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Caló Pascoal: a música deu-lhe tudo

A sua actividade de produtor abriu-lhe as portas do sucesso. Foi assim com Grande Amor de Ary, Fofucho de Bangão, e o “seu” Fim do Mundo. Canções premiadas e mais tocadas do que na época em que foram lançadas, resultado do seu trabalho criativo.

A música deu-lhe tudo mas tendo como base muito esforço e dedicação. Hoje não é possível que se fale de música da nova geração em Angola sem que se refira o seu nome.

Mas nem sempre foi assim. Confessa que já foi tentado a primar pelo imediatismo, a conseguir sucesso pelo caminho mais rápido, o que quase acabou com a sua vida. “O que não é de Deus não dura, o que é de Deus dura para sempre.

Aprendi isso depois de ter andado por caminhos nada recomendáveis, antes de descobrir que trabalhar com persistência e dedicação é a melhor forma de se ganhar prestígio.

Já fiz de tudo para ser famoso. Na adolescência quis sê-lo a qualquer custo, pela via do menor esforço. Inclusive meti-me nos quimbandeiros para conseguir notoriedade. Mesmo assim não foi por aí que consegui o sucesso que tenho hoje. Mas como o que não é de Deus dura pouco, conseguia ter a fama que ia buscar, mas sentia que não durava nada, nem me dava o prestígio que desejava.”

Explica como a falta de noção do essencial para se vencer na vida quase levou ao fim de uma carreira que sequer tinha começado. “Esta escolha errada quase que me custou a vida porque quando entrei pelos caminhos das drogas como liamba e o consumo excessivo de álcool.

Acabei por ter uma tuberculose que quase me levou desta para a melhor. Desilusão foi tudo o que consegui com quimbandeiros. E a morte esteve à espreita por causa do consumo excessivo de álcool. São experiências que nunca vou repetir”.

Caló Pascoal acrescenta sobre a sua recuperação: “Tenho orgulho de dizer que o sucesso que tenho hoje veio depois de ter me endireitado. Quando parecia que tudo estava no fim, pedi a Deus uma segunda oportunidade, decidi abandonar os maus caminhos e levar uma vida equilibrada.

Desde que mudei de conceito de vida, são só vitórias. Tenho uma mulher que amo e me ama, venço prémios, já tenho um disco de prata, tudo o que produzo faz sucesso e tenho uma vida económica mais folgada. Isso para mostrar às pessoas que só acreditando em nós mesmos e trabalhando duro é que atingimos níveis altíssimos. Sem isso não há sucesso que dure porque o alicerce para qualquer vitória profissional é Deus e a crença em nós mesmos.”

Raízes

Dizem que quem sai aos seus não degenera. Este é o caso de Caló Pascoal, filho de músicos. Desde muito cedo ganhou o gosto pela arte. “A música é uma herança familiar e algo que trago desde o berço”, esclarece. Sou filho do Kissas, um dos músicos dos anos 70, que para muitos é desconhecido mas cujas músicas já animaram muitos bailes. O meu pai tem dois discos de vinil no mercado.

A minha mãe foi dançarina, membro dos grupos Ilundo (espíritos) e Mwenho Wa Ngana que em português significa “vida do senhor”, sendo que também cantou num grupo coral. Toda a família herdou esta veia artística. O meu irmão mais velho Julião foi o primeiro a educar-nos musicalmente, pertenceu ao coro da paróquia nossa senhora de Fátima e tocava guitarra. Todos reconheciam nele um homem de talento.

Infelizmente faleceu aos 20 anos. Na altura eu tinha apenas 9 anos, foi muito difícil para nós. Felizmente ainda tínhamos o irmão que o seguia, que também era músico. O Isidro pertencia à brigada artística das Fapla, hoje FAA (Forças Armadas de Angola), dos quais faz parte este senhor, Lito Graça, que produziu o Kuma Kwa Kié do Yuri da Cunha e, está a produzir uma música do meu novo projecto, que se vai chamar Caló Pascoal e Amigos.”

Interrompe com um sorriso e continua a explicar. “O mano Isidro foi quem passou a educar-nos depois da morte do nosso irmão mais velho. Foi com ele que aprendi muitas coisas e foi por isso que escrevi a letra Obrigado Mano. A música é dedicada a ele por tudo o que fez por mim e pelo meu irmão Neloy, em sinal de respeito e gratidão.

