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Grande Entrevista # João Teta

Corpo docente da UAN está a envelhecer

Reitor da Universidade Agostinho Neto diz que é um alívio para si o facto de o Governo ter criado novas universidades públicas

Depois de dois mandatos consecutivos (oito anos) na gestão da Universidade Agostinho Neto, que avaliação o senhor Reitor faz relativamente ao trabalho que realizou nessa instituição?

Sabe que é muito difícil avaliar-se a si mesmo. É sempre bom que essa avaliação seja feita por outras pessoas.

Mas, modestamente falando, penso José Meireles que sim, o resultado é positivo, ultrapassámos as nossas próprias expectativas em termos de crescimento, aumento do número de finalistas, aumento do número de inscritos, em termo de expansão universitária, a criação de bases para que as novas universidades pudessem surgir, o reconhecimento internacional, a melhoria da qualidade de ensino, ou seja, a melhoria da qualidade da docência. Eu penso que houve sim muita evolução, há mudanças radicais que vão a médio e longo prazo, se formos coerentes, beneficiar o desenvolvimento do ensino superior.

Que mudanças são essas?

Em termos da qualidade de docência, nós instituímos os cursos de agregação pedagógica, os docentes aprenderam e continuam a aprender a ensinar, porque uma coisa é ter competência e outra coisa é saber transmitir convenientemente o que nós sabemos e também saber transmitir competências de acordo com as exigências do sistema de ensino e de acordo com o nível que se quer dar ao estudante. Tudo isso é ciência, também é arte. Introduzimos esses cursos que melhoraram de forma significativa o desempenho da própria Universidade, é só vermos que nos anos 2001/2002, a Universidade Agostinho Neto tirava cerca de 170 licenciados por ano.

No ano de 2008, tirámos mais de quatro mil licenciados. Também é verdade que o número de estudantes aumentou significativamente, portanto houve um crescimento em cinco vezes e meia maior que o número de estudante do ano 2001/2002.

Mas, também convenhamos que o estudante que entra hoje, só sai depois de cinco anos, portanto o resultado que nós apresentamos em 2008 é fruto daquilo que fizemos em 2003, estamos a falar praticamente do início do mandato.

Em 2003, nós tínhamos um pouco mais de 18 mil estudantes, então, se virmos a relação entre quatro mil e 18 mil, estamos a falar praticamente de um quarto, 22 por cento daqueles que entraram em 2003 e terminaram em 2008, se tivermos em conta que a média do curso é de cinco anos. Portanto, estamos muito melhores se antes de 2002, o desempenho da UAN era no máximo de cinco por cento, relativamente as entradas. Em alguns cursos esse desempenho já chega a ser de 40 ou acima dos 50 por cento nos cursos menos tecnológicos.

O senhor Reitor exaltou as competências adquiridas pelos docentes mas, ao que tudo indica, essas competências não se reflectem na qualidade dos estudantes…

Reflectem-se sim! Também é outra questão de que se está sempre a bater.

Claro que a nossa qualidade de ensino no país, refiro-me especificamente à qualidade de ensino na Universidade Agostinho Neto, não se pode comparar à qualidade de ensino da Universidade de Cambridge ou de Oxford. Claro que não. Mas, nós temos estudantes que terminam os cursos em Angola e vão fazer mestrados e doutoramentos nessas grandes universidades e saem-se muito bem. Agora, temos é que fazer que grande parte daqueles que terminam tenham a qualidade dos melhores, porque os nossos melhores são tão bons em Angola como em qualquer parte do mundo. Estaríamos muito mais preocupados se o melhor daqui fosse pior que o pior do outro lado, o que não é o caso.

No ensino, os resultados daquilo que fazemos hoje, não se vêem amanhã, ver-se-ão daqui a alguns anos, temos que ter alguma paciência, mas sobretudo temos de ser coerentes e persistentes, porque se formos mudando sempre, não chegamos a tempo de verificar o resultado daquilo que plantámos hoje.


O senhor está a deixar esse problema na UAN, não conseguiu estancar?

Esse é um problema geral, é um problema que encontra na universidade, que encontra em vários outros sectores do país. Como eu disse, o país não é só a universidade, o país é um todo: é a rua, é o candongueiro, é o tráfego, é a praça, é a família e tudo isso tem influência na universidade.

