Parcialmente encoberto
Luanda
| info@opais.net
Clique para aceder á Revista
RSS

Grande Entrevista

Gonçalves Muandumba: Mil campos de futebol até 2012

Senhor ministro, no plano estritamente desportivo, o CAN significou exactamente o quê para o Governo?
Já não se consegue falar do CAN cingindo-nos apenas ao desporto, o CAN ultrapassou esse sector, porque antes de tudo exigiu outro tipo de infra-estruturas, outro tipo de engajamento como a reabilitação de estradas, vias de acesso, aeroportos, hotéis, uns construídos e outros reconstruídos ou reabilitados, os pequenos negócios que se geraram em volta do CAN… e pode-se falar concretamente da construção dos quatro estádios de futebol e dos treze campos de apoio que foram reabilitados. Para o desporto nacional é um ganho extraordinário em termos de infra-estruturas.

Temos assistido a uma tendência de se associar a construção de infraestruturas, hotéis, estradas, aeroportos, etc., à realização do CAN.
Tudo isso não faz parte já de uma dinâmica necessária de crescimento do país? Parece que sem CAN nada disso teria sido feito.
É como se diz, juntar o útil ao agradável. O CAN veio acelerar algumas coisas, se não fosse o CAN talvez não tivéssemos em 2010 esses estádios, talvez o aeroporto do Lubango não estivesse já pronto. Todas essas estruturas estavam previstas e se enquadram no programa da reconstrução nacional, só que aproveitamos o CAN para as acelerar. Ganhamos muito, em termos desportivos valeu a pena. Ganhamos em infra-estruturas e, na área desportiva, acho que o CAN trouxe uma oportunidade que não devemos desperdiçar, é altura para inaugurarmos uma nova era no desporto e particularmente no futebol nacional. Acho que deveremos passar à futebolização de Angola, como resultado de uma reflexão, naturalmente. Porque foi impressionante a mobilização do CAN, há pessoas que foram pela primeira vez a um estádio de futebol, e foram a todos os jogos… isso trouxe muita motivação para a prática do futebol.

Não há o risco desta futebolização de Angola partir também o país em duas partes, quando os estádios e os pavilhões multiusos foram construídos no litoral e Lubango apenas, e o Huambo que tem um pavilhão …
Mas o Bié, o Moxico, o Kuando Kubango, e outras províncias, não tiveram nem estádios novos, nem recuperação dos seus campos … O desafio que temos até 2012 é o de construir mil campos de futebol, estamos já perto dos quatrocentos. São campos simples, de terra batida, é por aí que vamos. Como o campo onde se realizou o último jogo do Gira-bairro no Panguila, a 28 de Agosto, é um deles. Há pouca divulgação, mas em quase todos os municípios temos um campo daquele tipo. Aqui perto, na vila de Catete, por exemplo, há lá um campo novo, eu próprio o inaugurei, é esse o caminho da massificação.
De qualquer forma, está agendada a construção de estádios de futebol em todas as capitais de província, não serão estádios com a dimensão dos do CAN mas serão do género dos do Sagrada Esperança da Lunda Norte, do Inter de Luanda, ou do Onze Bravos do Maquis do Moxico, mas com todas as características dos estádios modernos.

Sr. Ministro, incomoda-o o facto de o futebol ser a modalidade em que o Estado mais investe e ser a modalidade que menos resultados internacionais traz, comparando-o com o andebol ou com o basquetebol, por exemplo?
Uma das lições do CAN é a de que temos de nos organizar mais, temos de fazer uma grande reflexão sobre o futebol no país, porque viu-se que se nos organizarmos melhor, se planificarmos melhor, poderemos ir mais longe. Afinal não custa, é só trabalhar mesmo.

Nesta reflexão a que faz menção, qual é a opinião do senhor ministro quanto à continuação do seleccionador nacional, em função da reorganização de que fala?
Acho que devemos fazer um balanço global do trabalho da equipa técnica e, em função disso, daremos a nossa opinião. Mas a minha opinião é a de que o trabalho é positivo.

Sente-se satisfeito, senhor ministro, com o resultado da selecção em casa, com o apoio do público, com todos os investimentos feitos, atendendo a que, com um técnico nacional e fora de casa, a selecção também chegou aos quartos de finais em 2008?
Obviamente que não. Ninguém está satisfeito tendo nós sido eliminados nos quartos de final. Não estamos satisfeitos, mas o desporto é assim, agora há que levantar a cabeça e olhar para a frente, não vamos crucificar ninguém, até porque se viu que Angola jogou de igual para igual com o Ghana. Teve azar, faltou um bocado de sorte.

