Comigo era assim, eu tinha a fama e tinha o proveito.
O meu sonho era naquele ano de 1997 a Palestina, tinha uma proposta tentadora para chefiar o escritório principal de uma importante organização internacional em Jerusalém tendo que assegurar a ligação com um segundo escritório em Jericó. Já me via a reunir com o Abu Amar e a rolar de 4x4 nas poeirentas estradas daquele deserto onde a grande história tinha começado.
O destino assim não quis, pois tive de aceitar uma proposta irrecusável das Nações Unidas para ajudar sérvios e croatas a realizarem eleições numa região da extrema Croácia e ali viverem em paz embora isso apenas significasse criar as condições para uns e outros viverem as suas vidas separadas, lado a lado.
Como todos os acordos de paz, os Acordos de Erdut eram um conjunto de princípios que interpretados à sua maneira por cada uma das partes lhes parecia aceitável para cessarem as hostilidades e a matança entre duas comunidades irreconciliáveis.
Era afinal um bom sucedâneo para o conflito entre judeus e palestinianos, e eu via o terreno da antiga Jugoslávia como um bom campo de treino para a minha adiada missão na terra santa. Afinal tratava-se, também, de duas comunidades sem verdadeira distinção étnica entre si, irmãos em boa verdade, mas tornados estranhos e inimigos pelas suas crenças religiosas e por uma diferente bagagem cultural acumulada em séculos de história em que a sua proximidade nunca foi sinal de boa vizinhança.
Sob a força e inspiração de Tito, depois da II Guerra Mundial, os antigos reinos da Croácia, da Sérvia e da Eslovénia transformaram-se na antiga Jugoslávia (os eslavos do sul). Vukovar a cidade para onde fui despachado sempre pertenceu à Croácia, embora a sua proximidade com o reino da Hungria lhe desse uma feição arquitectónica lembrando as cidades do antigo império austro-húngaro com as suas belas e inesquecíveis arcadas no centro da cidade. Apesar de estar situada muito perto da fronteira com a Sérvia, os sérvios eram apenas ali uma pequena parte da sua população, na maioria croatas. Durante os anos florescentes da Jugoslávia, os sérvios espalharam-se por todo o território da federação, especialmente pela Bósnia e pela Croácia.
Tito, ele próprio um croata, manteve a capital em Belgrado, a capital da Sérvia. A explosão da Jugoslávia com o afastamento da Eslovénia e da Croácia foi um choque para os sérvios e para o poder confinado na sua capital Belgrado. A guerra a pretexto de uma limpeza étnica extremou as posições dos sérvios na Croácia, sobretudo nas regiões da Krajina e de Knim e levou-os de armas na mão, matando e expulsando os croatas que ali viviam, a criar no coração da Croácia uma nova República, nunca internacionalmente reconhecida, a República da Krajina. Encravada na Croácia esta república não ia durar muito e os sérvios nela implantados provaram do mesmo remédio que tinham dado a provar aos seus ex-compatriotas croatas. O seu destino final foi Vukovar, uma cidade croata, de enorme importância histórica e o maior porto fluvial do país, que Milosevich conquistou com os seus tanques num ataque massivo a partir das margens do Danúbio depois de 87 dias conhecidos para sempre como a Batalha de Vukovar. No final dessa batalha que causou milhares de mortos, desaparecidos e exilados, deu-se o massacre de todos os internados no Hospital da cidade, uma carnificina que viria a ser punida pelo Tribunal internacional para os Crimes da Antiga Jugoslávia vários anos depois (2005). Segui pela imprensa e pela televisão o julgamento de alguns dos principais autores desse crime contra humanidade. No fim levaram alguns anos de privação de liberdade e um dos réus foi mesmo absolvido por não se ter provado a sua culpa nos trágicos acontecimentos daquela noite em Vukovar. Metiam pena? Tinham eles próprios algum sentimento de arrependimento pelo que fizeram? Bom, é fácil pensar filosoficamente, assim, passados vários anos sobre o sucedido, as pessoas envelhecem, perderam boa parte da sua arrogância e o instinto animal que os levou a dar a ordem de matar, indiscriminada e impiedosa e agora olhamos para eles e não somos capazes de odiar. É claro que eu estive por lá numa altura em que o pior já passara. Sei, por exemplo o que disse a Dra. Vesna, a Directora do Hospital de Vukovar durante o cerco à cidade quando teve conhecimento das leves penas do tribunal e até sobre a forma como os prisioneiros foram sempre tratados, com base no sagrado princípio de que todos são inocentes até à sua condenação.