A universidade é apenas um corpo dentro da sociedade, por mais que queiramos nós não podemos estar isolados da sociedade. É verdade que nós temos um papel fundamental em influenciar os destinos de uma sociedade, mas somos seres humanos e vivemos de acordo com os hábitos, costumes e o ritmo do dia-a-dia.

A Universidade Agostinho Neto não foi tida nem achada nos grandes assuntos do país, a exemplo do que acontece em outros países. O senhor Reitor sentiu esse problema?

Sentimos esse problema, porque também é um problema de cultura de todos nós. Se de um lado a universidade não foi tida nem achada para as grandes decisões, também a universidade ainda não aprendeu muito bem a ser mais interventiva, porque o docente universitário não pode esperar que alguém lhe faça encomenda, ele próprio tem que procurar os problemas e tentar influenciar.

Mas, esse aspecto também aprende-se na academia…

Aprende-se na academia! Mas, é como eu disse, há questões que a universidade de uma maneira geral ensina a fazer, o estar e o ser aprende-se ao longo da vida, não só na universidade, aprende-se em casa, aprende-se na escola e quando a pessoa vem à universidade, de uma maneira geral, já sabe ser. Claro que a universidade contribui para a melhoria dos fundamentos, cria raízes para o saber ser e estar. Contudo, na universidade não há muito tempo para ensinar a ser e a estar; ela está mais vocacionada a ensinar a saber fazer.

No meio de tudo isto, qual é então o legado que o senhor deixa na Universidade Agostinho Neto?

Não é o que eu deixo, que nós deixamos, porque trabalhamos em equipa. Primeiro, todos nós tomamos consciência de que aprende-se durante toda vida, grande parte dos docentes hoje aceitou fazer a sua agregação pedagógica, o que significa dizer que reconhecemos que nós tínhamos algumas lacunas em termos de saber ensinar, isso é muito bom.

A investigação científica é um facto na UAN, antes do nosso mandato não se fazia investigação nenhuma, hoje temos 155 dissertações de mestrados, são trabalhos de investigação.

Ainda assim, a investigação científica é muito tímida…

Eu penso que é satisfatória, comparado com aquilo que não existia. Tínhamos zero no passado, hoje temos mais de 200 mestres já formados, no pós-independência. O país está independente há mais de 30 anos e só nos últimos cinco anos é que começamos a formar os mestres. Se já formamos mais de duas centenas de mestres em menos de cinco anos, significa que se continuarmos com este ritmo dentro dos próximos cinco/dez anos poderemos chegar entre mil a três mil mestres e doutores. A investigação científica não se faz sem quadros, sem recursos humanos à altura.

E sem dinheiro, acima de tudo…

Não! O homem acima de tudo. É exactamente a minha perspectiva, a perspectiva universal. O homem é que faz o dinheiro e não o dinheiro que faz o homem. Podemos ter todos os milhões do mundo, se não tivermos quadros capazes de gerir esses milhões vamos gastá-los de forma irracional. Temos, primeiro, que ter seres bem formados e seres bem formados significa seres racionais que vão fazer a pesquisa, que vão desenvolver o país.

Nos últimos anos a UAN falava em formação de técnicos com nível de bacharelato, exactamente para acabar com a dependência dos licenciados, dos mestres e doutores em actividades que dispensam a sua intervenção. Este modelo de ensino foi implementado?

Foi implementado. Foi exactamente o que nós fomos buscar em outras paragens, nós não inventamos nada, apenas adaptamos aqueles modelos que nos outros países funcionaram.

Hoje, a África do Sul é um país em vias de desenvolvimento, a tender para o desenvolvimento graças as escolas técnicas, chamadas “tecnicom”, o Japão, a Coreia do Sul, a Alemanha, a França também passaram por esse processo de escolas técnicas de dois a três anos. Nós achamos que havia um vazio muito grande entre a formação de licenciatura e a formação técnica básica. Por isso é que introduzimos as Escolas Superiores de Ciência e Tecnologia na UAN. A primeira experiência foi na Lunda Sul, depois no Namibe, no Uíge e Kwanza Sul. Não perguntem sobre a qualidade dos quadros saídos destas escolas.

Já temos resultados?

Os resultados são muito bons. Muitos desses estudantes, ainda no primeiro ano, já estão admitidos, aliás não conheço nenhum caso de alguém que tenha terminado estas escolas, estes bacharelatos tecnológicos que não tenha emprego. Agora, há sim apetência, que é natural, desses continuarem e fazerem a licenciatura e já há muitos inscritos para fazerem a licenciatura.

