Dr. Carlos Lopes, o que espera do mandato que vai assumir?
Eu estou muito satisfeito com a esta nomeação, porque ela dá um certo destaque à lusofonia, dado que é a primeira vez que a Comissão Económica para a África vai ter um lusófono à frente, e numa altura muito importante para o continente, porque todos falam do crescimento económico, dos resultados relativamente bons da performance africana em várias frentes, assim como dos indicadores sociais, mas também há muita preocupação em relação aos problemas da segurança humana, como o facto de ainda existirem algumas tensões, várias, no continente e algumas guerras civis, como é o caso da Somália, como é o caso das tensões na zona dos Grandes Lagos e também da fragilidade das conquistas no Sudão. E agora tudo o que está a acontecer na zona do Sahara, com toda a influência resultante dos acontecimentos na Líbia.
Mas os desafios do continente são de natureza completamente diferente do que eram há quinze anos atrás, portanto estamos numa boa onda e é preciso aproveitar esta boa onda com estratégias muito mais sofisticadas para o continente.
Fala da boa onda que os países africanos vivem, mas estamos também sob os efeitos da crise económica global, como é que vê a África inserida neste cenário?
A África tem sido muito resiliente, muito capaz de lidar com choques externos desde 2008/ 2009 e, portanto, foi o continente que menos sofreu em termos absolutos e percentuais com a crise financeira 2008/ 2009 e foi também o primeiro a sair da crise. Esse é um bom resultado. Subsequentemente tem havido várias convulsões na economia mundial e, neste momento, a África é o continente com a maior taxa de crescimento em termos mundiais. Essa boa onda reflectese nesses números mas, como eu disse, a qualidade do crescimento africano tem que ser posta à lupa, porque nós normalmente vemos as taxas de crescimento sem as comparar necessariamente com as taxas de crescimento demográfico e essas demonstram que a população africana está a aumentar a um ritmo vertiginoso e, por causa disso, muitos dos ganhos são eliminados apenas pelo aumento do número de pessoas. Também temos uma série de outros fenómenos que mostram a fragilidade dessas conquistas africanas. É uma mistura de boas notícias, mas também de algumas notícias inquietantes e é preciso guardar a modéstia.
Falou há pouco em trabalhar em buscas de consenso, para assegurar que a Comissão Económica para a África seja um actor chave no desenvolvimento económico e social do continente. Como é que espera alcançar esses consensos?
Acho que a Comissão económica para a África precisa de se concentrar muito mais na produção de ideias, ser um grande think thank, porque muitas das funções que a Comissão tinha no passado agora foram completamente assumidas, ou, pelo menos há a intenção de assumir, por parte de outras instituições propriamente africanas, como é o caso da União Africana que agora é uma Comissão, não é mais uma organização que estaria muito mais voltada para as questões políticas apenas.
Agora tem uma série de comissários que se ocupam de questões económicas, sociais e de governação.
Tem o NEPAD que tem o seu próprio secretariado, tem o mecanismo de revisão de pares e tem uma série de
outras instituições que mostram que a África, neste momento, possui uma rede institucional muito mais capaz que a que existia no passado. Também o Banco Africano de Desenvolvimento foi uma grande estrela nos últimos dez anos, cresceu muito, tem um portfólio maior que o Banco Mundial em África. É um banco que está em grande progresso, com uma grande capitalização e tem papel um chave a desempenhar no desenvolvimento do continente.
Isso para não falar das organizações regionais que também cresceram muito em termos de maturidade e poder de intervenção. Portanto, por todas estas razões, algumas das funções que normalmente cabiam à Comissão Económica para a África, das Nações Unidas, por defeito, agora têm de ser libertadas e têm de ser deixadas para os seus designados autores e protagonistas. Portanto, a Comissão económica para a África tem que ser reconstituída, em termos de prioridades, para responder melhor aos novos desafios.
Falou dos novos desafios e estamos perante economias voláteis neste momento, apesar da boa onda que referiu há pouco tempo. Como vê o desafio dos países lusófonos, integrados nos seus blocos regionais?
