Fala da cooperação diplomática, política e militar, esta última que já vai marcando passos significativos. Espera que os empresários angolanos conheçam melhor as potencialidades do empresariado norte-americano, que pretende alargar para além do sector petrolífero.
Três anos depois de ter pisado solo angolano, que encontrou já pacificado, o diplomata garante que até agora visitou mais de 10 províncias e constatou muito desenvolvimento a nível das infraestruturas.
Faltam menos de seis meses para terminar o seu mandato, como é que caracteriza as relações diplomáticas entre Angola e os Estados Unidos da América?
Gostaria de dizer primeiro que estou muito feliz por conceder esta entrevista e também que estou triste porque, no domingo, a selecção de Angola não ganhou o jogo. Na minha opinião, as relações entre os Estados Unidos e Angola já se fortaleceram muito. As ligações entre os dois países agora são mais fortes. Como sabe, em Maio do ano passado, o ministro das Relações Exteriores, Assunção dos Anjos, visitou Washington e foi uma visita histórica para nós e também para Angola.
O ministro Dos Anjos e a secretária de Estado, Hillary Clinton, decidiram criar um diálogo de parceria estratégica. Em Agosto, a senhora Clinton esteve aqui e nós agora temos essa parceria estratégia, que é um grande passo para fortalecer as nossas relações. Em minha opinião, ambas as nações vão beneficiar disso, por isso estou muito orgulhoso. Por exemplo, no mês passado, o ministro das Finanças e eu assinamos um acordo para estabelecer um consultor residente que vai trabalhar em Luanda com o Banco Nacional de Angola e o Ministério das Finanças. Isso vai ajudar Angola a fazer a gestão da dívida. Há muitas outras coisas, como o nosso Banco de Importações e Exportações que vai ajudar os empresários angolanos a comprar bens nos Estados Unidos da América e alguns grandes negócios, como um de 400 milhões de dólares no sector da habitação. A cooperação está boa para Angola e para os Estados Unidos, mas o mais importante é estabelecer esse diálogo de parceria.
Há também essa boa parceria nos domínios político e militar?
Sim, nós estamos a construir as nossas relações com as Forças Armadas Angolanas (FAA) e no sector da Saúde, principalmente sobre o VIH-SIDA. Temos um grande programa para ajudar Angola na luta contra o VIH-SIDA e temos outro programa de formar os membros das FAA na língua inglesa. O inglês é muito importante para ajudarem os outros países do continente. Os Estados Unidos aumentaram a sua assistência no sector da saúde, quando a secretária de Estado, Hillary Clinton, esteve aqui, assinou um acordo para duplicar ou mais que duplicar a nossa assistência na luta contra o VIH-SIDA. Nós já aumentamos a nossa assistência na luta contra a malária de 18 milhões de dólares norte-americanos para 32 milhões de dólares. De 2006 até hoje a nossa assistência já passou dos 99 milhões de dólares.
Além de disponibilizar dinheiro, têm noção do impacto da vossa ajuda nos sectores da saúde, como a luta contra o VIH nas FAA e a malária?
Sim, temos uma parceria com o Governo e algumas ong’s para implementar esses programas. Na minha opinião, muitos angolanos beneficiam destes programas. Há muitos progressos na luta contra a malária e o VIH-SIDA. Angola vai atingir antes do fim deste ano a meta de reduzir pela metade a mortalidade das crianças por malária. É uma boa conquista e estou orgulhoso pelo meu Governo estar a ajudar Angola a atingir esta meta.
E como vai a cooperação militar?
Como já disse no sector da saúde, a cooperação está muito boa e estamos a melhorar a nível militar em outros sectores, como por exemplo na segurança marítima, no espaço aéreo. Passo a passo estamos a melhorar a cooperação no sector militar.
Está fora de hipótese a realização de exercícios militares conjuntos?
Gostaríamos de fazer os exercícios militares e estamos a trabalhar com uma ambulância das Forças Armadas de Angola para criar um programa de exercícios militares.
O que é que leva o Governo americano a ter um perito do Tesouro Americano em território angolano?
Este perito ou consultorresidente vai trabalhar com a gestão da dívida. Agora estamos a trabalhar na possibilidade de ter um segundo perito para ajudar o Ministério das Finanças e o Banco Nacional de Angola nas políticas fiscais. Para nós, uma Angola pacífica, segura, próspera, saudável e democrática, é boa para nós e para os angolanos. E um perito do departamento do Tesouro pode ajudar Angola a melhorar a gestão das Finanças.