Penso que se nós melhorarmos isso, e criarmos mais escolas deste tipo nós teremos a mão-de-obra qualificada e técnicos superiores à altura dos novos desafios.

Há condições para esses técnicos darem sequência a sua formação?

Sim. O ser humano pensa superar-se permanentemente, isso é muito bom. Ele faz o bacharelato, depois faz a licenciatura e depois quer fazer o mestrado e o doutoramento, tudo isso é importante, mas temos que ter uma pirâmide. O operário é tão importante quanto o doutor. Se todos forem doutores e não tivermos operários, não há desenvolvimento. Se forem todos operários e não houver doutores também não haverá desenvolvimento. Temos que ter operários, temos que ter técnicos médios, temos que ter técnicos superiores, engenheiros ou doutores, temos que criar uma pirâmide convenientemente em todas as áreas do saber, em todas as áreas de desenvolvimento para que aquele que concebe, conceba, aquele que tenha que implementar, implemente e aquele que tenha que controlar, que controle, porque se tivermos só controladores e não tivermos pessoas para implementar, não funcionará.

Quando concorreu para o cargo de reitor, o senhor havia posto em marcha um slogan, segundo a qual “Por uma Universidade Unida, Moderna e Actuante”. Conseguiu cumprir os itens deste slogan?

Sim! Atenção, vamos começar pela unidade. Durante estes últimos anos, a Universidade Agostinho Neto esteve mais unida, porque o docente universitário, feliz ou infelizmente, não é alguém que faz coisas sem estar convencido, o intelectual antes de fazer tem de estar convencido daquilo que está a fazer. O resultado que nós conseguimos de nove mil estudantes, em 2001/2002 para cerca de 47 mil estudantes em 2008, foi graças à unidade. Não faríamos isso só com despachos, isso conseguimos porque houve maior aproximação, os órgãos colegiais funcionaram, tudo era aprovado pelos órgãos colegiais, havia crítica e auto-crítica, havia o espírito académico, digamos que isso funcionou.

Actuante: já fomos mais actuantes, porque não esperamos que o ensino universitário viesse ter connosco em Luanda. Nós fomos em 12 das 18 províncias do país. Quando iniciámos o nosso mandato, estávamos em apenas seis províncias. Em 2008, estávamos em 12 províncias.

Quando entrámos nós não nos concentrámos apenas nos cursos que encontrámos, criámos outros cursos, os cursos da Faculdade de Letras e Ciências Sociais, os cursos tecnológicos, na área de Pedagogia, na área das Ciências Exactas, como vê, fomos actuantes.

Quanto à modernidade: hoje temos praticamente em todas as unidades orgânicas, rede de internet. O que é mais importante não é isso, temos hoje um Centro de Ensino à Distância, que é um dos centros mais modernos de África, deve ser o segundo ou o terceiro centro de ensino à distância, para teleconferência.

Não é mais uma mania das grandezas?

Não, estamos a falar com conhecimento de causa. Quem quiser, pode ir lá constatar, mas não é só equipamento, é equipamento e homens para gerir o equipamento, isso era necessário para que as conferências de alto nível, as conferências importantes no mundo, as conferências que têm acesso à internet, nós possamos acompanhar a partir de Angola sem termos que deslocar o nosso pessoal para o exterior do país. Poupamos dinheiro e também podemos, a partir daqui, assistir àquilo que se passa lá fora. Podemos partilhar o nosso conhecimento a partir daqui, usando as tecnologias modernas.

O facto de ter relançado a UAN para os patamares que conhecemos, dá-lhe alguma vaidade do ponto de vista pessoal?

Os resultados alcançados pela UAN são um trabalho de equipa. De todos os docentes, trabalhadores não docentes e dos estudantes. Mas o factor decisivo foi o Governo da República de Angola que aprovou o plano de relançamento da UAN a nível nacional, em 2002, de que fomos humildes implementadores, e pôs à disposição da UAN os recursos possíveis para este ambicioso projecto.

O facto de as grandes decisões da vida da UAN terem sido decididas em fóruns como o Senado e Assembleia Universitária, isso não terá dado a imagem de haver uma gestão populista e um medo de o Reitor em tomar decisões e encarar as coisas de frente?

De forma nenhuma. Muito pelo contrário. Eu acredito na democracia académica, que não é populismo mas sim a partilha de experiências e competências. A Academia rege-se pelo lema socrático segundo o qual “só sei que nada sei”. Ninguém pode ter a veleidade, na academia, de pretender conhecer tudo.