Mas em 1997, apenas algum tempo depois de assinados os Acordos de Erdut (Novembro de 1995), eu tinha por dever de ofício de estabelecer contacto com os principais responsáveis políticos das duas comunidades que era preciso harmonizar de modo a organizar eleições que fossem aceitáveis por ambas as partes. O líder sérvio era um homem de aspecto franzino, de bigode à artista de cinema, advogado de profissão, razão pela qual eu supunha ele tinha sido escolhido para chefiar a delegação sérvia que, do lado oposto, tinha o simpático mas poderoso ministro da administração do território de Franjo Tudjman. Rapidamente me apercebi que o aspecto frágil do Dr. Vounovich nada tinha que ver com a sua capacidade de resistência e a sua habilidade negocial que tornava quase impossível avançar mais do que uns milímetros por reunião.
A sua inflexibilidade contrastava com a sua extrema afabilidade para comigo. Procurei conquistar a sua confiança convidando-o para almoçar no Dobra Voda, com a presença de Bilyana, a minha secretaria e tradutora (havia sido a secretaria de Richard Holbrook em Serajevo, ela própria era bósnia). O meu amigo Voynovich dizia-me sempre moje, moje (faz favor) e esperava sempre que eu começasse a comer. Depois contava-me histórias fantásticas que eu absorvia como se estivesse a ver um filme. A sua chegada a Vukovar, precipitando-se para a casa que fora a sua morada e da sua família anos antes. A desolação e o vazio imenso que encontrou empurrando a porta que pendia meia aberta. Como subiu as escadas, sempre num silencio e numa penumbra quase arrepiante e depois o inesperado, num quarto do andar de cima, os gritos de uma mulher croata demasiado idosa para deixar a cidade acabada de tomar.
Calma, calma, eu não lhe vou fazer mal. Tocou-lhe com a mão no seu braço, ajeitou-lhe o xaile, observou os dedos deformados pela idade e pela artrite, deu quase um abraço na mulher hirta de medo e quase sufocando o pânico. Não era eu que conquistava o Dr. Voynovich era ele que me seduzia e procurava influenciar a minha posição naquele conflito. Acompanhei-o pela região para visitar alguns dos camponeses e trabalhadores que procuravam transformar a região à sua própria imagem e semelhança. Com a fuga generalizada dos habitantes croatas os sérvios procedentes de todos os lados da Croácia estavam ali preparados para tudo para fazerem das eleições uma vitória esmagadora a seu favor. Por onde passava, aquele homem pequeno era aclamado como um chefe, os seus compatriotas erguendo os braços e fazendo não o habitual sinal de vitória (à Churchill) com os dois dedos, médio e indicador, mas juntando-lhes o polegar, saudação que ele constantemente e freneticamente repetia.
Eu estava fascinado com o que via, e seguia aqueles trajectos pelas pequenas multidões de Borovo Naselje, Negoslavci, Njemci e Lipovac, como se fosse um sonho, como que tele-transportado para Jenim, Nablus, Ramalah, Jericó.
Perguntei-lhe o significado dos três dedos, respondia-me que era um sinal de incitamento à vitória, porquê três dedos e não dois em V, e era porque somos sérvios somos mais e melhores que todos os outros.
Com Mlakkar, o ministro croata a minha conversa e relacionamento era diferente. Tratava-o com toda a deferência. Ia esperá-lo ao aeroporto de Osijek para o conduzir até às nossas reuniões aproveitando o trajecto para auscultar a sua abertura a algumas concessões que eu sentia que era absolutamente necessário conseguir. Como eu próprio conduzia a minha viatura, a conversa estava livre dos ouvidos de qualquer motorista recrutado na região, pouco interessando se sérvio ou croata.
Como era meu hábito, conduzia sempre muito devagar, para ter mais tempo para conversar, e até parava para deixar passar alguma pessoa que quisesse atravessar uma via por onde eu seguisse. Mlakar não tinha uma grande consideração pelas Nações Unidas que o Governo de Tudjman considerava ali como uma força ocupante uma vez que, embora transitoriamente, administravam solo croata. Com um toque de ironia na voz dizia “Oh, a gentleman in a UN car!”. Depois a nossa relação foi-se adoçando, chegando ao ponto de trocarmos afectuosamente alguns presentes musicais.
Aconteceu num daqueles dias ouvir no casão militar em Zagreb, onde tinha ido fazer umas compras um trecho musical que logo me atraiu.
Estava a ser reproduzido em vídeo e as vozes maravilhosas de Andrea Bocelli (que eu ouvia pela primeira vez) e de Sarah Brighton entoavam o depois célebre “Time to say good bye”. Achei que não só a melodia e a interpretação mas principalmente o título seria um excelente presente para Mlakar. Fiz questão de acentuar que era um presente e um augúrio...
era de facto tempo de dizer adeus à Croácia, mas para isso tínhamos de fazer as eleições e era altura de acelerar as nossas negociações. Mlakar percebeu onde eu queria chegar e limitou-se a retribuir com a oferta de vários discos de música típica da Croácia que ainda hoje oiço com saudades embora tenha de confessar que a minha preferência ia de facto para a música sérvia dos quais tenho dezenas de discos adquiridos por mim, é claro, nas feiras de Vukovar e de Belgrado.
