próprios e experimentar constantemente na busca do seu “eu”.
Aquilo que já lhe tinha respondido há pouco. Hoje estava a ver na TV a biografia da cantora norte-americana Jewel. A dada altura confessou a um jornalista que havia cantado o mesmo repertório de canções durante meses em bares e escolas secundárias, sem sucesso. No dia seguinte à sua aparição televisiva num talk show de grande audiência, críticos de música diziam que ela interpretava cada sílaba que cantava de um modo comovente e surpreendente. O grande público televisivo sentiu de imediato uma enorme empatia por ela. Sem ela se aperceber tocou o coração de milhões de pessoas em apenas 3 minutos em que esteve no palco. Não se ensina isto nas escolas de arte. Há algo mágico que ocorre quando um artista despe a sua pele, mostra a sua vulnerabilidade. Eu também procuro isso e sei perfeitamente que o processo é longo e doloroso. Desistir é a via mais fácil, mas quem resiste tem recompensas muito satisfatórias.