A democracia (académica) é inerente ao processo docente-educativo nas instituições de ensino superior. Imagina se alguém tivesse que defender o trabalho de fim de curso, dissertação ou tese diante de uma única pessoa? Já imaginou se o prémio Nobel fosse decidido por uma única pessoa? Isso é inconcebível na Academia. Portanto a força do Reitor, do Decano e de outros dirigentes para atacar os problemas “frontalmente”, vem dos órgãos colegiais, como o Senado e a Assembleia.

A criação da Faculdade de Letras e Ciências Sociais foi, digamos, a galinha de ovos dourados da sua campanha eleitoral. No entanto, ela iniciou a funcionar com uma comissão de gestão e o senhor está a deixar com uma comissão de gestão, um percurso marcado por várias comissões de gestão…

É uma das faculdades mais complexas em qualquer universidade, por isso mesmo é que durante esses anos não existia essa faculdade. É a faculdade mais complexa.

Mas, agora vamos criar a Faculdade de Letras e a Faculdade de Ciências Sociais. Antes de terminar o nosso mandato vamos ter essas duas faculdades.

Mas, temos o problema das infraestruturas…

Sim, há problema das infraestruturas, mas como “Roma não foi construída num dia”, a Faculdade de Letras também não será construída num dia. É uma Faculdade muito complexa com 13 cursos, com quase sete mil estudantes que é o número de uma universidade. Houve no processo todo um erro nosso, tenho que assumir enquanto reitor, de se ter admitido muitos estudantes.

Idade dos docentes preocupa reitoria

O senhor reitor referiu-se à unidade na UAN, mas ao longo do tempo fomos vendo que alguns quadros de valia foram abandonando o barco pelo caminho.
Isso não terá sido sinónimo de desunião, ou foram à procura de melhores condições sociais?
Penso que se fizermos avaliação de 2002 a 2008, quantos quadros de valia abandonaram? Agora, talvez com o redimensionamento da universidade. Durante estes anos, o número de docentes em tempo integral aumentou, os salários aumentaram. Sabe que em 2001/2002, o salário do Professor Titular estava à volta dos 500, hoje o salário já está entre entre os dois mil e quinhentos a três mil dólares. É o salário que os docentes auferem na Universidade Agostinho Neto.
Ainda não é compatível com as ambições que os docentes têm, por isso é que muitos deles fazem a”turbo docência”, dão aulas aqui, vão dar aulas numa universidade privada à procura de melhores salários continuariam a garimpar, mas felizmente são poucos. Para  alguns docentes a “turbo docência” já se tornou num vício, mas isso é problema de ordem e disciplina.
É um problema que se nós trabalharmos coerentemente, com alguns princípios, esse vício pode desaparecer.
Penso que é um vício que deve ser atacado. É melhor ter poucos em tempo integral, a fazer carreira, e os outros a colaborar, que ter um número estatístico grande quando na realidade o desempenho é pequeno. Este é um problema, mas o outro problema, este sim, que muita gente não vê, porque os outros não são problemas de fundo. Um dos grandes problema na Universidade Agostinho Neto e do ensino superior público em Angola é que em média, grande parte do pessoal competente está acima dos 55 anos. E se tivermos em conta a esperança de vida do angolano, o corpo docente começa a envelhecer e não entraram muitos jovens, porque os outros foram procurando outros empregos nos petróleos, na banca, etc.
Fizemos algum trabalho e verificamos que nem sempre aquele que fica na universidade é o que tem melhor vocação ou maior competência, portanto, aí sim, respondendo à sua pergunta, muitos quadros, muitos daqueles que deviam ter ficado ou enveredado para a docência preferiram enveredar para a vida privada ou para uma empresa que paga melhor.

Jovens docentes impedidos de entrar no quadro


A UAN ainda não começou a injectar sangue novo no seu quadro docente, já que ela está a envelhecer, como disse lá mais acima?

Esta é uma verdade.Também houve resistência passiva por parte de alguns docentes mais velhos. É um problema que foi debatido na última reunião do Senado. Os estudantes colocaram esse problema e com razão. Às vezes, alguns docentes mais velhos não quiseram ter a seu lado um jovem com o receio que este lhe tirasse o lugar, felizmente são poucos os casos.

Havendo esse problema de os mais velhos impedirem a ascensão dos mais jovens, a UAN não corre o risco de cair para o abismo em termo de renovação de docentes?

