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Grande Entrevista

Alberto Colino Cafussa "O cidadão hoje desconfia mais do político do que em qualquer período da história da humanidade"

“O estudo “Tendência de Voto do Eleitor Angolano nas Eleições Legislativas de 2008” identifica os factores que determinaram o pendor do voto do eleitor angolano nas eleições legislativas angolanas de 2008. Numa análise comparativa dos dois únicos pleitos eleitorais realizados em Angola (1992 e 2008), a obra traz uma radiografia da evolução da geografia eleitoral, em função dos contextos de cada um desses momentos políticos. 

Lê-se num resumo apresentado a imprensa”. 

O estudo aponta a guerra póseleitoral como um factor determinante para os resultados eleitorais de 2008, dando como vencedor o MPLA e a UNITA a mais penalizada. 

“A forma como decorreu e terminou o conflito armado angolano fez com que a maioria dos cidadãos cultivasse diferentes sentimentos em relação aos dois principais partidos políticos antipatia para a UNITA e empatia em relação ao MPLA, o que redundou num voto de retaliação para o primeiro e de confiança para o segundo”. 

A par disso, o posicionamento dos meios de comunicação social antes e durante a campanha eleitoral é também apontado como sendo um dos factores determinantes no comportamento do eleitor, em 2008. 

O estudo concluiu ainda que o voto estratégico teve preponderância nas eleições legislativas de 2008, uma vez que os resultados demonstraram que militantes de partidos políticos concorrentes votaram no MPLA. “Assim, este partido político beneficiou do “estrangulamento” reinante no seio dos seus concorrentes, cujos militantes e simpatizantes, no momento da decisão final, optaram pelo MPLA que, antes e durante a campanha eleitoral, deixou transparecer a capacidade de promover a coesão e a estabilidade nas suas estruturas e na sociedade angolana”. Lê-se ainda no livro. 

Estamos em véspera das eleições de 2012, porquê que um livro sobre as eleições de 2008 é publicado apenas agora, quando a legislatura está no fim? 

Na verdade, o livro foi escrito no princípio de 2009, pouco depois do pleito eleitoral de 2008, com objectivo de mudança de categoria enquanto assistente estagiário da Universidade Agostinho Neto. Como sabe, todo o conhecimento produzido na Universidade não se deve apenas destinar aos seus arquivos, mas deve ser levado ao conhecimento da sociedade. No caso do nosso estudo, trata-se de um documento pertinente e actual porque traz informações que podem ajudar os políticos e eleitores a se posicionarem nas próximas eleições. Há nesse livro os factores que terão contribuído para a vitória do partido A, a derrota do partido B e a extinção dos restantes concorrentes ao poder político, em 2008. Este é o momento adequado para se publicar um estudo sobre as eleições passadas, já que permitirá aos políticos e eleitores fazerem uma análise retrospectiva sobre o processo passado e gizar estratégias que ajudem a enfraquecer os pontos fortes dos seus concorrentes. Não haveria melhor momento!  

As tendências de voto de 2008 alteraram-se muito entre os angolanos, para o novo ciclo, ou as coisas se mantêm na mesma? 

Alteraram-se, porque em cada quatro anos, muda a maneira de pensar e de agir tanto por parte dos políticos quanto dos eleitores. 