Há outro aspecto que é a postura dos agentes do futebol, estar-se-á a trabalhar numa lei que venha ajudar em definitivo?
Neste momento não se sabe se o futebolista angolano é mesmo profissional ou não. Não pagam a segurança social … está a pensar-se numa lei que veja essas situações? Para termos resultados teremos de profissionalizar as pessoas. Temos de fazer a tal reflexão sobre o futebol, com todos os agentes, sem exclusão de ninguém, treinadores, dirigentes, os atletas, jornalistas, toda a gente.
Começamos a partir do Conselho Superior dos Desportos no Huambo, no ano passado, um trabalho de revisão e modernização de toda a legislação desportiva, não está terminado, é um trabalho que leva o seu tempo e temos poucos especialistas no desporto. O CAN também refreou este trabalho, mas vamos retomar e vamos enquadrar tudo isso relacionado com a segurança social e outros assuntos, muitos, não só para o futebol, mas para todas as modalidades.

Um outro ponto é a formação.
Coloco-lhe agora duas questões: a primeira, relacionada com a formação e a articulação com o ministério da educação e, a segunda, a que se prende com os escalões mais avançados onde temos uma escola de educação física, média, e um curso de motricidade humana numa universidade privada e que o Estado ainda não reconheceu. Como falar de massificação?
A formação é uma das grandes preocupações, se se lembram, quando o Governo tomou posse depois das eleições, o Presidente da República, publicamente deu orientações para a área dos desportos e de entre outros aspectos falou da formação. Nós estamos atentos. No programa do Governo consta, para este quadriénio, a construção de um Instituto Superior dos Desportos, de três institutos médios de educação física e desportos. As seis novas universidades públicas terão cada uma um curso de educação física e desportos. Portanto, estamos muito preocupados com a formação, de técnicos, de dirigentes, de atletas. É na formação que está o futuro.

A ideia é criar uma filosofia desportiva angolana, como aconteceu no basquetebol em que se pode falar do basquete angolano, com identidade própria, até porque estamos agora a assistir a uma invasão de técnicos estrangeiros no basquete e no andebol. Faliu o nosso modelo, estamos insatisfeitos, ou simplesmente falimos em termos de recursos humanos?
Estamos num mundo global, com poucas barreiras ao nível do desporto, basta ver como as selecções europeias têm africanos a jogar, é uma tendência mundial. Nós temos é que formar. Ainda hoje (terça-feira, 2 de Fevereiro)falamos sobre isso, ao nível do partido, temos de formar e as pessoas, os agentes desportivos têm de buscar a sua própria superação, ainda que por via do autodidactismo.Não quero ferir susceptibilidades mas as pessoas lêem pouco, reclamam mas pessoalmente pouco fazem. Você treinador há tantos anos tem de ir à internet, ler, pesquisar… na formação o mais interessado é você próprio, depois vem o Estado, mas primeiro é a pessoa em si.

O Senhor falou há pouco do Conselho Superior dos Desportos que se realizou no Huambo, o que leva a outra questão, a do reconhecimento. O futebol, no anterior CAN, qualificou-se para os quartos de final e os futebolistas receberam 50 mil dólares e, se não estiver em erro,na qualificação para o mundial, uma casa. O basquetebol e o andebol com dez e nove títulos africanos, respectivamente … não há aqui alguma falta de equidade quando o basquetebol recebe 50 mil dólares por ganhar a taça? Os prémios não deveriam ser atribuídos em conformidade com os méritos?
Aí você também tem de me ajudar, comparar a dimensão de cada modalidade. O futebol é o desportorei, mobiliza multidões, viu-se agora no CAN. É verdade que o basquete também o faz, mas seria num pavilhão, cerca de sete a doze mil pessoas. Agora com o CAN tivemos perto de 700 mil pessoas que foram ver jogos de futebol, é tudo em função da mobilização que se faz, dos empregos que se criam, do valor acrescentado. É mais por aí.