Por isso é que introduzimos os cursos de mestrado e já temos muitos mestres que terminaram aqui o seu curso. Estes jovens estão a ingressar as fileiras da docência, mas ainda não são suficientes. O problema tem a ver com o quadro de pessoal. Sabe que todos os anos nós recebemos quotas do MAPESS para a admissão e às vezes não temos quotas para admitir novo pessoal. Este está velho, está a morrer, passe a expressão, e o jovem não entra, de um lado, às vezes impedido por alguns docentes mais velhos, de outro lado, porque às vezes não há quotas suficientes para ele ser admitido. Se nós não tivermos algum cuidado relativamente à renovação, mas a renovação competente, não a renovação populista, ai sim podemos ter alguns problemas no futuro relativamente a própria existência da Universidade Agostinho Neto, sobretudo na sua qualidade.


Vamos falar da “turbo docência”. Tanto quanto sabemos algumas convenções internacionais, como são os casos de Bolonha e Abuja falam da mobilidade docente. Não estará a “turbo docência” apegada a essas convenções?

A “turbo docência” e a “mobilidade” são coisas distintas. A “turbo docência”, o que é? É dar mais do que aquilo que é possível humanamente, do que é permitido em termos de parâmetros técnicos. Por exemplo, a UAN estabeleceu como parâmetro de docência 37 horas por semana. Isso não quer dizer que subaproveitamos o docente. O docente precisa do resto do tempo para preparar e para investigar, porque se ele der mais do 37 horas, ele não lê, de certeza, não prepara convenientemente as aulas e não investiga, e na universidade, todo docente que só transmite e não investiga, é tudo menos docente universitário. É este o problema.

Portanto, a mobilidade quer dizer que se eu der 15 horas aqui na UAN e vou dar outras 15 na Católica, ok, estou dentro do parâmetro estabelecido, aí estamos de acordo, agora se der 37 horas na UAN e vai dar 40 noutra universidade, me desculpem, esse é um super-homem!


Agora com a abertura dessas novas universidades públicas, não estaremos a criar condições para oficializar a “turbo docência”?

Eu penso que o Governo deve ter tomado providências ao criar as novas universidades, para que isso não aconteça.

Mas sabemos de antemão que não existem docentes para todas estas universidades?

É como disse, o Governo deve ter tomado providências, eu acredito que sim, há acordos em termos governamentais, penso também através da cooperação, de qualquer das formas são questões que desconheço, mas acredito que o Governo deve ter tomado providências.


No tocante aos “turbo docentes”, foi criado algum instrumento legal para acabar com esse mal?

A nível da UAN, o Senado Universitário tomou decisões no sentido de regular esta actividade. Assim, os docentes em regime de tempo integral devem manifestar a sua intenção de colaborar em outras instituições de ensino ao Departamento de Ensino e Investigação (DEI), lá onde exista, que autoriza em primeira instância, seguido das autorizações da Direcção da Faculdade e do Reitor. Os que não o fazem passam compulsivamente ao regime de tempo parcial. Mas também tenho conhecimento que a nível do Governo (Secretaria de Estado para o Ensino Superior) há intenções de restringir a colaboração dos docentes a um número limitado de instituições.


Senhor reitor, teve ao longo dos oito anos algum empecilho que terá sido visto como uma “pedra no seu sapato”? Vários! Ene problemas! Primeiro, na academia não é fácil convencer, mas é isso que eu gosto na academia.

Penso ter sido o maior desafio que eu tive, foi o de poder convencer as pessoas para um objectivo, conversando, discutindo e argumentando.


Que ganhos teve a UAN com a sua presença na Associação das Universidades de Língua Portuguesa?

A presidência da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP) deu-nos maturidade académica, por ter alargado os nossos horizontes sobre o ser e estar na academia e também sobre os desafios comuns dos académicos e cientistas no espaço dos países de língua portuguesa (incluindo a China-Macau).

Como responsável máximo da AULP tivemos que interagir com os outras associações congéneres de outros espaços geográficos, linguísticos e/ou científicos. Com isso a Universidade Agostinho Neto ganhou prestígio a nível dos associados (mais de 140 Instituições de Ensino Superior e de investigação científica) e a nível do mundo.

