Até poderia parecer que a fórmula estava esgotada e que a Idade do Gelo 3 havia levado a série a um ponto já praticamente insuperável no que toca à criação gráfica e ao desenvolvimento dos personagens. Por outro lado, o facto de o brasileiro Carlos Saldanha, que assumiu por três vezes a direcção da série tê-la deixado e migrado para Rio, reforçava o mau pressentimento quanto a mais este prolongamento. Mas a Idade do Gelo 4: Deriva Continental desmente a suposição, mostrando, a partir do lançamento de novos personagens, que a saga se mantém em excelente forma. Steve Martino (Horton e o Mundo dos Quem!) e Michael Thurmeier (que já se incubira a preceito de A idade do Gelo 3) dão muito bem conta do recado.Ao cabo de 10 anos (o primeiro filme foi estreado há uma década) a qualidade da animação produzida pelas equipas dos estúdios da BlueSky surge mesmo aprimorada, conseguindo emprestar cada vez mais profundidade e solidez aos personagens e aos cenários (há muito mais do que paisagens preenchidas por infinitas superfícies de gelo branco), mostrando que conseguem medir forças com os gigantes Dream Works e Disney / Pixar. Aliás, esta é uma altura em que os grandes estúdios colocam no mercado um respeitável arsenal de filmes de animação, em sintonia com a coordenadas climatéricas do hemisfério onde se situam e onde dispõem de uma boa parte da audiência. É Verão e as crianças estão de férias, é, enfim, a ‘silly season’ ocidental, o que, para os miúdos, significa mais idas ao cinema.
A Idade do Gelo 4 mantém-se fiel aos atributos fundamentais de um filme para crianças. Dá a maior importância ao movimento (no caso, mais propriamente às espalhafatosas correrias) à expressividade dos personagens animados e às vozes.
Mas também encanta cada vez mais o público mais ‘cota’, situando-se a meio caminho entre a comédia animada familiar à boa maneira dos Flinstones e dos Simpson – por sinal a sessão que frequentámos inicia-se com uma deliciosa curta-metragem centrada na bebé Simpson – e os cartoons completamente desregrados da Warner.
O que dá ao filme um sabor muito especial e o torna autenticamente um filme familiar, tanto para os mais novos como para os mais velhos.
A ideia de família, de entreajuda familiar, de laços de solidariedade que permitem ir buscar forças e engenho para enfrentar os maiores riscos e desafios e tudo suplantar é muito sublinhada neste Idade do Gelo 4: A Deriva Continental, em que ficamos a saber como a teimosia do esquilo Scrat na perseguição da sua bolota fugidia vai desencadear grandes cataclismos na crosta terrestre separando águas e recortando continentes.
O surgimento dos continentes é um dos aspectos mais deliciosamente delirantes do filme… e partilhamos alegremente com os personagens a vertiginosa e caótica deriva que o fenómeno provoca.
Mas há novos personagens, que permitem, sem dúvida, refrescar o argumento, contribuindo para a sua solidez. É o caso da impagável avó Preguiça de Sid (um encantador personagem), de Entranha, o oragotango pirata que se atravessa na aventura oceânica do Mamute Manny e do sabre Diego, e de uma das suas acólitas, a tigre dentes-de-sabre muito alva Shira e a filha do casal de mamutes Manny e Ellie, a adolescente Amora, que incorre em escapadelas e tem amigos que não contam com a provação do pater-família protector. É que os nossos heróis da Idade do Gelo foram, à medida que os anos passam, construindo família e agora entrecortam os arriscados desafios pela sobrevivência que se lhes colocam com os dramas familiares e os dilemas sentimentais.
Quem não opte pelo filme dobrado em português conta com as vozes de Ray Romano (Manny), Denis Leary (Diego), John Leguizamo (Sid), Peter Dinklage (o gorila Entranha), Jennifer Lopez (a tigre das neves Shira) e Wanda Sykes (a avó de Sid). O 3D – refira-se que este quarto episódio de A Idade do Gelo também tem uma versão em 4D! não acrescentará nada ao brilhantismo visual do filme mas é natural que os miúdos gostem do aparato dos óculos especiais.
D.R.