O próprio mercado político sofreu algumas alterações (surgiram novos partidos políticos e novas coligações), o que acaba por causar alterações também no posicionamento do eleitorado. O próprio comportamento dos políticos, tanto os que estão no governo, quanto os que estão na oposição é factor mais do que suficiente para que se altere a tendência de voto. Portanto, há motivos suficientes para dizermos que há sim senhor alterações na tendência de voto, tal como aconteceu nas eleições de 2008, em que a UNITA perdeu o seu eleitorado tradicional a favor do MPLA. Estou a falar do Bié, do Huambo, de Benguela e do Kuando Kubango, tendo obrigado a segunda maior força política a descer de um degrau de 70 para 16 deputados. Enquanto, o seu rival subiu de 120 para 191. Por outro lado, é preciso ter-se em conta que o nosso processo é bastante jovem, que se vai consolidando à medida que a compreensão do eleitor for crescendo. Vejamos uma coisa: se em 1992, o eleitor mais novo tinha nascido antes da independência (Agosto de 1974), nas eleições de 2008, o mais novo nasceu já em 1990. Nas próximas eleições, este terá já 22 anos e o que tinha 18 anos, em 1992, tem agora 38 anos. O eleitor mais novo nas próximas eleições nasceu em 1995. Quer dizer que a maioria dos eleitores nas próximas eleições terá nascido depois da independência. Ora, esses indivíduos não estão influenciados pela luta de libertação, nem pelas lutas étnicas entre os movimentos de libertação que viriam a ser transformados em partidos políticos. O jovem não pensa no mesmo país dos seus avôs. 

Dito de outra forma, a tendência de voto vai-se alterando à medida que a sociedade for tomando novo rumo. Se dissermos que a tendência de voto vai manter-se, estaremos a pensar numa sociedade estática que não é Angola.              

O que define, ou pode influenciar, a tendência de voto do eleitor angolano? 

No meu livro, trago os factores que contribuíram para a tendência de voto. São vários, mas podemos sublinhar alguns que achamos mais relevantes para a realidade angolana. Se, em 1992 e 2008, o factor histórico jogou um papel fundamental na decisão do eleitorado, para as próximas eleições (em 2012), terão de concorrer outros factores: os programas-propostas de governo, a imagem e/ou seriedade dos candidatos (partidos políticos e cabeças de lista) e o posicionamento da comunicação social. Há quem diga que o factor étnico também é ainda determinante, mas na minha opinião a história recente baralhou esta tendência e ainda bem. Nos dias actuais, quem se ativer em discursos etnicos estará votado à extinção. Há famílias (alargadas) cujos membros têm descendências de diversas etnias. Há regiões, como Luanda, onde não há predomínio de uma só etnia. Os eleitores da nova geração, sobretudo, os dos grandes centros urbanos, consideram a questão etnica irrelevante. Nas eleições de 2008, esta tendência ficou bem evidente. O MPLA ganhou no Huambo, Bié e Benguela e a Unita ganhou em Cabinda e no Zaire. Portanto, a verdade é que o eleitor se preocupa em avaliar a capacidade dos partidos políticos em poder transformar o sonho dos eleitores em realidade. 

Daí que os programas de governo dessas forças políticas, quando bem fundamentados e divulgados, tenham influência na tendência de voto, sobretudo da juventude. Contudo, não basta trazer um programa bonito, é importante que o candidato demonstre meios capazes de o tornar realidade. Temos de recordar que o cidadão hoje desconfia mais do político do que em qualquer período da história da humanidade. Que os candidatos não percam tempo de criticar o concorrente, em detrimento da divulgação do seu programa. Falar muito do adversário, é valorizá-lo por excesso. 

Para evitar o efeito perverso, que os concorrentes ao poder político se atenham no que pretendem fazer, evitando discursos inflamados ou incendiários. Depois de muitos anos de guerra, o eleitor angolano quer políticos com discursos de paz, de trabalho e de coesão nacional. É claro que um debate sobre o que cada um pensa em relação a um determinado sector será fundamental para influenciar a tendência de voto do eleitor. Nas próximas eleições, podemos vaticinar três cenários: teremos o voto retrospectivo que resultará da aprovação das políticas públicas do partido que governa; o voto prospectivo que incidirá sobre partidos em cujos candidatos os eleitores adivinham alguma capacidade de realizar os seus sonhos; o voto estratégico de eleitores que, desiludidos com os seus partidos tradicionais, deverão optar por alternativa. Este último (estratégico) poderá ter um peso significativo nas próximas eleições, se tivermos em conta o nível de descontentamento e cisões reinante em várias formações.