‘Não estávamos preparados para perder tantos quadros’


A UAN sofreu uma sangria com a constituição das novas universidades públicas…

Sim! Isso era de esperar, porque afinal de contas é o viveiro do ensino superior no país. É essa universidade que deu os quadros que são a nata do ensino superior no país.


A UAN estava preparada para esta situação?

Nós, Universidade Agostinho Neto, não estávamos preparados para perder tantos quadros. Nós estávamos preparados para apoiar o desenvolvimento de outras universidades, mas não para perder tanto.


Como é que vai marchar a UAN daqui para frente em função dessa situação?

Algumas faculdades vão precisar de alguns anos para repor o pessoal.

Algum pessoal com o mestrado já estava a preparar-se para o doutoramento. Esperamos que não parem.

Eles estavam para continuar a fazer o doutoramento para no futuro gerarem outros quadros. Não chegamos à maturação, não conseguimos amadurecer, eles não formaram ainda equipas que podiam servir de base para a substituição.


A qualidade vai baixar…

Claro que sim, em algumas áreas a qualidade vai baixar, mas a universidade tem que saber recompor-se.


Do ponto de vista pessoal, o senhor reitor sentiu-se de alguma forma diminuído pelo facto de ao longo de todos esses anos ter gerido a UAN que estava implantada em 12 províncias e agora ter ficado só com duas?

Pelo contrário, senti-me aliviado.

Eu penso que será também um alívio para o próximo reitor. Um pai que cria filhos para mantê-los depois até à velhice sobre as suas asas não é um bom pai, um pai cria filhos para depois vê-los a crescer e ficarem independentes, portanto sinto e a Universidade Agostinho Neto sente-se muito orgulhosa de ter criado condições, pelo menos em alguns centros, para que as novas universidades pudessem funcionar hoje.


O senhor Reitor vai terminar o seu mandato sem se sentar no novo gabinete reservado na Cidade Universitária...

Nem todos os que plantam têm o privilégio de colher os frutos do seu labor, mas não é por isso que deixam de plantar. E um bom agricultor é aquele que planta pensando sobretudo nos outros. A nossa alegria consiste no facto de constatar que as obras da Cidade Universitária continuam. As plantas continuam a crescer e um dia vão dar frutos. Isso é o mais importante.


Dentro de dias, o senhor deixará o cadeirão de Reitor da UAN. Vai voltar à base dando aulas, que é o que o catapultou para esse cargo, vai cuidar de negócios, da família ou estará à espera de uma chamada para o Governo?

Eu sou por definição um académico.

Portanto, a primeira coisa que farei depois de terminar o meu mandato é apresentar-me ao Departamento de Informática, Electrónica e Electrotecnia da Faculdade de Engenharia, onde sou Professor Titular. Espero ter mais tempo para a família, que ficou muito prejudicada durante estes quase oito anos de mandato como Reitor.


Já em fim de mandato, a UAN terá necessariamente um novo Reitor. O senhor preparou algum “delfim”, ou vai deixar a escolha ao critério da população universitária, como sempre aconteceu?

Contrariamente ao que alguns podem pensar, os académicos da UAN (no geral) têm maturidade suficiente para escolher o seu Reitor. Isso de “delfim” na Universidade não funciona. A eleição do Reitor fica ao critério dos académicos.

O processo democrático, até então usado para a escolha dos dirigentes da UAN cessa com a entrada em cena da Secretaria de Estado para o Ensino Superior, ou a UAN vai continuar a sua tradição, em conformidade com a vontade dos estudantes, dos docentes e dos trabalhadores não docentes?

A vontade da comunidade académica é para que se continue com a tradição “melhorada” – mas eleger o Reitor, sem dúvida. Contudo, o futuro dirá.

José Meireres
23 de Outubro de 2009
10:45
 
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Comentários

  1. Antonio Carlos Cungulo
    2010-06-03 10:59:06
    Eu preciso me enquadrar na uan,porque gostei muito de formar para que amanhã..
  2. Pascoal Alfredo Chilombo
    2010-02-18 14:31:17
    gostei muito da entevista e quero parabenizar Ex Reitor e desejar sucessos ao jornalista porque a mateia é de caracter didactico e aprendi sobre a evolução da UAN desde 2002 ate hoje. Queria receber esta e outas mensagens por e
  3. edson joão tomás manuel
    2010-02-17 19:18:01
    gostei da entrevista e queria receber por e-mail esta materia
  4. edson joão tomás manuel
    2010-02-17 18:53:54
    gostei da entrevista e queria receber por e-mail esta materia
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