Primeira notícia: a empolgante conversa que o leitor há-de ler a seguir, esteve quase a não acontecer.
Nasceu de um mero acaso, como caem aos jornalistas vezes sem conta as dicas que depois se transformam em grandes histórias editoriais.
Na véspera da nossa partida de Buenos Aires, uma sexta-feira, escutámos do diligente Luís de Carvalho, o melhor cicerone angolano que se pode ter na cidade de Carlos Gardel, que talvez não fosse má ideia uma entrevista com o “velho Borja”, a mais antiga presença de um descendente de Ngola Kiluanji em terras argentinas. “Vive cá há mais de 60 anos, nem sequer fica muito distante daqui a cidade onde mora, uma hora pela auto-estrada, se tanto”. Sem vacilar, alterámos o voo para domingo e negociámos mais uma noite no Feir’s Park, o confortável hotel cinco estrelas onde, ao preço de uma noite num qualquer três estrelas de Luanda, nos hospedámos por quase uma semana.
Cruzámos ansiosamente pelas horas que faltavam até chegar o dia de sábado e, por volta da uma da tarde, dispusemo-nos a seguir viagem até General Rodríguez, cidade situada uns 50 km a Oeste de Buenos Aires.
Por volta das 14 horas de um sábado cheio de sol, contrariando o cinza espesso dos dias anteriores, contávamos estar naquela localidade da chamada região periférica da capital federal. Eis que surge, então, a primeira contrariedade, o tal elemento que esteve quase a impedir a concretização da desejada conversa: o motorista argentino mobilizado para levar-nos ao encontro de Mateus Vaz de Borja negou-se peremptoriamente. “Naquele bairro eu não entro, nem a brincar. Aquilo lá é só perigo”. Eu e o Filomeno Manaças, meu velho camarada do Jornal de Angola, entreolhámo-nos. Veio dele o encorajamento: “seja o que Deus quiser, vamos até lá. Não devemos nada a ninguém”. Problemas com drogas, tráfico, barões, gangs, insegurança, violência, a velha novela de uma América corroída pelos tentáculos do temido sub-mundo do vício, embora a Argentina não seja propriamente a Colômbia, o México ou os morros do Rio de Janeiro. Com outro motorista, mais o nosso determinado cicerone Luís de Carvalho, lá fomos os quatro até General Rodríguez, dispostos a uma única cedência: chegaríamos até à casa do “velho”, umas fotos rápidas mas a conversa seria num clube hípico, longe dali. E assim aconteceu…
Com que então tem uma longa história a contar-nos?
Sim, pode ter a certeza!
Vamos então começar pelo princípio…
Saí de Luanda em 1946, tinha 15 anos feitos. Tomei um barco norteamericano, clandestinamente, e toquei vários lugares da costa africana.
Cheguei primeiro a Lagos, depois fomos até Accra, no Ghana. Aqui desembarquei porque fui descoberto.
Foi preso?
Não, fui apenas retirado do barco americano e afastado da área do porto.
Mas consegui infiltrar-me de novo, apanhei outro navio, desta vez francês, que tinha ido deixar tropas africanas que haviam participado da II Guerra Mundial. Passámos por vários portos, começando por Conacry, depois retornámos ao Ghana e dali seguimos para Fretown (Serra Leoa), depois Dakar, no Senegal, onde fiquei uns quantos meses, meio perdido.
Depois, novamente clandestino, tomei um barco escondendo-me num bote salva-vidas, alimentando-me de bolachas e água. O destino era o Brasil.
Quando cheguei ao Rio de Janeiro, apresentei-me voluntariamente às autoridades. A Polícia perguntou-me de onde vinha, respondi que da Europa, pois se dissesse que tinha saído de África, certamente que me prendiam e acabava ali a minha aventura. O destino final desse navio era Marsella, na França, e para lá segui. Ao chegar entregaram-me às autoridades migratórias. Comunicaram o meu caso aos Serviços Sociais e estes conseguiramme um emprego no Consulado da Argentina em Marsella, como estafeta.
A minha missão era entregar correspondência e, depois que ganharam confiança em mim, passei a ir aos bancos depositar dinheiro.
Para começar nada mau…
Estávamos no ano de 1947. Trabalhava sob as ordens do senhor Hector Serot, cônsul na altura. Aí trabalhei 4 anos com ele, entretanto surgiu uma viagem dele à Argentina, em 1951, e convidou-me a viajar a Buenos Aires.
Embarcámos no navio Eva Perón e fizemos escalas em Nápoles, Lisboa, Rio de Janeiro e por um porto uruguaio, até chegarmos à Argentina. Ele tinha terminado a sua missão em Marsella e estava de regresso a casa.
E como foi integrar-se na sociedade argentina?
