O riundos de uma velha cultura de caçadores savânicos, os Côkwe revelam-se peritos e hábeis nas técnicas siderúrgicas, na escultura, em várias espécies de artesanato e na construção de habitação.
As suas instituições de educação tradicional, como a Mukanda para os rapazes e a Cikumbi para as raparigas, constituem a base de transmissão de valores, experiências e preservação da cultura tradicional ancestral.
Os Côkwe guardam traços vivos do regime social de matriarcado (note-se que a maioria da população bantu de Angola é de regime de filiação matrilinear).
Na economia, os Côkwe são aptos para o negócio, havendo às vezes amuletos para a prosperidade do mesmo; e ficaram célebres as suas extensas viagens de comércio a diversos pontos do litoral, incluindo Luanda e Benguela. Actualmente, a agricultura, a extracção artesanal de diamantes, a pesca nas chanas e a caça são as suas principais actividades.
A organização social dos Côkwe assenta na família regida pela filiação uterina, onde o avunculato (relação privilegiada entre o tio materno e o sobrinho) é a expressão máxima na tomada de decisões mais importantes, quer dizer, é do lado materno onde se processam as questões de herança e de sucessão.
Para se outorgar um estatuto social a um indivíduo de “criança a verdadeiro homem”, este passa num rito de iniciação masculina, conhecido como Mukanda.
Essa escola de educação tradicional que começa com o corte de prepúcio a sangue frio, constitui um verdadeiro teste para a afirmação da personalidade do indivíduo. Nela, os candidatos são introduzidos na “sociedade secreta”para se desfrutarem dos segredos clânicos e de toda a essência da vida adulta.
Peritos de História de Arte consideram os Côkwe como sendo hábeis nas técnicas siderúrgicas, na escultura, em várias espécies de artesanato e na construção de habitação.
Neste aspecto artístico, esses povos são exímios fabricadores e tocadores de instrumentos musicais tais como Ngoma (batuques de vários tipos), Ndjimba (um idiofone conhecido noutras línguas como marimba), Cisaji (lê-se Tchissagi), Cinguvu/Tchinguvu e Pwita. Por outro lado, a dança aliada à música é uma das artes presentes nas diferentes cerimónias, tanto de lazer como rituais.
Nesses eventos é notória a afluência dos bailarinos de grande gabarito na modalidade de danças como de Cyanda /Tchyanda, Ulengo, Makopo e Cisela/Tchisela.
Outro aspecto artístico de grande dimensão cultural dos povos Côkwe é a construção e montagem de uma variedade de curiosas máscaras (na língua local é Mukixi, Pl. Akixi) que assumem papéis importantes na consagração dos eventos e outras instituições.
Das mais importantes máscaras conhecidas nessa comunidade, o destaque vai para Cikunza (patrono de mukanda, um rito de iniciação masculina), Cikungu (ligada ás cerimónias de investidura dos grandes chefes tradicionais), Mwana Pwo (máscara que representa a beleza e o encanto das mulheres Côkwe), Cihongo (representa a coreografia tradicional) e Katoyo ( representante das danças recreativas).
No artesanato, os Côkwe manifestam muita habilidade na cestaria de uso doméstico e comercial. Essa profissão é mais exercida por homens que fabricam Lwalo (esteira ou balaios), musalo e Kanyungo (peneiras de diferentes tipos), Cinu ( pilão), e mobília doméstica . As mulheres manufacturam mais os Cisoka (cestos não só para a transportação de produtos primários, mas também para acções domésticas) .
O artesanato Côkwe é bastante conhecido no mundo e já foi alvo de várias exposições nos Museus e publicado em revistas especializadas.
O campo artístico que descreve o quotidiano das comunidades Côkwe é sem dúvida a Escultura (Kaponya) feita por homens que, a partir de madeira e argila, representam figuras antropomórficas (figuras humanas como de mulheres, chefes tradicionais), zoomórficas, geométricas e cenas do dia-a-dia.
Neste capítulo encontramos bastões estatuetas, cadeiras, bancos e outros objectos que representam a divindade (deuses protectores de várias formas).
As esculturas mais belas e com maior requinte artístico são as estatuetas de Cibinda Ilunga, Lweji a Nkondi e o Samanyonga (o dito “Pensador”). As duas primeiras são personagens mitológicas ligadas a formação do império Lunda-Côkwe.
Cibinda Ilunga, segundo a tradição, é um caçador de origem luba que contraiu o matrimónio com a princesa Lweji, provocando um movimento de contestação que culminou com a emigração dos irmãos desta.
O Samanyonga tem a sua origem nas preces dos adivinhos, pois era uma das pecinhas que se encontrava no cesto de adivinhação, e foi ampliada .Hoje, essa estatueta, tem valor tanto cultural como económico, pois é considerada como o Símbolo da Cultura Nacional e uma das efígies que autentica a moeda de Angola, o Kwanza.
Os Côkwe, em termos de construção de habitação, manifestam igualmente um gosto especial, na medida em que casa (Zuwo) nessa cultura significa família e comunhão. Regra geral, as suas casas são rectangulares e com dois a três compartimentos.
São feitas de pau a pique e cobertas de capim. O pavimento às vezes é endurecido com salalé preparado, conhecido como Mafika. O destaque nessa área vai para a pintura das paredes exteriores com a tinta branca que representa a paz, a pureza, expressando as cenas do quotidiano.
É de realçar os conhecidos desenhos ideográficos dos Côkwe, feitos na areia, considerados como sendo a sua primeira escrita.
Com a dinâmica cultural, resultante dos contactos e empréstimos de diferentes padrões cultural, hoje, muitos Côkwe constroem casas de adobe e cobertas de chapas de zinco, cuja pintura varia consoante o gosto de cada pessoa.
Nas suas representações ideológicas, os Côkwe reconhecem a existência de um Zambi (Deus), criador do universo e seu supervisor, mas também respeitam e veneram os seus antepassados através de invocações e preces, tanto nos momentos de infortúnio como de felicidade. Os cultos dedicados á caça e aos antigos caçadores, seus padroeiros por excelência, tomam também predomínio.
Para o equilíbrio e harmonização social, existe nessa cultura um trio considerado como tendo poderes extranaturais e capaz de zelar as populações tanto de dia como de noite.
Essa camada é constituída por Thahi (adivinho), Cimbanda ou Mbuki (curandeiro e médico respectivamente) e Nganga (Feiticeiro), este último não se identifica, pois as suas acções consistem mais em sancionar com maldade, doença ou morte do que fazer o bem.