Há alguma orientação para se impor tectos nos prémios, haverá diferenças na lei?
Nós temos consciência de que os regulamentos dos prémios já estão desajustados, vamos introduzir muitas alterações, ao mesmo tempo que exigiremos mais dos jovens, outra atitude, outro tipo de postura, sobretudo para as selecções nacionais. Tem de ser uma conquista, uma honra, um orgulho, fazer parte da selecção nacional.

Temos ainda este mês o CAN de andebol, se as senhoras ganharem, que prémios lhes caberão?
O mesmo que ao basquetebol, será o deca-campeonato e terão o mesmo tratamento. O andebol feminino e o basquete masculino merecem uma atenção particular do Governo. E os cadetes também. Eu recebi há dias, durante o CAN, o presidente da Federação Internacional de Andebol que pediu desculpas ao Governo angolano pelas injustiças das arbitragens no mundial da China. Ele lembrou-se que quando Angola vai a esses mundiais está a representar o continente africano, ele reconheceu.
Quer no andebol como no basquetebol temos representado bem o continente, portanto temos de dar atenções acrescidas a essas modalidades porque não se trata apenas do nome de Angola, é o continente africano.

E nos desportos individuais os atletas queixam-se de falta de apoios, estão quase que abandonados e só competem por paixão.
Nos desportos individuais estamos mal, temos de fazer aqui uma revolução. São os desportos individuais que nos trarão mais medalhas, mais alegrias, quer ao nível da zona seis, quer ao nível africano, quer ao nível olímpico, ao nível mundial.
Estamos a fazer uma reflexão sobre isso, temos de apostar no desporto individual.

Que falhas é que tem havido?
Não se trata de falhas, temos é de dar prioridades, há um debate que os técnicos hão-de fazer para escolher que modalidades e que investimentos. Infelizmente, o problema é que em Angola apenas investe o Estado, o Petro, o Inter e o 1º de Agosto são Estado.

E temos o material desportivo exigido para a prática de certas modalidades que é demasiado caro para a maioria das pessoas (sapatos de ténis, raquetes e outros equipamentos), não temos fábricas e as pessoas, temos de assumir, nem todas podem pagar o desenvolvimento dos seus talentos.
Estamos a falar de um actividade de âmbito comercial, faltam iniciativas nesse sentido, não há investimentos, ainda ninguém se lembrou de construir uma fábrica de material desportivo. O Estado só vai comprar para as selecções. É um bocado difícil o Estado investir nesta área, mas há espaço para o empresariado.

Voltamos a falar do mecenato …
É outra batalha, quem está a liderar este assunto, a preparação de legislação é o ministério da Cultura, temos muitas vertentes para o mecenato, a cultura, o desporto, algumas áreas sociais. O próprio empresariado também tem de se desenvolver e perceber que pode beneficiar grandemente.

Há alguma data no horizonte?
Não, ainda não. Mas a lei do mecenato preocupa-nos, é uma questão de interesse nacional.
É uma preocupação muito grande do Governo, temos orientações expressas do Presidente da República, já fizemos um estudo sobre isso, no ano passado esteve uma equipa técnica em Portugal, buscando experiências no Estádio da Luz, no de Alvalade, esteve em Espanha, no Real Madrid, na Alemanha, na África do Sul, foi feito um relatório. A ideia do Governo é criar uma empresa pública que, em nome do Estado, será a dona dos estádios, dos pavilhões multiusos, da Cidadela, da Casa do Desportista, da Piscina do Alvalade, de todas as grandes infra-estruturas desportivas, e será essa empresa que realizará concursos para identificar entidades com experiência na gestão de equipamentos desportivos.

A Cidadela vai continuar?
Luanda precisa de tantos campos como temos a Cidadela, o dos Coqueiros, o do Ínter, e agora o 11 de Novembro? São muitos? Roma, por exemplo, tem o estádio Olímpico onde jogam a Lázio e o Roma. Nós não temos nem competição nem público para tantos estádios.
Estamos a fazer um estudo sobre a Cidadela, mas por enquanto mantém-se.

A utilização da Cidadela não significa algum desprezo pelos resultados do estudo que mandou interditar a utilização de um dos anéis do estádio?
Mas até onde é permitido não há perigo, é o que dizem os técnicos. Só a reabilitação do segundo anel está orçada em cerca de 40 milhões de dólares, o preço de um campo novo. Mas este estudo será considerado na decisão que o Governo irá tomar.

