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Raízes

Nyaneka Khumbi

Inventaram o mahinyi e têm os penteados mais turísticos de Angola

A vida quotidiana dos Nyaneka Khumbi está intimamente ligada às suas principais actividades, algo reflectida na produção dos bens materiais e utensílios domésticos. Tendo como base de alimentação o leite, os artesãos fabricam o Ohupa (cabaça para transformar o leite azedo em mahinyi ou yogurte), os Heholo (baldes), os Omakwila (funis e outros tarros para o tratamento e conservação do leite).

Os homens dedicam-se mais à lavoura com charrua, à atracção animal, à construção de casas a pau a pique (um complexo de casas que constitui uma célula produtora familiar) e à caça, usando principalmente a lança, o porrinho, o machado e, raras vezes, a flecha e a azagaia. As mulheres participam no sachar das lavras, na lida de casa (moer o milho, masangu ou masambala para fazer o pirão).

Relativamente ao aspecto artístico, são notórias as danças aos saltos, as meias voltas e os contactos rápidos entre homens e mulheres ao som de batuques e música palmada.

Estes gestos e cânticos servem não só para o lazer, como também para as diferentes cerimónias constantes do repertório cultural dos Nyaneka Khumbi.

Os penteados Nyaneka Khumbi, um dos elementos da exuberância, encanto e beleza femininos, diferenciam umas mulheres das outras, uma vez que existem penteados distintivos para mulheres casadas, solteiras, impúberes, púberes e para viúvas.

Os diferentes subgrupos desse grupo etnolinguístico ostentam, cada um, penteado distintivo e peculiar. Eis alguns exemplos:

Penteado da mulher casada Khumbi

A característica comum desse penteado é uma longa trança arredondada que corre do cimo da testa até à nascença da nuca.

As modificações nas tranças laterais indicam as diversas fases da sua vida: impúbere, púbere e casada .São tranças que se unem lateralmente em forma de palas. Os brincos, os colares e outros enfeites que encimam a madeixa do alto da cabeça são de missangas multicolores.


Penteado das raparigas Ovaximpungu O cabelo é regular, compacto, achatado e preso com uma fita em cima da testa.

Os ornamentos do pescoço comportam vários colares de missanga e fibras vegetais com dois prolongamentos, cujas extremidades possuem duas conchas que repousam sobre o peito.

Penteado da mulher casadoira Mumwila e Mungambwe

Este tipo de penteado é característico das raparigas casadoiras. É feito moldando meias luas paralelas, postas horizontalmente e agarradas à cabeleira por cima da nuca. O colar de missangas e os cabelos amolecidos com o óleo mupheke (seiva oleosa e cheirosa extraída de uma árvore que depois de coada e tratada serve para o tratamento de cabelo), fazem das mulheres nyaneka khumbi um encanto e uma atracção turística.

Cultura Espiritual

Os Nyaneka Khumbi reconhecem a existência de um ser supremo, criador do universo e seu supervisor.

Essa entidade, considerada como tendo o contacto com os antepassados criadores de gado, é conhecida como Suku.

A tradição é praticada e transmitida através de uma instituição conhecida como Ondyelwa (o termo possui vários significados: “cortejo guerreiro”, “luta ao ar livre “, “formigas aguerridas”, etc., mas sempre em direcção a grupos numerosos). Para o caso específico das crenças religiosas, Ondyelwa é a cerimónia do “Boi Sagrado” que inclui o cortejo anual do boi de cor branca e preta, acompanhado por dignitários cuja finalidade é de prestar honra e culto aos antigos criadores.

Esse “Boi Sagrado”, tido como reminiscência dos antepassados e dos antigos criadores e pastores Nyaneka Khumbi, é fonte para a invocação dos espíritos ancestrais da prosperidade, da fecundidade e da protecção do gado e da comunidade. O cortejo termina na Ombala (residência do chefe máximo) com danças e cânticos, depois de uma longa caminhada com outros bois à frente. Esse culto é fundamental para se estabelecer o traço de união entre os vivos e o mortos, sobretudo os antigos pastores e criadores de gado.

Entre os Mungambwe, que se localizam maioritariamente no município dos Ngambos, a entidade máxima é o Ohamba, a quem atribuem poderes extra humanos.

Antes do inicio da chuva, ele abate um cabrito para consagrá-lo às suas preces para que haja chuva. O Ohamba, ostentando uma coroa feita de conchas, aproxima-se de uma pedra e, no meio da multidão, invoca os espíritos dos antepassados para que estes enviem chuva. Quando esta cai, o Ohamba ordena à população para não iniciar o cultivo, porquanto, à luz do seu horizonte cultural, as primeiras chuvas são “sagradas”. Para verificar o estrito cumprimento do ditame cultural, o Ohamba serve-se de fiscais. Aos desobedientes são-lhes confiscados os seus instrumentos de trabalho, podendo os mesmos seremlhes devolvidos desde que paguem ao Ohamba uma galinha, um cabrito ou um boi. Essa proibição é conhecida como Ongondji.

Vale também ressaltar que o Ohamba é venerado e lhe é atribuído o poder de promover ou travar a chuva e todos os fenómenos naturais, sobretudo os atmosféricos. Esse poder detido pelo Ohamba do “controlo dos fenómenos atmosféricos” recebe o nome de Olupulo. Como resultado dessas crenças e em gesto de reconhecimento e gratidão, os Mungambwe oferecem-lhe as primícias.

Os Nyaneka Khumbi elaboram uma boneca ou amuleto de fecundidade, denominado Kikondi. É formado a partir de um tronco cilíndrico totalmente revestido de uma malha de fibras vegetais e tecidos, formando uma figura humana. Esse amuleto é feito por uma jovem púbere, a quem passa a pertencer, sob orientação de uma irmã casada, ficando guardada até que a sua proprietária tenha o primeiro filho.

Segundo a tradição, a procriação depende em geral deste amuleto, sem o qual a continuidade da vida seria impossível. Crê-se que a rapariga que não tenha guardado a sua boneca, não terá oportunidade de gerar filhos.

Américo Kwononoka Dir. Museu N. de Antropologia
30 de Dezembro de 1899
16:25
 
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