O meu irmão fazia uma espécie de “top dos mais queridos” lá em casa, escolhia cinco cantores da altura e mandava-nos interpretar quem vencesse. Foi com estes concursos que aprendi a interpretar e, a partir dos quais, comecei a cantar também em pequenos eventos realizados no meu bairro. Interpretando vários artistas nestes eventos e com outras lições que fui tendo, aprendi muita coisa e fui moldando as minhas características”.

“Aos 11 anos eu e o Neloy começámos a dançar. Isto em 1988. No ano seguinte participámos no Fenacult, depois de termos sido alunos do professor Sakaneno João de Deus. Esta experiência levou-me a vários grupos de dança e a trabalhar com os mestres da Súngura, os Mini Originais, Mestres da Bungula. Foi daí que ganhei estes truques de dança que exibo em palco. As danças tradicionais acrescentaram muito ao artista que sou hoje”, revela.

Caló Pascoal e Amigos

O artista fala-nos do seu novo projecto. “É verdade, estou na fase final da produção do projecto Caló Pascoal e Amigos que começou como um CD Caló Pascoal e Matias Damásio. Depois de gravarmos uma boa parte das músicas, achámos melhor incluir outros artistas. E pensei, “porque não realizar sonhos?”. Porque sempre sonhei cantar com o Paulo Flores, inclusive já ganhei muitos concursos imitando-o. Já está confirmada a sua presença, igualmente está o Lito Graça a produzir esta música belíssima, o Yuri da Cunha que para além do Matias, já abraçaram o projecto. Já gravaram a parte deles. Vou convidar outros grandes artistas, prefiro não falar em mais nomes. Vou reunir oito músicas apenas gravei com o Yuri, o Matias , Paulo Flores e Lito Graça. Já está 50% do álbum gravado. Faltam apenas 4 e estou na fase final de produção. Este disco é só com “feras” e por isso será Caló Pascoal e Amigos”

 

A entrada na música

Depois seguiu-se a experiência no mundo da música, que por incrível que pareça não foi ainda como intérprete, compositor ou produtor. “Depois da dança continuei na música, mas passei para outro lado, de dançarino para Dj, impulsionado pelo irmão do Lito Graça, o Toy Graça, que também era Dj. Ele e um vizinho, o Gika, davam-me as músicas e eu gostava de as tocar em primeira mão.

Naquela época as músicas vinham na maior parte de fora, porque eram raros os produtores musicais no país. A produção era incipiente, só tínhamos o Ruca Van Dunem e o Eduardo Paím. Eram poucos nos finais dos anos 80 e princípios dos 90, ainda não estávamos na era dos CD, em Angola era tudo em cassete. Participámos num concurso onde o Lolito Batalha, considerado melhor Dj da época no Marçal, desafiou-nos dizendo que não havia ninguém melhor. Participámos os quatro e eu venci o concurso de melhor DJ do Marçal”, lembra o artista.

Depois surge a música. “Em 1993, na altura em que surge a febre do rap com SSP, eu e o Neloy como ainda não tínhamos conseguido atingir o topo da fama, fomos atingidos pela febre do rap e decidimos cantar. Mas foi por muito pouco tempo porque não estávamos a ter sucesso” lembra com um grande sorriso, acrescentando, “ainda neste ano tivémos a ideia de criar o tiba uma mistura de rap com techno e, finalmente conseguimos chamar a atenção.

Seguiu-se o sunga sunga e em 1994 com a explosão do kuduro, fizémos o feijão duroque. Teve muita aceitação e tocou muito naquela época. Como o mercado estava bom fizemos mais um kuduro, o Chitunda, que falava da ilusão dos jovens que quando conseguiam dinheiro deixavam as namoradas, ficavam arrogantes e abandonavam os amigos. A mensagem era “chitunda a banga acaba, dinheiro voa...”. Mas como o sucesso daquela época não era equivalente a dinheiro, não mudou grande coisa na nossa vida. Éramos conhecidos mas não ganhávamos nada mais.

O Neloy sempre foi um pouco mais equilibrado e sério. Por isso manteve a fé em Deus e nunca enveredou por outros caminhos, embora também estivesse desiludido como eu. No fundo ele sabia que o momento dele um dia chegaria”.

Quase perdido

Nesta altura iniciou um período negro da sua vida. “Insatisfeito abandonei a igreja, mesmo na época do kuduro. Perdi a fé, fui procurar um quimbanda para obter fama e dinheiro. Não mais aquela fama passageira que não dava dinheiro.