Mas considera-se também a hipótese de se acabar com a Cidadela?
Isso será uma decisão final do Governo, não nos esqueçamos que aí está o único pavilhão de Luanda para grandes competições, que ainda é necessário, aí estão os campos de apoio para as modalidades de salão.
Temos em carteira uma vila olímpica na zona de Camama onde se aglutinariam várias modalidades e centros de treinamento para desportos de alto rendimento, mas por razões financeiras está ainda suspenso.
Apesar de o da Cidadela já estar um bocado desactualizado, a verdade é que não temos outro com dignidade para grandes competições.

O Governo angolano sonha em realizar outros eventos como um segundo CAN, um mundial de futebol nos escalões mais baixos, fases finais de competições de clubes para “ocupar” os estádios?
O CAN de 2012 será no Gabão e na Guiné Equatorial, o de 2014 será na Líbia, mas dissemos aos presidentes da CAF e da FIFA que o que temos é um património desportivo internacional que está ao serviço do desporto, podemos sim receber outras competições. Para um mundial sub-20, um sub-17, acho que temos quatro estádios modernos com capacidade para os acolher. Os presidentes da FIFA e da CAF ficaram muito bem impressionados com a realização do CAN, com a capacidade de organização e disseram que passarão a contar connosco para a realização de grandes eventos internacionais.

E a ocupação dos tempos livres?
Temos um programa praticamente que tem decorrido no quadro do combate à delinquência, é um programa que iremos continuar.
O Programa Despontar está nesta senda, estamos a distribuir material desportivo por todo o país, em todos os municípios, a grupos organizados, com formação. Este ano vamos lançar os parques de campismo, serão sete no país com capacidade de alojamento de 3.500 pessoas cada um, será uma grande revolução no turismo juvenil.

O interior e o leste serão contemplados?
Numa primeira fase serão sete, o objectivo é criar um em cada província, mas numa primeira fase serão sete distribuídos regionalmente, no leste, no centro, no sul. Nas zonas de praia e noutras zonas turísticas, vamos mobilizar parcerias públicoprivadas em que o Estado organiza os espaços, participa nas infraestruturas e os aprovados fazem os investimentos e a exploração, mas queremos que sejam empresas de jovens.

Pensa-se em alguma coisa como um Cartão Jovem?
Será este ano. E os primeiros beneficiários serão os voluntários.

O ministério adquiriu alguns kits para contribuir na redução do desemprego, mas os que estão aí pela Cidadela … Estavam. Aliás, junto aos estádios já se viram algumas dessas roulottes. Estiveram na Cidadela por terem chegado tarde, e numa altura de congestionamento do Porto de Luanda, mas havia que seguir um programa e cada província recebeu o que lhe cabia, foi tarde mas foi.
Foram as roulottes, os safa makas, contentores que albergam pequenas empresas com recauchutagem, etc., estão espalhadas pelo país, é um programa de sucesso.

Além do desemprego outro grande problema da juventude é a habitação. Está visto que o ministério não conseguiu satisfazer a demanda no projecto-piloto …
Vamos continuar. O programa tem duas vertentes: a auto-construção e a de promoção da construção. A auto-construção está facilitada no quadro das reservas fundiárias do Estado.

“ … o Drogbá, ele foi mobilizar os togoleses dizendo-lhes que se tratava de uma perda para a África … vocês irem embora não é uma perda só para Angola, é para toda a África. Devo agradecer publicamente o papel do Drogbá, e disse-lho pessoalmente quando fui a Cabinda”
Na prática, a auto-construção encontra entraves por parte das administrações, nunca passam licenças de construção, não orientam os jovens, não facilitam … Os jovens constroem todos os anos, há dois anos oferecemos um kit a cerca de 150 jovens em cada província, eles constroem casas todos os anos, no interior, nas zonas rurais, ninguém espera pelo Governo para lotear terrenos, etc.. A esses jovens demos um kit de materiais de construção: chapas, pregos, mesa de plástico com cadeiras, baldes, ferramentas, etc.. Mas o programa das reservas fundiárias, com orientação, infra-estruturação, é para os jovens, tem de ser dado aos jovens. Mas sejamos realistas, nas zonas rurais nem se precisa de licença de construção.