Manter um perito não terá a ver com o facto de ainda existirem algumas desconfianças a nível da transparência, mesmo depois de o Fundo Monetário Internacional ter concedido um empréstimo ao país?
A questão é completamente diferente. O governo angolano pediu essa assistência e vai pagar para apoiar esses consultores residentes. Acho que o ministro das Finanças e o governador do Banco Nacional de Angola gostam de melhorar estas instituições. Isso é bom para Angola, melhorar a sua situação económica, financeira e aumentar a transparência. Angola é um país importante para o mundo, não é um pequeno país. É importante no sector da segurança global, na energia, na segurança alimentar e da segurança do próprio continente. Por isso, nós pensamos e os líderes angolanos pensam que é bom fortalecer as instituições angolanas.
Então, foi o governo angolano que pediu e não sugestão dos Estados Unidos da América ou da sua representação no nosso país?
Trabalhamos juntos nestas ideias.
Recentemente houve uma reunião de negócios nos Estados Unidos, em que participaram empresas angolanas. Já se faz sentir a participação de empresas angolanas no vosso país?
Nós e os angolanos temos interesse de aumentar o comércio e o investimento entre os nossos países. No próximo mês haverá um conselho de comércio e investimento em Angola. É uma instituição nova. Quando o ministro Assunção dos Anjos esteve nos Estados Unidos, em Maio, assinou um acordo para estabelecer este conselho, que vai identificar e resolver os obstáculos para mais comércio e investimento fora do sector petrolífero. Neste sentido, as nossas relações estão a melhorar e os investidores americanos que têm interesse de explorar as possibilidades de investir no sector da habitação, das pescas, da agricultura, formação e investimentos americanos fora do sector petrolífero. O senhor já sabe que no sector petrolífero os Estados Unidos da América são o maior investidor bilateral.
Esses empresários estarão presentes no encontro do próximo mês?
O Conselho é apenas entre ambos os governos para identificar quais são os obstáculos.
Sabemos que o senhor embaixador defende a instalação de uma representação comercial dos Estados Unidos em Angola. Ainda mantém a mesma ideia?
Sim. Até hoje tenho esta ideia, mas não é fácil estabelecer este escritório por causa dos orçamentos. Mas gostaria de manter um escritório aqui neste sentido, mas na minha opinião muitos querem fazer o comércio com os Estados Unidos mas desconhecem as potencialidades dos empresários americanos. Não sabem as relações históricas entre Angola e os Estados Unidos, por isso este escritório é muito importante e até hoje estou a tentar estabelecer o escritório aqui em Luanda. Vou ganhar, mas não é fácil.
Tem encontrado muitos apoios em relação a este propósito, sobretudo de entidades angolanas?
Esta não é uma questão para o Governo angolano, se gosta do escritório aqui. É um problema para mim e o meu governo.
Então onde é que estão os entraves que impedem a abertura da representação comercial?
A falta de dinheiro. Este departamento americano de Comércio não tem um orçamento suficiente para estabelecer este escritório. Sabe que é muito caro viver e trabalhar aqui em Luanda, que é a mais cara cidade do mundo. Por isso, não é fácil, mas vou continuar a tentar a estabelecer esse escritório aqui em Luanda.
A senhora Connie Hamilton, do departamento de Comércio, disse recentemente nos Estados Unidos que os angolanos ainda não encontraram o seu nicho no mercado norte-americano. Concorda com esta afirmação?
Sim, sim. Este problema é real. Os angolanos não podem encontrar muito bem os parceiros americanos por falta de ligações históricas.
Nomeado embaixador dos Estados Unidos da América no dia 15 de Agosto de 2007, Dan Mozena nasceu e cresceu numa fazenda de lacticínios no nordeste de Iowa, tendo passado as primeiras décadas da sua vida criando vacas leiteiras, a tratar de porcos e fazendo tarefas diárias que fazem parte da vida de uma família do campo.
“A sua vida académica começou numa escola de campo com uma só sala, que tinha um total de 12 estudantes divididos em oito classes diferentes.
Graduou-se pela Universidade Estadual de Iowa (em Ciências Políticas e História) e mais tarde obteve o mestrado na Universidade de Wisconsin, Madison (em Administração Pública e Ciências Políticas”, garante uma nota biográfica do diplomata, publicada no site da embaixada norte-americana em Angola.