 ‘Há mesmo uma autêntica máfia no nosso mercado político’ 

“ Nas eleições de 2008, pouquíssimos programas chegaram, e com muitas dificuldades, a alguns eleitores (...) Os outros foram ao pleito eleitoral sem programa ou, quanto mais, com um simples fascículo cujo conteúdo terá sido cábula de ideias dos seus adversários.”

Podem os partidos encontrar estratégias para moldar a seu proveito as tendências “naturais”? 

Claro que podem e devem encontrar estratégias que os ajudem a aumentar o seu eleitorado. A primeira estratégia que deve acompanhar a vida do partido é a sua coesão, quer em relação aos ideais, quer em relação a unidade dos seus dirigentes para os objectivos a que se propõe. A segunda prende-se com a perspicácia da sua direcção em compreender a dinâmica da sociedade política. 

Essa estratégia exige antes de mais audácia por parte dos dirigentes em marcar pontos, produzindo factos políticos que galvanizem empatia dos diferentes estratos sociais. Os partidos políticos, quando não estão no governo, devem apresentar-se como alternativa segura do cidadão. Para isso, na oposição, devem apresentar-se como um verdadeiro fiscal das acções de quem governa, mostrando como se deve governar para o povo. 

Ou seja, quando estiver por exemplo a falar da economia, quem pretende chegar ao poder político tem de trazer estudos que espelhem a situação real e mostrem as vias de solução. Estar em todo o território nacional e conhecer as preocupações das crianças, jovens, mulheres e idosos, oferecendo-lhes sonhos realizáveis, constituem meio caminho andado para o poder político. O partido político, e a prática já demonstrou isso, não deve ser apenas um círculo de elitismo, cujos dirigentes confinam-se em ambientes da urbanidade. A caça ao voto deve ser uma actividade permanente, gizando uma estratégia inclusiva para todos os estratos da sociedade. 

O político deve ter uma visão de águia, com capacidade de estudar os momentos adequados para uma acção oportuna.            

 E o dinheiro, é determinante?

 Obviamente, toda a estratégia exige dinheiro. Mas não é determinante, se não se tiver visão. Todavia, para se percorrer todo o território nacional e criar bases de apoio exige dinheiro. É por essa razão que, em muitos países, a lei estabelece o limite da verba que cada formação política deve gastar no processo eleitoral para que a competição não se torne desproporcional. 

Não se vai longe na política sem dinheiro. A própria comunicação exige dinheiro. Isso para não falar das bases de apoio (grupos para-políticos) que, muitas vezes, se escudam em organizações não governamentais! O dinheiro é importante para a própria sobrevivência da instituição. Mas também a busca do próprio dinheiro exige estratégia, desde que esteja em conformidade com a lei. A nossa lei, por exemplo, proíbe que um partido político receba financiamento de uma instituição estrangeira. Não se sabe até que ponto os nossos partidos políticos estão a cumprir com este pressuposto…oxalá que assim seja para não vendermos o país ao interesse estrangeiro (risos).    

Até que ponto os programas eleitorais e as suas propostas são determinantes para dirigir o voto em Angola? 

Em Angola, como ressaltamos no livro, os programas não têm ainda grande influência. Primeiro é que estamos num país em que a maioria da população não tem uma instrução formal que lhe permita interpretar um programa. Segundo, mesmo os que têm formação aceitável, não têm acesso a esses programas. Nas eleições de 2008, pouquíssimos programas chegaram, e com muitas dificuldades, a alguns eleitores. Eu, por exemplo, apesar de muito interesse, apenas consegui durante o processo eleitoral dois programas dos partidos que você já pode imaginar. 

Os outros foram ao pleito eleitoral sem programa ou, quanto mais, com um simples fascículo cujo conteúdo terá sido cábula de ideias dos seus adversários. Portanto, além dos factores já apontados acima, coloca-se a questão da divulgação desses programas. Há mesmo uma autêntica máfia no nosso mercado político que, aliás, se evidenciou durante o processo de formalização de candidaturas no Tribunal Constitucional, onde surgiram contos de arrepiar a cabeça. 