Mas depois vêm as demolições !
A demolição surge apenas se a construção for feita numa zona já interdita. Sejamos realistas, em Makela do Zombo está-se a construir.
Agora, é verdade que o Estado tem de avisar e marcar as reservas. Nas províncias já se vê áreas marcadas como reservas fundiárias, convém não construir nestas zonas sem a devida autorização. Mas as casas construídas no campo, em regra, não têm qualidade, por isso estamos a bater-nos para impulsionar os projectos para jovens. Este mês vamos despoletar o processo das casas de Luanda, as casas estão prontas e serão distribuídas, na Huíla.

Mas a demanda é muito grande.
Para já, são três mil casas em todo o país, Luanda terá mais dois mil apartamentos, mas estou a falar do programa Angola Jovem que estamos a monitorar, no sentido de facilitar o pagamento aos jovens, porque há programas maiores do Governo em que as casas são aos milhares.

Depois, há ainda o problema da transparência, como ter acesso aos programas.
O nosso esforço vai no sentido de se cumprirem os critérios do regulamento, rigorosamente. Mas sabemos que não temos casas para todos e claro, há pessoas que não ficam contentes. Um dos critérios é para quem realmente não tem casa própria e que tem até 35 anos.

E como é que se tem a certeza de que determinado candidato não tem casa própria?
Ele só se deve candidatar depois de ler o regulamento, e há uma cláusula que diz que as informações falsas resultam na perda da casa, mas partamos do princípio de que as pessoas são honestas, que não vão mentir...
certamente que isso vai acontecer, mas esse já não é problema nosso.

Onde se apresentam as candidaturas?
Os jovens vêm ao ministério e dizem-lhes que não estão a receber candidaturas, no entanto as casas serão já entregues.
As candidaturas não serão no ministério, serão no Governo Provincial. Ainda esta semana a governadora convidou-me para falarmos sobre isso, há uma comissão que está a tratar dos locais em que os jovens deverão ir inscrever-se, não será no ministério. Luanda terá o mesmo tratamento que qualquer outra província, o Governo Provincial será responsável, cumprindo o regulamento, atenção.

Apesar de todo o sucesso do CAN há um facto que não se pode contornar que foi o ataque em Cabinda. Sentiu da parte das delegações algum movimento tendente a desmobilizar e voltar para casa?
A um dos responsáveis da delegação egípcia foram atribuídas declarações com a intenção de solicitar comandos de protecção ao seu país.
Em primeiro lugar é preciso condenar veementemente tal acto terrorista, um acto covarde, sem escrúpulos, atacar uma delegação desportiva e matá-los, por objectivos supostamente políticos que se pretendem atingir. Agora, as equipas em Cabinda estavam numa vila, tendo acontecido com o Togo e estando todas juntas, é normal que se tivesse gerado um ambiente de insegurança no princípio, mas depois tudo correu bem. Nós estivemos lá, eu estive lá, com mais oito ministros, com o Chefe do Estado-Maior General das FAA, com o Comandante-Geral da Polícia. E há que destacar o papel de um jogador, o Drogbá, ele foi mobilizar os togoleses dizendo-lhes que se tratava de uma perda para a África, vocês irem embora não é uma perda só para Angola, é para toda a África.
Devo agradecer publicamente o papel do Drogbá, e disse-lho pessoalmente quando fui a Cabinda. Ele disse que se tratava dos inimigos de África, dito por ele. Mas são jovens, alguns vivem na Inglaterra, como o Adebayor, é normal que tivessem reagido mal a tudo aquilo, mas todos os outros países tiveram uma atitude positiva, o Ghana foi cinco estrelas.
Obviamente que se reforçou as medidas de segurança. Foi a quinhentos metros da fronteira e a própria delegação disse que valeu a pronta intervenção da polícia de escolta.
Se nós ficamos dois anos a preparar o CAN eles terão ficado dois anos a preparar um acto de cinco minutos, era para matar, é mais fácil destruir.

E a imagem de Angola ficou abalada?
Todo o mundo condenou o acto, vimos que depois disso vieram chefes de Estado para a abertura do CAN, depois disso vieram dirigentes mundiais da FIFA, estiveram permanentemente os ministros cujos países jogaram em Cabinda, estiveram cá 35 ministros dos desportos de todo o continente, para além dos directores, etc., toda a direcção da CAF estava cá, em Luanda e em Cabinda. A informação hoje anda tão rápida que o mundo apercebeu-se que se tratou de um acto terrorista com objectivos políticos, ninguém se iria solidarizar com um acto daqueles, com um oportunismo tão desumano. Não manchou, houve jogo à noite, fomos a Cabinda, acabou por correr bem.

