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Moeda

Kwanza: mercado cambial aproxima-se do informal

O valor do kwanza já pouco difere no mercado oficial e informal, o que significa que a nova orientação da política monetária, retomando os leilões competitivos no mercado interbancário, está a “secar” o negócio das kinguilas.

Com efeito, o kwanza registou, ao longo do último ano, uma desvalorização gradual face à nota verde norte-americana (ver quadro II.), o que aproximou a cotação oficial da praticada no mercado informal. Se, no final de Janeiro, cada dólar valia Kz 75,131 (ao longo de um prolongado período a paridade kwanza/dólar situou-se em torno dos Kz 75 por dólar), no último dia de Dezembro de 2009 eram necessários Kz 89,398 para adquirir um dólar. A média anual da cotação kwanza/dólar situouse em 79,589. O valor do dólar nas Kinguilas também se foi esbatendo: chegou a aproximar-se dos Kz 98, ao passo que, hoje, a cotação “de rua” oscila entre os Kz 92 e Kz 95 por cada dólar. À hora do fecho desta edição o valor de venda do dólar situava-se, no sítio no Banco Nacional de Angola (BNA), em Kz 90,4. O diferencial entre mercado oficial e informal estreita-se, portanto, cada vez mais, sem margem para dúvidas.

Segundo fonte do mercado interbancário contactadas por O Paíso Banco Central já terá conseguido, no que toca à aproximação da taxa de câmbio dos bancos à taxa no mercado informal, “resolver parte do seu problema de liquidez, começando progressivamente a dar resposta às necessidades dos bancos comerciais”. Daí que, adianta a mesma fonte, já se comece a ver os dólares a fluir com mais normalidade no sistema financeiro. Reduzem-se assim os incentivos para a informalidade”.

Mas as kinguilas estão, pelo menos nos tempos mais próximos, condenadas à extinção? Para a nossa fonte ainda é cedo para retirar semelhante conclusão, dado que “ os montantes colocados em termos de divisas (que rondam os USD 70 milhões por leilão) não são suficientes para satisfazer totalmente a procura, dado o cariz fortemente importador da nossa economia”.

Também o economista Carlos Rosado de Carvalho considera que o “BNA ainda não está a fornecer ao mercado dólares suficientes”. Muitos analistas apontam mesmo, além disto, para a necessidade de realizar leilões diariamente, ao invés dos três leilões semanais que ocorrem actualmente. 

Já o economista José Cerqueira discorda dos leilões de divisas: “o que há a fazer, refere, é introduzir um verdadeiro mercado de câmbios interbancário, de modo a que o banco central, além de regulador, apareça para a absorção dos excedentes ou para a cobertura de défices”.

A escassez de dólares esteve na origem da desvalorização efectiva da moeda nacional, apreciando a nota verde.

O que aconteceu foi que, em Abril, as autoridades substituíram os leilões competitivos por um sistema que lhes possibilitava fixar as quantidades e os preços a que cediam dólares à banca.

Ora, no início do último trimestre de 2009, mais precisamente a 2 de Outubro, o banco central substituiu o sistema de rateio, retomando os leilões competitivos. Se o abandono pelo banco central do designado “currency peg” teve a ver com a quebra nas receitas petrolíferas, fontes contactadas, na altura do restabelecimento dos leilões competitivos por O País, consideravam que, “face aos ajustamentos efectuados na condução da política monetária, a situação cambial, designadamente no que toca à paridade dólar/kwanza, tenderá a normalizar a curto prazo”.

Também a intenção de o FMI financiar a economia angolana não foi alheia à decisão. Rosado de Carvalho assinala, a este propósito, que uma das pré-condições do financiamento negociado com o FMI consiste em “eliminar a taxa fixa e as condições cambiais negociadas são para cumprir”.

Para o economista “a aproximação entre o mercado paralelo e o oficial vai depender da política cambial. Tudo indica, nos termos do acordo com o FMI, que a tendência será de liberalização no mercado cambial – sendo as taxas fixadas pelos mercados deixa de haver razões para o mercado paralelo prosseguir a sua actividade”.

Já na perspectiva de José Cerqueira “a doutrina oficial do FMI era, até pouco tempo, de aplicação da taxa de câmbio fixa em países menos desenvolvidos. É a ideologia o FMI que está detrás da actual política cambial. A única divergência de pontos de vista é acerca da altitude da taxa actual.

É possível que o FMI recomende um abaixamento do kwanza. O problema da política cambial em países menos desenvolvidos, principalmente em África, consiste na filosofia das doutrinas do FMI.

Este organismo recomenda para os países pobres, designadamente africanos políticas cambiais que seriam consideradas reaccionárias se fossem recomendadas para países desenvolvidos”.

Rosado de Carvalho considera que a tendência, num contexto de progressiva liberalização, é de que as taxas prevalecentes no mercado venham a ser as fixadas pelos bancos (na verdade actualmente coexistem três taxas: a do BNA, as dos bancos e as do mercado paralelo).

E sublinha: há um compromisso do Governo no sentido de eliminar progressivamente a intervenção do BNA na fixação das taxas e não introduzir novas restrições ao movimento de capitais e eliminar as existentes”.

E as dificuldades patenteadas pelas autoridades em colocar dívida no exterior podem traduzir uma análise de risco por parte dos mercados internacionais que permita a estabilização da moeda nacional? José Cerqueira não julga que Angola “tenha problemas em contrair novos empréstimos sobre o mercado internacional.

Angola precisa de empréstimos para acelerar o seu desenvolvimento. Não precisa de empréstimos para defender a taxa de câmbio.

A questão está precisamente em substituir as técnicas caras de defesa da moeda, mediante intervenção de oferta sistemática de dólares a partir do banco central, passando a utilizar a técnica inteligente que consiste na criação dum circuito verdadeiramente lógico de processamento bancário das divisas”.

António Assunção e Luís Faria
5 de Fevereiro de 2010
09:21
 
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