Se existe claramente um défice na informação que deveria pertencer aos angolanos, enquanto povo com um percurso marcado por décadas de guerra, é a partilha das memórias desse tempo cruel. Muito poucos são, na verdade, os que tendo vivido de modo intenso o longo conflito se dão ao trabalho de, agora em paz, fixarem no papel aquilo que lhes ronda e rondará para sempre na cabeça: os momentos em que a vida esteve presa por um fio ou viram camaradas de trincheira destroçados pela violência de um obus ou atravessados pela rudeza de uma bala cortante.
Este facto, mais do que outro qualquer, torna sempre entre nós a apresentação de livros-testemunhos um momento singular, como aconteceu na última sexta-feira, 18, no espaçoso Cine Tropical de Luanda, onde viu a luz a obra autobiográfica “Eu Era Assim”, da autoria do general das FAA Ernesto Guerra Pires.
O oficial superior do exército angolano aproveitou a ocasião em que o seu percurso de vida atravessou o meio século para contar aos seus compatriotas como foi a sua “modesta contribuição” ao esforço de consolidação da Independência da pátria, na guerra contra os invasores na década de 70 e a subversão armada posterior, até à fase da abertura política nos primeiros anos de 90.
“Eu Era Assim” é uma amálgama de revelações que ocupa 75 páginas, entre texto e fotos documentais, que mostra o seu autor ao longo dos anos que serviu o braço armado do MPLA e da República nos seus tempos iniciais, até à fase da constituição do exército único, em 1991.
“Este é um pequeno testemunho, um momento de partilha, e não um exercício de escrita literária.Falo de mim, na primeira pessoa, para regressar à minha infância, ao meu nascimento,adolescência, juventude; lembrar os meus familiares e amigos, os camaradas de trincheira com quem desafiei o medo e os riscos pela Pátria, por Angola, desde 1976 a 1992, integrado nas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA)”, declara o autor no introito da obra, para acrescentar: “É uma tentativa de recordar caminhos, decisões, marchas, tempos de partilha com valiosos camaradas na nobre missão de defesa da Pátria, prestando serviços nos mais distintos níveis das Forças Armadas. Recordo como tudo começou, quando aos 14 anos de idade, na pele de um pioneiro determinado, ingressei nas FAPLA. Um olhar nostálgico, agora que chego ao meio século de vida e entendo pertinente contar como foi esse longo percurso, uma forma também de homenagear todos os meus camaradas tombados pela causa da Independência e para que Angola fosse hoje uma nação una e indivisível”.
O autor de “Eu Era Assim” explicou no prefácio as razões que levaram a decidir-se pelo livro. Jamais um esforço de glorificação pessoal nem um gesto narcisista, mas unicamente um diálogo com a juventude, por acreditar que esta “precisa saber, o tempo todo, o que custa suportar uma guerra, os riscos a ela associados”.
Ernesto Guerra Pires, que entrou para a tropa com curtos 14 anos de idade, só quer com a força da experiência que os jovens percebam os ganhos da paz em oposição à crueldade da guerra, para que pautem os seus actos dentro de balizas que permitam salvaguardar a paz. “Pretendo apenas que as novas gerações compreendam que pela pátria devemos dar tudo, o nosso melhor, a nossa
coragem, o nosso esforço, a vida se preciso, imbuídos sempre da disciplina mais rigorosa e do mais elevado sentido de cumprimento do dever”, pode ler-se na recta final do livro, que é também, para o autor, “uma forma de me curvar perante a memória dos guerreiros, todos eles, que no passado ofereceram resistência ao colonialismo; de todos os que não viram a aurora do dia em que Angola se tornou independente nem o tempo novo em que o povo angolano, heróico e generoso, conquistou com sabedoria, empenho e dedicação, a paz definitiva e começou a batalha que transformará Angola “num bom lugar para se viver”, parafraseando o Presidente José Eduardo dos Santos”.
A apresentação da obra “Eu Era Assim” esteve a cargo do jornalista e escritor Luís Fernando.