
Quando dona Domingas Abel decidiu partir estava consciente de que a sua vida mudaria radicalmente. Perderia o aconchego do marido, o carinho dos filhos, as habituais tertúlias familiares e as intermináveis tardes de fofocas e caçoadas, entre amigas. “Aqui nada é igual à cidade”, lamenta Domingas Abel sob insistentes pedidos para não ser fotografada, de frente. E dona Domingas tinha razão porque foi “desterrada” para o mato, para um terreno baldio ou, simplesmente, o Chitundo.
Para lá se chegar, tivemos que viajar de taxi, e depois de moto-taxi, os famosos kupapatas, usando uma picada sinuosa e poeirenta. É aqui a nova terra prometida dos moradores do bairro Arco Iris.
Aqui, quando a noite cai e o frio aperta, só os pirilampos iluminam o céu e o chão; o chilreio dos pássaros e o uivar das raposas fazem lembrar o batuque e a “buita” nas noites de “kufikala”(festas de puberdade). E depois, aos poucos, é a insegurança, o medo e o desespero que se apossa de qualquer ser vivente.
Sentada sobre um dos blocos de adobe de feitura recente, Dona Domingas aponta para a cubata de chapas, montada às pressas pelas suas próprias mãos, na semana anterior.
“As condições são estas aqui. Estou a viver aqui sozinha sem os meus dois filhos e sem o marido. Eles ficaram em casas de amigos e da família por causa da escola e do trabalho”, revela. Ela disse que os indivíduos que os levaram prometeram regressar para “uma assentada”, mas nunca mais voltaram. Tal como na zona da Chavola, o executivo distribuiu a cada morador lotes para a construção das casas contando com os seus próprios meios.
A também chamada “nova centralidade” fica a cerca de 14 quilómetros do centro administrativo do Lubango, a uma hora de viagem. E ainda por cima, está um riacho, a meio do caminho, sem ponte, cuja a vau.
“É duro”, desabafa Fernando Feliciano António, natural de Malange e morador do Arco Iris desde 2002.
A viver também numa cubata de chapas, este antigo militar das FAPLA disse ser professor e estudante universitário. “Estou a aproveitar a pausa pedagógica para tentar criar as mínimas condições de vida. Dormi duas noites aqui, com os filhos, sem qualquer cobertura. Não tenho outra escolha”, declarou.
Ele disse ter feito “contas à vida” e concluído que não vai conseguir conciliar o trabalho com o estudo, dele e das crianças, vivendo tão distante.
“Entre voltar a Malange e viver no mato aqui, prefiro voltar para a minha terra”, admitiu Feliciano António. Chituno está localizado a norte do Lubango num espaço descampado de vários hectares e, ao que tudo indica, será levada muito mais gente para lá.
Os antigos moradores do Arco Iris queixam-se de falta de segurança (não divisamos qualquer posto policial) e água potável, estando a consumir água bruta retirada do rio que passa nos arredores.