Antes da missão em solo angolano, Dan Mozena, enquanto membro dos Serviços Superiores Diplomáticos do seu país, esteve na Zâmbia entre 2001 e 2004 como ministro-conselheiro. Foi neste país que começou a sua carreira nos serviços diplomáticos.
Também serviu como oficial responsável pela África do Sul e director-adjunto para os assuntos da África Austral durante a transicção nas terras de Mandela durante a transicção deste país do sistema de apartheid para democracia.
Ele e a esposa, a senhora Grace, trabalharam no antigo Zaire, actual República Democrática do Congo, como voluntários do Peace Corps.
É pai de dois filhos, uma menina e um rapaz. A primeira, Anne, vive em Angola com os pais, ao passo que o rapaz, Mark, está a doutorar-se em Astrofísica.
Havia a possibilidade de se produzir banana, através da Chiquita, em Benguela. Como é que está o projecto?
Este projecto de Chiquita infelizmente saiu de Angola, porque houve alguns problemas que condicionaram o acesso à terra na província de Benguela.
Mas na semana passada estive no Kuanza-Norte e falei com o governador sobre a possibilidade de se explorar uma ligação entre esta província e os Estados Unidos da América, com uma companhia americana para criar um projecto de banana. O solo é fértil, água há suficiente, o clima é bom. É uma possibilidade e vamos explorar.
Angola pode exportar as bananas para a Europa. Eu pessoalmente gosto das companhias americanas que vão investir em Angola para criar a produção de bananas para exportação.
As empresas que participaram no fórum realizado em Washington não apresentaram projectos que permitam crescer no seio do AGOA?
Elas estão a continuar a estabelecer essas relações. O progresso continua, mas devagar.
Além do petróleo, quais são os outros produtos angolanos que se afirmaram no mercado americano?
O peixe, os produtos agrícolas, por exemplo o maracujá e o sumo, a madeira. Há um grande potencial para exportar peixe e madeira.
Segundo o vosso site, os Estados Unidos gastaram em petróleo qualquer coisa como 18 mil milhões de dólares. Mas o senhor embaixador referiu, numa das entrevistas, que pretende que estes ‘petrodólares’ regressem ao seu país. O que é que pretende na realidade?
O embaixador, que é originário de uma família de fazendeiros, não acha que a província de Benguela também tem as mesmas condições? Quais foram os problemas que tiveram concretamente?
Houve alguns problemas na província de Benguela, particularmente no acesso à terra. Não compreendo muito bem este problema, mas foram locais. Mas sem acesso à terra a Chiquita não podia continuar o projecto.
Como tem sido a participação das entidades angolanas no AGOA?
AGOA é muito importante aqui nos petróleos, mas fora do sector petrolífero ainda é muito pequeno.
Mas gostaria de aumentar este programa aqui em Angola, principalmente com os produtos agrícolas, o peixe, a madeira. Há um grande potencial para aumentar este programa AGOA em Angola.
Gostaria que se aumentasse o comércio entre os Estados Unidos e Angola. Os Estados Unidos podem vender os bens americanos aqui. E também os investimentos americanos aqui.
Mantém-se a ideia de investirem no sector da construção civil?
Há uma companhia americana que está a explorar a possibilida de fazer construção civil em Angola. É uma companhia muito grande, está entre as maiores companhias de construção civil do mundo.
O senhor embaixador chegou numa fase em que Angola já estava em paz. Como é que avalia o desempenho do Governo e as aspirações do próprio povo angolano?
Já visitei 14 ou 15 províncias e vi muito progresso no desenvolvimento das infra-estruturas do país.
A reconstrução das infra-estruturas é necessária para aumentar a economia e melhorar a vida dos angolanos. Já vi muito progresso neste sentido, mas há alguns desafios que ficam no país, por exemplo de criar, melhorar e aumentar a infra-estrutura humana. Isso não é fácil, não é como construir uma estrada. Não é o mesmo que para formar um professor ou um médico.
Como tenho de fazer uma última pergunta por causa do limitado tempo, tendo em conta que o senhor embaixador começou por falar do CAN, como é que viu o ataque da FLEC contra a selecção do Togo, em que morreram duas pessoas?
Gostaria de dizer que o ataque em Cabinda foi trágico e as pessoas que fizeram isso são terroristas.
Nós condenamos muito rigorosamente este ataque.