Eu naquela época, apenas com catorze ou quinze anos, já estava neste mundo das drogas. Para além de fumar liamba, bebia muito, podia até beber dois garrafões de vinho. Como consequência apanhei uma tuberculose em 1999, com 22 anos, e parecia o fim. Por pouco morria. Mesmo antes ter começado a minha carreira. Até o quimbandeiro dizia que não havia solução e que eu tinha de ir ao hospital. Quando eles me disseram isso, eu achei que era a morte”.

Para além de fumar liamba, bebia muito. Apanhei uma tuberculose. Pensei que tinha chegado ao fim.

Mas Caló Pascoal teve uma segunda oportunidade. “Apareceu a minha prima que me levou a um grupo de oração onde havia várias religiões. Era uma Célula de Orações, onde conheci a mama Feli, uma senhora muito crente que dirigia o grupo. Fui levado numa maca já tão fraco que nem podia sequer andar. Entro para a célula e peço uma segunda oportunidade a Deus.

Eu só dizia meu Deus se me deres mais uma oportunidade, eu prometo que me endireito e nunca mais volto a viver desta maneira. Tive o apoio da família, os meus irmãos deram o dinheiro para fazer o tratamento no hospital e comprar medicamentos.

Num mês de tratamento o meu peso aumentou substancialmente. Fui fazendo o trabalho especial com acompanhamento médico e orações. E foi nesta altura que escrevi a canção Ta Amarrado, falando de todas as coisas que tinha e renunciando a tudo que fazia de errado.

O que é conquistado com esforço, dedicação, fé em Deus e em nós próprios dura, o que não vem daí não dura. Voltei à Igreja depois de recuperado e nunca mais me meti nestas coisas. É por isso que a maior parte das minhas composições tem uma mensagem religiosa.”

Finalmente o sucesso

O sucesso veio no início dos anos 2000. Ao invés de ficar sentado à espera que as coisas viessem ter consigo passou a esforçar-se mais, a correr atrás dos seus sonhos, a trabalhar incansavelmente para conseguir superar-se. “Depois do sucesso com a música Está Amarrado, produzi o Estamos Sempre a Subir do Virgílio Fire em 2001, em 2002 gravei o meu primeiro CD intitulado Fé Que Tocou Muito.

Tive muita aceitação. Ainda nesse ano produzi o Fofucho do Bangão, que ganhou o “top dos mais queridos”, e o Nha Vida é Tchora do Camilo Domingos. Três anos depois lancei o meu segundo álbum o Santa Mariazinha, com o qual ganhei muitos prémios. Segundo lugar no “top dos mais queridos” mas fiquei em primeiro no top Rádio Luanda.

Ganhei a Voz Masculina do Ano, Kizomba do Ano e Disco de Prata. No mesmo ano produzi o Kakixaka do Bangão que volta a ganhar o “top dos mais queridos” em 2007”, explica Caló Pascoal.

Este foi um ano muito importante para a sua carreira. “Lancei o projecto Eu e Elas e produzi o Porquê de Matias Damásio, que foi igualmente a melhor canção do ano. No ano seguinte lanço o meu novo álbum, o Esperança Sagrada e produzi o Grande Amor da Ary que foi a música do ano. Com o meu álbum ganhei na categoria semba do ano”.

E faz questão de realçar. “Tudo isso só foi possível através do apoio da família, do Guilherme Galiano, que foi uma das pessoas que me deu muita força, reconheceu em mim muito talento e senti-me valorizado quando fui ao Kandando.

Não posso esquecer o Salú Gonçalves que é como um pai para mim, o Afonso Quintas, entre outros. Eles são parte da minha família e estão atrás do meu sucesso. Hoje vem muita gente ver-me cantar, famosos, com carros caros. Eu comecei do zero e quando tentei ganhar a vida pela lei do menor esforço deu no que deu.

Por isso aconselho as pessoas quando querem fazer uma coisa, façam-no por amor. Porque como disse eu não tinha nada e a música deu-me tudo. Mas passei por momentos difíceis para chegar onde cheguei. Por isso digo, preocupem-se com a arte e não com a fama e dinheiro”.