O facto é que as coisas estavam num impasse tremendo, as cláusulas da futura lei eleitoral iam e vinham com correcções a que se seguiam outros acrescentos que lhes mudavam o sentido anterior e tudo sem qualquer impaciência do lado sérvio que procurava ganhar todo o tempo possível na expectativa de que Milosevich encontrasse e implementasse alguma medida correctiva num processo que tinha como único objectivo a reintegração de Vukovar na administração croata. O Administrador do território, o General Jacques Klein ora ia a Belgrado avistar-se com Milosevich ou com o Patriarca Ortodoxo Pavle, ora a Zagreb entender-se com Tudjman para aproximar as posições de que eu lhe ia dando conta. O Presidente sérvio estava interessado numa solução pacífica que permitisse aos sérvios concentrados na região fronteiriça de Vukovar não viessem tumultuar as coisas no seu país com uma onda de retornados.
Ele já tinha suficientes problemas sem eles. Mas, como sempre, não consentiria em nenhuma solução da qual os seus compatriotas na Croácia fossem humilhados. Foi assim que ele subiu na vida e na política quando no Kosovo ele ameaçou: “ai de quem ousar tocar-vos sequer com um só dedo”.
Eu olhava o seu retrato e o homem não me parecia tão assustador. Já era diferente com Tudjman com o seu olhar de cobra atrás dos seus óculos graduados. Não admirava que a minha atitude (o meu body language) se revelasse mais afeiçoado ao lado sérvio. Compreendia que estes tivessem uma enorme relutância em proceder ao seu registo eleitoral, obrigados a aceitar um documento de identificação (domovnitza) com o brasão e as cores do quadriculado vermelho e branco que simbolizam a Croácia.
Eu multiplicava-me em reuniões municipais (townhall meetings) onde sempre fazia o mesmo discurso unindo o gesto à palavra e usando os meus três dedos, concluindo com o seu símbolo de vitória. Espetava então um dedo para cada palavra de ordem naquele momento crucial de tanta perturbação e hesitação. Eu sabia que todos eles queriam ficar na Croácia e ali na região de Vukovar, em vez de terem de voltar a desenterrar os ossos dos seus parentes que trouxeram em sacos de plástico da Krajina e de Knim, agora para os levar para além da fronteira da Croácia, em busca de outras terras e outros cemitérios, fossem eles na Voivodina ou no Kosovo. O primeiro dedo era para registar... o segundo para votar... e o terceiro para ficar.
Eu dirigia-me a eles, através de uma intérprete, mas o que os hipnotizava não eram nem as minhas palavras nem os meus olhos, mas os meus dedos, terminando com o meu punho erguido e sérvio que lhes indicava o caminho para o futuro.
Muitos daqueles homens e mulheres tinham sido autores de crimes hediondos, matando vizinhos de porta em porta, para eles matar era limpar a terra de gente que não eram pessoas. Punha-me a pensar como podia comer com eles, rir-me, até dançar nos bailaricos improvisados sempre e por qualquer motivo, desde um baptizado, um aniversário, um casamento. Um dia fui a uma festa em casa de uma amiga sérvia, linda e cujo encanto contrastava a meus olhos (é claro) com o marido, um jovem muito mal encarado, de cabelos escorridos e compridos que parecia nunca serem lavados. Ela adorava dançar e vinha-me buscar vezes sem conta e aparentemente sem qualquer receio de algum ciúme do seu companheiro. Fiquei por isso muito pouco confortável, para dizer o mínimo, quando o jovem, já bastante bebido, veio ter comigo com uma metralhadora em punho e por gestos me conduziu para fora da casa. Aí, disparou algumas rajadas para o ar e depois, com um sorriso que me pareceu uma coisa muito séria, passou-me a metralhadora para as mãos para eu fazer o mesmo e assim festejar o que quer que fosse que eles estavam a celebrar. Também não podia andar com a tradutora para todo o lado para saber tudo.
Aproximava-se, porém, o momento decisivo do processo de paz, a realização das eleições. Os registos prosseguiam a bom ritmo, até o meu amigo Peter Galbraith, então embaixador dos Estados Unidos que eu fora visitar a Zagreb, veio de propósito a Vukovar para ver com os seus próprios olhos um centro de registo e comprovar o milagre do registo dos sérvios sob a bandeira croata. Aguardei por ele à porta do posto de registo combinado, não podendo deixar de sorrir quando a porta da sua limousine se abriu e os pés do senhor embaixador impecável no seu fato e gravata, emergiram calçando uns confortáveis ténis.
