Este epílogo de Batman de Christopher Nolan, para muitos considerado um projecto inviável dada a excelência do segundo filme da triologia, está recheado de referências aos dias que vivemos e aos dramas que os marcam. O filme desenrola-se num mundo traumatizado pelo 11 de Setembro e dominado pela crise financeira. Nolan retoma pois o universo apocalíptico que criou no filme anterior da trilogia, em que atingiu um patamar que se afigurava insuperável.
O ‘mal’ alastra como uma mancha, face à fragilidade dos defensores do ‘bem’ – tanto Batman como o homem (Bruce Waine), atormentado, que se esconde por detrás da máscara do homem-morcego são disso exemplo. Se em O Cavaleiro das Trevas Renasce se abre, no final, uma janela de esperança também se acentua a ambiguidade dos personagens, o que expôs o filme a acérrimas críticas. Houve quem chegasse mesmo a considerá-lo ‘fascizante’, interpretando-o como uma espécie de libelo contra os movimentos contestatários tipo ‘Occupy Wall Street’. A este propósito é particularmente saboroso o breve diálogo que o vilão, que formou um exército subterrâneo nas catacumbas da urbe, tem com o director da Bolsa quando a toma de assalto. Este último diz-lhe que ali não há dinheiro ao que ele responde: ‘então o que estão aqui a fazer?’.
O que acontece é que Nolan explora eximiamente uma das características mais marcantes de Batman, a quase diluição da fronteira entre o bem e o mal. O herói, que é humano, terrivelmente humano – não precisa de superpoderes conferidos por um qualquer acontecimento inaugural é assaltado pelas mesmas perturbações que afectam os malfeitores que enfrenta e, por vezes, mostra-se-lhes mais vulnerável que os últimos. E a personagem de Bane, superiormente incarnada por Tom Hardy, talvez a peça-central deste epílogo, serve na perfeição a ideia de entrelaçar as motivações que movem o vilão e o herói. Ambos procuram compensar algo traumaticamente perdido ao longo das suas vidas.
Esplendoroso nos efeitos visuais, com uma segunda parte completamente arrebatadora, preenchendo uma hora inteirinha das mais de duas horas e meia de duração do filme, Batman, O Cavaleiro das Trevas Renasce interessa-se, tal como os seus dois predecessores, muito mais pela dissecação dos personagens, captadas numa sucessão imparável de campos e contra-campos, que pela esmagadora espectacularidade das imagens, a qual, como não podia deixar de ser, arrebata a audiência.
Por isso mesmo o herói é menos apresentado na armadura que imita a fisionomia dos morcegos que lhe empresta a mística que como um homem corroído pelos seus dramas e que tem de se confrontar com os seus fantasmas e vencer as suas fragilidades. O que interessa a Nolan é sobretudo o homem de carne e osso por detrás da máscara. Um milionário extravagante mas decadente, que se exilou na sua mansão e que só regressa à acção para salvar a sua cidade quando um vilão que jamais tira a máscara – tipo máscara de gás que lhe suporta a vida e que apresenta semelhanças com outros vilões celebrizados como o Darth Vader de a Guerra das Estrelas, ameaça pulverizá-la. O facto de jamais tirar a máscara não impede Tom Hardy de transmitir aos espectadores a dimensão monstruosa, implacavelmente maléfica, odiosamente aterrorizante do mal que personifica.
O Batman de Nolan afasta-se muito do maravilhoso Batman de Tim Burton. Gothan City deixa de ser a ficção gótica, surreal, esplêndida que deleita o olhar para se tornar uma imensa urbe moderna, a típica metrópole americana, esmagadora, pejada de arranha-céus. Mas é esta transposição da narrativa para um novo cenário, aparentemente mais ‘real’ mas, na verdade, ainda mais escuro e pessimista, que faz da triologia um dos grandes momentos da passagem para o cinema dos filmes baseados na banda desenhada (BD).
O elenco é, uma vez mais, de luxo e as interpretações correspondem em pleno ao brilho dos nomes que o integram. Christian Bale consegue um desempenho de primeira ordem, assumindo em pleno o protagonismo, o qual fora um tanto ofuscado no filme anterior pela notável interpretação de Heath Ledger no papel de Joker (foi o último filme de Ledger). Gary Oldman convence cabalmente como Jim Gordon, o tenente da polícia de Gotham. Sobre Hardy já dissemos o que havia a dizer. Destaque ainda para Joseph Gordon-Levitt, o polícia inconformado que está longe de passar desapercebido, para Anne Hathaway como Selina Kyle, uma soberba e subentendida Catwoman, e ainda para a bela Marion Cottilard, que sempre que aparece fá-lo de forma impecável e para o grande actor que é Michael Caine, um Alfred que, mais que um mordomo, se assume claramente como figura tutelar de Bruce Waine/Batman.
O espectador que não tenha visto os dois primeiros filmes – Batman, O Início e O Cavaleiro das Trevas poderá ter alguma dificuldade em acompanhar a narrativa, ficando um pouco à deriva, e mesmo meio entediado, até metade do filme, quando tudo se começa a tornar mais nítido no que respeita às personagens e enredo. Mas apesar deste ‘senão’ e de toda a polémica erguida em torno desta obra derradeira de Nolan sobre a lenda, criada pela BD, do homemmorcego, o realizador assina um blockbuster muito fora do comum.
Muito para lá do pauperismo criativo que vem caracterizando as grandes produções que saem de Hollywood.