Como estamos em pleno mês da criança e porque tenho a certeza de que os meus filhos não vão dar uma espreitadela nesse texto, pelo menos nestes dias, vou aproveitar contar uma cena minha que aconteceu devia eu ter aí uns 11/12 anos e o meu puto companheiro das traquinices menos dois. Deixa-me adiantar que estou a escrever e a reviver aqueles momentos com um ligeiro sorriso da satisfação nos lábios. E de nostalgia também.
Eu e o meu irmão mais novo formávamos uma dupla de irrequietos.
A nossa casa não tinha cantos nem segredos para nós. Vivíamos naquele tempo em que o pão escasseava e para se matabichar pão da padaria Leão, comprado na dona Pik da vila Alice ou na dona Ana do Valódia no dia seguinte era necessário esconder de nós, os irrequietos para não serem devorados em fracção de minutos, com óleo de chouriço, manteiga com açúcar, doce ou feijão tipo Trinitá. Os meus pais tinham conseguido a proeza de ter oito filhos num apartamento de dois quartos, uma sala comum, cozinha dois quartos de banho e duas varandas, uma delas transformada em quarto para os rapazes. Quatro rapazes e quatro meninas. Muita confusão, muita alegria, muita irmandade, muita cumplicidade entre nós. Esconder o pão para sobreviver no dia seguinte era obra, até porque o pão tinha a desvantagem de ter cheiro, logo de fácil localização. Portanto, o local mais seguro para se guardar as coisas que os irrequietos poderiam tomar era no quarto dos velhos. A porta tinha chave e era difícil entrar. Digo era difícil, porque nós, os irrequietos, entravámos por uma janelas do tipo vitró colocadas no cimo da parede que separava o quarto da varanda transformada em quarto dos rapazes.
Certa vez a minha finada mãe comprou uns apetecíveis pacotes de papa cerelac e fechou no seu quarto para as minhas manas mais pequenas. Como sempre fazia às manhãs, lá foi ela para o seu local de trabalho, a Maternidade Lucrécia Paim, depois de o velho já ter seguido antes o seu caminho para a Faculdade de Ciências da UAN. Espreitei pela janela que dava para a rua e confirmei a ida da velha num passo acelerado. E desapareceu na esquina entre a Avenida Hoji Ya Henda e a Ho Chimin.
Trepei então por uma das janelas de vitró; uma janela de vidro que se movia na vertical, para o interior, quando se empurrasse a alavanca meio enferrujada. Não abria na totalidade, mas permitia abrir o suficiente para que eu pudesse, esguiando como cobra, passar por entre a armadura e entrar no quarto, apoiando-me no guarda-fato.
Depois de escalar, localizei o pacote de papa cerelac, abri-o e fui me deliciando sentado na cama dos velhos, naquele prazer que se sente quando se degusta algo proibido. Mas a minha felicidade durou pouco. Se eu tivesse tido mais atenção, teria reparado que a dona do quarto não tinha saído de casa com a sua carteira. E por isso regressou para a pegar. Ouvi a campainha a tocar de forma estridente como ela gostava de se fazer anunciar. Para mim foi o botão do pânico. Burramente, fiquei estático. Ela entrou em casa, girou a chave no canhão da fechadura e a porta do quarto abriu-se. Eu ali de pé, trémulo e ela espantada por me encontrar num quarto que deixou trancado. Tão logo recuperou do susto, viu que eu conservava o pacote de cerelac na mão e tinha a boca cheia de papa. Percebeu a razão da minha violação do espaço alheio. Aquilo irritoua de verdade. Mandou-me uns isso e aquilo, mas continuava sem força para poder exercer a pressão física sobre mim. Como um bom Ngangula, não revelei a minha estratégia de entrada, nem por onde tinha entrado. Insistia que tinha sido mesmo pela porta, ficado escondido debaixo da cama.
Enfim, ela deve ter acreditado.
Por fim decidiu-se pelo castigo devido ao meu mau gesto: pegou dois pacotes de cerelac e mandou-me acabar. Em condições normais teria sido uma honra para tão guloso castigo.
Porém, quando somos forçados, o prazer vai embora. Além disso, papa cerelac a seco não tem lá tanto gosto assim. Mas me tinham fechado no quarto e eu deveria acabar. O que fazer se no estômago aquilo já não entrava? A solução foi simples. Fui à banca do meu velho, peguei alguns jornais velhos que lá havia e fui fazendo cartuchos, enchendo-os com papa e lançando pela janela por onde eu tinha entrado. Aquilo aterrava numa das camas que eu iria limpar assim que recebesse a alforria. Além disso, ficava descansado porque a minha velha não entraria no quarto dos rapazes tão cedo.
Quando a minha mãe regressou do serviço passadas quase cinco horas, estava eu encolhido num canto do quarto, cheio de sede e, caricatamente, repleto de fome, exibindo uma cara de pena e o rosto manchado de tanto chorar, mais de vergonha do que de outra coisa. Não sei se ela se condoeu, mas me mandou sair do quarto para continuar o castigo exactamente no quarto dos rapazes. Sem direito a almoço e sem direito a assistir a novela brasileira das vinte e uma, que na altura deveria ser ou o Bem-amado (do Odorico, Zeca Diabo, dona Ana, Zelão, etc.) ou Gabriela cravo e canela (do Dr. Mundinho, Nacibi, Coronel Ramiro Bastos, etc.). Vivi aquele dia o dilema por culpa da gulodice e do apetecível cerelac.
E como em cada um de nós continua a morar uma criança, não importa a idade, ainda hoje a minha gula pelo cerelac é um facto, só não materializado porque compro para os meus filhos e não para mim.