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Nevoeiro
Luanda
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Tango em casa

Quando há coisa de dois meses uma comitiva inabitual, pelo número, de empresários argentinos– acima de três centenas – escalou Luanda para explorar áreas possíveis de expansão dos seus negócios, Angola percebeu que da segunda maior economia sul americana vinham ventos banhados pelo desejo genuíno de mudar velhas rotinas e lógicas desgastadas.

Na verdade, ficou claro pelo grande número de eventos concretos em que se envolveram e, sobretudo, o perfil e a natureza dos debates havidos, que poderia estar a ser definitivamente deixado para trás o tempo do tradicional trading com os seus episódicos ganhos ao fim de cada remessa de contentores.

Um tão grande grupo de capitalistas em busca de mercado nunca faria viagem tão longa para tentar acenar com as bondades das exportações ocasionais, conhecendo-se como se conhecem os cativantes indicadores de crescimento da mais dinâmica economia africana da actualidade.

Tenham sido eles ou não a empolgar o palácio da Casa Rosada para este novo olhar ao país (Angola) que se colocou no topo da atracção mundial, o certo é que os empresários argentinos retornaram a casa com um turbilhão de ideias a fervilhar-lhes na mente, face ao nunca mais acabar de possibilidades identificadas deste lado do Atlântico.

Personificaram o típico caso em que a primeira visita conduz ao namoro e, a segunda, desembaraça o caminho para o altar.

À parte a providencial missão de homens de negócios em Angola, pairava na agenda protocolar de Buenos Aires a dívida resultante da visita do Presidente José Eduardo dos Santos no mês de Maio de 2005, que tinha funcionado como um primeiro e grande momento de sedução nunca esquecido por lá. De tal sorte que a chegada ontem (quinta-feira,17) a Luanda da reeleita Presidente Cristina de Kirchner tem também esse condão, o de exercitar a reciprocidade útil e desejável nas relações políticas bilaterais, para conforto dos dois centros de poder.

Acabarão, no fundo, os dois países por estender, na pessoa dos seus Chefes de Estado, a umbrela que vai cobrir com outro status o muito de vida institucional que já vem acontecendo no eixo Luanda-Buenos Aires, onde avulta estreita cooperação em áreas como o ensino superior (quadros do ministério da educação andaram por lá em formação); a comunicação social (em Agosto último relevantes acordos foram firmados por altura da viagem a Buenos Aires da ministra Carolina Cerqueira) e o desporto (participação da selecção sénior masculina de hóquei-em-patins no torneio das Vindimas), entre variadíssimas outras esferas.

Um vasto horizonte

Para a Argentina, em razão directa do seu peso específico enquanto actor da economia mundial, não é possível lançar um olhar redutor, quaisquer que sejam as circunstâncias.

Tem-se pela frente um colosso com um perfil absolutamente ajustado ao tipo de parceiro desejável para uma economia como a angolana, que não sendo da elite que dita as regras, está longe, porém, de fazer parte da periferia ignorada. O mesmo é dizer, portanto, que aqui nos surge um entre iguais, pesem embora todas as distâncias a salvaguardar, sendo com ele mais fácil e realizável o tipo de diálogo que com os colossos industrializados dos célebres “G qualquer coisa” nunca acontece verdadeiramente.

Se a ideia ficou dada na missão dos empresários há dois meses atrás, ela volta a ser assumida pelo desenho da visita presidencial que ontem teve início: a Argentina mostra no recinto da Feira Internacional de Luanda a mais completa das gamas do mercado possível, exibindo das alternativas na limpeza industrial a acabar no mais sofisticado do saber científico.

Ou seja, Angola só tem de respirar fundo, ter fôlego para percorrer o amplo campo de exibição estendido pelos muitos metros quadrados da FIL e, no fim, dizer o que quer e como o quer.

Parece inegável que o fiel da balança penderá para a agricultura e o seu vizinho acoplado, a pecuária. A Argentina é a terra dos cereais, com o seu trigo de boa qualidade abundantemente comercializado entre nós – e há que tempos! -, do milho, da soja e de muitos outros nutrientes de origem vegetal, generosidade divina das suas terras de cultivo, particularidade em que, por coincidência,

Angola não é país que se possa queixar de uma infelicidade do destino.

Outro porta-estandarte da Argentina do campo e da terra é a sua pecuária, sendo mundialmente famosa a qualidade excelsa dos seus produtos animais, a carne antes de tudo. Pela vasta geografia planetária, no corrupio das grandes metrópoles, ouvir falar de restaurante argentino é quase sempre convite para irresistíveis grelhados, com realce para os seus bifes de tamanho avantajado que reacendem, volta e meia, o secular despique cárnico entre o rodízio brasileiro e os assados da região das pampas.

Desde a missão passada dos empresários argentinos que se fez água na boca na classe homóloga nacional, com dezenas – diga-se melhor, centenas – de empreendedores e candidatos a tanto empolgados com a ideia de cimentar parcerias com os vizinhos do Brasil. Não são muitos os casos com que esse entusiasmo possa ser comparado, a não ser as cíclicas vindas em grandes grupos de investidores de Portugal, por todas as razões conhecidas e atendíveis.

 

Vinho, tango & quejandos
A Argentina está claramente no lote de países que exercem fascínio espontâneo sempre que dele se fala entre os angolanos. O que fica na rigidez do protocolo de Estado e nas estratégias inter-palacianas é um departamento, se quisermos inacessível à maioria dos cidadãos, vale como acção da governação e de quem a anima, os políticos, mas nos patamares mais abaixo situa-se o pensar directo e simples do homem comum. Há uma Argentina do imaginário antigo do angolano constituído pelo tango de Piazzola e Carlos Gardel, que é para nunca terminar mesmo com a avassaladora “intromissão” dos novos ritmos, mas uma Argentina também do cada vez mais admirado futebol de Leonel Messi, que apenas vem conferir excelência e singularidade a um património tecido meticulosamente por obreiros da boa arte como Di Stefano, Cannigia, Valdano, Maradona. Com a onda argentina onde o La Bombonera é o estádio dos estádios na mitologia do futebol e um River Plate assina a “proeza” de descer de divisão matando do coração meio país – o jogo da bola encontra deste lado uma afición que se inspira naquela paixão enlouquecida e, até por aqui, se percebe porque se quer uma relação privilegiada com a nação dos Kirchner. Fora das pistas – da dança e da bola – a bandeira da Argentina flameja à mesa, com os já consabidos bifes de grossura bestial mas, também, o néctar dos vinhos que conquistam de mansinho o mundo dos prazeres e dos paladares. Falar hoje da linhagem Malbec no universo de Baco, o deus do vinho, é encaminhar os passos na direcção de qualquer coisa de sublime; ou dos emblemas Achaval Ferrer, Altamira e Zapata, que parecem pretender fazer mais pela projecção da Argentina no exterior que um punhado de embaixadas. O tal prestígio das marcas, um investimento que, no fundo, é para ser feito mais cedo ou mais tarde por todos os países, se não quiserem ser (re)conhecidos apenas na estrita arena das chancelarias… 
Luís Fernando
22 de Maio de 2012
11:31
 
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