Como tantas vezes acontece, a capa da edição de 28 de Abril da revista britânica The Economist conseguiu captar a essência do que esteve em causa nas eleições presidenciais francesas. Bastoulhe um título polémico: “O bastante perigoso Monsieur Hollande.” Sem ponto de interrogação. Apenas com uma breve explicação adicional: “As eleições francesas e a revolta da Europa contra a austeridade.” Aliás, a revista saúda esta revolta. “Com um presidente socialista, a França conseguirá uma coisa muito importante. Hollande opõe-se à dura disciplina orçamental que a Alemanha quer impor e que está a estrangular qualquer possibilidade de retoma na zona euro.” O problema, argumenta a revista, é que o fará pelas más razões, correndo o risco de pôr em causa a prosperidade futura da França e da Europa. Fundamenta o seu cepticismo: a atitude do candidato (agora presidente eleito) em relação ao mundo dos negócios; os limites que lhe podem ser impostos por um Partido Socialista que nunca levou a cabo o aggiornamento dos seus parceiros sociais-democratas; o facto de nada na sua carreira fazer acreditar que ele tenha a coragem sufi ciente para fazer as reformas de que a França precisa.
As considerações da Economist são falíveis. Tão falíveis como as que apostam em que François Hollande acabará por fazer o que é preciso para evitar que o segundo país mais importante do euro se torne vulnerável aos ataques dos mercados, abrindo um cenário de verdadeiro pesadelo para a Europa. A esperança é que nem sempre a revista acerta.
Em Setembro de 1998, publicou uma outra capa que ficou célebre, mas que se provou falsa. “Compraria um carro em segunda mão a este homem?” O homem chamava-se Gerhard Schroeder, era o candidato do SPD às legislativas que derrotaram Helmut Kohl e governou a Alemanha à frente de uma coligação “vermelha-verde” até 2005. O mesmo que agora a revista cita como exemplo para as reformas de que a França necessita urgentemente.
Schroeder tornou-se, curiosamente, no herói de Sarkozy.
François Hollande traçou um guião rígido mas aparentemente eficaz para oferecer à esquerda a segunda oportunidade na V República de ocupar o Palácio do Eliseu: ser o anti-Sarkozy. Continua a ser, em grande medida, um mistério e, por isso, apenas pode alimentar cenários. Nunca exerceu um cargo governativo. Liderou o Partido Socialista de 1997 a 2007, quando os heróis do partido eram Lionel Jospin e, mais tarde, Ségolène Royal. Discreto, sem uma doutrina política conhecida, traz apenas consigo um passado europeu que não alimenta dúvidas.
Reclama-se da herança de Jacques Delors. Está rodeado de gente que representa a visão mais pró-europeia da política francesa. Escolheu para chefi ar a sua campanha o mais liberal dos socialistas franceses, Manuel Valls, catalão de origem, fiel de DSK, capaz de dizer sem papas na língua que “é preciso dizer a verdade aos franceses” sobre o estado da economia da França. Hollande não seguiu o seu conselho. O problema não é apenas dele. Só num país como a França seria possível assistir a um debate de quase três horas entre os dois principais candidatos ao Eliseu em que o mundo exterior esteve absolutamente ausente.
Escreve Paul Taylor, analista da Reuters, que o próprio general De Gaulle, a figura que domina ainda hoje a V República, se queixava da dificuldade extrema de governar um país “com 246 variedades de queijo”. O próximo ocupante do Eliseu “enfrenta o mesmo dilema”. “Como reformar uma nação rebelde de forma a poder enfrentar os desafios do século XXI?” Até agora, o candidato socialista escudou-se na ideologia para dizer que é possível reformar a economia e pô-la a crescer sem seguir a via dos cortes e das reformas radicais.
“Alguém acredita que o liberalismo, as privatizações, a desregulação que nos conduziram à situação em que estamos nos ajudará a sair dela?” Qual é a fórmula alternativa? Igualmente vaga: “A forma de criar riqueza é através das novas tecnologias, da educação de qualidade e na aposta nas novas fontes de energia.” “A retórica socialista clássica ainda tem um lugar proeminente na política francesa”, diz Ulrike Guérot, directora do European Council on Foreign Relations de Berlim e uma profunda conhecedora da relação francoalemã. Acrescenta que “a verdade desconfortável é que a economia francesa está numa situação bastante má do ponto de vista estrutural”. O diagnóstico está feito e não merece interpretações divergentes. Um crescimento potencial abaixo de 1%.
Uma dívida que atingirá no fim deste ano os 90% do PIB. Um desemprego que persiste em torno dos 10% há mais de uma década. Uma balança comercial que atingiu um défice de 70 mil milhões de euros no ano passado. Um desequilíbrio orçamental que perdura desde 1974.
Os dois candidatos prometem, no entanto, atingir esse equilíbrio, agora imposto pelo novo tratado orçamental, em 2016 (Sarkozy) e 2017 (Hollande). Explicam mal como o farão. O candidato socialista promete a criação em cinco anos de 150 mil “empregos de futuro” para os jovens e 500 mil “contratos de geração” (redução das contribuições sociais das empresas que mantenham um sénior empregado e contratem um jovem ao mesmo tempo); um aumento de 25% no subsídio dado às famílias no início do ano escolar e mais 60 mil postos de trabalho no ensino. A sua ideia é que o crescimento pagará tudo isto.