Estava tudo bem? Não tanto assim, e o próprio General Klein não ocultava o seu nervosismo, pois apesar do registo quase maciço dos sérvios da região, não havia nenhuma certeza de que eles iriam votar. Era o segundo dedo que faltava espetar.
E se não votassem não iriam ficar. A sua debandada ia criar outra vaga de refugiados. Jacques Klein nem queria pensar numa coisa dessas no final do seu reinado na Eslavónia Oriental. Tudo dependia afinal dos chefes militares dissimulados na região, ninguém sabendo exactamente onde, aqueles que eram os destronados líderes da República da Krajina cujo poder e vontade pairavam como uma incógnita absoluta. A testa de Klein continuava franzida e isso não era bom sinal. Nem as suas conversas com Milosevich e com o velhinho patriarca Pavle lhe davam qualquer garantia que toda a sua administração transitória de quase dois anos não se iria saldar por um estrondoso fracasso.
Um intermediário misterioso propôs-me nessa altura um encontro secreto com os generais. Que generais? Que história é essa? Você não tem medo, nós vimos como só você foi ás reuniões municipais sem o apoio dos carros militares, como acontecia sempre com outros dignitários do General Klein.
Mas o que queriam os generais? Querem ter uma conversa consigo, nada de mais...
A neve tinha caído com intensidade nessa noite. Fui a conduzir pela madrugada, com todo o cuidado, de minha casa até ao local combinado para o encontro, uma pequena herdade a uma dezena de quilómetros.
Quando lá cheguei avistei dois homens a pé no meio da estrada ao lado de uma viatura, fazendo-me sinal para parar. Não os conhecia de parte nenhuma. Eu ia só como combinado. Convidaram-me, num péssimo inglês para eu os acompanhar na sua viatura. À minha volta tudo estava branco, as árvores erguiam-se do solo como traços cinzentos e tudo me parecia lúgubre. Escusado será dizer que começava a arrepender-me da aventura em que me tinha metido com a ideia (inconfessável) de poder ser o herói desta história.
Desculpe mas temos de lhe vendar os olhos, uma questão de segurança...
Devo dizer que não tenho o menor sentido de orientação e com a neve que tinha caído eu jamais seria capaz de reconstituir o trajecto que fizemos. Mas o facto de ficar de olhos vendados não foi uma sensação agradável. Confesso que senti algum medo, até porque o diálogo em sérvio travado pelos meus dois acompanhantes denunciavam um tom que me pareceu ameaçador. Comecei a imaginar que poderia acabar diante de um pelotão de fuzilamento sem ao menos ter a oportunidade de ver o cenário envolvente e tirar umas últimas notas mentais do acontecimento. Nunca se sabe o que acontece depois, não é verdade? Quando o carro se imobilizou depois de vários solavancos, tiraram-me a venda, abriram-me a porta do Jeep e a primeira coisa que vi a ondular na minha frente foi a bandeira tricolor sérvia e um dístico. Acabava de chegar à República da Krajina, ou pelo menos ao que restava dela.
Fui conduzido ao interior da casa, a um salão que apresentava algumas características de uma assembleia de estilo soviético, ou pelo menos foi o que me pareceu. Tinha ao fundo um patamar mais elevado onde se encontrava uma mesa como as usadas para a presidência de sessões colectivas. Mais ao alto e por cima dessa mesa comprida, os retratos de Milosevich, de Arkan e de um outro que me pareceu familiar mas não reconheci no seu uniforme militar.
Mandaram-me sentar na primeira fila. Sentei-me sem olhar para trás.
Podia estar sozinho na sala ou não que isso não tinha agora a mínima importância. De repente e sem se fazerem anunciar, dois generais envergando o seu camuflado fizeram a sua aparição por sobre a minha cabeça sentando-se sem mais cerimónias àquela mesa presidencial.
Sem me agradecerem eu ter vindo até eles, pediram-me que explicasse o processo eleitoral concebido pelas Nações Unidas em cumplicidade com o governo croata. Eu estava sem palavras, ou elas não me saiam da garganta. Foi então que olhei melhor para o terceiro retrato na parede por cima deles e reconheci-o finalmente. O bigode não era tão fino e havia uma barba que lhe mudava um pouco o parecer. Os olhos, porém, eram aqueles olhos que tanto podiam ser brilhantes como frios como o aço, dependendo da luz que recebiam – a do sol em plena estrada, ou a luz coada de um quartel... ou de um hospital.
Com a raiva e a fúria voltou-me a coragem e encontrei as palavras necessárias. É muito fácil, disse-lhes, isto explica-se com três dedos de conversa.