Maninho foi o nome com que se identificou um dos jovens de 18 anos que se deslocaram de Benguela para Luanda à procura de melhores condições de vida, mas que por falta de formação profissional e de escolaridade, não viu outra forma de sobreviver senão acarretar água.
Como o ofício exige bastante esforço Maninho e os amigos não viram outra forma de obter força a não ser consumirem liamba e libanga, drogas que tinham na sua posse quando falaram à nossa equipa de reportagem, na manhã de terça-feira, 18.
Os jovens, cujas idades vão dos 17 aos 24 anos, encontravam-se no interior de uma a viatura abandonada na rua da Escola Ngola Mbandi, nas proximidades do supermercado Nosso Super, consomem estes estupefacientes.
Sem receito dos carros de patrulha do Comando da Divisão do Rangel, os toxicodependentes saciavam os seus vícios como se estivessem a consumir um produto legal.
O nosso interlocutor era o único do grupo que foi encontrado apenas a preparar a libanga. “Eles preferem inalar o fumo pela lata de refrigerante, mas eu prefiro consumi-lo em jeito de cigarro porque dá mais prazer e estilo”, declarou, enquanto esmagava as quatro pedras pequenas de craque com um pedaço de madeira.
Depois das pedras estarem totalmente esmagadas, enrolou-as num pedaço de papel, acendeu e a levouas por diversas vezes à boca. No final da primeira “bafurada”, movimentou a cabeça de um lado para o outro como se estivesse a fazer exercícios físicos.
O pequeno monte de quatro pedras foram adquiridas ao preço de 500 Kwanzas. Para manter a mesma disposição ao longo do dia, confessaram, chegam a consumir mais de sete montes.
Durante a nossa ronda pudémos apurar que a maioria dos consumidores opta por saciar o seu vício em grupo de três ou quatro indivíduos.
Prova disso é que nos deparámos com um outro grupinho, constituído por quatro jovens, que se encontravam, a fumar libanga misturada com liamba nas imediações do Prédio Sujo, no São Paulo.
Os jovens passavam entre si a lata de refrigerante onde haviam tapado cinco furos feitos por eles com o pó das folhas da liamba, esmagada com os dedos e misturada com as pedras de crack.
O “cachimbo” passou de mão em mãs até se extinguir .
Depois de alguns minutos de diálogo com os repórteres deste jornal, que se fizeram passar por compradores, o jovem “Zé dos Alameda Squade”, assim se apresentou, predispôs -se a levar-nos até ao comerciante em troca de mil kwanzas.
Tomando a dianteira, Zé guiou-nos pela rua da estação de tratamento de Água do Marçal, vulgarmente conhecida como rua das Mabubas, passando pelo beco que se encontra ao lado do Prédio dos Cubanos. Foram cerca de cem metros até chegar ao destino.
Ao longo do trajecto o jovem contava que depois de consumir a droga fica em melhores condições de satisfazer sexualmente a sua esposa e num estado em que consegue aguentar passar a noite acordado. Não foi possível entrar em contacto com o traficante porque ele não se encontrava em casa.
“Kota é aqui onde vendem o produto que queres, mas como o senhor não está eu não tenho nada a ver, por isso dá o meu dinheiro. Se quiseres podes esperar por ele, porque ele não foi muito distante”, declarou o nosso guia, exigindo que lhe fosse entregue o dinheiro.
O pequeno monte de pedra de craque aqui custa mil kwanzas.O jovem, que já esteve algumas vezes preso por crimes de assalto à mão armada na via pública, contou que começou a consumir libanga há um ano por influência de um amigo que se encontra detido na Cadeia Central de Luanda.
Antes disso, fumava apenas liamba, mas depois de experimentar por duas vezes o craque passou a sentir que a erva por si só já não lhe provocava grandes transformações.
Na esperança de conseguir entrar em contacto com um dos traficantes, a nossa equipa de reportagem seguiu as indicações transmitidas pelo nosso guia, partindo em demanda de um outro “passador” no município do Sambizanga.
Zé dos Alamedas Squade fornecera-nos um contacto telefónico que nos possibilitaria entrar em contacto com um comerciante, assim que chegássemos à Avenida Hoji Ya Henda. Do outro lado da linha, ouvia-se uma voz rouca e grossa dizendo-nos para permanecer ao lado da agência do Banco Sol que se situa defronte aos escritórios da fábrica Coca Cola.
O “passador” surgiu, depois de alguns minutos, trajando uma camisola vermelha, calção jeans azul e uma chinela, de uma ruela que começa no final daquela dependência bancária.
Antes de expôr o produto e revelar o preço, o traficante começou por nos explicar que existe actualmente escassez deste produto proveniente do Rio de Janeiro e que está a aconselhar as pessoas que procuram libanga barata a deslocarem-se às fabricas que existem no bairro Operário.
“Só tenho o produto vindo do Brasil que estou a vender a dois mil Kwanzas, se quiseres o nacional, que custa menos de 500 kwanzas tens que ir ao canal do bairro Operário”, declarou.
A transferência do mercado do Roque Santeiro para o Panguila também afectou este tipo de negócio. Segundo o nosso interlocutor, as coisas complicaram-se porque algumas “moambeiras” estão a desistir deste negócio a roupa que trazem do Brasil já não tem muita procura e outras foram para outros locais.
Questionado sobre a procura, o passador, que não aceitou revelar o nome, contou que ela baixou porque ainda não conseguiu criar uma nova rede de fornecedores.
Na noite do dia seguinte, isto é, quarta-feira, a equipa de reportagem de O PAÍS foi até à cintura verde de Luanda, no Alvalade, por ser considerada como um dos locais predilectos de traficantes e consumidores.
Os utentes, consumiam o estupefaciente sem medo dos agentes da Ordem Pública que se encontravam na Esquadra Móvel que se situa na avenida Comandante Gika, nas proximidades da Rádio Nacional de Angola.
Do local onde nos encontrávamos foi possível constatar que os estupefacientes estavam a ser comercializados por um indivíduo que se fazia transportar numa motorizada com uma caixa atrás, na qual seencontrava estampada um símbolo de uma empresa de take away. No momento em que nos dirigíamos para tentar comprar o passador arrancou a alta velocidade como se tivesse medo de ser invadido pelos próprios clientes.
A clareza dos luxuosos candeeiros que se encontram nas portas das residências servia apenas para facilitar a visão dos seguranças.
A libanga produzida no nosso país está a ser comercializado a um preço mais baixo por ser mais fraca em relação à que vem de paises como o Brasil e a África do Sul.