Uma desorganização sem precedentes! Aguarda-nos ainda os sofríveis tempos de antenas da nossa Televisão Pública e da Rádio Nacional de Angola. Espero que os nossos políticos consigam oferecer -nos um espectáculo diferente do de 2008. Num espaço ímpar para a divulgação das linhas mestras dos seus programas, muitos dos partidos políticos que concorreram em 2008 não puderam dizer quase nada durante  os10 e os cinco minutos, respectivamente. Foi arrepiante! Portanto, como disse atrás, em Angola (o mesmo que acontece em Moçambique, Namíbia e África do Sul), o eleitor aposta muito na história, na seriedade e na imagem dos candidatos.          

Qual é o papel, ou o peso, das figuras políticas na cativação do voto do angolano? 

Como disse, a imagem que o político espelha ao eleitor joga um papel determinante na cativação do voto. Nas eleições passadas, por exemplo, ao contrário de vários países africanos, o nível de abstenções em Angola foi baixíssimo. Graças à mensagem dos políticos, sobretudo os antigos antagonistas da guerra civil, os eleitores afluíram em massa nas urnas, descartando a possibilidade de uma segunda guerra pós-eleitoral como se cogitava até mesmo meses antes das eleições. 

Os políticos, além de lutarem pela conquista de voto para o seu partido, devem também oferecer uma mensagem de confiança e de estabilidade do processo. Afinal, na democracia quem ganha não ganha tudo e quem perde não perde tudo. Portanto, os actores principais para a construção de estabilidade e confiança são os políticos, já que qualquer um deles quer conquistar o aparelho do poder político para organizar e dirigir a sociedade. O político que vem com uma mensagem de desestabilização, em Angola, felizmente estará votado para a extinção natural. Nas eleições, o nosso centro das atenções são as figuras políticas, porque, afinal, são eles que se propõem a dirigir o país nos próximos anos. Portanto, só são eles que podem ajudar a cativar o eleitorado para o voto.    

José Kaliengue
12:38
 
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Comentários

  1. Jorge Maiala Bunga
    2012-10-21 21:01:16
    Decordo o processo eleitoral em angola,para os angolanos e incarada como uma brigadeira ,porque as eleicoes em angola nao ocorre segundo a vondade da populacao mais sim, segundo a vondade dos governantes angolanos ,sao eles que tem de atribuir os votos a cada concorrente .Tambem durante das eleitoral a intimidacao no seio da populacao pelo agentes do CIF.e os Sobas das aldeias
  2. alcy luna barbosa - brasil J.ingá
    2012-07-25 22:20:10
    No brasil para se chegar ao estágio de democracia que nos encontramos, levamos várias decádas e diversos pleitos eleitorais, contudo sabemos que em qualquer sistema político regente de um povo temos os prol e os contra, a democracia é menos maléfica do que as tiranias dos ditadores. Mas na democracia nós também somos vitímas de lobos vestidos em pele de cordeiro, principalmente quando se está engantinhando nesse regime de governo, pois os que ocupam os cargos de nivel elevados são ainda filhos do sistema que faliu, mais que ainda terá seus frutos um periodo de duração, para que se possa vir os sonhados frutos de uma nova era. Agora em outubro nós brasileiros vamos também as urnas, com um legado que está em toda a parte do mundo, a falta de credibilidade nos políticos, a cada quatro anos se renovam as esperanças. Eu particularmente gosto de assistir aos programas eleitorais, que no brasil se passa todos os dias em todos os canais de tv aberta e radio, simultaneamente no horário nobre da televisão brasileira. Há pessoas que não gostam, mais daí surge a premissa se voce não se interessa, e não participa, como cobrar do seu candidato (a) se voce não participou das discursões. Parabens irmãos Angolanos lutem cada dia mais pela democracia e pela igualdade plena de direitos em todos os setores da sociedade, votem com interesse e depois cobrem de seus eleitos as promessas de campanha, se não cumprirem não votem nunca mais neles
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