Num mundo em que quase tudo se reduz a transacções, Steven Soderbergh, o realizador de Ocean’s Eleven, conduz-nos novamente à indústria do sexo, onde precisamente as transacções têm um cariz mais ‘brutal’. Depois de 2009 ter visitado o mundo das ‘call girls’ – Confissões de uma Namorada de Serviço -, para o que contou com o contributo de Sasha Gray, um nome famoso entre as estrelas de filmes para adultos, mergulha agora no submundo burlesco do strip-tease masculino, algo que, quem sabe por mero preconceito, se oferece ainda mais jocoso que a sua versão feminina. Fica-se com a sensação que as mulheres não tomam a exibição da profissão tão ‘a sério’ como os homens. Se calhar divertem-se mais. Soderbergh retrata bem a situação no filme que, apesar dos créditos do realizador e da sua inegável capacidade produtiva (em 12 meses podemos ver Uma Traição Fatal, Contágio e o mencionado Confissões de uma Namorada de Serviço).
Magic Mike tem muito pouco a ver com uma comédia romântica, ainda que sejamos, em muitas sequências, tentados a isso. É uma comédia dramática. Em que o Soderbergh aborda, com contenção, um tema que facilmente poderia descambar no puro ridículo. Evita-o muito bem, dando-nos o aspecto burlesco dos espectáculos, mas dando-nos também o drama de alguém que faz biscates na construção e aproveita o seu sucesso como estrela de streap-tease masculino como formas de ganhar dinheiro para montar o seu negócio de sonho: design de móveis.
Channing Tatum (Magic Mike), cujo conturbado passado inspirou a estória, tira partido do seu físico para amealhar uns cobres como estrela de strip-tease masculino no Clube Xquisite, propriedade de Dallas (Matthew McConaughey), seu amigo e mentor. A sua vida complica-se quando nela entra o problemático jovem Adam (Alex Pettyfer) e a sua irmã Brooke (Cody Horn). O empreendedor Channing Tatum, atá aí concentrado no seu próprio ‘american dream’ e no modo de lá chegar vai percebendo que o seu tempo como stripper tem os dias contados. Vai percebendo esta e outras coisas.
Embora Tatum revele um excelente controlo do seu personagem apesar das cenas de strip a que se expõe e que o atiram, inevitavelmente, para o estatuto de símbolo sexy. O que não se entende é porque Steven Soderbergh se repete tanto nas cenas de strip e deixa arrastar a narrativa tornando o filme ‘chato’.
Conseguiu fazer um filme sério, rigoroso, aventurando-se com competência por um terreno difícil e deixa-nos apontamentos interessantes como aquele em que o decidido e enérgico Tatum ‘descobre’ que conta mais o seu visual numa cultura dominada por imagens que o que tem a dizer ou fazer. O stripper é mais uma mercadoria entre mercadorias num universo utilitário assente em meras transacções. O realizador consegue fazer um filme profissionalmente competente mas a narrativa não entusiasma. Podia ter feito melhor.