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Kalkanhar D’Akeles (Norte)

A TAAG e o peso de Angola.

Há pouco mais de um ano, em Julho de 2007, o barril de petróleo (158 litros) atingiu o seu preço máximo, 147 dólares. Com os reflexos da crise global e a quebra da procura chegou a cair para 33 dólares em Fevereiro deste ano. E desde há alguns dias parece ter estabilizado nos 70 dólares. Com tendência a subir, dizem os especialistas. A OPEC defende o tecto dos 75 dólares. Esta questão é importante, não apenas para Angola, mas também para os outros países produtores.

Mas sobretudo para os consumidores, que estão perante um paradoxo. Em linhas muito gerais, se o petróleo não sobe quer dizer que a economia mundial não arranca e a crise se irá prolongar. Pelo contrário se o petróleo aumenta, há um horizonte de retoma económica, mas o custo da energia irá fazer disparar a inflacção e fragilizar a recuperação. Todos concordam porém que pior do que os preços, é o seu comportamento errático e a sua volatilidade que dificultam as previsões. Dos produtores, dos Governos, dos consumidores, das empresas. Vamos ter que viver com este dado. E saber filtrar e modelar as previsões. Seguindo o conselho de Bernard Shaw, quando dizia que há duas espécies de sábios: os especialistas, que sabem tudo sobre nada e os filósofos, que não sabem nada sobre tudo. Está a consolidar-se uma percepção nos analistas internacionais. A de que, quando a crise acabar, o mundo não irá voltar à situação de antes. Não há um botão “reset“ para regressar às especificações iniciais, como nos telemóveis ou nos computadores. Nem para os países do norte, nem para os Estados emergentes. Aliás, a análise do consumo das famílias nos países da OCDE já aponta nessa direcção. E indica também a forte possibilidade de fragmentação dos mercados, além de uma recuperação lenta e assimétrica. Ou seja, nem todos vão beneficiar ao mesmo tempo nem da mesma forma da retoma. Há o risco de que, para alguns, se prolonguem demasiado as conjunturas negativas. Por isso há que procurar antecipar situações. E saber ler as linhas estratégicas e as tendências que já se estão a desenhar. E mais do que isso, a aplicar. Até quem acompanha a política internacional sente por vezes difícil situar o quadro das reuniões G-7, G-8, G-5, G-20 e outras Gs, que traduzem uma geometria variável que se chama multilateralismo selectivo. Quase aquilo que alguns lançaram como acusação às anteriores administrações Clinton e Bush. Que fizeram coligações restritas de aliados no caso da Bósnia (Clinton) e do Iraque (Bush).

De todas estas reuniões, que afinal são mais importantes para quem participa (como Angola), do que pelos seus resultados, parece claramente destacar-se o recente G-2. O chamado “diálogo económico e estratégico” que os Estados Unidos e a China iniciaram há dias em Washington. Seria a previsão de um mundo governado pela China e pelos Estados Unidos. A situação não é confortável para a Rússia e para a Europa. Ou a não-Europa, dada a sua pouca expressão internacional. Preocupará certamente a Índia e o Brasil. Obrigará todos a seguirem com atenção os compromissos, as dificuldades, os entendimentos e as linhas vermelhas a que chegarem americanos e chineses. Mas terá consequências incontornáveis para todos. E provavelmente para a retoma económica global, ou seja, para o preço das matérias primas, as margens de investimento directo estrangeiro, as disponibilidades orçamentais, as verbas a afectar à cooperação, as repercussões sociais. Todos estes factores são primordiais para Angola. A Africa é o continente mais afectado, e aquele em que a recuperação será mais lenta, já que é duplamente dependente dos ímpasses e da retoma dos outros. Os ciclos muito curtos podem ter repercussões mais graves nos países que dependem do preço das commodities, dos fluxos comerciais, das decisões do investimento. Angola cuidou desde há anos das suas relações com os Estados Unidos e com a China. Provavelmente com mais visibilidade e impacto no caso asiático do que no plano transatlântico. Há diversos “ follow-up” por conseguir, não só no plano político, mas por exemplo na obtenção de um “rating” internacional que ajudaria a valorizar as garantias do Estado e o investimento a médio e longo prazo. O recente sucesso da TAAG é aliás um bom exemplo de como Angola pode triunfar no plano internacional, com objectivos e estratégias bem definidas.

Com as consultorias adequadas. Mas sobretudo com a valorização do trabalho das suas élites políticas e empresariais. Com seriedade e com profissionalismo. Muito está por fazer, no caso da TAAG e sobretudo da aviação cívil, mas é indiscutível o impacto positivo da saída da TAAG da lista de embargo da União Europeia. Trata-se aliás da única companhia africana que conseguiu, até agora, regressar aos voos para a Europa, o que é bom para Angola, para a sua projecção regional e internacional. Para o orgulho nacional por ter uma companhia de bandeira aceite em todo o mundo. Como exemplo de sucesso que é possível também noutras áreas igualmente estratégicas. Desde que haja vontade política e determinação no plano técnico e empresaríal. Como houve neste caso. É uma medida do peso internacional de Angola.


António Martins da Cruz
10 - 8 -2009
 
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