Os analistas duvidam. A retórica de Sarkozy é mais de acordo com os tempos que correm. Invoca as reformas do social-democrata Schroeder e o modelo alemão. A sua receita, tal como a do seu rival, para a redução do défice assenta mais na subida de impostos (que já são tão altos como na Suécia) do que no corte das despesas. Apesar de ter prometido uma “ruptura”, a sua herança não é animadora: aliviou a rigidez das 35 horas de trabalho semanal e fez a reforma das pensões.
O que os une é mais do que aquilo que os divide. O papel central do Estado, a desconfiança dos mercados, o receio da globalização, a tentação proteccionista, e o corolário disto tudo: a crença de que é possível continuar a financiar o modelo social francês. “Nenhum deles está a dizer aos franceses que o seu amado sistema de intervenção e protecção do Estado não pode continuar tal como existe”, escreve James Bond, do Carnegie Endowment de Bruxelas. “O sistema está agora a ser financiado pela dívida pública.” Há um reverso da medalha que ajuda a explicar esta “gigantesca ilusão”. De novo Paul Taylor: “A verdade inconveniente é que os franceses vivem demasiado bem, apesar dos 10% de desemprego, uma economia estagnada e uma dívida a aproximarse dos 90% do PIB, para aceitarem mudanças radicais no seu modo de vida.” “Houve um momento de pânico quando a Standard & Poor’s retirou o triplo A à França em Janeiro, que rapidamente desapareceu quando os custos do endividamento se mantiveram estáveis.” Paris continua a vender dívida a juros historicamente baixos (3% a 10 anos). E continua a contar, lembra Taylor, com algumas outras vantagens. “Os serviços públicos funcionam bem, o país está no centro da geografia europeia, tem uma força de trabalho altamente educada e uma elevada produtividade horária.” Só comparável, de resto, à americana, mais elevada do que a alemã ou do que a britânica.
A segunda razão que dissuade uma agenda de reformas é o destino que tiveram os governos que a tentaram aplicar. Em 1997, Alain Juppé, o actual chefe da diplomacia francesa, viu o seu Governo cair na rua.
Sarkozy tentou negociar com os sindicatos a reforma das pensões, mas acabou por ter de impô-las. A França não se reforma, faz revoluções. Muitos analistas defendem, ao contrário da Economist, que Hollande terá melhores condições para fazer algumas das reformas do Estado social e do mercado de trabalho, porque terá mais capacidade para negociar com os sindicatos e menor oposição “militante”.
Lembram o que aconteceu em 1997, quando Lionel Jospin, então líder do PSF, chegou ao Palácio de Matignon para governar a França em coabitação com Jaques Chirac. “Abriu mais empresas públicas ao sector privado do que qualquer primeiroministro de direita antes ou depois dele”, lembra Taylor. “Creio que a Economist percebeu mal as coisas”, nota Guérot. “Hollande pode iniciar reformas precisamente porque é socialista e pode também criar melhores condições ao nível europeu.” “Os últimos 20 anos demonstram que os conservadores não fizeram grandes reformas estruturais. Kohl foi, talvez, o mais social-democrata dos chanceleres alemães e não nos esqueçamos que Merkel recolheu os frutos das reformas feitas por Schroeder, enquanto o SPD ainda hoje está às voltas com o seu legado.” “As duas coisas mais importantes de uma futura presidência de Hollande serão o seu impacte na economia francesa e na zona erro”, diz Wolfgang Münchau, o analista do Financial Times. Para concluir: “Quanto à primeira, penso que o impacte será neutral, na segunda creio que pode ser positivo.” A primeira não pode ser separada da segunda. “A França é hoje o elo fraco da zona euro”, escrevia recentemente Nicolas Baverez, ensaísta e editorialista do Point. “Se a França quebra, a Europa quebra”, acrescentava ao PÚBLICO Anne-Marie Le Gloannec, de Sciences Po.
Resta a Europa, a relação com Berlim e a controvérsia em redor do crescimento. Também aqui muitos analistas pensam que as coisas podem correr melhor do que o previsto. “Há duas razões para que Hollande possa vir a ser um factor dinâmico nas relações franco-alemãs”, escreve Guérot. A primeira é que “poucas coisas na Europa suscitam hoje tanta raiva como a dupla ‘Merkozy’, pelo que uma mudança será vista como positiva”. Depois, a evidência histórica prova que a necessidade de os dois países trabalharem em conjunto acaba por levar sempre a melhor sobre tudo o resto. Incluindo as filiações partidárias. A académica alemã lembra também que a visão europeia de Hollande está muito mais próxima da de Angela Merkel do que a de Sarkozy. “Merkozy” acabou por significar “uma distorção das relações entre os dois países que passou pela exclusão dos outros”.
Hollande quer eurobonds ou uma qualquer forma de mutualização da dívida e um papel diferente para o BCE. Não é o único. Aceita a disciplina inscrita no novo tratado orçamental, mas quer acrescentar-lhe um “pacto para o crescimento”. Não é o único. “Merkel, que é a rainha do pragmatismo, já percebeu que o vento está a mudar.” Haverá mais turbulência inicial.
No melhor dos cenários, o resultado será um novo consenso entre Berlim e Paris que pode ser bom para a Europa. Uma ruptura é altamente improvável. A Alemanha teme, acima de tudo, ficar isolada. A França teme, acima de tudo, deixar de ser o principal parceiro da Alemanha na liderança da Europa. A maior discussão será em torno do que significam “políticas de crescimento”. Mas esse é o tema que está hoje no centro do debate europeu. Hollande dar-lhe-ia mais peso.