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Mais de cinco familias partilham espaço de uma tenda

Cerca de quarenta pessoas vivem numa única tenda, nas imediações da igreja JOSAFAT (exMANA), bairro Golfe II, município do Kilamba Kiaxi, em Luanda, apurou O PAÍS numa ronda efectuada nesta Terça-feira, 19. Mesmo antes de mais uma enxurrada que caiu sobre a cidade capital.

“Se em condições normais nós lutamos para economizar espaço que possa abrigar e proteger as nossas coisas, para além de termos de suportar o calor e os mosquitos durante a noite e a madrugada, hoje temos de amontoar os haveres num sítio seguro do abrigo, onde não chove, para restar espaço de passar a noite sem muitos incómodos”, explicou António Zua, apontando para o lugar de pouco mais de três metros quadrados onde, garantiu, dormem 17 pessoas, sendo que outras 15 fazem-no no outro lado da tenda.

 Na altura em que o nosso interlocutor prestava essas informações a nossa reportagem estava perante um cenário bastante crítico, dentro de uma das tendas, fruto da insistência dos próprios moradores, cuja intenção era mostrar as verdadeiras condições que suportam dia e noite.

Os moradores dividiram o interior da cabana em três compartimentos, servindo um para os homens, outro para as mulheres e crianças e o terceiro, o mais pequeno, para os seus haveres. O refúgio deixava aparecer o céu escuro de uma noite que se adivinhava chuvosa, no espaço de um grande rasgão na lona, provocado pelos fortes ventos da noite do Sábado anterior, 16, segundo contaram.

Mas o que mais saltava à vista, era a maneira como os utensílios de cozinha e a comida, bem como sabão, sabonete e outros detergentes de vária ordem se misturavam com as roupas e com os calçados, muito perto dos poucos electrodomésticos em funcionamento, em simultâneo, como um televisor e aparelhos de som, que deixavam crianças, jovens e adultos sem muitas alternativas para assistir ou escutar um programa, ao ponto de se sentarem em pequenos espaços ainda lamacentos.

Embora de noite, luz oscilante vinda de um gerador, facilitava a visibilidade de algumas coisas húmidas.

Em relação a isso, António Zua desabafou dizendo que muitas vezes situações como aquelas deixavam as pessoas sem opções racionais, tendo acrescentado o seguinte:”É exactamente nessas condições em que um homem normal se vê obrigado a viver como um animal de verdade”.  Para agravar o quadro, um cheiro indiscritível tomava conta do compartimento. Esta constatação obrigou a viúva Luzia António Secante a adiantar-se nos pormenores.

“É sob este cheiro estranho que nós dormimos todos os dias, porque aqui tem de tudo um pouco”, atirou Luzia António mostrou a sua preocupação com a falta de casas de banho na área, o que, para ela, complica ainda mais as condições internas dos aposentos.

“Somos obrigadas a fazer necessidades dentro das tendas e deitar a urina e as fezes durante a madrugada, para não sermos vistos por ninguém”, disse, sem ter especificado onde os atiram.

A medida põe de fora os miúdos, que à qualquer hora do dia se podem deslocar a um aglomerado de lixo nas imediações, para satisfazerem as suas necessidades.

No entender da mulher, mãe de cinco filhos, a privacidade deixou de ser um padrão de convivência, por causa do aglomerado de gente em cada tenda.” A pessoa não sabe se se vai esconder dos seus filhos mais velhos ou de outros inquilinos, quando precisar de mudar de roupa”, reclamou.

Finalmente, Luzia Secante, pede aos dirigentes do município e ao GPL que se apressem a tirar-lhes daquelas condições, tendo apelado para não se ficarem por promessas vãs.” Tinham-nos garantido que até Dezembro de 2010 estaríamos em casas condignas, lembrou, descontente.

Recorde-se que a maior parte do pessoal dessa área residia na comuna Havemos de Voltar, no Kilamba Kiaxi, de onde foram retirados a 22 de Janeiro de 2007, devido ao desabamento de suas casas provocado pelas águas das chuvas, como contaram os próprios. Alegaram ainda terem ficado três meses em tendas na zona dos Correios, antes de serem realojados no Golfe II.

No grupo de famílias que partilham as tendas existem ainda as que provêm dos bairros Vila Estoril, Camama e Palanca.