Eu acho que o tempo da prescrição simples de políticas, como no esplendor do ajustamento estrutural, no consenso de Washington, onde todos se focavam na questão económica já passou de moda. É preciso priorizar a reflexão, a formulação de estratégias sobre as grandes tendências. E isso vai afectar a forma como os blocos se organizam. Essas grandes tendências mostram que muitos dos problemas não podem ser resolvidos ao nível de cada país, têm de ser vistos numa esfera sub-regional, ou mesmo regional. E eu aponto como prioridades tentar compreender melhor os mecanismos da crescente demografia e urbanização, o papel das novas tecnologias da comunicação nos sistemas económicos, as oportunidades de industrialização criadas pela perda de unidades de valor na Ásia ou a expansão rápida das instituições financeiras no continente. São desafios que ninguém está a ver ou a analisar com o detalhe necessário e, portanto, a Comissão Económica para a África deve tomar isso como sua prioridade.
Já pensou em algum papel da Comissão económica na cooperação entre os países de língua portuguesa em África?
Eu acho que é evidente que os países de língua portuguesa em África têm, no seu conjunto, muitos factores positivos em termos económicos.
Angola está a crescer a ritmos de dois dígitos, Moçambique também.
Com as novas descobertas de gás em Moçambique a economia vai acelerar ainda mais. Cabo Verde tem tido um bom desempenho para um país com fracos recursos naturais, tem indicadores sociais e de governação muito altos, para a média continental, e os dois outros países, S. Tomé e Príncipe e a Guiné Bissau, embora tenham uma situação política um pouco mais perturbada, estão também, em termos económicos, a crescer muito bem. A Guiné Bissau que é, digamos, o aluno com maiores problemas devido a todas as convulsões neste país, continua também, apesar disso, a ter um crescimento bastante aceitável na ordem dos quatro a cinco por cento. De uma maneira geral, posso dizer que os países lusófonos estão a portar-se bem do ponto de vista económico.
Mas isso não é suficiente, porque há problemas de distribuição, há problemas de desigualdades, há problemas nas áreas sociais que precisam de consolidação, como a educação e saúde. De uma maneira geral o que me preocupa, e isto não é específico dos lusófonos mas interessa-me também em relação aos lusófonos, é que uma boa gestão económica implica grande capacidade estratégica e poder de antecipação. E neste quesito todos têm trabalho de casa a fazer, apesar de uns estarem mais próximo de ir jantar do que outros.
“Isso não seria possível sem um certo reconhecimento também do papel dos países lusófonos”
O Dr. Carlos Lopes foi recentemente nomeado secretário executivo da Comissão Económica para a África, é da Guiné Bissau, um país de expressão portuguesa. Temos fora dos Países Africanos de Expressão Portuguesa o Brasil, que é um exemplo de crescimento muito grande, temos, por outro lado, Portugal que está a passar por uma crise, mas falou há pouco do aumento da importância dos países de língua portuguesa em África. Angola está a crescer. De que forma acha que este crescimento do país possa reflectir-se na CPLP, ao lado do Brasil que também está a crescer, por exemplo?
Eu quero acreditar que é mais do que uma coincidência o facto de um lusófono chegar a este posto que é o posto mais alto das Nações Unidas na África e, portanto, isso não seria possível sem um certo reconhecimento também do papel dos países lusófonos. É muito interessante que mencione o Brasil, porque o Brasil é um dos países emergentes que está a desenvolver rapidamente o seu relacionamento com a África, juntamente com países asiáticos, como é o caso da China, como é o caso da Índia, como é o caso também dos Emiratos Árabes Unidos ou a Turquia, para já não falar também da Coreia e da Malásia, que vêm logo a seguir… todos esses países emergentes têm uma característica comum, é que eles estão a apostar num relacionamento com a África que não me parece ser apenas de curto prazo. Há uma visão estratégica, por parte desses países, de se engajar com a África. Isso porque vêem em África um potencial de crescimento no futuro muito grande. Não é só no imediato. Isto numa altura em que outras economias mais maduras estão, não a abandonar o continente, antes pelo contrário, ainda continuam presentes de uma forma substancial, mas onde têm grandes dificuldades em aumentar o seu engajamento e a África precisa de um crescimento muito grande, tem uma classe média que está a crescer em grande velocidade e, portanto, por todas essas razões eu acho que África tem que se abrir a todos esses novos parceiros, mas com estratégia também. Em relação ao Brasil, eu estou ligado já faz vários anos a uma série de pessoas que têm uma reflexão muito aturada sobre o relacionamento com a África e espero poder beneficiar desta rede, desta relação especial que eu estabeleci ao longo dos anos para poder fazer a África melhor compreender o Brasil e o Brasil melhor compreender a África.