A música e a mensagem
Eu não tinha nada e a música deu-me tudo.Por isso digo, preocupem-se com a arte e não com a fama e o dinheiro.
Questionado sobre a qualidade da música que faz, Caló Pascoal respondeu da seguinte maneira: “Quando se compõe é necessário ter em mente o que queremos atingir. Se for sucesso imediato basta-nos uma boa melodia e uma letra qualquer que tenha um ritmo envolvente. Mas esta música não vai durar muito porque a mensagem não tem nada a ver. Imagine que eu escrevo uma música só a dizer “eu não bato bem,…eu não bato bem”. No princípio há quem vai achar graça mais depois de se fartar do ritmo, ele vai questionar o sentido e, a música vai desgastar-se e perder-se no tempo. Mas se quisermos que a música dure, temos que para além do ritmo e a melodia, dar-lhe uma mensagem. Repare na Fim do Mundo, é uma música que tocou durante 3 anos e acredito que vai tocar durante muito mais tempo. Isto foi o que alguém me disse naquela altura em que estava a fazer tratamento – Caló se quiseres fazer sucesso faz músicas que tenham uma mensagem e, quando meti isto em pratica, aconteceu o êxito. Mas também há músicas cujas melodias ficam para sempre. Por exemplo Careless Whisper de George Michael, aquela música é eterna e fica para sempre.”

Fala-nos depois da importância da formação musical. “Eu penso que é importante. Embora seja um músico de ouvido, estou a ter lições de canto”, conclui.

Burla leva à produção

No início da sua carreira não tinha qualquer formação. Fez-se por si e pela sua sensibilidade. A sua virtude é saber ouvir e apreciar boa música. Foi ouvindo e aprendeu a produzir. “Tinha um vizinho que tinha um piano e, para mo emprestar, ele mandava-me à praça”, diz com uma gargalhada e continua a explicar, “ ele dizia: Caló vai comprar isso, vai comprar aquilo e, quando voltava emprestava-me o seu piano. Fui trabalhando com ele até que um primo meu enviou um de Portugal”.

E avança-nos com uma história curiosa. “É engraçado que só comecei a produzir depois de ter sido burlado”, volta a interromper com mais uma enorme gargalhada e continua, “olhe que dei dinheiro a um produtor famoso, que não vou identificar. Ficou com tudo e não produziu o instrumental que lhe pedi. Depois disso decidi começar a produzir. Mas não se pense que aprendi tudo sozinho. Tive grandes mestres como o Beto Max o meu amigo Dj Ângelo, que foi um grande professor. Os meus ídolos sempre foram Eduardo Paím e o cabo-verdiano Dab´s (Adalberto Lopes), que por incrível que pareça, também tem como ídolo o Eduardo Paím. Hoje tenho o meu estúdio que por ter este clima familiar, aberto e simples, é conhecido por quebra-galho”.

 

Perfil


Nome: Salvador Manuel Pascoal “Caló Pascoal”
Data de nascimento: 16 de Janeiro de 1977
Idade: 32 anos
Filhos: 1
CD: Fé, Santa Mariazinha e Esperança Sagrada
Prémios: Disco de Prata por Santa Mariazinha em 2006. Ganhou o Top dos Mais Queridos em 2008 na categoria Semba do Ano. Em 2005 foi segundo
Filmes: Gosto muito de drama
Produtores favoritos: Adalberto Lopes e Eduardo Paím

João Armando e Joel Costa
1 - 10 -2009
 
4
 

Comentários

  1. sebastião miguel j.manuel
    2011-07-29 15:13:55
    gostei da tua estoria da vida,é um exemplo a que deus ilumine á tua vida e da mais força para trabalhar e fazer muito sucesso na tua carreira proficional.paz e bem que o cristo redentor ilumine a ti e a tua familia
  2. Antonio Marcos Tyisai
    2009-11-10 12:02:12
    Olha Deus olha sempre para parte positiva, deu-te este dom, muito especial que vibra no momento serto dos angolanos.para mim leva isto ate ao ultimo homem, ou atodo canto do pais.asua bela musica calo
  3. Joe D'Almeida
    2009-10-11 00:27:52
    Adorei do fundo do coracao, saber mais um pouco, sobre a vida deste grande homem, musico, compositor e cantor angolano ! A musica angolana vive um momento incrivel, e sem margem de duvidas, Calo Pascoal, faz parte omnipresente deste novo sangue musical, que alegra nao so Angola, mas tds os povos lusofonos e nao so que adoram os ritmos extasiantes dos nossos musicos. Parabens, e que Deus esteja sempre cntgo
  4. Jonas Américo Artur
    2009-10-02 16:48:20
    Não o conheço pessoalmente mas algo dentro mim me diz que ele é um cara bem fixe,é só olhar no rosto dele e ver que é uma grande pessoa.Sou seu admirador se não o número um,aprecio ele quer pela super produção que faz quer pela musica.É um grande compositor;Kota Caló sou teu fã.Olha também sou compositor, se quiser me.......contacta-me só pelo meu endereço electrónico. Abraço irmão!
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