Doenças não faltam

As queixas sobre doenças como a malária, diarreia aguda e outras do forum respiratório constituem o prato do dia-a-dia, segundo os populares, que indicam as crianças e os velhos da terceira idade como as principais vítimas. Curiosamente, na tenda onde entramos encontrava-se doente a mãe de Luzia Secante, de 63 anos, padecendo de paludismo e  pneumonia, conforme nos contou a filha


Ilhéus do Zango II com olhos na ‘Ilha Seca’

Desde que o Governador e a sua equipa visitaram a zona do Zango II, onde há cerca de três anos estão estacionados os ex-moradores do bairro Benfica da comuna da Ilha do Cabo, município da Ingombota, os ânimos destes estão reconfortados, ao ponto de cada um pensar na sua vez de se juntar aos vizinhos que já tiveram a sorte de abandonar as tendas. 
Esta posição foi manifestada por Cipriano que, na ocasião, deixou bem patente o desejo de não terminar este ano nas condições em que vive. Aliás, a sua expectativa assenta-se na garantia da equipa do GPL, segundo a qual, antes de Dezembro, todos serão transferidos para o Zango III, contou Cipriano. 
“O Governo está a dar materiais de construção como areia, blocos, cimento, chapas e água. Mas cada morador deve pagar a mão-deobra para a construção de sua casa, que deve obedecer os padrões recomendados pela equipa técnica”, disse, assegurando haver presença de engenheiros de construção na “Ilha Seca” cuja responsabilidade se resume na orientação, correcção e direcção das obras. 
Cipriano deu a conhecer a O PAÍS que muitos dos pedreiros ambulantes da “Ilha Seca” têm um pacto com os técnicos e fiscais de obras, ao ponto de, na maior parte das vezes, serem estes a sugerir a equipa de construtores. De acordo com ele, que garantiu ter visitado a “Ilha Seca” no dia anterior ao da nossa reportagem, uma boa parte das obras está parada devido a falta de material de construção, que não chega quando o dono quiser. 
Para comprovar este facto, a equipa deste Jornal dirigiu-se ao Zango III, onde encontrou dez obras que a vizinhança assegura estarem paradas. 
Numa delas estava Júlio Domingos Bandi, de 20 anos de idade, a espera de materiais de construção que o seu pai se viu obrigado a ir comprar, para não ver a obra parada por muito tempo. 
“O Governo devia dar materiais até a casa terminar, mas a construção só está na sexta fiada e tudo parou. Por isso o meu pai teve de ir comprar o que falta, realçou, detalhando que quando a obra estava em curso os responsáveis pelas entregas davam apenas 200 blocos por dia, para cada contemplado. “Nós só recebemos mil e 600 blocos,”, calculou, reconhecendo que não se pode queixar da água e da areia, bem como das chapas, cuja quantidade se ajusta ao projecto. 
“Se o cimento viesse em grande quantidade, nós próprios fabricaríamos os blocos”, desabafou. 
A “Ilha Seca” localiza-se por detrás do Zango III, depois do conhecido bairro Capapinha. Aí já existe um número considerável de residências que não difere muito dos habituais protótipos de residências para o Zango. 
Quanto ao nome do bairro, os ilhéus justificaram-no pelo facto de ser uma zona sem mar a acolher indivíduos cuja vida dependia principalmente da captura e venda de pescado. 



25 de Abril de 2011
11:42
 
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Comentários

  1. Nzatuvanga Antonio Mavuila
    2011-05-03 17:06:03
    nesta fase o governo nao devia estar a desalojar a populaçao,em Angola ha muito espaço para erguer novas cidades,e bem verdade q o executivo nao mostra vontade de resolver os problema de habitaçao para as populaçoes,as tendas numca foram concebidas para acolher humanos por longos tempos como tem acontecido no nosso Angola,sao para a recreaçao meus senhor por todos municipios do pais ha tendas,o executivo deve ja urgentemente alojar esses compatriotas.sem mais assunto
  2. Lúcia
    2011-04-29 14:46:34
    É de facto uma situação lastimável de mais porque este sofrimento todo estais chuvas. por favor cabe ao Governo em parceria com Administração local velar pelo bem estar da população e cria politica seria não de papel e letra bonita para guardarem e efeitar a boca. meus senhores vamos contunuar a viver este terror que monstro são os nossos governantes malandros fui...............
  3. Afonso Makiadi Antonio
    2011-04-27 14:34:06
    E lastimável falar daquele povo que hoje vive sem quase esperança de vida. Conheço perfeitamente o sofrimento daquele povo porque la fiz estagio em 2008 para a conclusão da minha licenciatura. Varias promessas de facto foram feitas a quem de direito mas tudo caiu na agua de bacalhau. Como estagiários, procuramos influencia a população para fazer advocacia com o GPL e MINARS durante os nossos encontros sobre participação, infelizmente no grupo destes sofredores saiu alguém que foi nos atrair de que os estagiários no centro de sinistrados estão agitar a população para fazer frente com o governo. Ha desinteresse por parte do GPL em criar condições habitacionais para aquele povo mas também falta de organização da população porque alguns habitantes defendem o interesse do &M& e são membros activos. Acho que a população deveria se organizar e não cair no erro de que a pobreza e herança deixada pelos porque e desde sempre houve casas de latas sem agua nem luz no musseque. Hoje o contexto e extremamente diferente do período colonial porque os gestores da economia de angola que cresce dia e noite são os angolanos e o MPLA. Não são os portugueses. Makiadi A
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