O senhor ministro sabe que o motorista do autocarro do Togo sobreviveu?
Sim. Estive lá, sabia, e ele é um herói. O médico togolês disse-nos, pessoalmente, que se deve fazer um reconhecimento ao motorista porque ele, já ferido, ainda aguentou até sair daquilo a que os militares chamam de zona de fogo, mesmo com os pneus já rebentados. Foi uma atitude patriótica, heróica, e toda a gente que lá esteve, militares polícias, voluntários, pessoal de apoio, reconhecem.

E ele tem tido apoio?
Sim. O Governo angolano está a assumir até o tratamento e as despesas do jovem do Togo que está na África do Sul, os tratamentos. Os bens que eles perderam foram repostos no dia seguinte, os telemóveis, tudo. E em breve irá uma delegação com o vice-ministro da saúde, o vice dos desportos, alguém da FAF, para visitar o jovem do Togo hospitalizado em Joanesburgo, o Governo angolano esteve sempre à disposição, o Governador de Cabinda nunca saiu, esteve sempre lá, foi um acto de patriotismo, todos os angolanos se mobilizaram, os jovens, as igrejas que realizaram actos ecuménicos.

Sobre as críticas ao CAN e ao COCAN, houve entidades angolanas que se queixaram do processo de atribuição da exploração da bilhética e da organização dos actos de abertura e encerramento e, por, outro lado, alguns jornais publicaram matérias referentes a má gestão de fundos, de desvios de dinheiros. Isso está resolvido, é verdade?
Numa das notícias diziam que era o MINJUD ou o ministro que tinha a ver com isso. Tudo esteve bem organizado, há uma comissão de monitorização, coordenada pelo primeiro-ministro, com o ministro da Juventude e Desportos como coordenador-adjunto, depois um directorgeral, o presidente da FAF e um director-executivo, o Eng. Mangueira, um departamento de finanças, outras estruturas, portanto a gestão é feita directamente por essa comissão através do gabinete do primeiro-ministro, não há desvios. O que muita gente não gostou foi do rigor que se impôs no uso e gastos dos fundos do CAN, muita gente não gostou, partiram para a especulação porque não estavam contentes, queriam que se pagasse adiantado valores como 50 milhões de kwanzas, por exemplo. O que se fez foi considerar outras propostas sobre o mesmo produto, considerar o tempo de entrega … havia propostas de coisas que chegariam depois do CAN, teve-se que cortar e isso não agradou a muita gente. Posso garantir-lhe que isso não agradou a muita gente, dentro e fora do COCAN. Há uma empresa que está a fazer uma assessoria financeira, com todo o rigor.
Agora, claro que houve críticas, dúvidas também, sobre a nossa capacidade, isso foi bom, nós nos preocupamos, quando se é criticado é bom ver o fundamento, não adianta fazer ouvidos de mercador, fomos analisando a bilhética, o sistema de venda de bilhetes, os concursos, quem beneficiou … houve a polémica porque a empresa que organizaria a abertura era estrangeira, que deveria ser para nacionais … foram os nacionais que fizeram a sessão de abertura. Nos jogos olímpicos da China, a sessão de abertura foram franceses e ingleses que lá estiveram, hoje o mundo é assim, há gente especializada, que sabe, profissionalmente dedicada a organizar eventos. Fomos buscar a experiência de alguém que até é angolano, que tem uma empresa de direito angolano, só que é branco, mas é angolano, já tinha outras experiências, como o Euro, etc., juntamos isso aos meios técnicos, ao alto sentido de profissionalismo que era preciso garantir para um CAN desses. As críticas são normais, uns queriam fazer negócios, não conseguiram, houve um concurso restrito, outros concursos. Não foi fácil. Mas as críticas serviram para corrigir aquilo que estava errado, e agora o resultado do CAN se encarrega de responder às críticas que achamos que foram injustas.
José Kaliengue e Teixeira Cândido
5 de Fevereiro de 2010
09:15
 
0
 

Comentários

Nome

E-Mail

Comentário


Enviar Comentário

Newsletter



Subscreva tambem as newsletters da:
Exame / TV Zimbo

Capas da edição nº 95

23 de Janeiro de 2009
23:41
 
0
 
 
 
 
Assine OPaís Online