O senhor Hector Serot foi para mim uma bênção caída do Céu. Ajudou-me a arranjar um emprego em Buenos Aires, numa oficina como pintorauto. Ele manteve-se sempre muito próximo, contactávamo-nos com frequência. Ficou colocado no Ministério das Relações Exteriores e três anos depois foi nomeado para nova missão diplomática no estrangeiro, desta vez na Checoslováquia. Gostava tanto de mim que me fez o convite para o acompanhar. Tratei toda a papelada e fui juntar-me a ele lá, um tempo depois. Fui de avião, a primeira vez que voei na vida. Lembro-me que foi um Douglas a hélice, quatro motores, com uma infinidade de escalas antes de chegar ao destino: Rio, Belém, Dakar, Lisboa, Paris, Londres, Amsterdam.
Ficámos na Checoslováquia pouco mais de um ano e depois regressámos à Argentina. Fizemos a viagem de comboio, via Áustria e Génova (Itália), onde tomámos um barco, o Corriente, e fizemos a travessia passando por Barcelona, Vigo, Nápoles, Lisboa, Rio, Uruguay e Buenos Aires.
A sua memória faz inveja…
Nada de especial, lembro-me apenas das coisas. Estávamos no ano de 1954. Em Buenos Aires, voltei a trabalhar em pintura automóvel, que graças a Deus era um ofício muito bem pago.
Não havia, na época, muitos pintoresauto. E nisso fiquei a vida toda.
Depois constituiu família…
Sim, casei-me com uma argentina, a Maria Elva Cabral. Tivemos dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Hoje sou avô de oito netos. O rapaz deu-me 5 netinhos e a menina, 3.
Não enfrentou problemas por casarse com uma mulher branca?
Não, não tive nenhum problema por querer casar-me com uma mulher branca, estrangeira. Nesta minha aventura sempre me dei bem nesse campo, nunca sofri o racismo directamente. Em Marsella, por exemplo, elas assediavam-me como um enxame.
Viveu sempre em Buenos Aires?
Começámos em Buenos Aires a nossa vida a dois mas quando ela ficou grávida, mudámo-nos para Paso del Rey, no distrito de Moreno, onde nasceram os nossos dois filhos. Quando tinham 4 e 2 anos, comprei uma casa em General Rodríguez, onde educámos os nossos filhos, o Francisco Vaz de Borja, chará do meu pai, e a Filipa Emiliana Mateus Vaz de Borja, chará da mãe da minha companheira.
Vamos agora tentar perceber como foi que lhe nasceu a ideia de sair pelo mundo fora, metido clandestinamente em navios … Tem uma explicação. O meu padrasto, Carlos da Silva Lapa, que trabalhava na Municipalidade de Luanda (actual GPL) e era director da Biblioteca, tinha um irmão, Pedro da Silva Lapa, que vivia connosco. Também era funcionário da Municipalidade e contava muitas histórias de viagens.
Contou-me que tinha feito a travessia do Atlântico num barco enorme, com três chaminés, via as estrelas, ficou maravilhado ao chegar ao Rio de Janeiro, ver o Cristo Rei, andar de teleférico. Eu escutava tudo aquilo com muita emoção e curiosidade e um dia disse-lhe: “tio, um dia destes também vou conhecer todos esses lugares”. Ele respondeu-me: “Estás maluco, rapaz.
Tens noção do dinheiro que é preciso para fazer essas viagens?”. Eu então disse-lhe que viajaria sem gastar um centavo! A verdade é que eu já tinha visto filmes sobre pessoas que tinham viajado clandestinamente, tinha lido livros sobre isso.
Angola ficou esquecida depois de todos estes anos? Nem a brincar! Não imagina como me senti quando cumprimentei aqui em Buenos Aires o Senhor Presidente da República, José Eduardo dos Santos. Senti-me mais angolano do que nunca. Foi a reaproximação com Angola. Devo isso à consul (na verdade consulesa, nota da Redacção) Mercedes Quintino, que trabalhou aqui e jogou um grande papel. Prometi-lhe que no dia que eu puder chegar a Angola, vou beijar a minha terra. Agora estou feliz, já tenho o meu passaporte angolano, já só falta mesmo voltar a pisar o chão do meu país, depois de mais de 60 anos de ausência.
Mateus Vaz de Borja, o angolano que na adolescência se escapuliu de Luanda num navio mercante para terminar a sua aventura em solo argentino, completa no mês de Dezembro 80 anos de idade. Na conversa cheia de lembranças que manteve com O PAÍS foi directo a fazer o pedido, embora tivéssemos sido advertidos da sua teimosia em não recorrer a ajudas: “É verdade que não sou muito de pedir, não gosto, prefiro resolver as minhas coisas como posso, mas neste caso não tenho alternativa: quero chegar a Angola, preciso de ver o meu país antes de morrer, e não tenho dinheiro. Quem me puder ajudar, vou ficar eternamente grato”.
Assumimos, enquanto jornal, o compromisso de tentar viabilizar aquele que é o mais apetecido e urgente sonho de Mateus Vaz de Borja. Colocámo-nos na dianteira de uma campanha de obtenção de recursos financeiros, para que tão logo quanto possível, o casal possa se deslocar a Angola. Quem quiser abraçar a campanha de colecta de fundos, bastará contactar o secretariado de O PAÍS, pelo telefone 928 81 84 84 ou pelo endereço electrónico paula.monteiro@opais.co.ao A longa e incrível aventura merece este final feliz.