Através de uma ronda realizada Terça-feira, 17, nas proximidades das fábricas de bebida Faliango e Faive, respectivamente localizadas nos municípios de Cacuaco e Viana, província de Luanda, O PAÍS constatou o aumento do número de pessoas envolvidas na entrega de garrafas vazias às referidas indústrias a troco de dinheiro, ao ponto de o negócio ter suscitado a vinda de indivíduos de províncias longínquas de Angola, como são os casos de Cabinda, Zaire, Moxico e lundas Norte e Sul, que muitas vezes pernoitam nos espaços das fábricas.
A actividade é exercida maioritariamente por mulheres, numa faixa etária compreendida entre os 40 e os 70 anos de idade, podendo-se arriscar a participação masculina numa estimativa de um homem para cada 10 senhoras. Entretanto não faltam crianças que, diga-se, contra a sua vontade, são obrigadas a ajudar os seus encarregados.
Os vasilhames recomendados pelas fábricas referenciadas são os das marcas de cerveja portuguesa Cristal, Super Bock e Sagres, nos quais, depois de preparados industrialmente, são depositados aguardente e outros tipos de bebidas que se afirmam com os títulos de Caipirinha, Gim, Bananal e Limonada, para além de Lafayette, Casa Velha e Samarino, bastante procurados e consumidos nos arredores da Faliango e da Faive, devido ao preço, que dificilmente excede os 150 Kwanzas.
Aliás, importa referir que as empresas pagam aos recolhedores de vasilhame 250 Kwanzas por cada quite de 24 unidades, correspondentes a uma grade, um valor que acusaram ter evoluído dos 150 praticados anteriormente.
De acordo com muitas mulheres ouvidas por este jornal, o dinheiro nunca compensa o sacrifício e os gastos que se fazem até chegar à porta da fábrica, “mas é melhor do que ficar parada”.
Maria Amélia, encontrada pela nossa reportagem a lavar uma enorme quantidade de garrafas, na zona conhecida popularmente como Caterpillar, bairro Nova Urbanização, não muito longe da vila de Cacuaco, é um exemplo disso. Ela veio da província do Zaire, onde reside num novo bairro apelidado de Teixeira Duarte e foi obrigada a arrendar um quarto no município mais a Norte de Luanda a fim de aí pernoitar com a sua mãe até conseguirem lavar todos os vasilhames trazidos da terra petrolífera do Soyo.
“Nós chegámos do Soyo no Domingo, 15, e no dia seguinte não conseguimos entrar, por isso tive de alugar este sítio a sete mil Kwanzas para depositarmos os 74 sacos, porque ainda temos a obrigação de pôr as garrafas limpas”, contou, precisando que cada embalagem pode conter mais de 150 unidades, o que lhes vai remeter a actividade de limpeza durante oito dias. Se os recipientes forem entregues sem serem lavados, nem raspados os papeis que os identificam com as cervejas Sagres, Cristal e Super Bock, o reembolso será apenas de 170 Kwanzas por grade, soube O PAÍS da sua interlocutora, que prefere entregar tudo limpo para dar cobro aos transtornos a que a viagem a submeteu.
Afinal, para além de ter pagado 38 mil kwanzas pelo carregamento do Zaire a Luanda e sete mil para o aluguer de um aposento, Maria terá de custear o transporte das garrafas para dentro da Faliango, isso para não se falar dos gastos na alimentação e do regresso à procedência.
Maria Amélia apercebeu-se do negócio a partir de umas senhoras de Cabinda, que, ao rumarem para a cidade capital têm de escalar a sua província. Mas foi uma conterrânea que a baptizou nas entregas do Cacuaco.
Para conseguir recolher grandes quantidades, ela e os seus voluntários têm de despertar às cinco horas da manhã, dirigir-se às lixeiras e aos mercados. O desafio de reunir o maior número de garrafas possível inspira nela e nos seus servidores a aventura de controlar os finais de actividades festivas e de recreação de praia, que, muitas vezes lhes cobram algum dinheiro em troca daquilo que antes era tido como lixo. Preferindo falar sob anonimato, o segundo filho de Maria Amélia, de 23 anos de idade, que só se apercebeu do tipo de negócio em que a mãe está envolta depois de um desaire, considera a prática como um grande retrocesso, principalmente em circunstâncias como as do género, em que a mãe e a avó tiveram de se submeter à lavagem das garrafas, arriscando-se a perder o motorista que as trouxe.
“É um desperdício, porque até agora já gastaram mais de 50 mil Kwanzas e eu não acredito que elas terão um lucro que ultrapasse os 70 que é a estimativa dos gastos que faço, se tivermos em conta que ainda têm de ficar aqui até ao próximo Domingo”, avaliou, revelando que já lhes pediu para deixarem a actividade. Preocupado com esses gastos, o jovem está a pensar pedir emprestada uma motorizada de carga para minimizar os prejuízos da mãe e da avó, no que ao transporte das garrafas para dentro da empresa diz respeito.
Para ele, embora muitas pessoas pensem que a Faliango e outras fábricas de vinho estejam a fazer um favor em pagar esses serviços, o preço pago pelas grades constitui uma autêntica exploração. “E até acho que eles estão a aproveitar-se da mão-de-obra barata”, acrescentou, classificando o tipo de trabalho como de alto risco.
O entrevistado atribui ainda mérito ao grupo de senhoras que como a sua mãe e avó se dedicam na captura de garrafas na rua, devido ao contributo para a extinção de conflitos infanto-juvenis, onde esse tipo de recipientes eram usados como autênticas armas brancas, isso para além de admitir que o lixo do género já é uma raridade nas ruas de Luanda.
Embora tenha alegado que não era responsabilidade de ninguém da sua área prestar qualquer depoimento sobre o processo de entrega, um trabalhador da empresa, identificado com o nome de Emílio, adiantou que a Faliango não tem preferência no que toca aos fornecedores de vasilhames.
“Qualquer pessoa pode vir aqui fazer a sua entrega normalmente, fazendo o seu registo para logo a seguir receber os seus valores”, afirmou. De acordo com os clientes da fábrica, o dinheiro recebe-se um ou dois dias depois da fornecimento e nunca no mesmo dia.
Instado a responder se a empresa tem conhecimento dos actuais contornos que o negócio ganhou, estando agora a envolver pessoas de vários pontos do país, Emílio consentiu, deixando visível que os envolvidos devem estar a considerar a oferta da casa.
Sobre os custos, recusou-se a dizer, reiterando apenas não ser da sua competência.