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Rejeição

Sarkofobia: uma doença fatal?

Na eventualidade do presidente francês, Nicolas Sarkozy, fracassar na sua tentative de reeleição na segunda volta das presidenciais agendadas para o próximo dia 6 de Maio, em quem recairá a culpa da sua hecatombe ? Analistas dizem haver o que se descreve já por Sarkofobia, isto é, uma rejeição visceral de muitos franceses ao seu presidente. Mas o que subjaz a essa rejeição? Nenhum presidente francês da era moderna havia sido objecto de uma vaga de descontentamento tão evidente. Nicolas Sarkozi deixou de “cair no goto “ dos seus compatriotas, poucos meses depois de ter assumido a chefia de Estado em 2007.

Com efeito, são poucos os líderes que gozam de unanimidade. A grande maioria destes é, alias, alvo de objecção devido às suas decisões politicas e à incapacidade humana de agradar, em simultâneo, a “gregos e troianos”. Porém, poucos são aqueles que são odiados a um nível mais pessoal.

De acordo Jean Sebastan Ferjou, editor do site noticioso Atlantico “ ..existe um ódio quase irracional contra Sarkozy da parte do grande público, e essa raiva terá um papel importante nas eleições”.

O jornalista cita pesquisas que indicam que se se pedir opinião à população francesa sobre políticas de Sarkozy sem mencionar o nome do presidente -, as pessoas tendem a apoiá-las. Contudo, não votarão nele.” Se na primeira volta das eleições, Sarkozi e Hollande alternavam-se no topo das pesquisas de intenções de voto, o mesmo não se poderá dizer relativamente à segunda volta. A maioria das pesquisas indicam vantagem de Hollande em parte porque eleitores entrevistados nas referidas sondagens dizem não querer votar em Sarkozy.


Abertamente de direita

Na perspectiva da maioria dos analistas, a principal razão para a hostilidade de parte do eleitorado para com Sarkozy reside no facto do presidente ter sido o primeiro líder francês a declarar-se abertamente de direita.

Sarkozy nunca demonstrou vergonha de seu alinhamento à direita “É irônico, porque, na verdade, ele é totalmente desestruturado ideologicamente. O seu talento é (usado) para energia e movimento, tornando-se impossível entender a sua base ideological e as suas tendencias intelectuais”, agregou ainda o editor do site Atlantico.

Durante o seu mandato, Sarkozi fez passar claramente a mensagem de que não sentia vergonha de dizer que era de direita – e, segundo analistas, isto despertou uma forte onda de hostilidade.” Acresce pr outro lado que a direita da França abandonou há bastante tempo, por completo, o debate intelectual, deixando-o a cargo da esquerda.

O argumento dos chamados partidos de direita nas sociedades modernas é que eles administram melhor a coisa publica do que os políticos de esquerda. Isto tê-los-a feito abandonar a batalha de ideias e de valores.

E, Sarkozy, também pôs fim a isso, fazendo com que muitos o odeiem.

‘Sarkofobia’

O mote a ‘Sarkofobia’ atravessa cafés e salões culturais da burguesia parisiense, onde o presidente francês é frequentemente descrito como vulgar, obcecado por dinheiro, meio racista e perigoso.

Em declarações recentes, o cineasta Mathieu Kassowitz afirmou que, se Sarkozy chegasse à segunda volta eleitoral, ficaria provado que a França se tornou um país “colaboracionista e neofascista”.

Cinco anos depois da sua vitória presidencial, em 2007, ter sido celebrada num caro e chique restaurante em Campos-Elísios, Sarkozy ainda é criticado pelo seu suposto estilo de vida faustoso.

No entanto, é bom lembrar que altos dirigentes socialistas também são comumente vistos em sofisticados restaurantes parisienses.


Verdades inconvenientes

Para o advogado de direita GillesWilliam Goldnadel, as raízes da rejeição a Sarkozy vêm de uma cultura ainda refém da sedução pela esquerda.

“É aquela velha tradição revolucionária e romântica que ataca tudo que diga respeito a dinheiro e privilégios”, declarou. “E isto soma-se ao facto de que a maioria dos jornalistas é de esquerda.”

Outra interpretação da Sarkofobia é dada pelo escritor Andre Bercoff, autor de “La Chasse au Sarko” (A caçada a Sarko, em tradução livre).

Para ele, a aversão a Sarkozy não tem motivações ideológicas: “É porque não cumpriu com as regras sobre como ser presidente. Quando (Charles) De Gaulle criou a 5ª República, criou uma Presidência que era como uma monarquia. E desde então todos os presidentes, de direita ou esquerda, cumpriram isso tranquilamente.

Mas, veio Sarkozy e disse: ‘Não quero ser rei. Prefiro ser um político, um técnico de futebol’. E muita gente ressente-se com isso.” “Os franceses estavam felizes por serem liderados por pessoas como Mitterrand ou (Jacques) Chirac, líderes que nutriam a sua crença pósrevolucionária de que os franceses eram uma espécie de povo escolhido, para quem as regras normais da economia não se aplicam”. “ Sarkozy destruiu essa ilusão.” Para Bercoff, a outra razão pela qual muitos desprezam Sarkozy é por ele ter dito aos franceses algumas verdades inconvenientes.

Afinado

Na óptica da maioria dos analistas, Sarkozy não vencerá. Atribuem a sua convicção a uma rejeição quase visceral ao presidente.

Mas, o professor de sociologia da Sorbonne, Michel Maffesoli não tem tanta certeza. Para ele, apesar do desprezo a Sarkozy exposto nos meios de comunicação social, o presidente ainda conta com uma boa reputação entre grande parte da opinião pública.

“A pós-modernidade, para onde caminhamos, é muito mais ancorada no emocional do que no intelectual”, opina. “E Sarkozy captou isso instintivamente. Ele está muito mais afinado com as pessoas comuns do que os intelectuais.” Maffesoli não acredita em pesquisas de opinião, por achar que as pessoas dizem o que se espera que elas digam e, assim, minimizam o seu apoio a Sarkozy.

E agrega mesmo que “ …é diferente nas assembleias de voto. Ali o que sobressai é o lado emocional. Por isso acho que Sarkozy pode ganhar.” Pedro Nunes / e BBC Brasil

7 de Maio de 2012
16:27
 
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