Vê alguma capacidade numa futura parceria, ou integração, ou acima de tudo cooperação entre Angola e o Brasil vir a ter reflexos na CPLP?
Não tenho a mínima dúvida que tudo isso já está a acontecer. Não é por acaso que, por exemplo, se tomarmos o parceiro mais fraco do elo, que é a Guiné Bissau, há uma intervenção importante de Angola e há também uma concertação muito grande da CPLP no seu conjunto, sendo que a Comissão especial das Nações Unidas que se dedica a Guiné Bissau em termos processo de paz é presidida pela embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, que é a representante permanente do Brasil e Nova Iorque. Portanto, já existe este tipo de conexões que estão a funcionar de forma plena.
Queria falar um pouco mais sobre a questão da inovação, da tecnologia, das parcerias, o estímulo às parcerias entre vários sectores do empresariado que tem vindo a ser estimulado pela Comissão Económica para a África… queria falar desta vertente no seu mandato?
Eu acho que o crescimento da contribuição da área das tecnologias para o produto nacional bruto dos países africanos é absolutamente extraordinário. É um crescimento muito rápido. Em países como a Tanzânia ou a Tunísia já representa cerca de vinte por cento do produto nacional bruto por causa, sobretudo, da telefonia celular e tudo o que vem com isso, mas é porque são, de facto, zonas de alto valor agregado em termos económicos e que transformam completamente as economias africanas.
Eu acho que este salto é muito produtivo para a África. Existem neste momento quarenta e dois milhões de africanos que têm telefones celulares e não têm electricidade em casa. Isso mostra que estes saltos podem ser muito rápidos… as taxas de crescimento mais elevadas do mundo para a penetração da telefonia celular e da Internet são em África, mas também porque partem de uma base muito baixa, mas o que é certo é que num espaço de tempo relativamente curto vai haver uma cobertura quase universal destas tecnologias, o que é extraordinário.
Em termos históricos não se conhecia outro exemplo de uma penetração tão rápida. Isto pode beneficiar sobremaneira as economias africanas, onde os maiores investimentos, por exemplo, da Índia em África são efectuados nas áreas das telecomunicações, os maiores investimentos que fazem a partir da África do Sul para o resto do continente são também nesta área, o que mostra que há um enorme potencial das novas tecnologias.
Quer falar do potencial dos países de língua portuguesa e dos contactos que vai ter com eles durante os próximos anos do seu mandato?
Eu, evidentemente tenho o privilégio de ter um acesso fácil, por causa da língua, junto desses países, mas também porque os conheço historicamente e fazem parte do meu percurso. Ao longo do tempo vai-se construindo redes e essas redes agora podem ser postas ao serviço desses países neste cargo que agora ocupo. Também acho que é importante ter em conta que esses países têm uma história muito específica que contribui, eu acho de uma forma muito positiva, para a maturação do continente. Temos uma diversidade importante nestes países, o facto de estarem em subregiões acho que é um aspecto positivo, mostra que têm, digamos um sabor africano que é diferente, conforme os vários países, mas o facto de manterem a solidariedade entre eles e terem um relacionamento especial muito ajuda para que eles possam ser engrandecidos nas suas intervenções internacionais. E eu espero poder contar com esse quesito que eu acho muito importante, de solidariedade e de relacionamento especial para também poder fazer ver ao resto da África a importância destes países.
Que nos tem a dizer sobre desafios e apostas para os próximos anos?
Apenas que a Comissão tem potencial para ser o maior think thank do continente, com os seus trezentos economistas e quase oitocentos colaboradores. A função principal é tentar mobilizar esta força que é uma força enorme para a transformação do continente e este é o momento certo para o fazer.